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terça-feira, 8 de julho de 2008

Um lugar assim dentro

Esta é a última frase do Ondjaki. Genial. Pus-me a pensar no meu Antigamente. Eis o que, de repente e sem ordem pré-estabelecida, transporto no meu lugar assim dentro.
Um carrinho lilás dentro de uma cesta de brinquedos. Os livros da Anita. Um Snoopy de peluche, do meu tamanho. O pôr-do-sol na praia de Sesimbra. Um monte de testes da segunda classe a voar com o vento. Os cromos da colecção Dias Felizes. As aulas de Inglês da primária, em que cantávamos as músicas da Mary Poppins. Música Clássica sentada no chão da sala. Poesia em voz alta pelo timbre meigo da minha avó. Ovos mexidos aos Sábados de manhã. Um prato de Nestum com Mel na cama. Crescer. Um primeiro grande amor, um primeiro melhor amigo. Conversas infindáveis ao telefone. Tópicos para os testes de História que corriam a turma toda. Uma salva de palmas por uma aposta ganha ao professor de Português que em vez do dezoito, que nunca dera, teve que dar um dezanove àquela aluna rara. Uma viagem a Paris. O rapaz mais especial de todos. A Eurodisney vista pela primeira vez. O desgosto de uma vida inteira. A Faculdade que me viu crescer. O professor favorito. O grupo de amigas com que partilhei as primeiras farras à séria. Uma data de máquinas a apitar ao mesmo tempo, a gritar a morte do meu avô. Um amigo que me foi buscar à campa dele, quando já ninguém restava e eu me perguntava, será que ele fica bem aqui sozinho? Terá frio? O veredito da doença, crónica, disseram-me na altura. A primeira vez em que entrei numa sala de aulas do lado de lá, que agora é, há tanto tempo, o de cá. As caras dos meus alunos nos primeiros tempos, em que sou a bruxa. As caras deles, à despedida, com flores, cartões e abaixo-assinados para eu ficar na escola. A Cidade-de-Deus, quando regresso para ficar. Os casamentos das minhas amigas. O divórcio de uma delas. Os primeiros filhos delas, meus sobrinhos. O amor da minha vida adulta. A imagem de um homem, de costas para mim, a trabalhar no computador. O cheiro de um café, aos Sábados de manhã. Vodkas laranja, línguas-de-gato e póker de dados, madrugada fora, queres levar uma malha? Londres. Paul Auster a sussurrar-me ao ouvido. Amigos inesperados a pintar quadros e a fazer-me chorar. Um amigo pequenino aos gritos Vou Dizer de Ti a Toda a Gente!! Esplanadas ao entardecer com a seita do costume. Uma mensagem mandada para o meio de uma ópera a dizer "Ai o emplastro não foi? Faz aí uma falta como um cão à missa..." A Comporta e os chocos fritos a tapar um medo de morrer inédito. Uma sala de operações, uma anestesia geral e pela primeira vez a sensação de não estar só, e haver muita gente do lado de lá, à espera. Um dia de sol numa esplanada a almoçar, com a certeza absoluta de estar perante uma alma-gémea. Um poema. Uma árvore de frente para uma barragem. Um sofá duma sala. Um carro, a chuva a cair no pára-brisas, e um dia de Santo António de um ano já perdido no tempo. O primeiro beijo. Aquele sorriso. O meu coração no teu bolso do peito, sempre. E o cheiro da minha mãe, a sua voz meiguinha e as suas gargalhadas fortes a acompanhar tudo o resto, tipo leitmotiv.
Tudo, tudo, num lugar assim dentro. Num lugar assim dentro onde cabem ainda todos os mais anos que hão-de vir, cheios de arco-íris, gotas de chuva, céus estrelados e nuvens de algodão doce. Cheios de paixão e dor, risos e lamúrias, piadas e resmungos, que a vida é rica quando não nos acobardamos nem nos acomodamos.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.

domingo, 6 de julho de 2008

Ainda Ondjaki

Estou a terminar o livro AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Poderia tê-lo lido de um só trago, numa noite. Obriguei-me a não o fazer, pelo simples prazer de adiar a última página, de ficar mais tempo presa num sonho de palavras infantis coloridas de todas as nuances que existem no mundo. A linguagem é hipnótica, as personagens doces, puras, amigos aos quais não apetece dizer adeus.
Espreitei a última página, e voltei a sorrir com a mesma intensidade com que brindei as primeiras frases. O livro acaba assim:
-Estórias de antigamente é assim que já foram há muito tempo?
-Sim, filho.
-Então antigamente é um tempo, Avó?
-Antigamente é um lugar.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.
Ora aqui está uma bela resposta aos fanáticos do Carpe Diem. Trazemos connosco o nosso passado. Podemos viver o momento, mas a nossa infância, a nossa bagagem, as nossas bases, os nossos triunfos e as nossas perdas, a nossa história, as nossas estórias, tudo isso transportamos num lugar assim dentro. E é bom que assim seja. Sejam as nossas memórias felizes ou mais tristes, são elas que nos constroem, são elas que impedem que nos dissolvamos num momento presente, que por muito precioso que seja, não traz consigo qualquer identidade. O que já vivemos, e as expectativas, os objectivos, os sonhos do que ainda queremos viver, o passado e o futuro, esses sim, dão algum sentido, se este existe, ao agora.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Amor à Primeira Frase

Hoje apaixonei-me. Apaixonei-me de forma violenta, arrebatadora, irresistível. E com testemunhas, dois amigos, ali mesmo ao meu lado, enquanto eu mudava de cor e tremia, e sorria, e se me enchiam os olhos de lágrimas, doces, suaves, de reconhecimento, de profundo respeito, da mais verdadeira admiração. Rendição total. De seu nome, Ondjaki. Angolano, mais novo que eu, licenciado em Sociologia, bonito.
Foi assim que me sussurrou ao ouvido, de leve, de mansinho, um sussurro intemporal que me transportou de repente ao útero materno onde só o silêncio e a voz da mãe existem:
"-Gritos azuis? Nunca ouvi falar.
-São palavras gritadas no fundo do mar, as crianças é que sabem. Os pássaros também.
-E os peixes?
-Os peixes ainda não sabem gritar bem. Devem ser de outra cor, as palavras dos peixes.
-Tu já gritaste no fundo do mar?
Tantas vezes. Queres experimentar?"
Sim, Ondjaki, quero, quero experimentar gritos azuis, que os meus são normalmente negro-noite, sarapintados de estrelas cadentes de tristeza, a desenhar lágrimas num céu infinito. Ensina-me a gritar em azul, ou em rosa Hello-Kitty, como as crianças e os pássaros, em comum a liberdade infinita.
Continua, continua a sussurrar-me ao ouvido, que dizes?
"Nós, as crianças, ficámos a olhar o céu se encher de umas maravilhas acesas como se todos os arco-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda."
Brindemos. Brindemos, que hoje me apaixonei à primeira frase. Irremediavelmente.
Faça-se silêncio. Nasceu um poeta que escreve em prosa.