A vida, às vezes, afasta-nos do nosso caminho, obriga-nos a calcorrear estradas que não são as nossas, força-nos a fazer viagens para destinos pouco amigáveis. A vida, frequentemente, não nos dá tempo para apreciar as coisas boas que nos rodeiam, orientando as nossas escolhas para as nossas necessidades, em prejuízo dos nossos desejos e sonhos. A vida, muitas vezes, faz-nos esquecer quem somos, do que realmente queremos, daquilo que gostamos, afogados que estamos no vou chegar tarde, no ainda não mudei o óleo ao carro, no devia estar a trabalhar, no tenho que pagar a renda, no amanhã já é segunda-feira.
Hoje tirei umas férias da vida e concentrei-me nas minhas pequenas trivialidades, nos deveres que tenho comigo própria, naquelas obrigações da alma em que falho constantemente por não querer falhar nas outras, as da vida.
Peguei em mim e saí, desafiando a chuva e o vento com uma simples canadiana de flanela grossa e capuz castanha. Little Chocolate Riding Hood. Apetecia-me imenso viver.
Depois de muitos meses, muitos, de jejum, fui ao cinema. Dan in Real Life. Uma história simples, nada de novo a acrescentar, quando se trata de crítica cinematográfica, mas uma Juliette Binoche que será sempre uma musa nas suas interpretações magistrais. Um fenómeno de ternura, esta mulher. Um filme que dá atenção aos pequenos detalhes do dia-a-dia, um cinto de segurança que bloqueia, um cai-cai a ser puxado para cima pelas mãos da mulher que o veste, diversas cenas embaraçosas, outras tantas hilariantes, e uma história de amor banal de final feliz, que a Binoche merece. Temos, ainda uma citação com o seu quê, "Make plans to be surprised", e a reconciliação da Jade com os seus pequenos prazeres individuais.
Antes, tinha-me permitido a compra do último livro do Murakami, A Rapariga que Inventou um Sonho, sim, Pan, não precisas de o comprar, do qual li umas páginas enquanto tomava café e esperava pelo início da sessão. Depois disso, peguei em dois ou três daqueles postais for free e fui ao minifrutalmeidas comer uma fatia de bolo de morangos e um copo de sumo também de morangos. E que satisfação, um livro novo, um filme no cinema e morangos... perfeito. Num dos postais, uma publicidade ao aniversário de uma revista feminina, que consiste na enumeração de frases iniciadas por Gosto de... e Adoro...
Fiz a minha própria lista mentalmente. Parece não ter fim. E o que é mais estranho é que passo pouco tempo dedicada a fazer, ver e sentir coisas de que realmente gosto. Parece que, algures no caminho, me perdi de mim, preocupada que andei a manter-me ao nível das expectativas dos demais. E o que é triste é que a maioria desses demais nem são, sequer, pessoas de que goste ou que respeite. E o contrário também é verdade. Porque dispendemos tanto tempo a tentar provar que somos bons, competentes e responsáveis a quem se está, positivamente, nas tintas para nós e rejubila, isso sim, com os nossos fracassos?
Jade's trivia: Gosto de... acção: ler, escrever, caminhar, viajar, ensinar, rir, conversar, jogar póker de dados e tetris no telemóvel, fumar, beber café e copos com os amigos, comer coisas que fazem mal, abraçar e beijar, fazer festas a animais de estimação, ir ao cinema e ao teatro, à praia e à piscina; sentimentos: flirtar por sms, que me falem baixo, que me falem tão baixo que tenham que me sussurrar ao ouvido, que me falem ainda mais baixo por um olhar e sem palavras, que me toquem subtilmente, que me ofereçam um único girassol, ou uma única túlipa, ou uma solitária geribera, que me sorriam, que se riam das minhas piadas, que me escutem com atenção, que me olhem nos olhos, que me liguem de surpresa, que me convidem para um fim-de-semana ou para um jantar, que me escrevam cartas e poemas, que me provoquem tremores nas pernas ou cultivem butterflies on my stomach; objectos: livros, CDs, DVDs, perfumes, relógios, malas, écharpes, pulseiras, colares, calças de ganga e mini-saias, cremes hidratantes e bâtons, isqueiros, lápis, post-its coloridos; imagens: mar, campos de flores, arco-íris e estrelas cadentes, neve, palmeiras, Nova Iorque e Londres, o Tibete e o Japão; pessoas: amigos, família e outros. Tu. Um tu que me aquece, protege, e me faz sorrir, que é tão raro. "A "stôra" passa a vida a rir-se", "Tu ris-te muito mas sorris pouco".
O meu mundo de trivialidades é o meu mundo do que é realmente importante. Hoje tirei férias da vida e dei a volta ao Mundo. A esse mundo. E ainda não regressei... porque escrever faz parte dele, bem como o que vou fazer a seguir.
2 comentários:
Beijinhos de morango com hortelã babe!
Gosto muito desta tua fase rosa cor-de-rosa.
Pois é, eu também. Eu sempre disse que um dia havia de começar a ser recompensada por tudo aquilo que já passei. Uns são autores da própria desgraça; a mim, as que me aconteceram foram fruto de um destino superior... destino esse que, mais cedo ou mais tarde, teria que me dar o troco. Ele aí está.
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