quarta-feira, 9 de julho de 2008

De volta a Auster

Hoje, depois de muito tempo de jejum, voltei a abrir a pasta que diz "Dissertação de Mestrado". Primeiro, de forma tímida, a abordar um velho amigo que deixámos afastar-se, por circunstâncias da vida, por preguiça e inércia, embebidos no espírito do "telefono-lhe amanhã", num amanhã que não chega, e o tempo passa, e a distância vence. Depois um dia, certos de que o amigo está furioso connosco, lá arriscamos o tal telefonema, sem saber bem o que dizer, quando não há desculpas plausíveis a não ser, sou assim, mas gosto de ti.
Dei-lhe uns toques, reli algumas partes, pesquisei algumas lacunas, inteirei-me da saúde do meu amigo abandonado. É praticamente impossível recuperar o tempo perdido, tenho essa consciência. Mesmo assim, mesmo que não chegue a completar e a atingir o principal objectivo, tudo o que fizer é lucro: leio, aprendo, escrevo, destupidifico. Analiso textos em Inglês teórico e complexo, raciocino em Português formal, aprendo qualquer coisa de novo, diferente do vocabulário pedagógico que me aborrece sobremaneira.
Enquanto, ao serão, dissecava um ensaio de Fredric Jameson, pensava, será que vale a pena, agora, tão tarde, voltar a dispender energias com isto? Não sei. Depende do que se entender por "valer a pena". Mas gostava que valesse. Que, uma vez na vida, conseguisse chegar ao fim de um objectivo sonhado em conjunto mas atingido só. Já que tanto se perdeu pelo caminho, ao menos o prazer de chegar sozinha a algum lado. Ou aprender qualquer coisa com a luta, se a batalha estiver, como acho que está, perdida à partida.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Um lugar assim dentro

Esta é a última frase do Ondjaki. Genial. Pus-me a pensar no meu Antigamente. Eis o que, de repente e sem ordem pré-estabelecida, transporto no meu lugar assim dentro.
Um carrinho lilás dentro de uma cesta de brinquedos. Os livros da Anita. Um Snoopy de peluche, do meu tamanho. O pôr-do-sol na praia de Sesimbra. Um monte de testes da segunda classe a voar com o vento. Os cromos da colecção Dias Felizes. As aulas de Inglês da primária, em que cantávamos as músicas da Mary Poppins. Música Clássica sentada no chão da sala. Poesia em voz alta pelo timbre meigo da minha avó. Ovos mexidos aos Sábados de manhã. Um prato de Nestum com Mel na cama. Crescer. Um primeiro grande amor, um primeiro melhor amigo. Conversas infindáveis ao telefone. Tópicos para os testes de História que corriam a turma toda. Uma salva de palmas por uma aposta ganha ao professor de Português que em vez do dezoito, que nunca dera, teve que dar um dezanove àquela aluna rara. Uma viagem a Paris. O rapaz mais especial de todos. A Eurodisney vista pela primeira vez. O desgosto de uma vida inteira. A Faculdade que me viu crescer. O professor favorito. O grupo de amigas com que partilhei as primeiras farras à séria. Uma data de máquinas a apitar ao mesmo tempo, a gritar a morte do meu avô. Um amigo que me foi buscar à campa dele, quando já ninguém restava e eu me perguntava, será que ele fica bem aqui sozinho? Terá frio? O veredito da doença, crónica, disseram-me na altura. A primeira vez em que entrei numa sala de aulas do lado de lá, que agora é, há tanto tempo, o de cá. As caras dos meus alunos nos primeiros tempos, em que sou a bruxa. As caras deles, à despedida, com flores, cartões e abaixo-assinados para eu ficar na escola. A Cidade-de-Deus, quando regresso para ficar. Os casamentos das minhas amigas. O divórcio de uma delas. Os primeiros filhos delas, meus sobrinhos. O amor da minha vida adulta. A imagem de um homem, de costas para mim, a trabalhar no computador. O cheiro de um café, aos Sábados de manhã. Vodkas laranja, línguas-de-gato e póker de dados, madrugada fora, queres levar uma malha? Londres. Paul Auster a sussurrar-me ao ouvido. Amigos inesperados a pintar quadros e a fazer-me chorar. Um amigo pequenino aos gritos Vou Dizer de Ti a Toda a Gente!! Esplanadas ao entardecer com a seita do costume. Uma mensagem mandada para o meio de uma ópera a dizer "Ai o emplastro não foi? Faz aí uma falta como um cão à missa..." A Comporta e os chocos fritos a tapar um medo de morrer inédito. Uma sala de operações, uma anestesia geral e pela primeira vez a sensação de não estar só, e haver muita gente do lado de lá, à espera. Um dia de sol numa esplanada a almoçar, com a certeza absoluta de estar perante uma alma-gémea. Um poema. Uma árvore de frente para uma barragem. Um sofá duma sala. Um carro, a chuva a cair no pára-brisas, e um dia de Santo António de um ano já perdido no tempo. O primeiro beijo. Aquele sorriso. O meu coração no teu bolso do peito, sempre. E o cheiro da minha mãe, a sua voz meiguinha e as suas gargalhadas fortes a acompanhar tudo o resto, tipo leitmotiv.
Tudo, tudo, num lugar assim dentro. Num lugar assim dentro onde cabem ainda todos os mais anos que hão-de vir, cheios de arco-íris, gotas de chuva, céus estrelados e nuvens de algodão doce. Cheios de paixão e dor, risos e lamúrias, piadas e resmungos, que a vida é rica quando não nos acobardamos nem nos acomodamos.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Apre!

Estou que nem posso, a sério.
Ainda não percebi se a escola está ao rubro ou se a morrinha que se instalou é verdadeira. Ando de volta dos relatórios dos meus projectos e todos os dias há um tchan, algo a ser enviado para ontem, e aqui anda D. Jade, do cimo das suas tamanquinhas de trás para a frente, a chatear todo o Mundo na secretaria, a fazer telefonemas, a mandar mails... apre!
E depois há a questão das equipas de trabalho. Se quero falar com a Mzinha é um sobe e desce de escadas; para cuscar com a Miss Covilhã e a Pêlo-Russo tenho que atravessar meia-escola; para pedir ajuda médica para o meu computador ao pastorinho, lá ando mais quilómetros nos corredores; combinar um almoço, então, é com os que ainda vou vendo na sala de professores... estou que nem posso! Das duas, uma: ou entro de férias de vez, e ala para a Croácia, ou venham as aulas, cheias de turmas e gaiatos rebeldes, mas com horários em que vejo toda a gente e está todo o Mundo à mão de semear, que isto de ter que dar aos pedais de cada vez que tenho um comentário escarninho a fazer, está a dar cabo de mim. Para o ano quero participar numa equipa de trabalho de dez pessoas, que seja eu a escolher a dedo, obviamente... Pelo menos, para depois do trabalho irmos todos para os copos... Apre!

domingo, 6 de julho de 2008

Ainda Ondjaki

Estou a terminar o livro AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Poderia tê-lo lido de um só trago, numa noite. Obriguei-me a não o fazer, pelo simples prazer de adiar a última página, de ficar mais tempo presa num sonho de palavras infantis coloridas de todas as nuances que existem no mundo. A linguagem é hipnótica, as personagens doces, puras, amigos aos quais não apetece dizer adeus.
Espreitei a última página, e voltei a sorrir com a mesma intensidade com que brindei as primeiras frases. O livro acaba assim:
-Estórias de antigamente é assim que já foram há muito tempo?
-Sim, filho.
-Então antigamente é um tempo, Avó?
-Antigamente é um lugar.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.
Ora aqui está uma bela resposta aos fanáticos do Carpe Diem. Trazemos connosco o nosso passado. Podemos viver o momento, mas a nossa infância, a nossa bagagem, as nossas bases, os nossos triunfos e as nossas perdas, a nossa história, as nossas estórias, tudo isso transportamos num lugar assim dentro. E é bom que assim seja. Sejam as nossas memórias felizes ou mais tristes, são elas que nos constroem, são elas que impedem que nos dissolvamos num momento presente, que por muito precioso que seja, não traz consigo qualquer identidade. O que já vivemos, e as expectativas, os objectivos, os sonhos do que ainda queremos viver, o passado e o futuro, esses sim, dão algum sentido, se este existe, ao agora.

The Colour Purple

Ontem dei-me ao trabalho, que já sabia ser inútil, de fazer uma lista de coisas inadiáveis a cumprir este fim-de-semana. Coisas tão díspares como uma lista de compras para o supermercado e tarefas que iam desde o lavar do carro ao arrumar de papéis, passando por organizar a tese e pôr em ordem as roupas.
Pois sim. O Sábado já lá vai, e correu melhor que a encomenda. A lista lá continua e não lhe risquei nem um itemzinho, para salvar a honra do convento. Foi um excelente Sábado, contudo. Muito melhor do que se me fosse agora deitar com a consciência limpa do dever cumprido.
Estive horas à conversa, não há nada que me dê mais gozo que conversar, a esplanada esteve praticamente por nossa conta, o jantar estava óptimo, fartei-me de comer, mais conversa, e no fim ainda vi quase metade do filme "The Colour Purple", que é, sem dúvida, um dos filmes da minha vida. Deus, como toda a gente, gosta de ser amado e admirado, e aborrece-se quando passamos por um campo de flores púrpura sem reparar nelas. Eu reparo sempre. E acho que Deus é um grande artista. E uma das flores púrpura mais bonitas no meu campo é a que diz respeito aos amigos, aos fins-de-tarde em esplanadas, às conversas noite dentro, aos sorrisos em alturas agrestes, tipo amor em tempos de cólera.
Quando mais nada existe, para além da loucura do dia-a-dia, procuremos a cor púrpura e esqueçamos as listas do "a fazer..."

sexta-feira, 4 de julho de 2008

The Story

Disse à Li, há pouco menos de uma semana, que a Brandi Carlile cantava com a voz que eu achava que a minha alma tinha. Dizia eu, com muita pretensão, que se a minha alma cantasse, cantaria "The Story". Com voz meiga, no início, límpida e triste, doce e melancólica, para depois, de repente, subir numa intensidade sem limites, cantar a gritar na tal cor negro-noite riscada de estrelas cadentes a imitar lágrimas, a voz a falhar no meio do grito, uma voz embargada à qual não falta força, mas que o choro trai.
A música ouvi-a num anúncio de televisão, e foi a minha mãe que me chamou a atenção, adoro esta música, disse ela, sabes de quem é? não sabia, mas ouvi-a na rádio, no regresso à Cidade de Deus, e comentei com a Li. Claro que não foi preciso mais que um simples comentário como este para entrar L£M em acção e, passados uns dias, tinha a música por Bluetooth no meu telemóvel. Curiosamente, nunca dei muita importância à letra, a força da voz é tal que as palavras pareciam em linguagem desconhecida, tocavam-me a essência, compreendia-as com uma sensibilidade não-verbal.
Hoje tive a curiosidade de googlar a letra. Arrepiei-me toda. Não é apenas a minha alma a cantar, vejo isso agora. É a minha alma a falar, de sua justiça. Sou eu, despida, perante vós. Espero que a maioria não pesque nada de Inglês. Aqui fica a minha história, para os que a entenderem.
O itálico é meu, são as partes que mais me emocionam,

All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true...I was made for you
I climbed across the mountain tops
Swam all across the ocean blue
I crossed all the lines and I broke all the rules
But baby I broke them all for you
Because even when I was flat broke
You made me feel like a million bucks
You do
I was made for you
You see the smile that's on my mouth
It's hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through like you do
And I was made for you...
All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true...I was made for you

Auto-Estima

Hoje, à conversa com uma amiga, falava-se de auto-estima, e de como alguns a têm para dar e vender, sem razão aparente, enquanto outros nunca saberão o que isso é, embora também não haja grande explicação para tal falha.
E ela dizia, não sou nenhuma modelo mas também não me rebaixo. E essas palavras ecoaram-me no espírito à vinda para casa. Se alguém me perguntasse directamente, eu também diria, convencidíssima de que não estaria a mentir, que não me rebaixo. Já neste blogue afirmei, contudo, que sou profundamente auto-irónica, e muitíssimo sensível quanto ao meu aspecto físico. Sempre assim foi, sempre me senti um patinho-feio, que evoluiu para um pato-feio adulto e se pergunta, muitas vezes, onde andará o raio do cisne.
O espelho é contraditório. Às vezes mostra-me uma pessoa, outras vezes realça outra. A maior parte das vezes enaltece o que de mau existe. Mas acho que isso é porque, no fundo, olho para as mulheres que me rodeiam com admiração pela beleza que vejo nelas e não consigo ver em mim. Porque nunca, nestes anos que trago comigo, ninguém me disse "és tão bonita!", e quando se fala de beleza se citam sempre outras pessoas.
Acho que não me rebaixo, mas também não me acarinho, a minha mãe até diz que eu deixo que as pessoas me digam as coisas mais inconcebíveis a respeito do meu físico porque acredito nelas, entro nos insultos numa obsessão autista que não me deixa ver mais nada. Tive o azar, ou a maldição, de ser também trocada algumas vezes por mulheres mais bonitas do que eu. Vejo, ainda, diariamente, as vantagens que a beleza traz a quem a possui.
Tudo se resume à comparação, à eterna comparação entre as pessoas. Se é o aspecto estético que é realmente importante, todos estaremos de acordo que não. Que é possível conquistar as pessoas por outros meios e de forma mais segura e verdadeira, eu sou a prova viva disto. Não posso dizer que alguma vez algum homem se tenha aproximado de mim no intuito de "ganhar" uma estampa de fazer parar o trânsito para exibir aos amigos. E isso também é bom, sim. Mas a minha auto-estima, que se alimenta de outros factores, em dias como o de hoje, depois de uma conversa tão séria quanto agradável, vem para casa destroçada.
Quando entro em casa e ela está vazia, e eu sinto falta de um determinado alguém que me acarinhe, e começo a pensar porque é que não tenho esse alguém, dava tudo para habitar um outro corpo, uma outra cara que se olhasse ao espelho agradada com a imagem, ou a mesma cara e o mesmo corpo num outro tempo, num tempo que já foi em que nada destas futilidades tinham a menor importância, porque estava feliz, era amada e não havia amanhã.

Ovelha que berra...

... bocada que perde.
Mais uma pérola da Li.
Hoje esta ovelha berrou pouco, já que saíu do restaurante cheia que nem um bode. A verdade é que metade da barrigada foi de riso. Hoje foi uma noite peculiar. Aprendi muitas coisas novas. O meu nome em açoreano, por exemplo. A alegria que é beber "tri-laranjus" e ver os amigos a roer folhas de hortelã e a apanhar grandes bebedeiras com sangria afogada em pau de canela. Diz quem sabe que esse pau de canela tem os mesmos princípios activos do pau de cabinda. Também houve o pau de loureiro, a ligar bocados de touro bravo. E houve duas misses, cada uma de sua cidade, a tropeçar nas tamanquinhas e a ter ataques de riso ao volante, estôuupiiida!, e a cumbersa sobre bispos, arcebispos, dioceses e arquidioceses, os mistérios da fé, a virgem maria e a imaculada conceição, os decotes até ao filho, o martini tinto, rosso, parva, russa é a outra, a Pêlo Russo, o martini é rosso ou bianco... cheio!, cheio, não, parva pleno, em italiano... só baboseiras, só parvoíce.
A noite já vai longa e doem-me os maxilares. Mas a alma, hoje, milagrosamente, dói menos.
Eis (mais um) o mistério da Fé!
Aqui, na "parvicidade do meu lar", numa das suas "partes comunas", penso no mistério que continua a ser não ter provado a sangria e ter apanhado uma fenomenal bebedeira com duas latas de ice-tea de manga...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Melhor é Impossível

Hoje dediquei o serão a preencher, metódica e pacientemente, a minha ficha de auto-avaliação. Refastelada no sofá, com o computador em cima das pernas, e uma amiga ao lado a dar palpites e a corrigir gralhas, sendo a maior gralha de todas eu, que não me calei um instantinho que fosse, a vociferar contra o tempo perdido em coisas inúteis, como esta. Outra amiga sentada à mesa, a fazer, sem resmungar, exactamente o mesmo.
Se não fosse ridículo, e como tal, patético, seria hilariante.
Primeiro pensei que o melhor seria comprar um carimbo com a expressão, tão eficaz quanto sucinta, "Melhor é Impossível!". Como avalia o cumprimento do serviço atribuído, a relação com os alunos e colegas, os seus conhecimentos científico-pedagógcos and soyon and soyon, réu-béu-béu, pardais ao ninho? Melhor é Impossível!!
Se não, vejamos:
1-Conhecimentos científico-pedagógicos. Andei eu a tirar uma Licenciatura... a quem? Ao Zé da Adega, adiante, a estudar Inglês dezassete anos para ensinar um nível quatro. Parece-me que tenho bons conhecimentos, logo, Melhor é Impossível!!!
2- Relação com os alunos. Eles chamam-me "A Melhor Stôrinha do Mundo". Eles oferecem-me presentes e enchem-me de mimos. Eles mandam-me sms a desejar boas melhoras e a dizer volte depressa. Eles brindam-me com a ternurenta saudação, em coro bem ensaiado, "Hello, Kitty!", e não desamparam a loja enquanto não lhes respondo, hello!... parece-me que Melhor é Impossível!!!
3- Relação com os colegas. Na escola tenho muitos amigos, e consegui terminar o ano lectivo sem ir ao focinho de um dos "outros". Melhor é Impossível!!! (E atentem na poesia, na magistralidade da expressão "ir ao focinho", no domínio da imagem e do literário que isto demonstra...)
4- Cumprimento do serviço atribuído. Nunca faltei, a não ser quando meti na cabeça que tinha mais graça enfiar tubos garganta abaixo, para desentalar os sapos que engoli o ano inteiro, procedimento cirúrgico com consequências científico-pedagógicos nítidas em prol do desempenho docente, e para tratar a dor de cotovelo crónica, tratamento esse também carregado de carga metafórico-prática, que isto de ter dor de cotovelo não se adequa a um espécime de alta categoria docente, vulgo, moi-même.
Melhor é Impossível!!!
5- Acções de Formação. Frequentei as seguintes acções de formação, obtendo menção de excelente a todas elas, num total de créditos que excede os necessários para o resto da vida: "Corte e Costura", 645374 horas; "Cantigas de Escárnio e Maldizer", outras tantas; "Uso da Técnica Pedagógica do par de berros a turmas de gaiatos desencabrestados", 7465 horas; "Técnicas Zen de orelhas-moucas a bocas foleiras" 264756 horas; "Paciência de Job para esperar em filas de bar e cantinas escolares", 647583 horas; "Curso avançado de auto-domínio, anti-depressivos e calmantes naturais", 284758 horas. Melhor é Impossível!!!
Só ainda não comprei a t'shérte a dizer "Deus no Céu, e o Meu Avaliador na Terra"... mas amanhã as lojas abrem antes de eu entregar a famigerada ficha...
Digam lá, de vossa justiça, Melhor, é ou não é Impossível?

terça-feira, 1 de julho de 2008

Amor à Primeira Frase

Hoje apaixonei-me. Apaixonei-me de forma violenta, arrebatadora, irresistível. E com testemunhas, dois amigos, ali mesmo ao meu lado, enquanto eu mudava de cor e tremia, e sorria, e se me enchiam os olhos de lágrimas, doces, suaves, de reconhecimento, de profundo respeito, da mais verdadeira admiração. Rendição total. De seu nome, Ondjaki. Angolano, mais novo que eu, licenciado em Sociologia, bonito.
Foi assim que me sussurrou ao ouvido, de leve, de mansinho, um sussurro intemporal que me transportou de repente ao útero materno onde só o silêncio e a voz da mãe existem:
"-Gritos azuis? Nunca ouvi falar.
-São palavras gritadas no fundo do mar, as crianças é que sabem. Os pássaros também.
-E os peixes?
-Os peixes ainda não sabem gritar bem. Devem ser de outra cor, as palavras dos peixes.
-Tu já gritaste no fundo do mar?
Tantas vezes. Queres experimentar?"
Sim, Ondjaki, quero, quero experimentar gritos azuis, que os meus são normalmente negro-noite, sarapintados de estrelas cadentes de tristeza, a desenhar lágrimas num céu infinito. Ensina-me a gritar em azul, ou em rosa Hello-Kitty, como as crianças e os pássaros, em comum a liberdade infinita.
Continua, continua a sussurrar-me ao ouvido, que dizes?
"Nós, as crianças, ficámos a olhar o céu se encher de umas maravilhas acesas como se todos os arco-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda."
Brindemos. Brindemos, que hoje me apaixonei à primeira frase. Irremediavelmente.
Faça-se silêncio. Nasceu um poeta que escreve em prosa.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Monstro Verde do Ciúme

Esteve uma noite fenomenal na Cidade de Deus. Digna de um país tropical, e não houve cão nem gato a ficar em casa. Até parecia uma cidade normal, não fosse a grande quantidade de caras conhecidas a passar em frente aos nossos olhos.
Abancados na esplanada do costume, a ver passar as famílias e os grupinhos de alunos em férias, a rir e a falar alto, como sempre quando se reúnem professores, a discutir o sexo dos anjos e a dizer todo o tipo de baboseiras, a conversa virou de repente para as relações pessoais e esse monstro verde que é o ciúme. Uns diziam que não são ciumentos, e que o ciúme tem fronteiras muito ténues com a desconfiança, que é ofensiva, ou com o sentimento de posse, que é inaceitável. Anuí. Outros diziam serem ciumentos sem serem desconfiados ou possessivos, ciumentos fruto do medo e do amor. Voltei a concordar. Por fim, parecia-me que a pausa na conversa introduzia uma espécie de encorajamento à minha própria opinião. E contei a minha experiência pessoal ao longo da vida, o tipo de convivência que tenho com esse monstro verde.
Comecei por dizer que era ciumenta sem ser doentia. Uma ciumenta envergonhada de um sentimento que achava ser baixo e obsessivo, um sentimento que cresce exponencialmente desde o instante em que surge uma picadinha inocente no nosso íntimo, e nos pomos a conjecturar, e se?... não. Não? Não. Mas... se calhar, talvez... e por aí em diante. Confessei ser a pior das ciumentas. Sou ciumenta porque sou insegura, mas sou também muito racional e se há coisa que não considero justa é atirar para cima dos outros problemas que, no âmago, são nossos. Por isso sou uma ciumenta silenciosa. Calada. Entupida. Sofredora. E o monstro apodera-se de mim com uma força sufocante sem que eu seja capaz de o cuspir. Aguento com ele até poder. E tenho grande capacidade de aguentar a dor, a todos os níveis, sem que este seja uma excepção.
Ai, que horror, eu não, eu parto logo a loiça toda, eu isto, eu aquilo, eu o outro. Pois, acho bem, acho muito melhor do que fazer como eu faço, mas não me consigo controlar, por um lado, nem desabafar, por outro. Sou, de facto, a pior das ciumentas.
Mas a verdade é que as últimas relações que tenho tido devem muito à convencionalidade e há que séculos que não tenho estatuto para ter ciúmes. Ou seja, não tenho alguém com quem me sinta de tal forma una que possa, de facto, abrir o lado lunar de forma irreversível, expor os meus fantasmas e medos sem o receio, esse sim, muito maior, de ouvir, desculpa lá, mas quem é que pensas que és para me estares a cobrar seja o que for? É triste, mas é verdade. Pior que ter ciúmes, é não ter, sequer, direito a tê-los.
Por isso, hoje acabei por, numa noite fantástica, reunida com a seita na esplanada do costume, dizer em alta voz que sou a pior das ciumentas. A que não tem direito de expressão. E que, se o tivesse, provavelmente não o exerceria.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Conversa ao Telefone

Hoje o dia correu sereno, debaixo de um tórrido calor alentejano, alerta amarelo na Cidade de Deus, escola praticamente deserta em rescaldo das reuniões de avaliação. Estes são dias híbridos, que não são carne nem peixe, em que se deixa de ver as mesmas caras, se muda de horários e de equipas de trabalho e, ainda assim, se cai numa monotonia atroz.
Uma escola sem barulho de crianças e adolescentes é um sítio lúgubre. Arrepia, por parecer inverter a ordem natural das coisas. Perde a luz, perde a identidade, torna-se um não-lugar.
Ainda assim, há novidades, há conversas, há colegas a entrar e a sair, a demorar pouco, ou a ficar na morrinha das palavras deitadas ao vento.
E, acreditem, estar em casa doente enquanto os outros estão a trabalhar não é o mesmo que estar de férias. Não considerando já o facto do corpo ter mazelas que, na generalidade dos casos, dão dores ou mal-estar, não tem piada nenhuma saber que a "nossa seita" continua envolvida nas teias do costume, a rir-se de graçolas de circunstância, a tentar adivinhar conspirações, a fazer outras, a resmungar ou a ir à esplanada, sem nós.
Por isso, hoje liguei ao veterano. Eu estive em casa três dias e já estava a desesperar por ter faltado a alguns eventos. O desgraçado do nosso veterano já está em casa há duas semanas, e lá na escola perguntam muito por ele, mas ninguém o quer incomodar, "coitado do rapaz", "deixem-no em paz". Deixem-no em paz o caneco, quem é que quer ser deixado em paz e não saber as novidades, quem disse o quê, onde e porquê, e a quem, e olha lá o que aconteceu, achas que foi porquê? Hoje resolvi que ia ser chata. Ia melgar. Ia meter-me onde não sou chamada e levar ao Mundo do veterano um bocadinho da coscuvilhice da Cidade de Deus. Pô-lo a pensar em coisas mais fúteis que um menisco e uma ruptura de ligamentos. Contar as últimas. Dar um bocadinho de hipótese à má-língua. Não há nada que nos faça rir mais facilmente ou sentir mais leves que desancar em quem a gente não gosta.
Espero ter ajudado. Se estivesse no teu lugar gostaria que houvesse alguém a fazer o mesmo por mim, entendes? E a arrancar-me três ou quatro gargalhadas.
Um beijinho, da (agora e por enquanto) leal conselheira.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sangue, Suor e Lágrimas

Quando me lembro de Churchill, do que li nos livros, claro está, vem-me à cabeça a imagem de um estadista gordinho e de charuto, e um conjunto de citações, algumas hilariantes, outras arrepiantes. Adoro citações célebres, adoro a inteligência rara de alguns seres humanos ricos na produção de frases lapidares que ficam para a história, nem que seja para a história da literatura, ou apenas para a minha própria história, ou como diria o outro, para a minha lenda pessoal. Uma aluna minha tem algumas citações de Martin Luther King no hi5. Parti-me a rir quando, ao lê-las, descobri que, a par de Luther King, me citava a mim, nas saídas mais parvas que tenho nas aulas. Grandioso. As minhas citações a par das do autor de Free at Last!
Isto para dizer que, ao fazer a retrospectiva do dia de hoje, me ocorre a expressão sangue, suor e lágrimas. E foi um dia cheio de reuniões, que faria se estivesse no meio de uma Guerra Mundial.
Sangue. Uma colega minha teve um derrame numa perna que rebentou a meio da tarde. Um colega meu anda há que tempos com hemorragias nasais inexplicáveis. Sangue. O meu não me salta pelos póros, felizmente, mas ferve-me nas veias, sobe-me ao rosto com frequência, pulsa-me com força, com uma força tal que muitas vezes - e muitas vezes hoje,- fico sem respiração, com sensação de perda de equilíbrio e controle, sensação de perda de domínio fruto do cansaço e emoções acumuladas em silêncio semanas a fio.
Suor. Está um calor insuportável. A escola parece um forno. O ar começa a ser irrespirável. Suor. Os meus amigos foram fazer uma caminhada lá para as bandas de Marvão ao fim da tarde. Não pude acompanhá-los porque tinha um compromisso. Inadiável. Um compromisso que ganhou hoje nova urgência pelo ponto que se segue. Ouvi dizer que a caminhada foi dura. A minha, embora metafórica, não me tem feito suar menos.
Lágrimas. Logo de manhã, a correr em catadupa. Uma amiga cansada, nervosa, sensível, extenuada por meses de trabalho e alguma preocupação com a própria saúde. Se há alguém que a entende, sou eu. Uma cara estranha, e uma cascata de lágrimas à simples pergunta, estás bem? Exactamente a fotocópia do que aconteceu, ao contrário, há duas semanas atrás. Nesse dia fui eu que chorei sem me conseguir controlar. Hoje foi ela. Lágrimas. As minhas. Mais discretas, menos desesperadas. Fruto do cansaço de ser uma eterna parva, uma constante idiota, que nunca está à altura das situações quando se trata de dar o troco, e continua, sempre e para sempre, a não conseguir virar costas a quem se está completamente nas tintas para ela e ainda assim precisa de ajuda. Lágrimas de frustração, de revolta e auto-admoestação por não honrar os ensinamentos da família que ama e respeita e a educou para ter amor próprio. E falhou. O meu avô hoje está de sobrolho carregado. E eu peço-lhe desculpa em silêncio, sabendo que a minha estupidez não tem perdão.
Sangue, suor e lágrimas.
À tardinha, uma conversa amena, muitos desabafos, muita compreensão, lágrimas nos olhos, sensibilidade à flor da pele, mágoas engolidas vezes demais, partilha de experiências, construção de alguma cumplicidade. Duas pessoas juntas, por acaso, porque sim. Duas pessoas que, de forma surpreendente, têm muitas opiniões em comum e um feitio que, parecendo tão distinto, acaba por se tocar no essencial. Como em Casablanca, This can be the beginning of a beautiful fiendship.

Jade's Anatomy

Uma das minhas séries de eleição é Grey's Anatomy. Tenho em DVD algumas temporadas e já vi os episódios tantas vezes que quase sei alguns diálogos de cor. Para dizer a verdade, mais do que os diálogos, acho violentamente dilacerantes os monólogos de Grey, que iniciam e terminam cada episódio, como se de um ciclo se tratasse. Estão cheios de frases lapidares, daquelas que puxam ao sentimento primário, sem cair na lamechice ou no lugar-comum. Estão cheios de metáforas simples, muitas vezes de cariz médico, as feridas, o sarar, o tempo, a doença, a cura, o crónico, a dor, a panaceia.
Está a passar na RTP2 a terceira temporada, às terças à noite. Já vi a maior parte desta temporada na FOX, mas hoje apanhei um episódio que ainda não tinha visto. Depois de um dia difícil, de muito stress, muitas reuniões, pouco tempo para comer e relaxar, e trabalho de responsabilidade trazido para casa, este episódio caiu como uma pérola num dia reduzido à parte mais burocrática da profissão docente.
Disse à Mzinha que não havia outra série em que fosse tão (quase) garantido rir e chorar em tão curto espaço de tempo. Rir às gargalhadas e chorar baba e ranho, depreenda-se.
O que é estranho é que me revejo em todas, todas, as personagens femininas. Sou a confusa Grey, a ácida e independente Christine, a dilacerada Izzie (sendo que me identifico com a Izzie apenas desde que Denny morreu, antes disso era-me uma personagem muitíssimo simpática mas pouco empática). Sou a insegura Torres, a solitária Addison, e, claro, a Nazi nos seus dias em que trata toda a gente abaixo de cão. A Nazi sou, sobretudo, com os meus alunos, a desancá-los como se fossem my suck-ups, mas sempre a controlar os seus problemas e metida ao barulho nos seus dramas pessoais.
É a minha hora de ilusão. Quando comprei os DVDs fiquei muitas horas seguidas a vê-los. A rir e a chorar. A suspirar e a sorrir. É tudo muito violento, quando se trata de emoções e afectos, nesta série. Tal como na vida real. Há perdas e danos, separações e reencontros, gritos e abraços, tudo à semelhança, quase um decalque, da minha vida pessoal. Frases que, retiradas do contexto, poderiam sair da minha boca, se não tivesse este horrível problema de expressão que é não articular nada de jeito, quando se trata de falar, para depois chegar a casa e me sair tudo tão coerentemente quando pego numa caneta ou olho para o teclado de um computador.
Acreditem que é uma cruz. Acho que a vida me correria muito melhor se toda a gente comunicasse por bilhetinhos. Ainda hoje, e assim, de repente, me surgem duas situações distintas em que não estive à altura das palavras certas, mas certa de que teria estado, se as pudesse ter escrito. É sobretudo quando se trata de ser realmente desagradável e incisiva, quando se trata de impor a minha razão ou a minha vontade, quando se trata de responder à altura ou de dizer umas belas verdades a quem merece, que se me vai o pio. Isto porque, se abrir a bocarra, em vez de sair a ganhar, como a Nazi, perco a razão, como acontece sempre à Christine.
Neste momento, a minha personagem favorita é a Izzie. A Izzie de cara alegre e coração partido, que diz que a dor da perda não é a "porra de uma maré, em que há uma onda mais forte, e uma acalmia, mas uma constante, um sempre, uma inerência de que não quer falar porque se tem um medo enorme de traduzir em palavras o intraduzível e com isso acabar-se tudo, acabar ela, dissolver-se ela mesma na constância da ausência" Mais coisa menos coisa.
Life's no Grey's Anatomy. Mas as semelhanças são tão pungentes, tantas vezes, que hoje o que me ocorre para definir a minha, em duas palavras, é Jade’s Anatomy

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Prémio do Euromilhões

Desde o início do ano que ando a vociferar que esta gente pensa pequeno. Desde o início do ano que ando a dizer que não se devia pensar no jantar do euromilhões, mas na viagem do euromilhões. Pensar grande atrai a sorte grande. Mas não. A conversa do grupo do euromilhões era sempre se o acumulado já dava para pagar o jantar. E eu insistia, a viagem, pá, qual jantar, a viagem... Nunca ninguém quis saber. Resultado: hoje os pobres tesos saíram à rua para fazer a festa... e jantar o prémio do euromilhões. Noventa euros... investimos nós noventa euros para isto...
Sôdôna Jade avisou: já que se fazem bailes de gala há dois anos e ninguém a convida; já que houve, inclusivamente, um jantar de gala este ano e ninguém a convidou; já que os últimos acontecimentos da sua vida são dignos da tal celebração de ano novo, vida nova; já que tudo isto e muito mais... Dona Jade marcaria presença vestida de gala. Se bem o disse, melhor o fiz. Ah, pois fui. E sabia que seria a única e iria destoar. Paciência. Fui e diverti-me que nem uma macaquinha numa selva de palmeiras e bananeiras. Só não consegui despir o casaco porque cheguei muito atrasada e toda a gente teve oportunidade de gozar com a produção. Mas também houve quem, em vez de gozar, percebesse perfeitamente o porquê do aparato. E achasse bem. Eu sou das que achou muito bem.
É claro que não sabia que o jantar do euromilhões dava direito ao peddy-paper que não fizémos a dez de Junho. Mas isso ainda teve mais graça. Acho que a chefe lhe chamou a corrida dos cágados. Nem todos os cágados chegaram ao fim. Mas este cágado chegou, no alto das suas tamanquinhas de dez ou mais centímetros. Aos guinhchinhos sempre que enfiava um salto no meio do empedrado duma rua a que alguma alma iluminada teve a ideia peregrina de chamar direita. 'Mas se eu não vou aos célebres bailaricos da minha terra, que raio ando eu a fazer aqui, pá?' E ria-me, no meio dos outros cágados todos.
Há que dizer que a volta à Senhora da Asneira tinha como principal objectivo uma Visita de Estudo à Sex Shop que abriu na Cidade de Deus. Objectivo cumprido. Toda a gente diz que não há vez como a primeira, e foi orgulhosamente que um bando de respeitáveis professores, acompanhados das mais altas elites da escola mais in da cidade, que é a nossa, invadiu a dita loja e tomou conta da situação. Memorável. Aprendi imenso nesta visita de estudo, vi uma parafernália de objectos desconhecidos e fiquei estarrecida, com duas cágadas atrás de mim aos risinhos, queres que te faça um desenho, vê lá se queres que te faça um desenho para saberes para o que isso serve. Já não morro estúpida, vos garanto. Selecciono para a minha lista de compras, agora que temos o subsídio de férias fresquinho, a inigualável boneca inflamável (não é gralha, não, leram bem) que lança chamas perante um bom desempenho do par masculino, garantia de 5 anos, preço acessível, leve duas pague uma; e um bâton adequado a salas de professores como a nossa, e reuniões de avaliação muitíssimo sérias e longas. Tudo o que for chato e comprido como a espada do Afonso Henriques ganhará nova vida com o uso apropriado do dito bâton. Paleta de cores restrita, mas não se pode querer tudo. Fiquei muito triste por não haver disponível o varão para a pole-dance, mas o pastorinho que ia connosco parava em todos os sinais de trânsito e dizia-me, e este, não serve?, fazendo um ar muito desiludido quando eu abanava a cabeça em sinal de desaprovação completa.
À saída da sex-shop, Sôdôna Jade comentava, perante uma anedota apropriada à ocasião e que metia um extintor pelo meio, que não foi para isto que sua mãe a andou a criar a pão-de-ló. Antes disso, por volta da meia-noite, o distinto grupo ainda foi cumprir o ritual de ver a própria imagem espelhada numa fonte, para conseguir mais um ano de vida. E esta foi uma imagem digna de ser vista, meia-dúzia de alminhas cultíssimas, inteligentíssimas e chiquíssimas debruçadas sobre uma fonte, arriscando um afocinhamento seguido de afogamento, em prol de um ano de vida. Ele há grandes vidas, cacete! Imagino a equipa do CSI-Cidade-de-Deus a tentar desvendar o que teria levado tantos professores da mesma escola ao suicídio em massa de maneira tão peculiar.
Os cágados que sobraram foram beber copos, fumar cigarros e contar anedotas para um barzinho muito simpático, que esteve por nossa conta. Eu já tinha dito que não me interessava nada onde íamos, dado que os que estavam fariam a festa, desde que sentados, que esta do peddy-paper foi uma cena mesmo à traição...
E mais uma vez, não me enganei. Não dou um segundo por perdido. But my feet are killing me!!!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Data Festiva

Hoje alguém faz uma idade bonita e é a primeira vez em seis anos que não lhe dou os parabéns. Bem vistas as coisas, acho que é a primeira vez em seis anos que não sou a primeira pessoa a dar-lhe os parabéns. Tal não significa, como este texto obviamente demonstra, que não me tenha lembrado da data ou que não me tenha ocorrido mandar a mensagem da praxe, mas desisti rapidamente da ideia. Não faria o mínimo sentido, e é a isto que se chama crescer, é isto que a minha mãe me ensina desde pequena, ama os que te amam, ignora os outros. Ao olhar para o meu percurso, parece que aprendi a lição ao contrário, sempre a insistir e a correr atrás de casos perdidos.
Talvez por andar metida neste turbilhão de entradas e saídas de hospitais e clínicas, talvez por ter apanhado o maior susto da minha vida e estar em ressaca do alívio que se lhe sucedeu, talvez pelos efeitos da anestesia geral, talvez pela lavagem cerebral que me fizeram nas últimas semanas, o dia passou suave. Quase como se fosse um dia entre outros, e não uma efeméride dos últimos anos. De T-shirt, jeans e havaianas, dei as minhas voltinhas costumeiras por Lisboa, fui à clínica, almocei com a minha mãe no shopping onde fui buscar um livro que tinha encomendado, falei com os lojistas do bairro, então, alentejanita, regresso forçado a casa, férias antecipadas, grandes vidas... vegetei em frente ao AXN e ao FOX.
Falei com a Li e com o Bob ao telefone, agora que já recuperei o pio. Contaram-me as novidades, riram-se quando lhes contei que uma família de úlceras elegeu o meu esófago como o T3 do ano em condomínio de luxo. Faço bem ao estado de espírito destas pessoas. E só Deus sabe como estas pessoas fazem bem ao meu. À despedida, o Bob tinha perdido muita da tristeza na voz, e dizia, feito pavão, 'não me querem deixar ir embora porque dizem que sou o homem mais charmoso internado neste hospital'; e a Li, 'tu e ele (O BoB) não se podem queixar de falta de gente preocupada convosco, tem sido um corropio de perguntas'.
É bom saber disso. Houve colegas a pedir o meu número de telemóvel de propósito para me mandarem mensagens de rápida recuperação, boa sorte e, as minhas favoritas, volta depressa que fazes cá falta. Há muito tempo que eu não sabia o que era fazer falta a alguém. Pelo contrário. Andei os últimos meses a sentir-me completamente ignorada, aliás, mais do que isso, muito mal-tratada, gozada, até. Completamente posta de lado, à bruta, a ter conhecimento de muitas coisas ditas e feitas na minha ausência, por intermédio de terceiros. Coisas inacreditáveis, de uma incoerência digna dum quadro surrealista. Durante algum tempo, não quis acreditar no que me chegava aos ouvidos. Depois, deixei de acreditar no que queria acreditar, e rendi-me às evidências.
Por essas e por outras, não é que não me tenha lembrado que hoje é um dia especial. Simplesmente deixou de ser especial para mim. Tal como especial deixou de ser esta pessoa e outras, poucas, que assinaram o livro da decepção. Como especiais passaram a ser o dezoito e o dezanove de Junho em que muita gente, alguma surpreendente, me disse, volta depressa que fazes cá falta, ou, por aqui tudo na mesma, mas mais tristes, claro, porque tu não estás cá.
São estas, e apenas estas, as coisas na vida que merecem comemoração, brindemos à magia dos afectos.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Um ano depois

No ano passado, por esta altura, estava a viver uma fase mágica na minha vida. Estava muito feliz, sentia-me completa, plena, cheia de energia e vigor, com montes de planos que incluíam terminar uma dissertação sobre Paul Auster, viajar depois para Nova Iorque, voltar e continuar a sorrir. Estava apaixonada, uma paixão que se colava a mim mesma e à vida em geral.
Um ano depois, olho para trás e fui trocada por um exemplar mais bonito, que fica bem na fotografia e não causa embaraço no boato. Não estou apaixonada, não me sinto completa, tenho pouca energia e não faço planos. Olho a vida com um ponto de interrogação do tamanho do Universo, e as pessoas com uma desconfiança atroz. Principalmente aquelas que me sorriem de quando em vez, e acham que com isso têm lugar no meu caminho, como se eu fosse Hensel ou Gretel, à procura de migalhas no regresso a casa.
Mas no ano passado, por esta altura, tinha menos amigos. O meu Mundo era restrito. Na escola, então, contavam-se pelos dedos de uma só mão. Neste momento, se for a ver, não chegam as duas. E são todos bons, especiais, dedicados, meigos e solidários. Não julgava ser possível fazer tantos amigos em tão pouco tempo, já depois dos trinta. Mas também não contava com certas armadilhas do destino, que me colocaram numa posição vulnerável e permitiram abrir o meu Mundo, muito a medo, mas ainda assim, a várias pessoas de uma só vez.
Só queria dizer que, feitas as contas a este ano, se calhar sou mais feliz agora, embora não viva a felicidade de uma forma tão intensa. Não a vivo porém, iludida. Sou mais feliz porque sei que não me vão virar costas, fingir que não me vêem, passar por mim sem me falar ou trocar-me por um modelo mais espampanante por meio de um subterfúgio idiota. Mais feliz porque sei que nenhum, nenhum destes seres que me rodeiam me vai, jamais, deixar passar por situações difíceis sem uma palavra, uma festa, uma piada parva. Que nenhum deles me vai jamais mentir. Sou mais feliz porque tudo o que tenho é autêntico e genuíno, sem jogos ou dissimulações, fingimentos, escondidinhos e cabras-cegas.
Cada vez que olho para a pedra de jade que hoje me ofereceram, comprada na feira de minerais da escola, e dada com um misto de ternura e cumplicidade de quem partilha confidências e está sempre presente, lembro-me que, feitas as contas, e sem saber ainda o que aí vem, já estou a ganhar. Beijos a todas as presenças, as de sempre, e as que chegaram quando alguém partiu e deixou espaço para que o destino fizesse o resto.