Prometi aos meus amigos que escreveria hoje, depois da derrota da nossa selecção, um texto com este título. Por inúmeras razões e algumas private jokes. Até já tinha, ao jantar, ensaiado a introdução, da qual já não me lembro... ainda estais cheios que nem bodes, lambões? Também eu... se disserem ao Pan que comeram gomas como condenados em minha casa ponho-vos um processo por difamação...
O destino dos pavões armados é o enxovalho em grande estilo. O destino dos pavões armados é jamais se deixar passar o epíteto de Mourinho do Desporto Escolar, sempre que começam a arrulhar dotes para sintonizar rádios. E quando o pavão diz," E pavonas? ninguém fala das pavonas?", toda a gente se lembra da pavona pela qual todos, sim, todos os pavões armados se vestem de gala. Embora só alguns babem dos bicos, "ai, esta pavona põe-me doido, ou tira-me do sério, ou inspira-me ao desporto", ou something like that. Mas ninguém comenta, só emendam, não é pavona, pá, é pavoa, e ele, foi de propósito, e nós, pois.
Pois é. Depois de um fim-de-semana de esplanada e correcção de testes, a viagem deu uma reviravolta fatal, quando um determinado pavão veterano se resolveu atirar ao chão e lixar um joelho. Lá tiveram duas pavoas que ir ter com outra a Viseu, para voltar para a Cidade de Deus. Juntaram-se então ao pavão-mor para ver o jogo, e ver onze pavões levar uma arrochada tal que até apitaram. Comeram quatro pavões que nem condenados à morte. E riram-se e tiraram fotos. E riram-se mais. E foram controlados pelos progenitores, que isto de nascer de um ovo tem muito que se lhe diga...
Esta pavoa entrou finalmente em Countdown. O segundo, em duas semanas, a ver se é desta que suspira de alívio ou se vai haver moelas de pavoa servidas em prato de tasca, apre...
Mas a verdade é que estou bastante calma, dadas as circunstâncias.
Estas alturas separam o trigo do joio. Dizia à Li, na última quarta-feira, que houve gente que não me desejou "Boa sorte", gente que, mais do que esperar que o fizesse, queria que o tivesse feito. E houve gente que eu sei que não pode comigo que o fez, e a quem eu agradeço a humanidade. Apesar de não gostarmos das pessoas ou aprovarmos as suas atitudes, a humanidade que há dentro de nós solidariza-nos com os dramas alheios, e gostei que alguns colegas se tivessem chegado ao pé de mim com simpatia, mesmo quando nunca o fazem. E fiquei muito sentida com outros, de quem esperava muito, muito mais do que fizeram que foi nada. No entanto, mais uma vez, a Li foi sábia: faz falta como um cão à missa, deixa lá isso.
O trigo e o joio.
Comentei com a minha mãe a decepção que continuo a sentir perante a pequenez da condição humana e ela olhou para mim com aquela cara que faz quando não me quer insultar, mas não lhe surgem palavras elogiosas para me classificar. Abanou a cabeça e disse... ainda vais a tempo de deixar de julgar os outros por ti.
Desde sexta-feira, seis (treze, para mim), muita coisa mudou. Tal como disse, estou a viver o momento, num hiato temporal que não admite presenças ausentes. Neste momento, preciso de todos os que estão. Quem não está agora, não estará mais. Eu conheço-me muito bem. E lembro todos os momentos difíceis que tive na vida, já foram alguns, e sei quem lá esteve. E também sei quem me falhou. E quem me falha em momentos cruciais não repete a graça.
Neste instante, sei com que pavões me coso, sei em quais confio, sei quais habitam a mesma capoeira, os que me envolvem com as suas penas, os que grasnam e arrulham a meu lado. É um grupo restrito, mas especial. Raro. E só faz falta quem cá está, a dar força, ternura, coragem, sorrisos, abraços, beijinhos, tudo com fartura, naturalidade, sinceridade. Os que são verdadeiros e coerentes. Que me mostram, em tempo útil, que me amam. Porque, com a dúvida que paira, este é o momento de dizerem que me amam. Adiar é não levar a sério a situação em que, para o bem ou para o mal, me encontro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... é a hora! (Pessoa)