Hoje, à conversa com uma amiga, falava-se de auto-estima, e de como alguns a têm para dar e vender, sem razão aparente, enquanto outros nunca saberão o que isso é, embora também não haja grande explicação para tal falha.
E ela dizia, não sou nenhuma modelo mas também não me rebaixo. E essas palavras ecoaram-me no espírito à vinda para casa. Se alguém me perguntasse directamente, eu também diria, convencidíssima de que não estaria a mentir, que não me rebaixo. Já neste blogue afirmei, contudo, que sou profundamente auto-irónica, e muitíssimo sensível quanto ao meu aspecto físico. Sempre assim foi, sempre me senti um patinho-feio, que evoluiu para um pato-feio adulto e se pergunta, muitas vezes, onde andará o raio do cisne.
O espelho é contraditório. Às vezes mostra-me uma pessoa, outras vezes realça outra. A maior parte das vezes enaltece o que de mau existe. Mas acho que isso é porque, no fundo, olho para as mulheres que me rodeiam com admiração pela beleza que vejo nelas e não consigo ver em mim. Porque nunca, nestes anos que trago comigo, ninguém me disse "és tão bonita!", e quando se fala de beleza se citam sempre outras pessoas.
Acho que não me rebaixo, mas também não me acarinho, a minha mãe até diz que eu deixo que as pessoas me digam as coisas mais inconcebíveis a respeito do meu físico porque acredito nelas, entro nos insultos numa obsessão autista que não me deixa ver mais nada. Tive o azar, ou a maldição, de ser também trocada algumas vezes por mulheres mais bonitas do que eu. Vejo, ainda, diariamente, as vantagens que a beleza traz a quem a possui.
Tudo se resume à comparação, à eterna comparação entre as pessoas. Se é o aspecto estético que é realmente importante, todos estaremos de acordo que não. Que é possível conquistar as pessoas por outros meios e de forma mais segura e verdadeira, eu sou a prova viva disto. Não posso dizer que alguma vez algum homem se tenha aproximado de mim no intuito de "ganhar" uma estampa de fazer parar o trânsito para exibir aos amigos. E isso também é bom, sim. Mas a minha auto-estima, que se alimenta de outros factores, em dias como o de hoje, depois de uma conversa tão séria quanto agradável, vem para casa destroçada.
Quando entro em casa e ela está vazia, e eu sinto falta de um determinado alguém que me acarinhe, e começo a pensar porque é que não tenho esse alguém, dava tudo para habitar um outro corpo, uma outra cara que se olhasse ao espelho agradada com a imagem, ou a mesma cara e o mesmo corpo num outro tempo, num tempo que já foi em que nada destas futilidades tinham a menor importância, porque estava feliz, era amada e não havia amanhã.
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