segunda-feira, 16 de junho de 2008

Despedida

E assim se chega ao texto número cem.
E assim se chega ao final do ano lectivo. Pelo menos, para mim. Amanhã dou as minhas últimas aulas. Hoje já dei as últimas aulas a algumas turmas.
E assim se perde a sardinhada de comemoração do final do ano lectivo, que é sempre tão animada. E o teatro da Pêlo Russo.
E assim se passam os últimos dias a corrigir testes, a fazer auto-avaliações e a não ter tempo para as costumeiras despedidas.
Hoje foi um dia difícil, parece que caiu uma ficha que tenho vindo a tentar evitar a todo o custo.
Amanhã é um dia repleto de aulas e depois, a viagem para Lisboa, a segunda, a decisiva, ou assim o espero.
O Pan mostrou-me uma tela que anda a pintar inspirada em mim. Genial. Mas acho que foi ao olhar para ela que tudo em mim por fim ruíu. Uma Kitty numa árvore com o destino a rondar. Um destino de cara pouco simpática. O quadro é de uma solidão atroz. Identifica os grandes símbolos da minha existência presente, o medo, a ausência, a vida, o vazio, o azar. Deu-me uma vontade doida de chorar, um nó na garganta que ainda não consegui desatar, a imagem da fragilidade e do desamparo. No final das contas, e na altura de as ajustar, somos apenas nós e o destino. E embora haja muitas presenças fortes a emanar boas energias e a velar-me o sono, não consigo deixar de pensar que o pincel do Pan foi ao cerne de todas as questões que me têm atormentado.
Amanhã planeio uma retirada estratégica e silenciosa. Sem despedidas mas com muita pena de partir. E muita esperança de voltar. Até breve.

domingo, 15 de junho de 2008

Pavões Armados

Prometi aos meus amigos que escreveria hoje, depois da derrota da nossa selecção, um texto com este título. Por inúmeras razões e algumas private jokes. Até já tinha, ao jantar, ensaiado a introdução, da qual já não me lembro... ainda estais cheios que nem bodes, lambões? Também eu... se disserem ao Pan que comeram gomas como condenados em minha casa ponho-vos um processo por difamação...
O destino dos pavões armados é o enxovalho em grande estilo. O destino dos pavões armados é jamais se deixar passar o epíteto de Mourinho do Desporto Escolar, sempre que começam a arrulhar dotes para sintonizar rádios. E quando o pavão diz," E pavonas? ninguém fala das pavonas?", toda a gente se lembra da pavona pela qual todos, sim, todos os pavões armados se vestem de gala. Embora só alguns babem dos bicos, "ai, esta pavona põe-me doido, ou tira-me do sério, ou inspira-me ao desporto", ou something like that. Mas ninguém comenta, só emendam, não é pavona, pá, é pavoa, e ele, foi de propósito, e nós, pois.
Pois é. Depois de um fim-de-semana de esplanada e correcção de testes, a viagem deu uma reviravolta fatal, quando um determinado pavão veterano se resolveu atirar ao chão e lixar um joelho. Lá tiveram duas pavoas que ir ter com outra a Viseu, para voltar para a Cidade de Deus. Juntaram-se então ao pavão-mor para ver o jogo, e ver onze pavões levar uma arrochada tal que até apitaram. Comeram quatro pavões que nem condenados à morte. E riram-se e tiraram fotos. E riram-se mais. E foram controlados pelos progenitores, que isto de nascer de um ovo tem muito que se lhe diga...
Esta pavoa entrou finalmente em Countdown. O segundo, em duas semanas, a ver se é desta que suspira de alívio ou se vai haver moelas de pavoa servidas em prato de tasca, apre...
Mas a verdade é que estou bastante calma, dadas as circunstâncias.
Estas alturas separam o trigo do joio. Dizia à Li, na última quarta-feira, que houve gente que não me desejou "Boa sorte", gente que, mais do que esperar que o fizesse, queria que o tivesse feito. E houve gente que eu sei que não pode comigo que o fez, e a quem eu agradeço a humanidade. Apesar de não gostarmos das pessoas ou aprovarmos as suas atitudes, a humanidade que há dentro de nós solidariza-nos com os dramas alheios, e gostei que alguns colegas se tivessem chegado ao pé de mim com simpatia, mesmo quando nunca o fazem. E fiquei muito sentida com outros, de quem esperava muito, muito mais do que fizeram que foi nada. No entanto, mais uma vez, a Li foi sábia: faz falta como um cão à missa, deixa lá isso.
O trigo e o joio.
Comentei com a minha mãe a decepção que continuo a sentir perante a pequenez da condição humana e ela olhou para mim com aquela cara que faz quando não me quer insultar, mas não lhe surgem palavras elogiosas para me classificar. Abanou a cabeça e disse... ainda vais a tempo de deixar de julgar os outros por ti.
Desde sexta-feira, seis (treze, para mim), muita coisa mudou. Tal como disse, estou a viver o momento, num hiato temporal que não admite presenças ausentes. Neste momento, preciso de todos os que estão. Quem não está agora, não estará mais. Eu conheço-me muito bem. E lembro todos os momentos difíceis que tive na vida, já foram alguns, e sei quem lá esteve. E também sei quem me falhou. E quem me falha em momentos cruciais não repete a graça.
Neste instante, sei com que pavões me coso, sei em quais confio, sei quais habitam a mesma capoeira, os que me envolvem com as suas penas, os que grasnam e arrulham a meu lado. É um grupo restrito, mas especial. Raro. E só faz falta quem cá está, a dar força, ternura, coragem, sorrisos, abraços, beijinhos, tudo com fartura, naturalidade, sinceridade. Os que são verdadeiros e coerentes. Que me mostram, em tempo útil, que me amam. Porque, com a dúvida que paira, este é o momento de dizerem que me amam. Adiar é não levar a sério a situação em que, para o bem ou para o mal, me encontro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... é a hora! (Pessoa)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Living La Vita Loca

Pois é, isto de se aproveitar o momento tem que se lhe diga. No fim-de-semana passado, foi Comporta. A semana, a abrir, entre Lisboa e a Cidade de Deus. De momento, estou em Aveiro. Depois de ter lanchado na Curia. E ter conhecido a Quinta do José Cid.
Isto de se aproveitar o momento, no meu dicionário, tem duas entradas: 1- passear; viajar. 2- estar com os amigos em patuscadas. Isto é que têm sido dias ricos em Carpe Diem...
Segunda volto ao trabalho e terça volto a Lisboa, a ver se é desta... mas tenho tido momentos fenomenais, lá isso... entre mistérios e segredos mal-guardados, comentários ao blogue de autores desconhecidos, - mas muito, muito, simpáticos, - jantaradas, grelhados ao ar livre, saídas à noite, espectáculos, música, viagens e passeios, praia e montes alentejanos, beijinhos de alunos e abraços de colegas... têm sido dias, repito, fenomenais. Living La Vita Loca...
Até já.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A Loucura da Normalidade

Ontem foi um dia de doidos. Andei a levitar o dia todo, uns metros acima ou abaixo do meu corpo terreno, perdida num subconsciente que nem raciocínios articula. Parece que passei o dia envolvida em sensações, quais pinceladas num quadro impressionista.
O dia de ontem aparece-me em imagens. Nem são bem fotografias-polaroid, são quadros, alguns muito realistas, outros a dar para o surrealista, muito impressionismo e muito cubismo. Detalhes, pormenores, olhares, abraços, toques subtis no braço. A cara da minha chefe que nunca me tinha visto chorar, e provavelmente achava que nunca iria ver. O bilhete que o Pan me escreveu a dar força e a vociferar contra o destino. A Miss Covilhã a chamar-me querida ao telefone, quem diria? O Marquês de Pombal vestido de verde e vermelho. Um táxi que me ia batendo a toda a brida, quase a chegar a casa. O olhar indiferente da minha gata amuada por lhe roubar a cama favorita. O jantar que a minha mãe me pôs à frente, uma delícia.
Enquanto dava aulas aos meus alunos, ocorria-me o pensamento que, se as notícias fossem mesmo péssimas, - e os nossos maiores medos atraem os nossos piores pesadelos -, não os voltaria a ver este ano. Talvez nem no próximo. E isso parecia-me tão absurdo como um sonho que não consegues explicar quando acordas. Inimaginável. Pensava: não é possível, não acredito nisto. Não vai acontecer. E deixava os alunos sair, sem despedidas, só com o aviso de que iria faltar uns dias. "Sem despedidas, para dar sorte", como escrevi em resposta ao Pan.
Hoje foi tudo diferente. Não houve exame. O médico faltou e eu, sem voice-mail, não fui avisada em tempo útil. O meu médico assistente apanhou-me no corredor do hospital e marcou uma consulta para a tarde, não sem antes dizer, mau, estás magríssima, cachopa, não comes? E eu, como, e ele, então não andas a assimilar nada, mau sinal... e a minha mãe a ficar branca como a neve, e eu a chamar-lhe todos os nomes mal ele virou costas.
O regresso à Cidade de Deus, interminável, sob um sol quente, ao sabor de música levezinha, com a imagem da minha mãe a dizer, toda a gente te adora, lembra-te disso, e eu, nem toda, e ela, ainda bem, se não haveria algo de muito errado contigo e eu, nem toda a gente que eu queria que gostasse, e ela, pois, o Clooney também nunca me ligou nenhuma e eu não consigo perceber porquê. Rio-me com vontade e acendo outro cigarro.
Quando cheguei tinha um jantar de arepas à espera, e dois convidados VIP para as partilhar connosco. Depois de se meterem com a forma "desportiva" como vinha vestida, lá se fez a festa e se pôs a conversa em dia. As novidades do dia foram dissecadas, não posso faltar um dia, cacete?, lá contei a minha volta à senhora da asneira, e lá ouvi um amigo meu a imitar o Nuno da Câmara Pereira, melhor que o original. Cruz-Credo!
Não há dúvida que estou grata por estes dias-extra que um médico me deu de presente. Uns dias-extra de normalidade, de trabalho, de alunos e de colegas, mesmo dos que passam por mim como se eu fosse transparente ou, pior, incómoda como a areia nas orelhas quando se vem da praia. Cocem-se, pá. Até lhes consigo achar alguma graça, com aquela expressão permanentemente enjoada de quem engoliu uma mosca juntamente com a sopa. A sério.
O dia de ontem foi uma sucessão de paletas de cor forte. O de hoje, um filme em fast-forward. Onde estou eu no meio de todas estas artes, não sei. Nem quero saber. Estou a viver o momento, a emocionar-me com os vossos comentários ao blogue, a sorrir com os toques e os sms dos meus alunos, a rir-me com os discursos sábios da minha mãe, a vibrar com os pormenores que os meus amigos contam de uma escola sem mim, a saborear arepas de galinha (branca!...) e queijo acompanhadas a Monte-Velho, Coca-Cola e cigarros serão dentro. Sem antecipações e antevisões. Mais importante ainda, sem recordações. Que o passado e o futuro estão bem no seu sítio certo. À frente ou atrás. Até quarta-feira, no bónus que me deram, reine o agora, a Loucura da Normalidade, que sou privilegiada: a minha normalidade nada tem a ver com monotonia.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ainda Aqui

Vim para Lisboa na companhia do Ronaldo, do Quaresma e do Deco, e aterrei no Marquês de Pombal onde se fazia a festa da vitória e da passagem aos Quartos de Final. Já à chegada, ia levando com um estupor de um taxista, que me fez recordar que a viagem só termina no destino, quando se puxa o travão de mão e se desliga o carro.
Vim para Lisboa a sentir os abraços que, um a um, vocês me deram. Amanhã é à recordação desses abraços especiais que vou voltar, quando o momento for de pânico, e quando adormecer, vou certamente lembrar-me das vossas caras e dos vossos sorrisos.
Vim para Lisboa com a certeza de que vou voltar em breve, uma certeza muito maior do que o medo do contrário.
Ainda aqui, mas por pouco tempo. Não tarda, estou aí.
Beijos, e o meu obrigada de sempre

terça-feira, 10 de junho de 2008

Post-Scryptum a Bob fez anos

Nos próximos dias, a música da Jade vai entrar em PAUSE. Não acredito que me seja possível escrever seja o que for, pelo menos até segunda-feira. Não me será possível, sequer, falar, na quinta-feira, não se assustem os mais atentos. Lá para sexta à tardinha estarei de novo comunicável, e com boas novidades para todos, assim o espero.
Mas agradeço a todos os que, com gestos simples e poucas palavras, me desapertaram o coração durante estes dias. Seja lá o que for, venha o futuro. A coragem, às vezes, não é nossa, é um presente oferecido à martelada. E vocês martelaram-me o juízo qb, com risos e música, praia e patuscadas ao ar livre, correcção de testes em conjunto e doces de ovos moles. Até o Jagunço se juntou à lista de conspiradores.
Hoje o Bob fez anos mas sou eu que ando a receber presentes de coragem e incentivo, amizade e paz de espírito, desde sexta-feira treze, que afinal este ano veio a seis.
Beijos grandes e até já.

O Bob fez anos

Hoje o Bob fez anos e fizeram-lhe um bolo de cimento, para que o pudesse guardar para sempre. Hoje o Bob fez anos e reuniu um grupo de amigos para uma patuscada ao ar livre, com um cão a rondar as chouriças, um vinho de onze anos, muito peixe fresco e boas sobremesas. O Bob fez noventa e quatro anos e está bem conservado, para veterano. Ouve Vaya Con Dios, conduz com o encosto do Nikki Lauda e diz "Hoje estás diferente...", com um ar de sabedoria que o resto da frase desfaz em fumo. Hoje o Bob fez anos e cheirava a férias, mais uma vez, entre um sol radioso e uma sombra que passou, irremediavelmente, ao lado, apesar de vir a passo estugado. Hoje o Bob fez anos e roubou três limões que ficou de devolver à árvore, porque pior que roubar é ser apanhado.
Hoje o Bob fez anos e, ainda assim, foi o primeiro a perguntar, de voz séria e inocente, então, como é que é? E não apanhou a tal lostra. Mas só porque fez anos. E se arrasta, anonimamente, por este blogue, o dissimulado. Bob, o dissimulado, fez anos e a idade, por muito que diga o contrário, não lhe pesa, cheia de histórias para contar e resmunguices contra as gasolineiras que patrocinam a Selecção e os professores que querem ver jogos à hora em que estão marcadas reuniões.
Parabéns, Bob. Não respondas, que és casmurro, e o feitio, com a idade, apura...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Então, como é que é?

É a idade a chegar. Juntam-se seis pessoas, seis. Quem visse, pensaria tratar-se de um regimento de gente demente a sofrer de Alzheimer. Não sei, perdi a conta às vezes em que se repetiram as mesmas coisas, quem levava o quê, a que horas era o encontro e onde, quem ia buscar quem, que compras eram necessárias e o que havia em casa... tudo repetido, pior que nas aulas o número da lição aos gaiatos, ou o número da página em que têm que abrir o livro. Há sempre um, sempre, que depois do costumeiro par de berros, ainda pergunta, com ar inocente, qual é a página, professora? Assim estava a Li, hoje. Apre, rapariga, cruzes-canhoto, por amor da Santa... MENOS! Foi a barrigada de riso da praxe, anda reco!, e outros mimos, que esta mulher é do norte, carago.
Estou para ver amanhã. Estou para ver quando chegarmos com alfaces e pimentos, e sardinhas de escabeche e mousse de chocolate, e vinhos x-p-t-o, que a ocasião merece, estou para ver toda a gente de olhos inchados de sono a comer bolos na dó-ré-mi, em silêncio. Estou para ver quem é o primeiro a dizer, de voz séria e imperturbável, ouçam lá, mas afinal como é que é? E a levar uma lostra que lhe vire a cara para o sítio onde tem o... sim-senhor. Olha, pá, é assim, deste tamanho...visto da lua! Irra!

Unforgetable

Há duas pessoas a quem tenho a agradecer um fim-de-semana inesquecível. Este fim-de-semana que agora termina.
Foi com um medo irracional de morrer que começou. Um medo de morte picado pela sensação de estar há demasiado tempo sem viver, sem curtir os bons momentos, sem apreciar de facto seja o que for, presa que tenho andado a velhos fantasmas, numa luta perdida à partida, como sempre que se rema contra a maré. Ao longo de todos estes meses de sofrimento físico e emocional, um sofrimento muitas vezes plácido e indolor, mas constante na sua presença, fui várias vezes avisada por diversas pessoas de que estaria a dar murros em pontas de faca. De que as pessoas são o que são, e são piores do que aquilo que eu faço delas. Que não há desculpas quando nos magoam a sério, nem tentativas de justificação para outros que não sejamos nós mesmos.
Sexta-feira, ao telefone com Li, cheguei a soluçar. A soluçar a possibilidade de poder não voltar depois de quinta-feira, de poder não voltar para o ano, de poder estar condenada a um suplício maior do que me atrevi, algum dia, a considerar para mim. Chorava e dizia-lhe, o que mais me dói é este ano perdido, cano abaixo, meses a fio perdidos. E ela não foi capaz de me atirar um "eu bem te avisei, tantas vezes te avisei que as coisas não eram como tu as vias, que não havia inocência nem arrependimento, apenas pessoas que seguem em frente e te deixam para trás sem sequer voltar a pensar nisso".
E imaginei o meu fim-de-semana, que podia ser um último fim-de-semana digno disso nos próximos tempos, comecei a imaginá-lo um pequeno pesadelo de solidão, maus pensamentos e arrependimentos recorrentes até à loucura.
Depois de vir da ópera, estive muito tempo acordada, a escrever, a pensar, a chorar. Quebrei de exaustão já quase manhã, e acordei já o sol ia muito longe no firmamento. Com os olhos inchados e um rosto que espelhava todas as guerras travadas nos meus pesadelos reais.
E foi aí que entraram em acção duas pessoas. Duas pessoas com quem apenas não dormi de Sábado para Domingo, mas que não me deixaram, fora isso, sozinha comigo mesma, a minha pior inimiga, um segundo que fosse. Dois seres que me arrancaram de casa para ver um jogo de futebol, com quem partilhei muitas confidências sobre a minha vida noite dentro e estrada fora. Dois entes divertidos, bem-dispostos e conversadores, que me levaram à praia que é dos sítios em que me sinto mais feliz no Mundo. Que me viram de bikini, branca como a neve, e não me chamaram magra, esquelética, ou outro dos simpáticos piropos que estou tão acostumada a ouvir. Duas pessoas que me levaram a passear na praia, a apanhar conchinhas, a comer gelados. Que me deram a oportunidade fundamental de relembrar as ondas do mar frio a bater-me nas pernas e os raios de sol a entrar-me nos póros, até a pele escurecer. Duas pessoas que me levaram finalmente a comer os tais chocos fritos com que eu não me calava desde manhã, acompanhados a traçados e sem direito a mousse de chocolate. Que pararam no caminho de regresso para eu fumar um cigarro, maldito vício, pareces uma drogadita, e se despediram de mim oferecendo-me a banda sonora do Verão passado, que me faz sempre chorar, e que aqui vos deixo,
Eu sei!
Tudo pode acontecer
Eu sei!
Nosso amor não vai morrer
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores prá te encontrar...
... ... ...
Não sei...
Por que você disse adeus
Guardei!
O beijo que você me deu
Vou pedir aos céus
Você aqui comigo
Vou jogar no mar
Flores para te encontrar...
Hey, Yei...
You say good-bye
And I say hello
You say good-bye
And I say hello
... ... ...
Esta música, ouvida no Verão passado, foi por mim repetida vezes sem conta, como um cântico, um lamento, um amuleto, uma prece, uma oração. Parecia, enfim, adivinhar tudo de mau que me estava guardado nos meses subsequentes, em que eu esperava, ingénua e infantilmente, que tudo acabasse em bem, sabendo o quão difícil isso seria. Aguardava, ansiosa, o milagre que não veio, deixando passar a oportunidade dos milhares de milagres que entretanto me foram passando ao lado da alma triste que persistiu em ignorá-los.
Foram tempos perdidos, vejo isso agora.
Foram tempos em que poderia ter andado para a frente, se não tivesse querido recusar o óbvio, o demasiado óbvio, por ser o óbvio tão enormemente doloroso, tão tragicamente real na sua decepção.
Continuo a chorar sempre que ouço os primeiros acordes. Coincidentemente, passou na discoteca a que levámos os nossos alunos uma manhã destas, e eu dancei-a, com as lágrimas a correrem-me cara abaixo, sem ninguém dar por nada. No meio de centenas de alunos e dezenas de colegas, dancei-a sozinha na pista, abraçada ao meu amor perdido, em pranto pelo que em mim ficou quando ele partiu sem nunca, nunca, se ter dignado a olhar, uma derradeira vez, para trás.
E eu, fiquei imóvel e impotente, com os olhos cravados nas suas costas, a vê-lo afastar-se.
Desapareceu do meu olhar este fim-de-semana.
Agora, só agora, meu deus!, está na altura de começar eu a andar para a frente.
Tenho muito, muito medo do que me aguarda, mas quero agradecer a dois amigos que sabem quem são, o presente inesquecível de um fim-de-semana perfeito em circunstâncias muito agrestes.
As pessoas jamais esquecem o bem que lhes fazem, dizia o meu avô muitas vezes. E eu não sou excepção. Obrigada.

sábado, 7 de junho de 2008

Sexta-Feira Treze

Parece que é para a semana, a sexta-feira treze. Nesse mesmo dia é Santo António em Lisboa, e uma data importante para mim, por motivos que não vêm ao caso. Dizem que a sexta-feira treze é dia de mau agouro. A minha sexta-feira treze veio a seis, antecipou uma semana certinha. Porque hoje foi um daqueles dias em que teria tudo, mas tudo, sido preferível a levantar-me da cama de manhã.
Às onze horas recebo um telefonema do meu médico assistente com uma notícia que me fez ir em pranto dar a aula do meio-dia. Literalmente em pranto. Salvou-se o facto de ser a minha turma preferida, um grupo de miúdos que roça a perfeição, professora está doente, está triste, podemos ajudar, sente-se bem, precisa de alguma coisa? Ignorem-me, por favor, escrevam o sumário e vamos corrigir o TPC. É para já, sem mais perguntas. No fim, ainda houve um que me ofereceu um balão cor-de-laranja.
Zarpa para Lisboa, em estado de choque, a inventar parvoíces, a sonhar conversas, imersa num pesadelo recorrente. Em Lisboa, mais notícias de fugir. Não está a cicatrizar, que diabo se passa aqui, que maçada, continue o tratamento que isto pior não está, esteja descansada.
Com certeza, descansadíssima. Não podia estar mais relaxada, estou praticamente em estado Zen, qualquer diferença entre mim e um monge tibetano em momento de levitação transcendental é pura (não com "r", mas com "t") coincidência.
Novamente ao volante, depois de fazer a Li apanhar grande maçada comigo a soluçar-lhe disparates ao telefone. Sinceramente, minha querida, já nem eu me consigo aturar.
Tinha que vir para a Cidade de Deus. Andei a chatear meio-mundo para me arranjar um bilhete para a ópera, e não tive coragem de não pôr lá os pés, embora a vontade de ir ao dentista ou ao ginecologista fosse, naquela altura, triplamente maior do que fazer 200 e tal quilómetros, tomar banho e mascarar-me, que isto de ir à ópera não é bem o mesmo que ir ao Modelo fazer compras de jeans e all-stars.
Fui sozinha, "sem pendura, que a vida já me foi dura para insistir na companhia". Fui sozinha e amei o espectáculo. Mas nem aí, nem aí, senhor, nem sozinha, tive sossego. Tudo o que podia correr mal, correu pior. Nem nos meus mais profundos pesadelos o cenário dantesco que se pintou seria tão temível. Salvou-se, de facto, o espectáculo em si, o corpo de baile, a voz da velha cigana, uma prece em Castelhano, o início do segundo acto, Le Grand Final. Devo ao meu avô esta obsessão pela música erudita, e era nele que tentava concentrar os meus pensamentos enquanto as lágrimas me corriam cara abaixo num diálogo amoroso com a soprano a fazer a voz chorar. Chorei que nem uma Madalena as tragédias do meu dia, as coincidências que todos nós temos no nosso destino, as agruras duma vida que todos dizem ser ainda jovem e a mim me pesa como se carregasse aos ombros a idade de Matusalém. Envergonhadíssima, que esta gente desta cidade é toda muito educada, muito comedida e muito estóica, senti as gotas salgadas a bater na mala que tinha ao colo, os arrepios espinha acima ou espinha abaixo de cada vez que um verso ou uma nota me esbofeteava a mais profunda essência, e uma vontade contraditória de fugir e desaparecer dali e de mim própria, juntamente com a oposta, de ficar, de sentir, de estar viva e em pranto numa sala escura cheia de gente conhecida e desconhecida, mas irrelevante, se tivermos em conta que estive a assistir à opera de mãos dadas com o meu avô, na altura em que a ternura dele era o meu mundo inteiro.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Madrugada

Reuniu-se, em parte incerta, e data pouco clara, em hora indefinida e sem direito a senha, que a reunião era extraordinária, a Ordem da Galinha Preta, com ordem de trabalhos sigilosa e irrelevante. A verdade é que não foi cumprida, ficou por esclarecer se o secretário era o docente titular ou aquele com menos tempo de serviço e, mais ou menos a meio, lá se iniciaram os trabalhos com toda a gente presente à excepção de dois membros a faltar por motivos devidamente justificados.
É de madrugada e a reunião correu bem, como sempre, quando as pessoas envolvidas se respeitam e ouvem as opiniões alheias. As cantigas de escárnio e maldizer ocuparam pouco espaço, dado que o clima era de bonomia e alguma preocupação com o politicamente correcto, seja lá isso o que for. Até de literatura se falou, entre risos e recordações, pronúncia do norte e sotaque alentejano, conversas sérias e outras pouco aconselháveis a menores de dezoito. Andou a minha mãe a criar-me a pão-de-ló... para isto.
É madrugada e Mzinha dorme a sono solto enquanto eu fumo um cigarro, releio textos antigos, e respectivos comentários, e penso que a minha amiga insónia é persistente e não verga, nem parte, nem às custas de espumante tinto e vinho da mesma cor.
Hoje disse à Li que me sentia vazia. O vazio é um sentimento recorrente, não necessariamente triste, quando significa ausência do que anteriormente nos fazia sofrer. Mas a verdade é que, quando me sinto assim, o futuro é a derradeira incógnita e não sei o que fazer à ansiedade que continuamente me desassossega o espírito.
There's no remedy for love but to love more. (Thoreau). O que saberia ele sobre o verdadeiro amor? O que saberei eu? Pouco. Infelizmente para mim, ainda espero o dia em que possa vivê-lo sem limites, sem amarras, sem medos, em pleno. Brinco com uma situação que, no fundo, pouca vontade me dá de rir. Mas, confesso, já me apoquentou mais. Se tivesse cedido à ordem natural das coisas, estava casada e bem de vida, se calhar teria filhos que amaria incondicionalmente e sentir-me-ia muito mais infeliz do que me sinto agora, com toda a certeza.
Por isso, há que ter muito cuidado com o que se pede às entidades superiores, não vão elas estar bem-dispostas e resolver fazer-nos a vontade. Recordo, com ironia, a casa que podia ser minha, o homem que podia ser meu, e penso, ai, Jade, do que tu te livraste, o que já viveste desde aí, a longa viagem que já fizeste, a pessoa que és, hoje, vazia, sim, mas digna e de bem com a tua consciência, com o teu coração, com os teus desejos, e, porque não, com a pele que te cobre os ossos e com o corpo que toda a gente critica mas que é o teu.
Dei comigo, ultimamente, a olhar-me ao espelho com ternura. Cada lugar meu, cada cicatriz, cada sítio de mim que, a ser perfeito, teria mais carne e mais curvas. E a pensar, é isto que vêem em ti? É isto que comentam com preocupação, com pena, estás tão magra, estás esquelética, estás assim, estás assado... dei comigo a pensar, e sentir-te-ias melhor se fosses diferente? Se calhar. Se calhar metade dos meus problemas existenciais se evaporariam se fosse uma brasa. Mas, no fundo, sei que não. E, no fundo, olho ao espelho com respeito pelo que existe e orgulho no reflexo. É o melhor que se pode arranjar. É o meu cartão de visita. Não me oferece elogios, não me dá grandes alegrias, mas, feitas as contas, mais depressa sorrio com vontade quando estou a oferecer um jantar em minha casa, do que quando me elogiam o aspecto físico.
É de madrugada e fumo um cigarro. O fumo preenche o vazio. Penso na minha vida e olho com respeito o futuro que me aguarda. Que aguarda um corpo demasiado magro numa alma orgulhosa do corpo que escolheu. Levanto a cabeça e ponho um decote. Dou um sorriso a quem me sorri. E sinto-me em comunhão com a madrugada, sabendo que a manhã me vai ser adversa.
Continuo a caminhar em linha recta.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vzinha...

Para ti, que de longe observas a minha vida tão de perto como eu própria, me acompanhas e sabes tudo sobre mim, que há muito deixei de te esconder seja o que for, que não te escondo sequer o que escondo de mim mesma, para ti, os teus olhos e a tua mente aberta, vai este texto cifrado, para que te entretenhas a desvendar o código e interpretar a metáfora.
O espaço influencia o homem, como diz o douto arquitecto.
A papaia entrou na minha vida com uma força avassaladora, pintou tudo da mesma cor, e não me apetecem já platonismos. Para ser sincera, não me apetecem, sequer, donuts esporádicos e doces que me enchem o estômago vazio na sua efemeridade inconstante. Estarei a crescer, ou a envelhecer, diz tu por mim.
Lembras-te quando vos chamava velhos, quando iam para casa já de madrugada, e eu queria continuar até já ser dia? Lembras-te dos tempos em que estava para casar e tudo em mim gritava por uma convencionalidade que nunca tive nem nunca foi bem com o meu tom de pele? Ainda hoje me divido entre Emily e Slummy Mummy. Qual das duas serei eu? Algum limbo entre ambas?
Em breve terei que te contar, com pormenores, uma história que te foi pincelada numa mensagem de hi5. Foi-te resumida, sintetizada, reduzida ao âmago, mas é no pormenor, no detalhe, que reside a importância. Há, claro, a questão da literariedade, da cultura judaico-cristã misturada com crenças orientais de transmigração de espíritos e almas gémeas. E há aquela história escandinava do Patinho Feio que é sempre, mas sempre, trocado por um cisne. Não era assim que acabava, pois não? Então, reescreva-se a história, em prol da verosimilhança.
Dizem que a papaia traz energia. No meu caso, a energia deu-me para isto, para reagir ao cansaço com a desistência subtil de quem sabe que perdeu, mas que não perdeu grande coisa. Emily pode ter chegado para ficar, durante algum tempo. Mas antes isso que ser a rapariga-fósforo. Ou o rapaz-ostra. Não achas?
Enfim, espero que entendas onde quero chegar, e que tudo o resto sejam delírios causados pela insónia, e pelo facto inédito e singular de ter feito duas mousses de chocolate numa semana, de estar prestes a ter duas ou três borgas quando já nem me lembro da última e de observar o tempo a passar e tudo em mim a mudar sem conseguir atribuir grande sentido à mudança ou grande destino à viagem.
Se estou bem? Não sei. Mas estou. Sinto que não estava, que não estive, que me ausentei, e estou de volta, de regresso. Não a casa, que continuo a não saber bem onde isso é, mas a mim. Andei vagueando num deserto e sinto-me, como direi, a andar em linha recta.
Muitos Beijinhos,
Jade.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Basta

Às vezes, por piores que possamos parecer, no fundo temos muito bom feitio. Somos demasiado tolerantes, demasiado compreensivos e, consequentemente, demasiado infelizes. Passamos o tempo a justificar atitudes alheias, a dar segundas e terceiras, milhares de novas oportunidades, convencidos que a primeira impressão é a verdadeira, que as pessoas merecem a nossa preocupação, o nosso carinho, a nossa boa-vontade. Tornamo-nos escravos dos humores alheios, mendigamos sorrisos e palavras simpáticas, colamos demasiadas vezes o coração partido quando o dia é de ignorância, indiferença, apatia. Revemos as nossas atitudes em busca de uma culpa inexistente para o mau-humor de outrém, mas o que foi que eu fiz desta vez, que terei dito?
E depois há um dia, sem motivo aparente, em que dizemos basta, chega, já é suficiente, enchi, bola para a frente, não aturo mais esquizofrenias, estava enganada, não vale a pena, vira a página. Tudo em nós encolhe, enfim, os ombros, dá um grande suspiro e vira as costas. Tudo em nós, finalmente, deixa de querer saber se é dia sim ou dia não, se é dia de festa ou de velório, se somos importantes ou irrelevantes, convencendo-nos que somos, fomos, somente, irremediavelmente estúpidos. Mas que não ficaremos permanentemente assim.
E nesse momento de cansaço e alívio, voltamo-nos para o que é constante e coerente na nossa vida. Para os detalhes bonitos de nós mesmos que estavam há muito esquecidos na gaveta, para que não ofendessem ninguém. Deixamos a nossa essência fluir, goste quem gostar e doa a quem doer, pois então.
Leves, sem o peso das avaliações, dos julgamentos e dos comentários dos outros, para quem passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, e vice-versa no dia seguinte, bebemos um copo entre amigos ao pôr-do-sol, sem medos do que pensam de nós, e damo-nos ao luxo de rir, sorrir, conversar, dizer parvoíces, ser concupiscentes, mandar o mundo dar uma grande volta, entre um caracol comido sem palitos, e um golo de uma imperial estragada.
"Dez meses de aulas e agora é que há borgas todos os dias!". Pois é, jovem. É que faltava a Jade e a Mzinha a trocar as voltas ao sistema, a desafiar o pessoal para a vida, a fazer de demónios quando a noite cai. A Mzinha precisava, apenas, de um pretexto. A Jade precisava, urgentemente, de acordar. E para acordar, caro veterano, mais vale tarde que nunca.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Healing the Soul

Ainda há pouco, enquanto, de forma já ritual, desinfectava e ligava o meu cotovelo magoado, pensava noutras mãos, que tantas vezes me punham água oxigenada nas feridas, pomadas nas irritações, me distribuíam dolvirans, kompensans e vitaminas. Mãos suaves e seguras de homem, que me mediam a tensão arterial em silêncio e olhavam de forma grave um termómetro que gritava febre. Lembrava com ternura e saudade o meu avô, grata por ele nunca ter sabido que a neta, tão bonita, tão perfeita, tão rara, tinha uma doença parva e pouco conhecida, que lhe consumiria os orgãos e a paciência, e que não se podia prevenir, apenas remediar.
Ao lembrar o olhar do meu avô, ocorreu-me o teu. Ocorreu-me um instante breve na nossa história, em que me disseste "não me olhes assim, que não te posso valer". Outro momento em que disseste que era o teu forno íntimo, e como essas palavras me marcaram para a vida, esse calor de forno a aquecer-te a alma fria.
Tu não lês estas palavras, não lês quaisquer palavras das cartas que te escrevo tantas vezes, ainda, sempre. Das palavras que te escrevo a fingir que não são para ti, que não são para ninguém. Não lês nem eu me atrevo a que o faças, com esses olhos gelados que já nenhum forno aquece, ou pelo menos, não o meu.
Também eu deixei de ler, não os teus escritos, e esses retorno, de quando em vez, para que a minha loucura não me convença que apenas te sonhei em tempos. Já não te leio os olhos, a pele, as mãos. De repente, o que era a minha casa passou a ser um país estrangeiro de linguagem indecifrável. Se calhar, procuro sem encontrar aquele olhar terno e gesto suave próprio do meu avô que vi em ti um dia. Se calhar, a minha necessidade de protecção suplanta a minha condição independente e auto-suficiente. Se calhar, as minhas próprias mãos, também seguras, já experientes, e também meigas, ligam um cotovelo ferido sem conseguir chegar à alma para lhe fazer o mesmo.
Ontem, num filme violentíssimo, a que um colega meu se referiu como "uma grande cóbóiada", expressão essa que ainda agora me arranca uma valente gargalhada, nesse filme, dizia, houve uma frase que me marcou e me acompanhou o dia, leitmotif de alguns momentos singulares de hoje: "O tempo que passas a recuperar o que perdeste é, apenas, mais tempo perdido". Como perdida ando eu nesse tempo perdido, à procura, ou antes, à espera, de umas mãos ternas e firmes que me desinfectem e ponham um penso rápido na alma.

Perfilados de Medo

PERFILADOS DE MEDO

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
(A. O'Neill)


Embora viva a vida com este poema a ecoar nos ouvidos, há alturas que, americanista como me considero, as palavras de Thoreau me falam mais alto:
“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I have not lived.”
A vida sem viver pode ser mais segura, mas no momento do último suspiro, não quero, não quero, não, perceber que nunca vivi. Viva-se. Vivam-se amores impossíveis, não se calem palavras importantes, não se faça dos dias grãos de areia a escorrer entre os dedos do tempo. Agarrem-se oportunidades, não se escondam sorrisos, não se evitem abraços, não se contornem alegrias. Viva-se enquanto é tempo e o tempo existe em nós e dispomos dele com os que amamos. "I want to suck the mearrow of life", já há tanto dos nossos dias que nos é imposto, porque fugimos da pouca liberdade que temos de viver, por estarmos "perfilados de medo"? Se toda a gente sabe que a vida são dois dias, porque passamos um imersos em obrigações e o outro com medo de viver?

domingo, 1 de junho de 2008

Simplicidade

Hoje estive a ouvir Organic, de Joe Cocker, um disco velhinho que me apaixona. Apaixonam-me as coisas mais simples do mundo, talvez por ser uma pessoa tão complicada.
Senão, vejamos:
...
You are so beautiful to me
You are so beautiful to me
Can't you see
You're everything I hoped for
You're everything I need
You are so beautiful to me
...
Such joy and happiness you bring
Such joy and happiness you bring
Like a dream
A guiding light that shines in the night
Heavens gift to me
You are so beautiful to me
...
É certo que tenho o dom de chorar facilmente, de me comover facilmente. Mas apenas com filmes, livros, poemas, melodias. E sempre com coisas simples e inesperadas. A perfeição reside nos pequenos detalhes.
Já me escreveram coisas lindíssimas, sou uma privilegiada a esse nível. Já recebi belas sms, poemas geniais, cartas inacreditáveis, mails espectaculares. Mas continuo à espera do dia em que, assim, em meia dúzia de versos, alguns repetidos, alguém me consiga fazer sentir verdadeiramente amada, única, necessária, um presente, uma luz; alguém me faça sentir bela, por olhar para mim e me ver realmente bela, em vez de magra demais, de nariz grande demais, de formas lisas demais, de tudo aquilo que, de facto sou, mas os olhos do verdadeiro amor não vêem.
O meu reino por um poema de amor de poucos versos que diga tudo. O meu reino por um momento perfeito, que faça esquecer toda uma vida, cale todas as vozes e se transforme no meu mundo inteiro.

Dias Felizes

Hoje é Dia da Criança.
Quando eu era pequena, este era o dia mais aguardado, juntamente com o Natal e o Aniversário. Eram, sempre, dias felizes, com presentes, sorrisos, beijinhos e abraços, festas, doces, amigos. Dias Felizes.
Da infância guardo alguns momentos de alegria absoluta, as férias em Sesimbra, as idas à Bertrand, à feira do livro, a Belém e à Boca do Inferno com o meu avô, o circo Chen e o cinema na companhia da minha mãe, as máscaras de Carnaval na escola, o início das aulas com cadernos, livros e toda uma parafernália de objectos de papelaria a estrear, os chocolates que a minha tia me trazia sempre, regina com sabor a morango, as visitas de estudo ao Museu dos Coches e ao Parque do Alvito, as horas a fio passadas a encenar festivais da canção, com as minhas primas, que depois apresentávamos à família, e se reduziam ao repertório completo das Doce, que ainda hoje sei de cor, as tardes passadas a ver a Inha fazer milhares de rissóis e a encher a barriga da massa por tender, os dias a fio em casa da minha porteira a fazer festas a pintainhos e coelhinhos, e a roubar nêsperas directamente da árvore, os fins-de-semana de volta da Barbie e dos milhares de acessórios que me ofereciam, ou deitada de barriga para baixo em cima da cama a ler Patrícias, Susis e Danielas. Lembro-me do dia em que o meu avô me deu uma máquina de escrever. Lembro-me muito bem do seu cheiro, do radex para apagar, das vezes em que vociferava de dor quando enfiava um dedo entre as teclas, das histórias sem fim que escrevia a imitar a Enyd Blyton e a Condessa de Ségur. Lembro-me da minha casa cheia de música clássica e Bossa-Nova, Caetano e a irmã, Cohen e Carlos do Carmo.
Dias felizes.
Hoje passei o Dia da Criança a fazer máquinas de roupa, a passar a ferro e a arrumar o quarto; ouvi música e vi um bom filme, com Javier Barden, que me arrepia sempre, me delicia e me preenche, com aquela vaga sensação de que o conheci noutra vida, talvez por achá-lo tão parecido com H., na expressão facial e na intensidade do olhar. Mas comi M&Ms, e olhei para as nuvens, a inventar-lhes formas... uma homenagem à criança que fui um dia, e fazia o mesmo, mas com smarties, sentada imóvel na varanda do quarto dos avós, ainda muito pequena mas já com saudades do futuro.