sexta-feira, 18 de abril de 2008

Short Story A Pan

Está sentada desconfortavelmente no sofá. Desconfortável na pele que tem, na vida que leva, jogada sobre o sofá do quarto alugado, a olhar para o vazio. Para além da janela de vidros embaciados, vê a neve cair em flocos. Negros como azeviche, preto petróleo, a acumular no beiral. Pegajosa, quente. É incompreensível, mas há estrelas esverdeadas a pespontar o céu chumbo.Ela olha o vazio, de coração acelaerado, um coração que não é seu nem de ninguém. Ao longe, algures, uiva um cão. vagabundo como ela, marginais, os dois. Deita-se de costas para a janela, posição de feto, útero materno. Sente o cheiro do próprio corpo, quente, suado de febre. Sente o sangue pulsar-lhe nas veias da cabeça, cheia, inundada de raciocínios ilógicos, de momentos desconexos, duma quase loucura que dói. Vê tudo violeta, de olhos cerrados com força. Pensa no pai, imagina-o, inventa-lhe os pormenores, faz ficção, cria a personagem, aqui o sorriso igual ao dela, ali o cabelo negro, não, grisalho, os olhos míopes, as mãos frias de pianista. O pai. Biológico, como a agricultura, ela mesmo ali um vegetal. Um pimento. Sim, um pimento, ou se ama, ou se odeia, sempre indigesto. Algum brilho exterior, interior oco. E aí vem o turbilhão, whirlpool de ideias, medos, inseguranças, ansiedades, arrependimentos, vergonha. Treme de frio, cheia de calor. O sofá é pequeno, ela também. Respira demasiado rápido. O cão cala-se. Concentra-se nos pequenos ruídos. Inexistentes. Cai o silêncio absoluto, sufoca. Imagina o pimento a mirrar. Pânico. Não lhe ocorre nada lógico, nada com sentido. Quer mexer-se, quererá? Fica imóve. De novo, a vergonha. As comparações, as desculpas, as perdas. O que é a realidde senão um amontoado de objectos a que atribuimos nomes inventados por pessoas que não conhecemos? Uma amálgama de caras que conhecemos toda a vida sem saber exactamente que tipo de vegetais são? A realidade, a verdade, não será a ficção que cada um de nós faz do tempo a que chama vida? Não sabe. Pensa se tudo seria diferente se a mãe lhe tivesse dado outro nome e se o sofá teria o mesmo aspecto se lhe tivessem chamado porta. Porque será bonito ter olhos verdes e feio ter cicatrizes? Porque será culto ler Proust e possidónio ver novelas? Quem dita as leis e cria as convenções? Olha para si própria como se estivesse deitada no tecto. Corpo demasiado magro, pouco atraente, dizem. Peito pequeno, tímido, quase de rapaz. Olhos grandes, quase pretos, a lutar contra a doçura e a meiguice que lhe valeram os valentes pontapés que já levou das pessoas sem rosto que lhe marcaram a vida. Envergonhada, abraçada a si própria, príncipe encantado de si mesma, repete, de mansinho, num sussurro, ao próprio ouvido, vai ficar tudo bem, minha querida, vai ficar tudo bem.Quando amanhece, a neve negra começa a derreter e ela dorme, desconfortável no sofá, como na sua pele, como na sua vida, com uma única lágrima a riscar-lhe o rosto finalmente em paz. 16/03/07

1 comentário:

Unknown disse...

Bem, a neve negra arrepiou-me.O resto também!Continuo a adorar tudo o que escreves.