terça-feira, 29 de abril de 2008

Mais uma volta, mais uma viagem

Sabem quantas vezes eu subi e desci escadas hoje até ao segundo andar, carregada de caixas e sacos, sabem, sabem, sabem? Então, calem-si!!!
À primeira já eu dizia mal da minha vida.
À segunda, perguntava porque raio não pus os meus pascoalinhos a trabalhar em série, escada acima.
À terceira, lembrei-me de todos os colegas que ofereceram ajuda durante estes dias, e ao meu idiota não, obrigada, a gente trata disso num instantinho...
À quarta... deixei de pensar seja o que for.
A duas ampolas de Geleia Real por dia, diz a Pêlo Russo que estou eléctrica, mas eu estou é com super-poderes!!!
E a considerar, não muito seriamente, como de costume, deixar de fumar... e daí, é melhor não, ou passo a ser a versão da Super-Mulher arraçada de Bruxa-Madrasta. É que o meu bom humor continua em alta, e só pode ser da nicotina, apre!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Noite de Reveillon

Conheço-te há anos e gosto de ti desde sempre. Por isso, acredites ou não, acho imensamente divertido que me tivesses detestado, apelidado de ressabiada, de comunista, de tudo aquilo que a minha máscara, que funciona na perfeição, pretende que quem não me conhece pense de mim. Já tivémos esta conversa, é-me útil e confortável que as primeiras impressões façam de mim uma pessoa temível. E contigo resultou. Imagino-te a pensar, esta gaiata é parva, apre! E rio-me.
Os anos passaram com encontros casuais, conversas de circunstância, a minha simpatia sincera e a tua diplomacia de político experiente. Um charme, sempre. Um sentido de humor subtil numa cara séria emoldurada por um sorriso permanente.
Foi preciso um reveillon em família para que os teus olhos me sorrissem, a par com os teus lábios. Conheci-te há anos, tu só me conheceste naquela noite, no meio de uma casa cheia de gente simpática e bem disposta, feliz por estar junta, entre amigos de sempre.
Pois, houve um abraço, forte, sincero. Um voto genuíno de que o próximo ano fosse, pelo menos, melhor que o que passara. E está a ser, não está? Para mim, está, nem que seja porque tu, agora, fazes parte daquele grupo restrito que mora no meu coração. Duas ou três conversas sérias bastaram.
Já te disse, agora publico: és uma alma rara. Apavoras-me com os teus silêncios, não sei ainda interpretar muito do que os teus olhos bonitos dizem, mas tu calas. Gosto da tua calma, da tua voz baixa, da forma como falas e me dizes coisas em que nunca tinha pensado e fazem todo o sentido. Pertences ao Mundo dos Adultos, e ouço-te, prezo as tuas opiniões, respeito esse espaço que é só teu. Intrigas-me, surpreendes-me, jamais me decepcionas. Acho que é por teres uma sensibilidade muito própria, alma de professor que explica as coisas com uma paciência infinita, num tom de quem fala permanentemente com uma criança de 5 anos, agora, vais ali ao congelador buscar os copos, mas pegas-lhes pelo pé, está bem? E eu, que detesto que me infantilizem, adoro seguir as tuas instruções. E, se naquelas primeiras conversas, te atirava argumentos que te deixavam em fúria, sabes quem é o pai da social-democracia, sabes? MARX!, agora poucos argumentos tenho para te oferecer, porque me parece que estás a anos-luz de lucidez e maturidade, em relação a mim.
Tens uma força interior que eu admiro e invejo. Sabes do que estou a falar, encaras as agruras da vida com a naturalidade de uma rocha batida pelas vagas de Inverno. Mas queria dizer-te, hoje, sobretudo hoje, que me deste de presente a melhor sms de todos os tempos, queria dizer-te que, se quiseres abrir um parêntesis nessa tua solidão intrínseca de quem aguenta "tantos stresses sozinho", eu estou aqui. Não sou grande ajuda, nem grande conselheira. Mas sou uma excelente ouvinte, e tua amiga incondicional. Sabes o que quer dizer incondicional, não sabes? No teu caso, quer dizer que pouco me importam as vezes que não me respondes a sms, que não retribuis fives provocatórios, que finges que emigraste para outra galáxia, no worries: a um simples olá, bom dia, como vai a menina?, o meu sorriso é o mesmo, a minha disponibilidade, igual, a minha presença, constante. Não tens que passar por tudo sozinho. Já não terias, com certeza, antes de 31 de Dezembro. Agora, ainda tens menos.
Olho para ti, e para além de seres da "minha" família, simbolizas tudo de bom que há numa noite de Ano Novo.
Onde estão os meus beijos?
Sempre o mesmo beijo, para ti... só muda o cenário.

A Maya não anda bem...

Sagitários… be aware! A Sôdôna Maya anuncia-nos uma semana terrível! Até Sábado é suposto que tudo nos corra mal. Foi com este espírito que fui hoje para a escola, com um cabelo que espelhava bem a dificuldade que é usar um secador e um pente com apenas um braço operacional. Olhei para o espelho e disse, ai, Jade, de facto, para além de esquelética, não és mesmo nada atraente… NUNCA vais arranjar namorado, NUNCA! Muito menos esta semana... e ri-me.
Mas a Maya deve andar com os copos. O dia correu suave e bem-disposto, os alunos estavam amorosos, os colegas, aqueles que contam, claro está, também. Claro que não teve piada nenhuma o Dr. F. dizer, em frente ao pedo-psiquiatra clínico, que eu já tinha idade para não sofrer de hiperactividade com deficit de atenção, mas a verdade é que todo o Conselho de Turma teve episódios de ausência, não fui só eu, ora essa!!! E também não percebi a cena de todos olharem para mim quando se falou de despedidas de solteiro: primeiro, porque toda a gente, excepto o noivo, sabe que eu só me vou casar no dia 9/9/2009 e é cedo para começar a pensar em festas; depois, porque não sou a solteira mais velha… ainda nem fiz os 25 aninhos!... Os professores são piores que os gaiatos e este Conselho de Turma específico devia ir todo a Conselho Disciplinar… eu cá voto em 10 dias de suspensão para todos, boa? Especialmente para a professora de Filosofia!!!
Adiante. O dia correu ainda melhor porque já temos, na nossa posse, a chave do T3! E já lá fomos deixar coisas! É oficial, vamos voltar ao conforto de uma super-casa com super-electrodomésticos, e o meu quarto tem uma super-cama king-size, e uma super-parede cor-de-laranja a condizer com uma super-colcha da mesma cor! Ouviste, Vzinha? Laranja… lindo!
Por fim, recebi uma sms de um ser especial e único, sensato e bonito, que me fez corar até à raiz dos cabelos de vaidade. Bolas, pá, a Maya deve andar, positivamente, a dormir. Ou seremos nós a fazer o nosso destino? Ou serei também eu, tal como a Li, um Sagitário com ascendente em Hello Kitty, um caso raro de rispidez e doçura, que escapa aos astrólogos por merecer, somente, o melhor? É que neste momento sinto que tenho a melhor mãe do Mundo, os melhores amigos do Mundo, os melhores alunos do Mundo, a melhor casa do Mundo e a melhor companhia do Mundo… o que é um bracito magoado, comparado com isto?

domingo, 27 de abril de 2008

De Regresso

Hoje o dia começou tarde, tal como eu gosto. Dormi muito e bem, e o tempo fez o seu papel. Acordei, enfim, quase sem dores, como se o corpo dissesse, vá, hoje precisas de mim, toma lá uma abebiazinha, vais conduzir com os braços perfeitos, ou quase.
Saí com a minha mãe a saltitar ao meu lado, toda contente. Ajudou-me a tomar banho, para não molhar a ligadura, e estava com aquela disposição leve de quem sabe que o pesadelo já faz parte da memória. Fomos tomar café, e eu, olha aquele, que jeitoso, eu sabia que devia ter posto o risco nos olhos, e ela, ai não acho nada, e eu, se calhar devias pôr os óculos, e ela, olha! Eu viro-me para trás e vejo entrar, no café da minha rua… o Sr. Rui Reininho!!! Fiquei embasbacada: elá, afinal o jeitoso faz parte da banda, e a minha mãe, bolas, tens jeito para detectar artistas, tu…
Seguimos para o Pingo Doce, e, quando chegávamos a casa, ouço música. O meu senhorio tem uma banda, e ensaia num mini-estúdio lá no prédio, e eu, olha, hoje temos concerto, e antes que a minha mãe dissesse fosse o que fosse, olá, mas é o Rui Reininho a cantar! Pois é, cena de filme, concerto ao vivo dos GNR no meu prédio, e eu especada do lado de fora, sem pagar bilhete a ouvir… Demais!
Lá subimos as escadas, que o elevador está avariado, e carregámos o carro com os GNR a bombar ali ao lado, e eu a pensar… o David Fonseca, esse é que era, ou os Xutos, ias ver se me ia embora sem dar beijos a todos e fazer uma cena triste de todo o tamanho… nunca ninguém está contente, pois.
Ainda mal tinha saído de Lisboa, telefona-me uma amiga, então que tal, conversa puxa conversa, e fiquei a saber que há gente de todos os tipos a ler o blogue, e a querer saber onde fica exactamente Green Acres, talvez, quiçá, para cá vir matar umas galinhas pretas à porta, em noite de Lua Cheia…
Green Acres fica nos arrabaldes da Cidade de Deus… quando sais, pela saída dos autocarros, segues as placas que dizem “Fim do Mundo”, viras na terceira à esquerda e, quando vires a Travessa da Coscuvilhice Gratuita, paras na porta que diz “Mete-te na tua Vida” e bates. Se disseres a senha, que é um simples “Bom Dia”, que é tão custoso a tanta gente dizer, podes entrar…
Entretanto vim em alegre conversa com essa minha amiga, em profundo desrespeito pelo código da estrada, mas feliz, por estar a conversar sobre assuntos leves, feliz por estar de regresso à vida real, às coscuvilhices hilariantes, aos pormenores sórdidos, aos detalhes absurdos da natureza humana. Já não me ria há algum tempo, e rio-me sempre quando falo com esta rapariga, de ideias fixas, espírito determinado e visão clara do futuro e das pessoas.
Prometi escrever um texto a propósito das coisas que me contou hoje, mas ainda não é desta, vais ter que esperar, minha menina, há-de ser sem aviso, de surpresa, e não restará pedra sobre pedra na Cidade de Deus e arredores… porque não há nada que me puxe mais à veia poética que gente parva… e que manancial existe, Senhor!!!

sábado, 26 de abril de 2008

Bloco Operatório

O Bloco Operatório é um Não-Lugar. Para quem não esteja familiarizado com a teoria filosófica de Marc Augé, um Não-Lugar é um sítio sem identidade, um espaço vazio de identificação emocional.
Não há sítio onde me sinta mais sozinha e frágil, não há sítio em que o medo, na sua forma mais escura e abissal, tome mais conta de mim. Para começar, há a questão da nudez. A nudez física, em si mesma, é brutalmente avassaladora, o estar nua, perante gente que não conheço, é mais que embaraçoso, é aterrador, não há hipótese de defesa, quando te encontras nu no meio de gente vestida. E de facas e tesouras na mão. É como vivenciares um dos teus pesadelos recorrentes e saberes que não vais acordar em sobressalto, coberta de suor.
E depois, há a questão da anestesia local. De estares acordada, a sentir que te estão a cortar, a mutilar de alguma forma. A médica que me operou é cirurgiã plástica e já me tinha operado uma vez. Mas eu estava a dormir. Descobri que opera em silêncio, e isso foi muito, muito traumatizante. Fiz-lhe duas ou três perguntas a que me respondeu laconicamente e desisti de fazer mais. Foi um tempo muito opressivo, e parecia não ter fim.
A minha mãe foi comigo. A minha mãe está sempre comigo e não sei que seria de mim sem ela. Mas não pude deixar de pensar, naquele bloco onde o tempo parecia não passar, que gostaria de ter outra pessoa, ao lado da minha mãe, à minha espera. Outras pessoas. Um pai, ou irmãos que lhe estivessem a segurar na mão, enquanto esperava por mim sozinha; um marido ou um namorado que me desse um beijo quando tudo estivesse terminado, mais alguém. Mais presenças, mais família directa, mais alicerces.
E tive muita pena de mim mesma, e muita pena da minha mãe, que é a pessoa mais espectacular do Mundo e não merecia ter uma filha que lhe desse, involuntariamente, mas mesmo assim, tanto sobressalto; uma filha inteligente com uma doença estúpida. Não merecia. E eu também acho que não merecia, passar tanta dor física, quando as emocionais já me enchem as medidas e sobram.
Dizem que a pena é um sentimento depreciativo, que não se deve ter pena de ninguém. Eu não acho. Acho que é um sentimento inútil e passivo, mas solidário, genuíno e positivo, apesar de tudo. Naquele bloco operatório, anestesiaram-me o corpo, mas não me deram analgésicos para a alma, e enquanto cortavam e cosiam, o meu espírito gritava de revolta, e as lágrimas corriam cara abaixo, a saber a sal, a frustração e a injustiça.
Correu tudo bem? Multiplicaram-se as sms dos meus amigos, preocupadíssimos. Sim, felizmente, respondia eu com a voz do costume, do não se passa nada, do estou pronta para outra.
Mas não estou. Estou muito farta disto, para ser sincera. Dói-me muito o corpo, para a semana vou trabalhar e quero ver, quero ver só, onde vou arranjar forças para tudo o que tenho que fazer.
Há muitos leitores deste blogue que me ligaram, e a quem agradeço. Apesar de estar muito em baixo, vocês dão-me forças e é bom ter amigos. Também houve gente que podia e devia ter ligado e não o fez, e a esses, só posso dizer que lamento. Houve ainda gente que me trata abaixo de cão sempre que pode, me faz a vida num inferno com plena consciência disso, e teve o descaramento de ligar. A esses, só posso dizer que lamento ainda mais. Agora, aos que me estimam, e me demonstram isso todos os dias, e me querem bem e estão realmente preocupados, e me acompanham, e estão sempre dentro do meu coração, fazem parte da minha vida e eu faço questão que assim seja, a esses, muito, muito, muito obrigada. Não tarda, estou aí... não tarda, com a vossa ajuda, estarei pronta para outra, prometo. Porque se existe força curativa poderosa, essa força é o Amor, em todas as suas formas.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Homens...

Quem disse que os homens são todos iguais, disse-o a quente, porque nos enfurecem, a gozar, porque eles provocam o nosso escárnio, na ignorância, porque permanecerão sempre um mistério para nós, ou a generalizar, porque, de facto, são todos muuuuuito parecidos.
Para mim, há dois grandes grupos: os filhos-da-mãe, ou trastes, e os meninos-da-mamã, ou tristes.
Todos os homens têm obsessões. Geralmente, a maior é o futebol. Os trastes são do Sporting. Os tristes, fazem parte dos outros clubes. Desses, há os insuportáveis, que são do Porto, e os mesmo-tristes, que são de um clube a que chamam Glorioso, por não saberem o que quer dizer “Glória”. Há que dizer que os três homens mais espectaculares que já conheci, de entre os quais o meu avô, pertencem a este clube vermelho (de vergonha) e branco (de… não se passa nada), o que vem provar a teoria feminina de que não há homens perfeitos. Três homens inteligentes, bonitos, cultos, informados… e adeptos de um clube cuja mascote dissemina a gripe das aves… estão apresentados.
Então, temos os filhos-da-mãe. Estes olham sempre para ti com um olhar que diz “eu sou do teu sexo oposto”, com um olhar sorridente que parece estar permanentemente a gozar com a tua cara, tipo Mel Gibson ou Bruce Willis; falam-te sempre baixinho, para teres que te aproximar mais deles; gostam de te tocar subtilmente num braço, numa perna ou tirar cabelos do teu casaco, compor-te uma madeixa rebelde ou, tirar-te uma pestana da bochecha; são uns dissimulados: dão uma no cravo e outra na ferradura; flirtam com todas as mulheres, mas ficam doentes quando um desconhecido te pergunta as horas a sorrir; dizem mal de todos os teus amigos masculinos, mas têm muitas “amiguinhas”; parecem nem ouvir o que dizes e depois atiram-te para cima uma frase que disseste há muitos meses… são irresistíveis.
Os meninos-da-mamã são os homens que deviam ter nascido gajas. Os bonzinhos. Os sensíveis. Os arrumadinhos. Os dependentes. Os melgas. Os inseguros. Os trágicos. Os exagerados. Os egocêntricos. Os carentes. Para isso, antes as mulheres, cacete, não há paciência.
Os meninos-da-mamã exigem a tua atenção constante, os filhos-da-mãe não te ligam nenhuma, por isso andas sempre atrás deles; os meninos-da-mamã dizem-te milhares de vezes que te amam e perguntam-te outras tantas se tu também, os filhos-da-mãe não te dizem nada e riem-se de ti quando és lamechas; os meninos-da-mamã adoram que os engraxes, mesmo que mintas descaradamente, os filhos-da-mãe desancam-te quando és exagerada, ridicularizam-te se te apanham a mentir e não podiam estar menos interessados no que pensas deles, porque eles sabem que são o máximo.
Eu, se fosse gajo, preferiria ser um filho-da-mãe, porque, convenhamos… quem conhece o James Bond acha graça ao Calimero?

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Papel de Jornal

Eu não disse que os contratempos da vida não são senão diamantes embrulhados em papel de jornal?
Numa semana, duas provas. Green Acres, convenhamos, ninguém, merece. Por isso, eu e Mzinha, dia 1 de Maio vamos mudar para um super T3, novo, com tudo aquilo a que temos direito... tudo!!! Estamos histéricas de felicidade, não há palavras que descrevam as nossas caras hoje, a ver tudo, de boca aberta, olhar esbugalhado, gargalhadas de prazer. Lindo. Um diamante em papel de jornal. Tenho a certeza de que vamos ser muito felizes naquela casa.
A segunda prova, bom, tem a ver com amor.
As mudanças, por mais que custem, trazem sempre muitas compensações. Muitas surpresas, muitas vitórias, muitas confirmações do que sempre achámos saber, mas nunca tivémos certeza. O tempo é o maior aliado. O tempo, mais cedo ou mais tarde, dá-nos razão, dá-nos sentidos, dá-nos de presente pessoas e circunstâncias: recompensa-nos. Hoje, por várias razões, sinto-me muito recompensada. Sinto que se começa a fazer justiça e que, de facto, cada um começa a ter, finalmente, o que merece.
No meio de tanto papel de jornal amachucado no meio do chão, os diamantes começam a surgir, preciosos, brilhantes, eternos, inigualáveis.
O novo ciclo já começou. Tardou, mas não falhou.

domingo, 20 de abril de 2008

Love Poem

i carry your heart with me

i carry your heart with me
(i carry it in my heart)
i am never without it
(anywhere i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear no fate
(for you are my fate,my sweet)
i want no world
(for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;
which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)

ee cummings

sábado, 19 de abril de 2008

Jade's Trivia

A vida, às vezes, afasta-nos do nosso caminho, obriga-nos a calcorrear estradas que não são as nossas, força-nos a fazer viagens para destinos pouco amigáveis. A vida, frequentemente, não nos dá tempo para apreciar as coisas boas que nos rodeiam, orientando as nossas escolhas para as nossas necessidades, em prejuízo dos nossos desejos e sonhos. A vida, muitas vezes, faz-nos esquecer quem somos, do que realmente queremos, daquilo que gostamos, afogados que estamos no vou chegar tarde, no ainda não mudei o óleo ao carro, no devia estar a trabalhar, no tenho que pagar a renda, no amanhã já é segunda-feira.
Hoje tirei umas férias da vida e concentrei-me nas minhas pequenas trivialidades, nos deveres que tenho comigo própria, naquelas obrigações da alma em que falho constantemente por não querer falhar nas outras, as da vida.
Peguei em mim e saí, desafiando a chuva e o vento com uma simples canadiana de flanela grossa e capuz castanha. Little Chocolate Riding Hood. Apetecia-me imenso viver.
Depois de muitos meses, muitos, de jejum, fui ao cinema. Dan in Real Life. Uma história simples, nada de novo a acrescentar, quando se trata de crítica cinematográfica, mas uma Juliette Binoche que será sempre uma musa nas suas interpretações magistrais. Um fenómeno de ternura, esta mulher. Um filme que dá atenção aos pequenos detalhes do dia-a-dia, um cinto de segurança que bloqueia, um cai-cai a ser puxado para cima pelas mãos da mulher que o veste, diversas cenas embaraçosas, outras tantas hilariantes, e uma história de amor banal de final feliz, que a Binoche merece. Temos, ainda uma citação com o seu quê, "Make plans to be surprised", e a reconciliação da Jade com os seus pequenos prazeres individuais.
Antes, tinha-me permitido a compra do último livro do Murakami, A Rapariga que Inventou um Sonho, sim, Pan, não precisas de o comprar, do qual li umas páginas enquanto tomava café e esperava pelo início da sessão. Depois disso, peguei em dois ou três daqueles postais for free e fui ao minifrutalmeidas comer uma fatia de bolo de morangos e um copo de sumo também de morangos. E que satisfação, um livro novo, um filme no cinema e morangos... perfeito. Num dos postais, uma publicidade ao aniversário de uma revista feminina, que consiste na enumeração de frases iniciadas por Gosto de... e Adoro...
Fiz a minha própria lista mentalmente. Parece não ter fim. E o que é mais estranho é que passo pouco tempo dedicada a fazer, ver e sentir coisas de que realmente gosto. Parece que, algures no caminho, me perdi de mim, preocupada que andei a manter-me ao nível das expectativas dos demais. E o que é triste é que a maioria desses demais nem são, sequer, pessoas de que goste ou que respeite. E o contrário também é verdade. Porque dispendemos tanto tempo a tentar provar que somos bons, competentes e responsáveis a quem se está, positivamente, nas tintas para nós e rejubila, isso sim, com os nossos fracassos?
Jade's trivia: Gosto de... acção: ler, escrever, caminhar, viajar, ensinar, rir, conversar, jogar póker de dados e tetris no telemóvel, fumar, beber café e copos com os amigos, comer coisas que fazem mal, abraçar e beijar, fazer festas a animais de estimação, ir ao cinema e ao teatro, à praia e à piscina; sentimentos: flirtar por sms, que me falem baixo, que me falem tão baixo que tenham que me sussurrar ao ouvido, que me falem ainda mais baixo por um olhar e sem palavras, que me toquem subtilmente, que me ofereçam um único girassol, ou uma única túlipa, ou uma solitária geribera, que me sorriam, que se riam das minhas piadas, que me escutem com atenção, que me olhem nos olhos, que me liguem de surpresa, que me convidem para um fim-de-semana ou para um jantar, que me escrevam cartas e poemas, que me provoquem tremores nas pernas ou cultivem butterflies on my stomach; objectos: livros, CDs, DVDs, perfumes, relógios, malas, écharpes, pulseiras, colares, calças de ganga e mini-saias, cremes hidratantes e bâtons, isqueiros, lápis, post-its coloridos; imagens: mar, campos de flores, arco-íris e estrelas cadentes, neve, palmeiras, Nova Iorque e Londres, o Tibete e o Japão; pessoas: amigos, família e outros. Tu. Um tu que me aquece, protege, e me faz sorrir, que é tão raro. "A "stôra" passa a vida a rir-se", "Tu ris-te muito mas sorris pouco".
O meu mundo de trivialidades é o meu mundo do que é realmente importante. Hoje tirei férias da vida e dei a volta ao Mundo. A esse mundo. E ainda não regressei... porque escrever faz parte dele, bem como o que vou fazer a seguir.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Post Scriptum a Momento...

A Miss Covilhã ligou-me há pouco, a dizer que a irmã da minha colega faleceu. Parece que, se tudo tivesse seguido a ordem natural das coisas, se não tivesse havido a intervenção de um anjo, daqueles de que falava há dias, que lava a louça, cuida dos filhos e paga impostos, parece que se o anjo não tivesse transportado a irmã ao seu destino, não se teriam conseguido despedir.
Mas conseguiram.
E eu estou muito triste, mas muito aliviada, porque a minha colega, cujo desgosto e luto assolam esta noite, teve a sorte suprema de encontrar um anjo no caminho que permitiu um último abraço. E, um dia, isso vai pesar, vai fazer toda a diferença, e há-de fazê-la sorrir.

Momento...

Há momentos surrealistas na vida de uma pessoa, momentos em que nos perguntamos que diabo de força superior mexe os cordelinhos para nos fazer dar de caras com um desconhecido que parece ficção. Nada do meu dia de hoje estava previsto quando acordei.
A ideia era encarar de frente o primeiro fim-de-semana sozinha em Green Acres e fosse o que Deus quisesse, entre mini-testes de Verbos Irregulares e as palavras sussurradas do meu Auster, com um CD em pano de fundo e várias viagens à Cidade de Deus, para compras, cinema combinado com alguns alunos, Sweeney Todd, e uma ida à Disco ouvir House hoje ou amanhã com F.
Cheguei à escola e dei de caras com um drama da vida real, uma colega cuja irmã está a dar o último suspiro, a 5oo e tal Km de distância; o desespero de não conduzir um carro e não ter boleia que lhe garanta a chegada a tempo de uma derradeira despedida, um último beijo, um grande abraço para a viagem, um até breve, lá nos encontraremos. E outra colega, nascida. criada e residente na Cidade de Deus, que, a meio da manhã, diz, que se lixe isto tudo, vou-te lá levar e é já. Estas são coisas que me deixam sem palavras e me fazem vir lágrimas aos olhos. É uma lição de vida, a todos os níveis, é uma quantidade de sentimentos intensos atirados como um estalo à cara de uma pessoa; tremeram-me todos os alicerces, por todos os motivos, pelo desespero dum amor fraternal, pela saudade da partida de um ente querido, pela profunda bondade e generosidade de alguém que sai do seu mundinho para fazer 1000 e tal quilómetros num só dia, porque sim.
Quando me falam de Carpe Diem, já faço um sorriso de troça, como aquele que faço a todas as modas parvas, tipo, já cá faltava o Carpe Diem... carpe noctem, pá, ide-vos lixar. Nunca fui uma obcecada com o aproveitar do momento, isso para mim são chavões e lugares comuns. A vida é difícil, pesa, é cheia de obrigações e deveres, de listas de coisas para fazer, de más notícias, de problemas... qual carpe diem, qual história. Aproveita o momento, pois, aquele momento em que chegas cansado do trabalho e tens pilhas de loiça para lavar, e o teu filho está doente e tens que ir às urgências de um hospital repleto de gente cheia de dramas e dores, sim.
A minha noção de Carpe Diem é uma noção altruísta. Quero lá saber se morro amanhã, e não vi Nova Iorque, não me casei nem tive filhos, perdi o amor da minha vida e nunca o recuperei; quero lá saber se morro amanhã e não acabei o mestrado, nunca tive casa própria, nunca me realizei emocionalmente... morri, morri, acabou, fiz o melhor que pude com o tempo que me deram, conheci gente maravilhosa, fui conquistada por vários olhares, diverti-me, apaixonei-me, amei, sofri, tal como toda a gente. A minha noção de Carpe Diem é aproveita o momento com os que amas. Isso sim. Jamais ficarei obcecada com o que não fiz, mas arrepia-me que os meus me faltem, de repente, como a irmã da minha colega parece estar prestes a fazer.
Por isso, não gosto de me zangar com os que amo. Por isso, gosto de elogiar os que me são queridos, gosto de pedir desculpas, gosto de lhes agradecer, gosto de os mimar e lhes oferecer presentes, gosto de saber como vão, como estão, o que pensam, sentem; gosto de os consolar quando precisam ou celebrar as suas vitórias ao seu lado; gosto de os beijar, de os abraçar, de os lembrar que gosto deles. As pessoas que escolhi para estar perto de mim têm que ser tratadas como se não houvesse amanhã. E o que vale é que são poucas.
Por isso, não me prendo facilmente a alguém novo... é uma grande responsabilidade; por isso, sou parca nas palavras com quem acho que não as merece; por isso, gasto muita energia a manter-me em vidas que não me procuram frequentemente, amigos distantes e preguiçosos, mas que eu amo, mesmo assim. Por isso, hoje peguei nas minhas coisinhas e vim para Lisboa, dar um grande abraço à minha mãe. Porque eu posso morrer amanhã, mas os que eu amo também não duram sempre, e eu já perdi um a quem dei tudo de mim, e mesmo assim ainda hoje o choro.
Fiz a viagem com uma leveza triste, tentando não imaginar o que a minha colega estaria a sentir nesse mesmo instante.
Quando vinha do parque de estacionamento, carregadíssima, um rapaz ainda jovem, mas mais velho que eu, interpelou-me, permita-me que a ajude... não perguntou se podia ajudar, tirou-me o saco de viagem dos ombros e seguiu ao meu lado. Em silêncio. E eu, muito obrigada, mas o caminho é curto, e ele, é um prazer. Eu sei que não tenho grande figura, sou escanzelada, e a minha imagem carregada de sacos de viagem não deve estar muito longe da da mula da cooperativa, mas não estava à espera desta. Sorri, e assenti. Quando parámos à porta voltei a agradecer e ele disse, quando a vi, veio-me à cabeça aquela música dos U2 que diz, a certa altura, "A woman needs a man, like a fish needs a bicycle..." Eu sorri e disse, como vê, não é bem assim... e ele, pois não, boa tarde. E foi-se embora.
Há momentos reais que parecem ficção e detenho-me a pensar que tudo acontece por algum motivo.

Poema a M.

E quando tu abriste esses olhos azuis ao Mundo,sabes,
E berraste o primeiro grito a plenos pulmões,
Já eu associava cores a notas musicais
Num pianinho de brincar.
E depois corrias por montes, por matas,
e eu olhava os carros da varanda do quarto dos meus avós,
Sonhando com Barbies e Tuchas, bonecas-princesas,
Dominós de madeira com figuras da Disney,
e livros de aventuras em que a heroína era eu.

E tu, na aldeia, entre penedos e lareiras,
já te darias a vãs filosofias,
ou serias, apenas, feliz, correndo atrás duma bola?
E quando eu chorava os dramas da adolescência,
e estudava para ser diferente do que de mim esperavam,
e fazia tudo sempre certo,
Já também tu querias ser perfeito?
Quando me ria na Faculdade, e fumava, e bebia,e saía à noite,
achando que o Mundo era meu,
Tu que pensarias, jovem caloiro, dum curso recentemente escolhido?
Eu, entre Blake, Byron, Shakespeare,
entre poesia, prosa, linguística,sonhos e imaginação de gente brilhante cuspidos no papel a ser dissecados...
eu,sonharia, eu, nesse tempo?
E quando acabaste o teu curso,
iniciando uma viagem anual pelo país,
sonharias, tu, nesse tempo?

O tempo meu encontrou, então, o teu.
O espaço, o mesmo, o nosso, o de cada um,
foi, num eterno instante, único.
O menino da aldeia, a mocinha da cidade grande.
Em comum, o quê?
Um corpo, uma vontade, um reconhecimento.
O espaço único como metáfora dum tempo ilimitado, infinito,
Eterno na sua efemeridade.
E continuo, por vezes, a olhar os carros da varanda dos meus avós,e a chorar dramas adolescentes,e a ler Byron, e Blake, e Shakespeare
filtrados, agora,pela luz dos teus olhos azuis.

19 de Outubro de 2005

Short Story a Pan, II

Dali's Picture

Num céu verde-esmeralda voam águias cor-de-rosa. Um corpo de mulher jaz nu, deitado na relva, pés na água corrente do rio.Onírico, surreal... diz que a água do rio não passa duas vezes no mesmo sítio; tudo muda, tudo se transforma. O sol laranja aquece-lhe a pele branca, láctea, pele sonhadora, perturbada, envolvida num turbilhão de boroboletas e libelinhas esvoaçantes, wanderers. Sometimes the one who wanders isn't lost, just travelling.Não se pode chamar psicose àquilo. Nem loucura. Nem sequer obsessão. Talvez tortura auto-infligida, aquela forma que ela tem de pensar em whirlpool, abelhinha de flor em flor apanhada numa brisa aos rebolões.E as crianças, senhor, as crianças?Que faz ela àquelas crianças? por enquanto lá estão com a irmã, enquanto ela aquece o corpo ao sol agora azul, mas e depois? Olha para o rio, que passa a vermelho sangue. Retira as pernas rapidamente, o coração a rebentar do galope, a cara em chamas, o corpo húmido do suor, a adrenalina do susto.Os miúdos, que faço eu aos miúdos?O rio continua a correr como hemorragia em hemofílico. Não é bom presságio, não é bom sinal.De barriga para cima, contempla o céu por trás das lentes escuras e pensa na eternidade.Estás lá, amor, estás lá. E o céu de verde passa a negro luto.Como expressar a história de amor vivida com alguém que já morreu? De repente. Há dois anos. Passou a fronteira para o invisível, anda para lá do firmamento. E ela procura-o sem parar, no céu verde-esmeralda, com a certeza que um dia vê passar um cometa e vai atrás dele.No início não fora assim. Corajosa, diziam uns; insensível,outros; adúltera, quase todos. Nenhum percebeu que o seu coração havia congelado para um dia, há pouco mais de um mês, se partir em milhões de pedacinhos que voltaram ao estado líquido, pingaram-lhe corpo abaixo e desapareceram rio afora.Queria o seu coração de volta e enfiava no rio as pernas, esperando que as lágrimas, peças-puzzle do seu coração, lhe subissem corpo acima e voltassem a congelar-lhe no peito. Queria que aquela água do rio voltasse a passar no mesmo sítio. Nada muda, nada se transforma. Repetia a litania vezes sem conta, até as palavras perderem o sentido e serem apenas sons, hipnotizantes, pontes para o subconsciente, o tom e o ritmo a marcar o compasso do submundo mental.Nada muda, nada se transforma e o rio passa mas há-de voltar, correndo da foz para a nascente, transportando as gotas do coração que lhe pertence.Nada muda, nada se transforma, onde está o meu amor, que não o vejo passar entre as estrelas?E as crianças, senhor, as crianças...os relógios derretem ao sol. 12/06/07

Short Story A Pan

Está sentada desconfortavelmente no sofá. Desconfortável na pele que tem, na vida que leva, jogada sobre o sofá do quarto alugado, a olhar para o vazio. Para além da janela de vidros embaciados, vê a neve cair em flocos. Negros como azeviche, preto petróleo, a acumular no beiral. Pegajosa, quente. É incompreensível, mas há estrelas esverdeadas a pespontar o céu chumbo.Ela olha o vazio, de coração acelaerado, um coração que não é seu nem de ninguém. Ao longe, algures, uiva um cão. vagabundo como ela, marginais, os dois. Deita-se de costas para a janela, posição de feto, útero materno. Sente o cheiro do próprio corpo, quente, suado de febre. Sente o sangue pulsar-lhe nas veias da cabeça, cheia, inundada de raciocínios ilógicos, de momentos desconexos, duma quase loucura que dói. Vê tudo violeta, de olhos cerrados com força. Pensa no pai, imagina-o, inventa-lhe os pormenores, faz ficção, cria a personagem, aqui o sorriso igual ao dela, ali o cabelo negro, não, grisalho, os olhos míopes, as mãos frias de pianista. O pai. Biológico, como a agricultura, ela mesmo ali um vegetal. Um pimento. Sim, um pimento, ou se ama, ou se odeia, sempre indigesto. Algum brilho exterior, interior oco. E aí vem o turbilhão, whirlpool de ideias, medos, inseguranças, ansiedades, arrependimentos, vergonha. Treme de frio, cheia de calor. O sofá é pequeno, ela também. Respira demasiado rápido. O cão cala-se. Concentra-se nos pequenos ruídos. Inexistentes. Cai o silêncio absoluto, sufoca. Imagina o pimento a mirrar. Pânico. Não lhe ocorre nada lógico, nada com sentido. Quer mexer-se, quererá? Fica imóve. De novo, a vergonha. As comparações, as desculpas, as perdas. O que é a realidde senão um amontoado de objectos a que atribuimos nomes inventados por pessoas que não conhecemos? Uma amálgama de caras que conhecemos toda a vida sem saber exactamente que tipo de vegetais são? A realidade, a verdade, não será a ficção que cada um de nós faz do tempo a que chama vida? Não sabe. Pensa se tudo seria diferente se a mãe lhe tivesse dado outro nome e se o sofá teria o mesmo aspecto se lhe tivessem chamado porta. Porque será bonito ter olhos verdes e feio ter cicatrizes? Porque será culto ler Proust e possidónio ver novelas? Quem dita as leis e cria as convenções? Olha para si própria como se estivesse deitada no tecto. Corpo demasiado magro, pouco atraente, dizem. Peito pequeno, tímido, quase de rapaz. Olhos grandes, quase pretos, a lutar contra a doçura e a meiguice que lhe valeram os valentes pontapés que já levou das pessoas sem rosto que lhe marcaram a vida. Envergonhada, abraçada a si própria, príncipe encantado de si mesma, repete, de mansinho, num sussurro, ao próprio ouvido, vai ficar tudo bem, minha querida, vai ficar tudo bem.Quando amanhece, a neve negra começa a derreter e ela dorme, desconfortável no sofá, como na sua pele, como na sua vida, com uma única lágrima a riscar-lhe o rosto finalmente em paz. 16/03/07

Tu

És a minha musa, e és o meu poema.
És as palavras que desconheço, as imagens de perfeição que nunca vi.
És os lugares onde não estive, toda a arte de que não fruí.
És cor, matiz e sombreado, traço a direito e curva sensual.
És cheiro, paladar, toque.
És o Mundo, és o espaço, és o tempo perdido parado permanente,
és o futuro, és do passado, és um presente.
És o ponteiro fora do relógio e o relógio sem ponteiros, a derreter ao sol no quadro do Dali.
És estrela ascendente, és sol do meio-dia, és meteorito em viagem.
És caminhante, és diletante, és nómada, és eremita dentro de gruta em perpétua alegoria da caverna.
És selvagem, és livre e és tão meu...
És guerreiro, és forte, és pesado e uma pluma a pairar na brisa ao pôr-do-sol.
És sorriso, lágrima, suspiro, suave tremer de pernas.
És professor e aluno, és operário e artista, és leitor e escritor,
és pseudónimo, heterónimo, sempre ortónimo.
És sonho, és de verdade?, és irreal, és um qualquer ponto intermédio entre ser e sentir.
És nó, és nós, és laço e és lasso.
És enebriante, enebriado, viciante, viciado,
És tudo isto e o seu contrário,
És tu.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

City of Angels

Os anjos não são seres etéreos, que não conseguimos ver. Não têm asas nem se empoleiram nos telhados da Cidade de Deus. Alguns vestem preto integral, sim, outros às vezes vêm o nascer do sol na praia, mas a maioria trabalha, tem filhos, lava a louça, tem insónias, vai ao médico e paga impostos.
Os anjos estão no meio de nós. São espíritos diletantes que nos falam pela boca da família, dos amigos, dos alunos, dos colegas e dos desconhecidos. Sempre presentes, sempre na altura certa, sempre quando precisamos deles.
Hoje foi um dia perfeito. Muitos anjos me falaram hoje, ou sempre o mesmo, por inúmeras bocas.
Cá ando eu, a percorrer o meu caminho, muito cool, muito na minha, sem nada que me irrite ou nada que me perturbe, mas com um cansaço muito, muito grande, e desejosa de tempinho para descansar...
Os primeiros anjos sorriram-me. Outros, deram-me os parabéns, ah grande Sporting, dá cá mais cinco!, outros comentaram o meu look, ai stôrinha, está tão bonita hoje; eu quando crescer quero ser como a professora; preciso de falar consigo no fim da aula; almoce aqui ao pé de nós, vá lá!..., outros mandaram sms com saudades, outros comentários ao meu hi5... tudo perfeito, excepto o tempo, claro.
E uma pessoa não tem sequer direito às suas neuras. Há aquele anjo alto de olhos azuis e sorriso reguila, que adora mandar beijos quando não mos pode dar, que me faz sempre ganhar o dia, sempre. Ausente, presente, semi-presente, semi-ausente, é sempre um calor docinho, um sorriso permanente da alma. Há aquele outro, de olhar breve mas que me perscruta o ser num décimo de segundo sem palavras, e me diz, estou aqui, moça. Há aquele outro que me arrasta sempre para um lanche no bar da escola e se ri enquanto eu digo palavrões entredentes. Há ainda outro, muito importante, que me telefona sempre à mesma hora e me dá notícias da minha gente e da minha cidade.
Os anjos estão entre nós. E os meus são os mais competentes do Mundo. Fizeram o sol brilhar hoje, muitas vezes, por entre a chuva torrencial, e nos locais mais recônditos do universo da Cidade de Deus. Bem hajam, meus amores, meus queridos, meus anjos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Just to say...

... I'm alive.
Ontem escrevi um texto lindo à minha mãe, mas a net foi abaixo, e perdeu-se... fica para uma próxima!
Temos chegado a Green Acres tardíssimo, entre trabalho que nasce das pedras, busca de uma toca melhor e mais perto, lanchinhos no Twins, hoje houve o segundo... no comments we're in blackout, e pouca, muito pouca coragem para mais que não jantar, comentar as últimas da sala de professores e... caminha!
Esta semana está a dar comigo e com os meus em doidos. Viro-me para os meus alunos e digo CHI-CO!, em vez de CHI-U!, pergunto o número da página a um grupo estarrecido, e emendo, a sala, eu quero saber é o número da sala onde vamos temos aula..., digo que chove da tarde de quinta até à madrugada de segunda, e embasbaco com o coro de protestos... pois, eu queria dizer sexta, não segunda... desatino com os comentários dos meus colegas à minha indumentária, desculpem lá, hoje o meu traseiro saiu na primeira página do Público? deslarguem-me pá! No Twins peço cachorros com "tudo a que eu tenho direito, ora essa!" e o dono, salsicha também? e eu, salsicha? não, quero dizer, sim, enquanto ele explode a rir. Enfim, não sou a única... os professores andam a passar-se.
Por isso, entre os almoços com os meus alunos na cantina, e os lanches com os meus colegas no Twins, os jantares com Mzinha em Green Acres e uns pequenos-almoços engolidos no carro onde bomba Mr. DJ Vibe, não consigo engordar os quilos que me faltam, nem alimentar o Tico e o Teco a vitaminas...
Isto está bonito, está. Já disse aos gaiatos que se desaparecer, me procurem no manicómio mais perto. A não ser que falte numa segunda... aí, meus amigos, ganhei o euromilhões e estou num spa na Polinésia Francesa...
Até lá, até já!