sábado, 26 de abril de 2008

Bloco Operatório

O Bloco Operatório é um Não-Lugar. Para quem não esteja familiarizado com a teoria filosófica de Marc Augé, um Não-Lugar é um sítio sem identidade, um espaço vazio de identificação emocional.
Não há sítio onde me sinta mais sozinha e frágil, não há sítio em que o medo, na sua forma mais escura e abissal, tome mais conta de mim. Para começar, há a questão da nudez. A nudez física, em si mesma, é brutalmente avassaladora, o estar nua, perante gente que não conheço, é mais que embaraçoso, é aterrador, não há hipótese de defesa, quando te encontras nu no meio de gente vestida. E de facas e tesouras na mão. É como vivenciares um dos teus pesadelos recorrentes e saberes que não vais acordar em sobressalto, coberta de suor.
E depois, há a questão da anestesia local. De estares acordada, a sentir que te estão a cortar, a mutilar de alguma forma. A médica que me operou é cirurgiã plástica e já me tinha operado uma vez. Mas eu estava a dormir. Descobri que opera em silêncio, e isso foi muito, muito traumatizante. Fiz-lhe duas ou três perguntas a que me respondeu laconicamente e desisti de fazer mais. Foi um tempo muito opressivo, e parecia não ter fim.
A minha mãe foi comigo. A minha mãe está sempre comigo e não sei que seria de mim sem ela. Mas não pude deixar de pensar, naquele bloco onde o tempo parecia não passar, que gostaria de ter outra pessoa, ao lado da minha mãe, à minha espera. Outras pessoas. Um pai, ou irmãos que lhe estivessem a segurar na mão, enquanto esperava por mim sozinha; um marido ou um namorado que me desse um beijo quando tudo estivesse terminado, mais alguém. Mais presenças, mais família directa, mais alicerces.
E tive muita pena de mim mesma, e muita pena da minha mãe, que é a pessoa mais espectacular do Mundo e não merecia ter uma filha que lhe desse, involuntariamente, mas mesmo assim, tanto sobressalto; uma filha inteligente com uma doença estúpida. Não merecia. E eu também acho que não merecia, passar tanta dor física, quando as emocionais já me enchem as medidas e sobram.
Dizem que a pena é um sentimento depreciativo, que não se deve ter pena de ninguém. Eu não acho. Acho que é um sentimento inútil e passivo, mas solidário, genuíno e positivo, apesar de tudo. Naquele bloco operatório, anestesiaram-me o corpo, mas não me deram analgésicos para a alma, e enquanto cortavam e cosiam, o meu espírito gritava de revolta, e as lágrimas corriam cara abaixo, a saber a sal, a frustração e a injustiça.
Correu tudo bem? Multiplicaram-se as sms dos meus amigos, preocupadíssimos. Sim, felizmente, respondia eu com a voz do costume, do não se passa nada, do estou pronta para outra.
Mas não estou. Estou muito farta disto, para ser sincera. Dói-me muito o corpo, para a semana vou trabalhar e quero ver, quero ver só, onde vou arranjar forças para tudo o que tenho que fazer.
Há muitos leitores deste blogue que me ligaram, e a quem agradeço. Apesar de estar muito em baixo, vocês dão-me forças e é bom ter amigos. Também houve gente que podia e devia ter ligado e não o fez, e a esses, só posso dizer que lamento. Houve ainda gente que me trata abaixo de cão sempre que pode, me faz a vida num inferno com plena consciência disso, e teve o descaramento de ligar. A esses, só posso dizer que lamento ainda mais. Agora, aos que me estimam, e me demonstram isso todos os dias, e me querem bem e estão realmente preocupados, e me acompanham, e estão sempre dentro do meu coração, fazem parte da minha vida e eu faço questão que assim seja, a esses, muito, muito, muito obrigada. Não tarda, estou aí... não tarda, com a vossa ajuda, estarei pronta para outra, prometo. Porque se existe força curativa poderosa, essa força é o Amor, em todas as suas formas.

4 comentários:

Anónimo disse...

Há pouco tempo fiquei a saber o quer era um bloco operatório,entendo tudo o que sentiste! Expomos o que há de mais privado, como uma frieza e crueldade tremendas...Decidi antes de entrar que nunca abriria os meus olhos para nada registar! O meu cérebro cooperou.
Quanto a estarem batalhões à espera... eu não tinha mais ninguém para além de mim, redimida à minha frágil condição, e dos meus anjos da guarda. E acredita que eles existem, porque já foram pessoas de carne e osso e tiveram que partir muito cedo, contra a minha vontade. Tive o carinho, compreensão e apoio dos estranhos que comigo estiveram. O meu pensamento esteve sempre contigo... As melhoras!

Anónimo disse...

Olá minha querida! tenho ligado para saber como estás, mas entendo que a vontade de falar sempre sobre a mesma coisa, não seja muita. por isso não tenho insistido mais.
já vi que o estado de espírito não está muito famoso... mas sabes que tens que erguer a cabeça e tentar recuperar o mais depressa possível, para te ajudares a ti própria e às pessoas que te rodeiam, que gostam de ti e que estão preocupadas! por isso, podes contar comigo para todo o apoio que possa dar-te.
As melhoras e até amanhã. Prometo que vou tentar não chatear muito com as perguntas habituais...:) Beijo

Jade disse...

Obrigada, amigas.
Li... és um doce, até fico parva por seres sagitário, deves ter ascendência de Hello Kitty... não te atendi nem te respondi porque, como sabes, o meu tmn morreu, e havia gente com quem eu não queria MESMO falar. Os números que não conhecia, não obtiveram resposta, e eu estava descansada, porque sabia que a Mzinha vos tinha dado as novidades. Abraço forte às duas

Unknown disse...

...(suspiro)um beijo.