domingo, 6 de julho de 2008

Ainda Ondjaki

Estou a terminar o livro AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Poderia tê-lo lido de um só trago, numa noite. Obriguei-me a não o fazer, pelo simples prazer de adiar a última página, de ficar mais tempo presa num sonho de palavras infantis coloridas de todas as nuances que existem no mundo. A linguagem é hipnótica, as personagens doces, puras, amigos aos quais não apetece dizer adeus.
Espreitei a última página, e voltei a sorrir com a mesma intensidade com que brindei as primeiras frases. O livro acaba assim:
-Estórias de antigamente é assim que já foram há muito tempo?
-Sim, filho.
-Então antigamente é um tempo, Avó?
-Antigamente é um lugar.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.
Ora aqui está uma bela resposta aos fanáticos do Carpe Diem. Trazemos connosco o nosso passado. Podemos viver o momento, mas a nossa infância, a nossa bagagem, as nossas bases, os nossos triunfos e as nossas perdas, a nossa história, as nossas estórias, tudo isso transportamos num lugar assim dentro. E é bom que assim seja. Sejam as nossas memórias felizes ou mais tristes, são elas que nos constroem, são elas que impedem que nos dissolvamos num momento presente, que por muito precioso que seja, não traz consigo qualquer identidade. O que já vivemos, e as expectativas, os objectivos, os sonhos do que ainda queremos viver, o passado e o futuro, esses sim, dão algum sentido, se este existe, ao agora.

Sem comentários: