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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Man in the Dark

Um homem nos seus sessenta e muitos, setentas, combate as insónias inventando histórias. Todavia, dada a corrente de consciência natural a todos os seres humanos, a própria história, detalhes do que o circunda, barulhos exteriores ou necessidades fisiológicas intrínsecas desviam-no do seu relato, da sua composição artística, da sua criação, e puxam-no para pensamentos de outro cariz, pessoal e íntimo, divagações sobre o passado, a família, o amor, a descendência, as relações de causa-efeito, o significado da dor e do sofrimento na jornada pessoal de cada um.
Auster ao mais alto nível. Não é a sua obra-prima, mas é difícil escolher uma, de entre todas, que o seja. Nota-se que o escritor amadureceu. Os seus narradores são homens cada vez mais velhos, desde Nat, em Brooklyn Follies, a Blank em Travels in the Scryptorium, a este August, Auggie, em Man in the Dark. Todavia, os temas continuam os mesmos, apontando para a inesgotabilidade de formas possíveis para a sua abordagem literária. Como de costume, a tessitura narrativa é manufacturada com linhas de várias cores, com fios de várias proveniências, num resultado final que lembra a filigrana, ou, se preferirmos, caixas chinesas ou matrioskas russas. O autor já nos habituou, e aqui não decepciona as expectativas, à história dentro da história, às várias vozes narrativas. Também aqui se contam várias histórias, e se mantêm todas com altos níveis de interesse. Ao contrário do que é costume, têm finais esclarecedores e definidos (definitivos), mas talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro "statement" da obra, se considerarmos que poderá haver, de facto, uma mensagem que o autor pretende transmitir, e não apenas a fruição do objecto artístico livro.
De qualquer forma, Auster aí está, para as curvas, a lembrar-me periodicamente as razões da minha escolha deste autor para objecto de estudo e dissertação. Ninguém escreve assim. É hipnótico, é melódico, é intimista e, no entanto, tão abrangente, tão comprehensive a toda a raça humana...
E sim, li o livro todo. Todas as 180 páginas em Inglês. Numas horas valentes, a lutar contra o sono. Ao contrário de Auggie.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

De volta a Auster

Hoje, depois de muito tempo de jejum, voltei a abrir a pasta que diz "Dissertação de Mestrado". Primeiro, de forma tímida, a abordar um velho amigo que deixámos afastar-se, por circunstâncias da vida, por preguiça e inércia, embebidos no espírito do "telefono-lhe amanhã", num amanhã que não chega, e o tempo passa, e a distância vence. Depois um dia, certos de que o amigo está furioso connosco, lá arriscamos o tal telefonema, sem saber bem o que dizer, quando não há desculpas plausíveis a não ser, sou assim, mas gosto de ti.
Dei-lhe uns toques, reli algumas partes, pesquisei algumas lacunas, inteirei-me da saúde do meu amigo abandonado. É praticamente impossível recuperar o tempo perdido, tenho essa consciência. Mesmo assim, mesmo que não chegue a completar e a atingir o principal objectivo, tudo o que fizer é lucro: leio, aprendo, escrevo, destupidifico. Analiso textos em Inglês teórico e complexo, raciocino em Português formal, aprendo qualquer coisa de novo, diferente do vocabulário pedagógico que me aborrece sobremaneira.
Enquanto, ao serão, dissecava um ensaio de Fredric Jameson, pensava, será que vale a pena, agora, tão tarde, voltar a dispender energias com isto? Não sei. Depende do que se entender por "valer a pena". Mas gostava que valesse. Que, uma vez na vida, conseguisse chegar ao fim de um objectivo sonhado em conjunto mas atingido só. Já que tanto se perdeu pelo caminho, ao menos o prazer de chegar sozinha a algum lado. Ou aprender qualquer coisa com a luta, se a batalha estiver, como acho que está, perdida à partida.