Conheço-te há anos e gosto de ti desde sempre. Por isso, acredites ou não, acho imensamente divertido que me tivesses detestado, apelidado de ressabiada, de comunista, de tudo aquilo que a minha máscara, que funciona na perfeição, pretende que quem não me conhece pense de mim. Já tivémos esta conversa, é-me útil e confortável que as primeiras impressões façam de mim uma pessoa temível. E contigo resultou. Imagino-te a pensar, esta gaiata é parva, apre! E rio-me.
Os anos passaram com encontros casuais, conversas de circunstância, a minha simpatia sincera e a tua diplomacia de político experiente. Um charme, sempre. Um sentido de humor subtil numa cara séria emoldurada por um sorriso permanente.
Foi preciso um reveillon em família para que os teus olhos me sorrissem, a par com os teus lábios. Conheci-te há anos, tu só me conheceste naquela noite, no meio de uma casa cheia de gente simpática e bem disposta, feliz por estar junta, entre amigos de sempre.
Pois, houve um abraço, forte, sincero. Um voto genuíno de que o próximo ano fosse, pelo menos, melhor que o que passara. E está a ser, não está? Para mim, está, nem que seja porque tu, agora, fazes parte daquele grupo restrito que mora no meu coração. Duas ou três conversas sérias bastaram.
Já te disse, agora publico: és uma alma rara. Apavoras-me com os teus silêncios, não sei ainda interpretar muito do que os teus olhos bonitos dizem, mas tu calas. Gosto da tua calma, da tua voz baixa, da forma como falas e me dizes coisas em que nunca tinha pensado e fazem todo o sentido. Pertences ao Mundo dos Adultos, e ouço-te, prezo as tuas opiniões, respeito esse espaço que é só teu. Intrigas-me, surpreendes-me, jamais me decepcionas. Acho que é por teres uma sensibilidade muito própria, alma de professor que explica as coisas com uma paciência infinita, num tom de quem fala permanentemente com uma criança de 5 anos, agora, vais ali ao congelador buscar os copos, mas pegas-lhes pelo pé, está bem? E eu, que detesto que me infantilizem, adoro seguir as tuas instruções. E, se naquelas primeiras conversas, te atirava argumentos que te deixavam em fúria, sabes quem é o pai da social-democracia, sabes? MARX!, agora poucos argumentos tenho para te oferecer, porque me parece que estás a anos-luz de lucidez e maturidade, em relação a mim.
Tens uma força interior que eu admiro e invejo. Sabes do que estou a falar, encaras as agruras da vida com a naturalidade de uma rocha batida pelas vagas de Inverno. Mas queria dizer-te, hoje, sobretudo hoje, que me deste de presente a melhor sms de todos os tempos, queria dizer-te que, se quiseres abrir um parêntesis nessa tua solidão intrínseca de quem aguenta "tantos stresses sozinho", eu estou aqui. Não sou grande ajuda, nem grande conselheira. Mas sou uma excelente ouvinte, e tua amiga incondicional. Sabes o que quer dizer incondicional, não sabes? No teu caso, quer dizer que pouco me importam as vezes que não me respondes a sms, que não retribuis fives provocatórios, que finges que emigraste para outra galáxia, no worries: a um simples olá, bom dia, como vai a menina?, o meu sorriso é o mesmo, a minha disponibilidade, igual, a minha presença, constante. Não tens que passar por tudo sozinho. Já não terias, com certeza, antes de 31 de Dezembro. Agora, ainda tens menos.
Olho para ti, e para além de seres da "minha" família, simbolizas tudo de bom que há numa noite de Ano Novo.
Onde estão os meus beijos?
Sempre o mesmo beijo, para ti... só muda o cenário.
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