Há duas pessoas a quem tenho a agradecer um fim-de-semana inesquecível. Este fim-de-semana que agora termina.
Foi com um medo irracional de morrer que começou. Um medo de morte picado pela sensação de estar há demasiado tempo sem viver, sem curtir os bons momentos, sem apreciar de facto seja o que for, presa que tenho andado a velhos fantasmas, numa luta perdida à partida, como sempre que se rema contra a maré. Ao longo de todos estes meses de sofrimento físico e emocional, um sofrimento muitas vezes plácido e indolor, mas constante na sua presença, fui várias vezes avisada por diversas pessoas de que estaria a dar murros em pontas de faca. De que as pessoas são o que são, e são piores do que aquilo que eu faço delas. Que não há desculpas quando nos magoam a sério, nem tentativas de justificação para outros que não sejamos nós mesmos.
Sexta-feira, ao telefone com Li, cheguei a soluçar. A soluçar a possibilidade de poder não voltar depois de quinta-feira, de poder não voltar para o ano, de poder estar condenada a um suplício maior do que me atrevi, algum dia, a considerar para mim. Chorava e dizia-lhe, o que mais me dói é este ano perdido, cano abaixo, meses a fio perdidos. E ela não foi capaz de me atirar um "eu bem te avisei, tantas vezes te avisei que as coisas não eram como tu as vias, que não havia inocência nem arrependimento, apenas pessoas que seguem em frente e te deixam para trás sem sequer voltar a pensar nisso".
E imaginei o meu fim-de-semana, que podia ser um último fim-de-semana digno disso nos próximos tempos, comecei a imaginá-lo um pequeno pesadelo de solidão, maus pensamentos e arrependimentos recorrentes até à loucura.
Depois de vir da ópera, estive muito tempo acordada, a escrever, a pensar, a chorar. Quebrei de exaustão já quase manhã, e acordei já o sol ia muito longe no firmamento. Com os olhos inchados e um rosto que espelhava todas as guerras travadas nos meus pesadelos reais.
E foi aí que entraram em acção duas pessoas. Duas pessoas com quem apenas não dormi de Sábado para Domingo, mas que não me deixaram, fora isso, sozinha comigo mesma, a minha pior inimiga, um segundo que fosse. Dois seres que me arrancaram de casa para ver um jogo de futebol, com quem partilhei muitas confidências sobre a minha vida noite dentro e estrada fora. Dois entes divertidos, bem-dispostos e conversadores, que me levaram à praia que é dos sítios em que me sinto mais feliz no Mundo. Que me viram de bikini, branca como a neve, e não me chamaram magra, esquelética, ou outro dos simpáticos piropos que estou tão acostumada a ouvir. Duas pessoas que me levaram a passear na praia, a apanhar conchinhas, a comer gelados. Que me deram a oportunidade fundamental de relembrar as ondas do mar frio a bater-me nas pernas e os raios de sol a entrar-me nos póros, até a pele escurecer. Duas pessoas que me levaram finalmente a comer os tais chocos fritos com que eu não me calava desde manhã, acompanhados a traçados e sem direito a mousse de chocolate. Que pararam no caminho de regresso para eu fumar um cigarro, maldito vício, pareces uma drogadita, e se despediram de mim oferecendo-me a banda sonora do Verão passado, que me faz sempre chorar, e que aqui vos deixo,
Eu sei!
Tudo pode acontecer
Eu sei!
Nosso amor não vai morrer
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores prá te encontrar...
... ... ...
Não sei...
Por que você disse adeus
Guardei!
O beijo que você me deu
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores para te encontrar...
Hey, Yei...
You say good-bye
And I say hello
You say good-bye
And I say hello
... ... ...
Esta música, ouvida no Verão passado, foi por mim repetida vezes sem conta, como um cântico, um lamento, um amuleto, uma prece, uma oração. Parecia, enfim, adivinhar tudo de mau que me estava guardado nos meses subsequentes, em que eu esperava, ingénua e infantilmente, que tudo acabasse em bem, sabendo o quão difícil isso seria. Aguardava, ansiosa, o milagre que não veio, deixando passar a oportunidade dos milhares de milagres que entretanto me foram passando ao lado da alma triste que persistiu em ignorá-los.
Foram tempos perdidos, vejo isso agora.
Foram tempos em que poderia ter andado para a frente, se não tivesse querido recusar o óbvio, o demasiado óbvio, por ser o óbvio tão enormemente doloroso, tão tragicamente real na sua decepção.
Continuo a chorar sempre que ouço os primeiros acordes. Coincidentemente, passou na discoteca a que levámos os nossos alunos uma manhã destas, e eu dancei-a, com as lágrimas a correrem-me cara abaixo, sem ninguém dar por nada. No meio de centenas de alunos e dezenas de colegas, dancei-a sozinha na pista, abraçada ao meu amor perdido, em pranto pelo que em mim ficou quando ele partiu sem nunca, nunca, se ter dignado a olhar, uma derradeira vez, para trás.
E eu, fiquei imóvel e impotente, com os olhos cravados nas suas costas, a vê-lo afastar-se.
Desapareceu do meu olhar este fim-de-semana.
Agora, só agora, meu deus!, está na altura de começar eu a andar para a frente.
Tenho muito, muito medo do que me aguarda, mas quero agradecer a dois amigos que sabem quem são, o presente inesquecível de um fim-de-semana perfeito em circunstâncias muito agrestes.
As pessoas jamais esquecem o bem que lhes fazem, dizia o meu avô muitas vezes. E eu não sou excepção. Obrigada.