Ainda não tinhas nascido, já eu te chamava Leonoreta, sem que os teus pais percebessem porquê. Talvez porque te estava destinado o distinto nome de rainha, talvez porque adoro este poema do Gedeão, talvez porque soubesse que ias conquistar-me para sempre, com esse teu feitio difícil, esse olhar perscrutador e curioso, esse sorriso alegre, essa vontade de abraçar o mundo, percebê-lo, absorvê-lo, na tua inata tendência para a asneira. És tão mimada, Leonoreta, e a primeira criança no Mundo que acompanho desde sempre, e que gosto de estragar às escondidas dos teus educadores. Digam o que disserem, venha quem vier, és a minha sobrinha, a minha afilhada, a minha menina.
Feliz Aniversário, minha querida. Hoje é o teu dia... come doces com fartura.
POEMA DA AUTO-ESTRADA
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.
Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
António Gedeão (Rómulo de Carvalho, 1906-1997)
in Máquina de Fogo (1961)
2 comentários:
Obrigada por seres a minha agenda!
Parece é que já não foi muito a tempo, para variar...
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