domingo, 1 de junho de 2008

O Génio da Lâmpada

Ultimamente, e quando digo ultimamente refiro-me às últimas semanas, só me passam pela cabeça pensamentos confusos, descoordenados e contraditórios. Não sei se estou em fase de mudança, em fase de pré ou pós-depressão, mas estou, decididamente, numa fase muito parva da minha vida.
Ando numa época de total esquizofrenia sentimental. Parece que cada dia acordo com novas resoluções de ano novo, e já não me posso aturar. É verdade, também, que perdi o rumo à vida, ando de coração vagabundo, e isso não é nada bom. Tenho feito muitas viagens de carro, e esses momentos são ricos em introspecção. A estrada é um símbolo literário poderoso, e não será preciso pensar muito para perceber porquê. A estrada é muito como a vida, um caminho, um objectivo, um percurso. Algo que pode ser levado em velocidade de cruzeiro, a fruir o passeio, ou em plena transgressão dos limites impostos, a pensar no destino. Algo que disfarça o perigo e o imprevisível com uma máscara de monotonia pintada num alcatrão sempre igual. Lisa, negra, ou pedregosa, curvilínea. A ilusão da progressão, a adrenalina da velocidade, a presunção de que controlamos tudo com um volante nas mãos e um depósito cheio. Não controlamos ponta de chavelho, a realidade é essa.
Detesto conduzir. Tenho um medo horrível de andar de carro. Quando digo isto, a maior parte das pessoas olha para mim como se eu tivesse afirmado que não gosto de sexo, ou que não sei quem é o Cristiano Ronaldo. Nunca percebi a vara tuga com os automóveis, as comparações, as competições, sou muit'a bom, faço Lisboa-Portalegre em quase hora e meia, o meu carro vai dos zero aos cem num micro-segundo, tenho muito orgulho nas minhas 4563 multas por excesso de velocidade, sei de cor as matrículas dos carros da brigada, cheiro o sítio dos radares, não sou o supra-sumo da inteligência? Transcende-me, esta cena.
Embora deteste conduzir, e entre em grande ansiedade quando vou ao lado, quando me sento ao volante para fazer as minhas viagens solitárias, sinto que entro, de facto, numa dimensão diferente. Tal não acontece quando dou boleias. Mas quando vou só, invade-me uma sensação semi-hipnótica, não sei, parece que o subconsciente acorda. Lembro-me de coisas perdidas numa memória distante, revejo caras e pessoas que deambulam num passado longínquo, passo a semana a pente-fino, junto peças de puzzles que não conseguiria encaixar de outra forma, faz-se luz muitas vezes, porque será? Tive um professor de mestrado que levava sempre um bloco de notas e um lápis no banco do passageiro, jurando a pés juntos que as ideias mais geniais do seu doutoramento lhe surgiram ao volante. Iria a conduzir a 180? Não me parece.
Esta semana, por motivos que não vêm à história, por uma série de coincidências do reino do absurdo, a short-story que me acompanhou no caminho para Lisboa foi "What if...", "E se..." me fossem concedidos três desejos? Tenho a dizer-vos que nunca consegui, sequer, escolhê-los, o que espelha a triste realidade que é não ter planos de vida definidos, nem sequer sonhos muito importantes a realizar. Senti-me uma nódoa. Que raio de ser humano sou eu, que não saberia definir as três grandes prioridades da sua vida ao génio da lâmpada? O meu cotovelo lateja, qual cicatriz de Harry Potter a pressentir Voldemort.
Não poderia pedir um companheiro. Aquele que eu quero nem o génio da lâmpada me pode dar sem desastrosos efeitos colaterais que transformariam o sonho em pesadelo. Não poderia pedir muito dinheiro, não saberia o que lhe fazer, porque descobri há pouco tempo que se ganhasse o euromilhões e quisesse fazer a minha viagem de sonho, com início em Nova Iorque e direito à Road 66, ao Grand Canyon e New Orleans, teria que a fazer sozinha. Não poderia pedir poder, detestaria ter que tomar decisões, dar o exemplo, liderar pessoas, ora se eu nem em mim mando... não pediria a paz no Mundo, que infelizmente não tenho veia de Miss. Adoraria ser linda, escultural, uma estampa daquelas de fazer virar cabeças, mas que graça tinha olhar-me ao espelho e não me reconhecer? Se fosse linda deixaria, certamente, de ser eu. E se não pudesse ser amada, rica, bonita e poderosa, para que pediria eu saúde? Para viver até aos cem anos sozinha, feiosa e pobre?
Pois é, temos dilema.
A vida é complicada para alguém que a passa acompanhada de todo o tipo de ideias peregrinas, como eu. Mais complicada seria para o desgraçado do Génio que me encontrasse pela frente. Decidi, contudo, evitar lâmpadas mágicas nos próximos tempos. E com isto defini, pelo menos, um objectivo para a minha vida.

sábado, 31 de maio de 2008

Dores de Crescimento

Não sei ainda o que vou escrever, não tenho sono, mas estou exausta, não me apetece ser produtiva e, por exemplo, dar um jeito à feira em que se transforma o meu quarto depois de uma semana de correria, abrir a pasta electrónica que diz "dissertação de mestrado", folhear um simples livro, não me apetece.
No ano passado, a M., quando se despediu de mim, com um grande abraço e de lágrimas nos olhos, disse-me, que o teu futuro seja muito melhor que este ano... porque este ano foi penoso. Mal sabia ela... ou tão pouco eu, que este ia ser bem pior, sem a meia-leca a resmungar no nosso sofá, ou a bater com o nariz nas montras, ou a comer donuts uns atrás dos outros, ou a tirar e pôr vernizes inacreditáveis nas unhas.
Não sei se todos os professores são assim, mas os meus anos são contados de Setembro a Julho, e não de Janeiro a Dezembro. Este, foi de fugir.
Apesar de não haver uma guerra aberta, como no ano transacto, entrou-se em fase de guerra fria. E o frio é-me desaconselhado vivamente pelos médicos. Houve menos calor humano, menos emoções, menos convívos, muitas chatices, muitos problemas, muita gente a oscilar nos dias em que fala e não fala, nos saúda e nos ignora, nos adora e nos odeia. Não tenho paciência, nem estrutura emocional, para maltinha incoerente, para pessoas de duas caras, para gente de lealdades dúbias.
Vim muitas vezes para casa decepcionada. Este foi o ano das grandes desilusões, das grandes revelações, das grandes epifanias: mas afinal este povo é parvo ou faz-se?
Perdi definitivamente o grande amor da minha vida. Mudei de casa duas vezes. Tive acidentes de percurso normais no contexto da saúde. Conheci o pior espécime da natureza humana com que lidei até à data. Pasmei com o que há de sombras num dia aparentemente soalheiro. Cresci. Crescer dói.
Houve momentos, há momentos, em que peço ao mundo que páre, para eu me poder apear. Houve momentos, há momentos, em que, com uma cara impassível, no meio de uma sala de professores cheia de gente, me apetece chorar em silêncio, e o fogo da alma me queima as lágrimas antes que brotem. Houve momentos, há momentos, em que não sou mais que um poço vazio, todavia cheio até ao topo de solidão e tormenta, por trás de um sorriso que alguns dizem ser agradável. Houve momentos, há momentos, em que surpreendo alguém a olhar-me nos olhos e baixo os meus, para que ninguém me leia o que vai na alma triste, e ache que eu sou, apenas, uma fulaninha ríspida e arrogante, em vez de frágil e completamente à deriva.
Alguns comentários a este blogue dão a entender que sou uma pessoa corajosa. Serei. A coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de o enfrentar. E eu, usando a metáfora de um dos leitores, trago sempre comigo na mochila o medo. O medo de perder, o medo de falhar, o medo de desistir, o medo de desiludir, o medo de ficar doente, o medo de ceder, o medo de ser usada e manipulada com fins obscuros, o medo de não estar à altura de todas as minhas responsabilidades, profissionais e morais, o medo de ser mal-interpretada, o medo do próprio medo, que paralisa, condiciona, subjuga, sufoca.
Quando era miúda, era uma miúda cinco estrelas. Tinha garra, tinha sensibilidade e ternura, tinha objectivos claros, o céu era o limite. Desses tempos, resta-me o sentido de humor e a gargalhada fácil e escarninha. Resta-me todo o amor do mundo, sem destinatário digno disso. Resta-me uma ternura que dispenso apenas a menores de dezoito anos. Resta-me um sentido de amizade profundo e sério, que me leva fazer uma viagem de ida e volta a Lisboa porque tenho uma amiga que precisa de mim, e tem que ser hoje. Desses tempos, tudo o que resta, agora, é afunilado, guardado e oferecido a muito pouca gente.
Talvez a maior dor de crescer seja descobrir que a nossa história de encantar tem sete bruxas más por cada anão amigo.
Despeço-me com (mais) um diálogo do Pretty Woman... diz Gere "Few people surprise me" e responde Julia "You're lucky. Most of them shock the hell out of me". E quem desabafa assim, não é gago.

É a isto que chamam fim-de-semana?

Sexta-feira. O dia por que todos os seres com um mínimo de neurónios activos anseiam desde Domingo à noite. O dia por que esperam as pessoas com semanas alucinantes, com adolescentes fartos de estar sentados a ouvir um cromo qualquer, como eu, ainda a tentar ensinar seja o que for. Com adultos a barafustar contra as reuniões e as aulas de substituição, e os campeonatos de desporto escolar e os conselhos disciplinares e o "diabo dos gaiatos", e a fila no bar, e a campainha que se adianta quando toca para a entrada, e se atrasa milénios, quando o toque é de saída.
Já ninguém aguenta a escola, já ninguém quer saber de verbos irregulares e da voz passiva, e do Camões e das equações, e do sistema urinário e dos países que compõem a UE. Nem alunos, nem professores. Anda tudo em contagem decrescente, melhor seria que, em vez de reuniões de avaliação, se pusesse no placard das convocatórias uma data de risquinhos alinhados, tipo código de barras, para a malta ir riscando como fazem os prisioneiros nas paredes da cela. Pelo menos, nos filmes.
E eis que chega sexta-feira.
Sôdôna Jade levanta-se a correr, arranja-se a correr, come a correr, e vai para a escola, não a correr, mas de carro. Sente a náusea do costume, ao passar o portão da escola. Para quando o Hawaii, as Seichelles, a Polinésia Francesa? Apre!
O primeiro bloco é de sala de professores, menos mau, põe-se a conversa em dia, dá-se um jeito nos papéis, passam-se os olhos por umas fichas de leitura. Tive um presente lindo, hoje... fiquei muito, muito contente, finalmente vi-me livre do estojo da Debbie, e o Pan vai deixar de me azucrinar o juízo com o dito. Agora, quando preciso de uma caneta, é uma Kitty ternurenta que olha para mim e me faz sorrir a alma.
Uma aula de exercícios e chamadas orais, e JadeMobile, que se faz tarde e tenho a médica à espera em Lisboa. Viagem debaixo de chuva, corrida ao emprego da mãe para um beijo rápido à progenitora, o que disse a médica? de certeza? não me estás a esconder nada? olha lá para mim, que cara é essa? e mais duzentos e cinquenta beijinhos aos colegas todos e às chefias, só faltou a tirada hilariante do "vá, dá lá dois beijinhos a este senhor", eu, uma atrasada mental de trinta anos reduzida a uma miúda de cinco... e o regresso à Cidade de Deus, a todo o gás.
Hoje fez anos, fez ano, que é só um, o meu sobrinho-homem, irmão de Leonoreta. Ficou prometido que eu fazia uma mousse de chocolate, e eu cá gosto de cumprir promessas. Lá vim, desencabrestada (que é um adjectivo que a minha mãe usa para me rotular e eu acho um must... como se alguma vez alguém neste mundo tivesse sido capaz de me enfiar um cabresto... adiante), fazer a mousse, e ala para casa da S. com a dita mousse mais os presentes da praxe. O resto do serão foi passado a cortar fruta, bater natas, mergulhar bolachas em café, lavar louça, pôr a conversa em dia com uma dona de casa desesperada, tipo mulheres à beira de um ataque de nervos, e... é nestas alturas que sorrio na minha condição de solteirona sem filhos, irra!
Finalmente em casa, instalada no puff, penso... mas hoje é sexta-feira à noite, ou fui atropelada por um tractor cheio de palha?
Vi um lindo arco-íris, na viagem de regresso. Abracei duas crianças que fizeram dois sorrisos descomunais quando me viram. Levei um abraço de uma amiga, obrigada pela ajuda, sempre às ordens. A minha mãe disse, não queria que te fosses já embora. E deram-me um estojo da Hello Kitty, por nada, porque sim. Afinal, se calhar, pensando bem, sempre é Sexta-feira. Bom Fim-de-Semana.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Uma questão de TCHAN

Esta semana tem sido das mais ricas da minha vida no que toca a surpresas. Das boas. Parece que o Universo se uniu para conspirar a meu favor. Tenho ficado siderada uma e outra vez, especialmente com palavras de apreço vindas de sítios inesperados.
A minha chefe diz que eu tenho uma auto-estima como ela nunca viu. Rara. Não é a primeira pessoa a dizer-mo, não há-de, certamente, ser a última. Sou uma pessoa muito contraditória, a esse nível. Sou das pessoas mais arrogantes que eu conheço quando se trata de avaliar os outros e, no entanto, a pior crítica de mim mesma. Acho que não conheço alguém, para além de mim, que ache tanta gente medíocre sem que tal implique que me considere melhor que isso, seja a que nível for.
Sei que tenho muitas capacidades e boas qualidades, só não acho que seja suficientemente boa a algo específico para ser especial, para me distinguir seja no que for. E acho os meus lapsos, as minhas falhas e as minhas insuficiências muito embaraçosas, muito perniciosas e muito desconfortáveis. Admiro as pessoas que estão bem na sua pele, mas apenas quando o meu próprio sentido crítico as avalia de forma positiva: não há nada no Mundo que eu mais despreze que gente arrogante e pedante que, na verdade, não passa de balões cheios de nada.
Talvez por achar que não sou suficientemente bonita, culta ou inteligente, trabalhadora, responsável e sensível, solidária, simpática e tolerante, talvez por achar que estou bastante aquém dos parâmetros aceitáveis de uma pessoa digna de admiração, me espante e me choque por ver gente bem mais bera tão segura de que é o supra-sumo da batata.
De facto, este mundo não foi feito à minha medida, não foi.
Cumpro os requisitos mínimos indispensáveis para conseguir conviver comigo mesma diariamente, viver em paz com a minha consciência e andar de cara alegre, se não tiver problemas de maior. Mas confesso que adorava distinguir-me de algum modo. Como tal não acontece, sou profundamente irónica em relação a mim própria. A mesma ironia corrosiva que MCS diz que tenho em relação ao resto do mundo, aplica-se a mim.
Contudo, como toda a gente, sou sensível a quem me tente dizer o contrário. Uma sensibilidade céptica, mas terna. E esta semana correu muito bem a nível pessoal e profissional. Sou muito acarinhada pelos meus alunos. Começo a sê-lo também por colegas fora do grupo restrito a que chamo amigos. Houve até um leitor anónimo do blogue que me presenteou com um comentário muito bem escrito e muito elucidativo de que as pessoas por vezes convivem sem se conhecer, e se surpreendem agradavelmente com as descobertas que vão fazendo.
Esta semana houve um lanche que se transformou no mais perto que existiu de uma noitada em Portalegre nos últimos meses, um convívio em que me ri até às lágrimas como não fazia há muito, muito tempo: contaram-se histórias, disse-se muita, muita asneira, e, quase no fim, um colega meu disse-me "Gosto de te ver assim, tão bem disposta... já fazia tanto tempo..." Pus-me a pensar e fui contá-lo, o tempo, quanto teria passado desde que me perdi? Costumo dizer que foi em Dezembro, mas bem vistas as coisas, foi alguns meses antes disso.
Há pessoas que nos marcam a carne. Que vivem em nós muito depois de morrerem ou nos partirem o coração. Que nos assombram o espírito e têm um efeito devastador na nossa auto-estima, quando ela existe, mesmo que levemente. Que nos convencem que, se um abandono, um virar de costas, físico ou emocional, foi possível com elas, não devemos insistir com outras. Eu demoro eternidades a amar verdadeiramente alguém, e eternidades elevadas ao expoente da loucura a deixar de amar, a aceitar a perda, a largar da mão. Isso é algo que aprendi a aceitar em mim, não tentando forçar o contrário. Porque, eventualmente, acabo por largar.
Os leitores deste blogue não saberão, mas lido, desde muito jovem, com perdas e ausências fundamentais na minha vida. O facto de ser experiente na questão do abandono e da morte de entes queridos não me torna mais madura ou sensata a lidar com o facto, pelo contrário. A experiência, neste caso, é muito contra-producente. Traz o pânico, a revolta, a não-aceitação, a frustração e a desconfiança. Bloqueiam-se sentimentos, afastam-se pessoas, recusam-se intimidades, e quando se baixam as armas e alguém entra, quase sempre à revelia de quereres racionais, se as coisas dão para o torto, como dão sempre comigo, pinta-se um quadro de Guernica e acumulam-se lutos sem fim.
Por isso, semanas como esta, se bem que raras, são preciosas. Semanas em que as insónias se encarregam de nos baixar as tais armas, vencendo-nos pelo cansaço, e coincidentemente as pessoas nos dão atenção. Aí, voltamos para casa com o coração a cantar, e com a sensação, efémera, bem sei que é assim, que somos importantes, embora nunca cheguemos a ser especiais.
Quando era adolescente, definia fases como esta com a expressão "É tudo uma questão de tchan!" O tchan é a vida a acontecer e a surpreender-nos, quando tínhamos planos em direcções opostas. O tchan é acordarmos com o som da chuva a bater no vidro e, de repente, sem percebermos bem como, um arco-íris irromper com uma força avassaladora, pela mão de meia-dúzia de palavras simpáticas. E outras tantas atitudes que caem bem.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Insónias

Voltei, novamente, à época das insónias. É sazonal e inexplicável. Eu, que gosto tanto de dormir, começo, de repente, a ter sono cada vez mais tarde, e a passar os dias em vigília absoluta, em nervoso miudinho, a trabalhar que nem uma moura - e trabalhar não é dos meus hobbies favoritos, vos garanto - e a não conseguir apaziguar o cansaço.
É à noite que o meu metabolismo acorda, sempre assim foi, mas desde que trabalho e tenho que me levantar cedo, a coisa tem-se atenuado. Excepto nestas fases. Por volta das nove da noite estou morta, às dez parece que acordo de doze horas bem dormidas. E aí, ocorrem-me todo o tipo de pensamentos. A maior parte deles, parvos.
E aqui estou eu, quando deveria estar a dormir.
A matutar sobre o passado, o presente e o futuro. O passado que queria de volta, o presente que não é o que quero e o futuro que não sei o que reserva. As pessoas que me rodeiam, que eu vejo e não me vêem, que não dão pela minha falta porque estão comigo diariamente sem se aperceber que, a maior parte das vezes, não estou lá, estou noutros mundos, a maioria deles sombrios. As pessoas que eu adoro sem sequer se aperceberem que eu existo, e as que detesto e sabem disso instintivamente sem perceberem porquê. Às vezes, apenas porque me desagrada a forma que têm de existir.
Seria tudo tão mais belo se fosse sempre recíproco...
A Li diz-me muitas vezes, para que pensas tu nisso? olha que pessoa tal não pensa nisso um segundinho da vida, vale-te de muito esse desespero, essa tristeza... e tem razão. Pensamos demais no que gostávamos que fosse, e de menos no que queremos que seja. Perdemos tempo em mundos oníricos, inventando diálogos que não existem, situações que não acontecem, vidas que não passam de ficção. E fica o vazio do que não é, numa noite longa de insónias, longa demais, dura quanto baste.
Passo os meus dias a viver a vida de alguém mais feliz, a ouvir as palavras certas, a sentir o carinho e a preocupação de personagens duma história que construo constantemente para mim própria, pelo simples facto de achar que a mereço.
Quando morrer, vivi muitas vidas. Resta saber se vivi a minha.

domingo, 25 de maio de 2008

Sense and Sensibility

Não me perguntem, que eu confundo sempre a Austen com as irmãs Brontë; Sensibilidade e Bom Senso, mais do que o título de um livro famoso é, para mim, uma filosofia de vida... talvez porque me falte muito de ambas as qualidades e considere, seriamente, que quando adquirir um pouco mais de ambas, com o tempo, a experiência e a idade, tudo pareça mais fácil.
Senão, vejamos: Sensibilidade. A minha querida Isa mandou-me para o Hi5 um buzz a uma foto que dizia "Handle carefully" ou "This side up"... "Sensitive person inside"... ou algo do género. Vieram-me, de imediato, as lágrimas aos olhos. Nunca me considerei uma pessoa lá muito sensível. Sou até bastante bruta no trato. Acontece que Isa teve o privilégio (sim, embora os actuais não dêem lá muito por isso, é um privilégio...) de ser minha aluna. E eu, modéstia à parte, sou uma querida com os meus alunos. Gosto deles, divirto-me com eles, e não há sítio onde me sinta mais à-vontade que dentro de uma sala de aulas. Não sei explicar porquê, foi assim desde sempre, desde os tempos em que era aluna e ensinava, com a maior paciência do mundo, o teorema de Pitágoras aos meus colegas. Está-me no sangue. Nas aulas sou eu, elevada ao expoente máximo de mim mesma. Dou o meu melhor a todos os níveis, intelectual e humano.
Fora das aulas, temos outros quinhentos. Acho que sou pouco sensível. Solidária, sim, mas pouco dada a pieguices, a miminhos, pouco paciente e tolerante, um zero à esquerda em diplomacia, uma nulidade na política. Ninguém me procura para formar listas, nem desempenhar cargos em que seja necessária alguma dose de hipocrisia, e eu entendo. De facto, eu sou aquela que diz o que pensa, às vezes o que todos pensam, mas ninguém quer ouvir. Sempre assim foi. Falta-me verniz social, polimento, sensibilidade. Detesto gente parva, gente medíocre, gente mesquinha e, sobretudo, gente má.
Não, de facto, sou muito pouco sensível às nuances sombrias do ser humano.
Quanto ao bom senso... pior um pouco. Não sou, nem de longe, uma insensata. Faço pouca coisa na minha vida por impulso. Infelizmente, uma das coisas que faço sem pensar é falar... um grande amigo meu, que é advogado, e sagitário, diz que é do signo. Somos os reis das gaffes, é hilariante... e muito desconfortável. Tem vantagens. A maior de todas é passarmos por parvos, o que dá muito jeito, quando se trata de enganar tolos. Numa escola em que estive recentemente, o Executivo mudou, e o presidente eleito dizia-me... vem cá parar, vem, que vais ver o que te acontece... tiveste um ano santinho, com essa postura de gaiata desbocada e inocente, que não percebe nada de nada e está sempre a leste, vem cá parar que te ponho a trabalhar à séria! E eu não fui, ainda bem.
Nesta sala de professores, tenho a certeza que mais de cinquenta por cento do pessoal docente acha que eu sou uma rematada atrasada mental. Primeiro, porque esses cinquenta por cento acham, com certeza, que rir é pecado, e a simpatia um acto de fraqueza, coisa de gente pobre e pouco instruída. Depois, porque uma tipa que vem de Lisboa, fala alto, não tem marido e olha para eles com enfado e desdém, só pode ser parva. E eu, que faria, se tivesse bom senso? Sorria-lhes, dava os bons dias sem obter resposta, olhava-os com respeito e admiração, tratava-os por senhores doutores... só que eu não tenho bom senso nenhum. Assim não vais longe, pá, dizem-me os meus amigos, a minha mãe, temos que engolir sapos. Mas eu é que não gosto de sapos.
No outro dia, na sala de professores, um "senhor doutor" lá da escola vociferava que a "malta de línguas" não tem nível nenhum, o que é compreensível, dizia ele, porque são "uma cambada de solteironas". A minha falta de bom senso esteve mesmo para lhe dizer que esta solteirona, pela parte que lhe toca, seria muito mais infeliz e teria muito menos nível se fosse casada com um paquiderme como ele, que não deve muito nem à beleza, nem à simpatia e muito menos à inteligência, mas calou-se a tempo. Porque falta de bom senso também tem limites.
Mas vos garanto: almejo o dia em que, já uma senhora, cheia de sensibilidade e bom-senso, possa continuar a ver o mundo como agora... porque me parece que, apesar de insensata e insensível, não me falta perspicácia e espírito crítico para me poder rir do circo que é a natureza humana num microcosmo restrito de uma sala de professores de uma escola da província. Sem desmérito para a terra em questão.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lisbon Song

O sobressalto interrompeu um fim-de-semana XL que se queria na Cidade de Deus, entre tarefas domésticas, profissionais e intelectuais. Comigo, é assim. Há muito que desisti de fazer planos sérios seja para o que for, limito-me a delinear "mais ou menos" o que pretendo fazer, e a encolher os ombros, resignada, quando me sai, vez após outra, o tiro pela culatra.
Lá vim de charola para a Clínica a Lisboa, de cotovelo a latejar, e sem força sequer para pensamentos deprimentes. Eu já só quero que isto acabe rápido, pensava, se for para me internar, vamos a isso, se for para meter um atestado, é já, quero lá saber, eu já só quero que isto acabe. Alarme falso. Tudo normal, disse a experiente enfermeira, depois da costumeira desinfecção a éter.
E assim me vi na minha terra, sem chaves de casa, que deixei lá em cima, e umas boas horas pela frente, antes da minha mãe chegar do trabalho, endoideceste, Alexandra? Com este tempo pavoroso, o que vais tu andar a fazer quase seis horas na rua, anda cá buscar a chave! Em Lisboa? Seis horas é um instantinho. Se fosse na Cidade de Deus, era motivo para suicídio com justa causa, agora aqui... almocei calmamente no shopping onde fui à minha sessão de cinema do costume. Desta vez um filme muito agradável, com uma Norah Jones a dar ares de Angelina Jolie, e uma Natalie Portman sempre espectacular. O Jude Law é sempre uma surpresa, e não desiludiu. My Blueberry Nights, aconselho a quem queira passar umas horas agradáveis sem ser estupidificantes. O resto da tarde passei-o enfiada em lojas de roupa e livrarias, onde estava quando a minha mãe me ligou. Já?, e viémos para casa.
Lisboa é, cada vez mais, um puzzle de peças coloridas, semelhantes e, ainda assim, diferentes. É a gargalhada da minha mãe, a caixinha de surpresas do costume; o olhar da minha gata, e uma turrinha esporádica e pouco assídua; é uma pizza ao domicílio, sempre diferente; uma ida ao cinema, ou duas, sempre uma festa; uma sobremesa bruta, a de hoje foi uma fantástica mousse de chocolate; vários episódios de várias séries de eleição, CSI, NCIS, A Patologista, Sem Rasto, Bones, o melhor da TV Cabo que a minha mãe já não pode ver à frente e eu devoro; e as minhas lojas de roupa e livros, os cafés e a tabacaria onde me tratam pelo nome, a rua que conheço desde sempre e aquele pormenor delicioso do raio de sol a bater num vidro de um prédio e a encadear o transeunte mais próximo.
O fim-de-semana XL, tal como planeado, foi-se. Mas há beleza no improviso.
Dizia Robert Frost que a felicidade compensa em altura o que lhe falta em comprimento. E embora tal conclusão, genial de tão simples, jamais me passasse pela cabeça, subscrevo-a de corpo e alma.

domingo, 18 de maio de 2008

Emily

Foi um fim-de-semana produtivo. Depois de uma sexta-feira stressante, nova viagem a Lisboa, uma noite no colinho da mãe, e um Sábado de manhã entre a cama merecida e as voltinhas do costume pelo bairro, arranquei para a Cidade de Deus.
A vida não está fácil, e a palavra de ordem foi diversificar, fazer, não-pensar. Vi três filmes, passei um monte de roupa a ferro, trabalhei (corrigi dezenas de testes), ouvi música, tomei um banho de imersão, fui ao supermercado, passei uma horita de volta do puzzle da Mzinha; evitei os momentos de introspecção… têm sido tão sombrios, tão difíceis, mas olhei a lua, cheia, achas, Mzinha, ou será só amanhã?, numa oração descrente à bela deusa pagã.
Enquanto brunhia (que é passar a ferro, na pronúncia do Norte) lembrei-me de Vzinha, sempre afogada nas suas tarefas domésticas, sempre com os pensamentos longe delas, no entanto, sempre nas suas geniais epifanias enquanto dobra meias. Não tive epifanias com o ferro de engomar, mas senti o espírito livre, os problemas a acompanhar o vapor e a ser lançados na estratosfera junto com o cheiro húmido a roupa lavada.
Todos nós temos as nossas porras, dizia de forma lírica H., muitas vezes. Acho que sim, mas este weekend, o remédio para todos os males foi dividir cada dia em parcelas pequeninas, de uma, duas horas, no máximo, e enchê-las de actividades, fossem elas arrumar gavetas, tirar roupa da corda ou encher de chantilly um cappucino.
Sabes Vzinha, o que não tem remédio, remediado está. A minha condição feminina vai na esteira de uma Dickinson só, entre tarefas domésticas e poesia, relógios social e individual, este último sem ponteiros nem obrigações, sem o dever, sequer, de sorrir, nem a vontade, porém, de chorar. Dickinson, só. Um universo feminino, sem lâminas de barbear ou after-shaves, sem outra escova de dentes no copo da casa-de-banho, sem brigas pelo comando da televisão ou negociações entre o filme e o jogo de futebol. Emily. Eu. Somente isso.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Silêncio

Sabe quem lida comigo todos os dias que sou uma pessoa palavrosa. Também sou uma pessoa de palavra, mas isso não vem agora ao caso.
Subitamente o silêncio abateu-se sobre mim. Falo pouco, e em voz baixa. Não tenho tido o costumeiro raciocínio rápido para o trocadilho brejeiro e a piada parva. Acho que não digo uma das minhas há quase duas semanas. A minha voz sai-me doce, triste, miudinha. O meu sorriso é sincero, mas difícil. Dou as minhas aulas com a alegria de sempre, mas quando os alunos viram costas, parece que cai o pano numa peça de teatro bem ensaiada. Calou-se a voz da Jade, pouco falo sequer comigo. Chego a casa e leio em silêncio, deixo o autor sussurrar-me ao ouvido e não lhe dou resposta. Trabalho calada, vejo testes sem comentar, sem me exasperar, sem reagir aos erros crassos e aos hilariantes, tudo em mim são murmúrios e passinhos em bicos de pés.
Não sou uma pessoa feliz, mas costumava ser uma pessoa alegre. Não quero que cem gramas de gesso me levem a minha voz, me tirem o meu cartão de visita, o sentido de humor sarcástico aliado a um feitiozinho de víbora que faz os que me amam sorrir. Gosto de mim chata, embirrante, obstinada, de nariz no ar. Convencida, teimosa e velhaca, como dizem os meus alunos. Insuportável, louca, passada, como dizem os meus amigos. Gosto de mim e sinto-me a falta. Não estou, e a que veio dar a substituição não me chega aos calcanhares. Procuro-me e não me encontro, chamo-me e não obtenho resposta.
Que caminhos andarei eu a trilhar, por onde andarão diletando as minhas gargalhadas, que espíritos andarei a infernizar?
Porque não chove só lá fora?

domingo, 11 de maio de 2008

Semana em Retrospectiva

Segunda-Feira, na Clínica, à frente da médica, as notícias não foram famosas e agarrei um toco de todo o tamanho. Chorei a viagem toda, de volta à Cidade de Deus, lágrimas incontroláveis de revolta, tristeza, sentimento de injustiça e self-pity, a pergunta célebre, repetida até à exaustão, mas porquê eu, fiz mal a alguém? Por outro lado, a auto-admoestação, pareces parva, isto não é o fim do mundo, há coisas tão piores, não sejas infantil, não sejas mimada, Deus castiga, mostra-te grata...
A verdade é que passei a semana neste limbo entre as duas atitudes, a sincera e a supersticiosa, e tendo tão má onda de pensamentos, resolvi entrar em blackout, fazendo jus à mãe do Bambi que lhe ensinou, se não tens nada de agradável para dizer, mantém-te calado.
Continuo amuada. Não me lembro de ter sido desagradável com alguém no decorrer da semana transacta, mas também não acho que em algum momento tenha sido realmente simpática fosse com quem fosse, acho que simplesmente, se isso é possível, não existi em vida. Comi, dormi, vi testes, dei os bons dias, pedi por favor e agradeci, mas tudo de outro sítio exterior a mim mesma, em que pouco mais senti que um vazio imenso, um medo atroz e dois ou três raios de luz provocados por atitudes mesmo queridas e inesperadas, efémeras no aconchego que provocaram, mas especiais no sorriso e nas intenções: um presente oferecido por uma aluna, duas ou três palavras simpáticas de alguém que eu já riscara da minha lista de amabilidades, a compreensão e a paciência sem limites da Mzinha e da Li, sempre comigo, esteja eu de bom humor ou no meio do pior dos dias.
Sexta-feira lá se cumpriram os desígnios superiores, lá ando eu engessada até aos olhos por causa de um ferida de um ou dois milímetros, ridícula, esta doença, insuportável, este mau-humor. É possível que, na falta de um milagre, me remeta de novo ao silêncio, a fim de prevenir textos carregados de fel e auto-indulgência. É possível que, na falta de um milagre, prefira calar esta revolta que me vai na alma de cada vez que este corpo que tenho se torna desconfortável nas suas dores. É possível que, na falta de um milagre, me dê ao luxo de, só por um bocadinho, só por esta vez, fraquejar, chorar tudo o que preciso e bater com os pés no fundo do poço, para ganhar balanço para vir depois à tona. Só desta vez, ceder e assumir que não aguento tudo, não controlo tudo e estou muito cansada. Remeter-me ao silêncio até encontrar coisas boas para dizer.
Ate já.

Pessoa

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros - cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?
Fernando Pessoa

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Blackout

Encontramo-nos temporariamente fechados para obras.
Pedimos desculpa pelo incómodo e prometemos ser breves.
Até já.

domingo, 4 de maio de 2008

Sigur Rós e The Butterfly Effect

Hoje, eram 3 da tarde, e um querido amigo veio despertar-me duma morrinha que prometia durar todo o santo dia. Estava imersa num daqueles estados de espírito em que toda a preguiça do mundo é desculpável e se encontram argumentos para tudo excepto para fazer o que é preciso. Uma auto-indulgência que se paga, obrigatoriamente, com o dobro do trabalho, ou o mesmo trabalho em metade do tempo para o fazer, o que vai dar ao mesmo. Ou, pior, que se paga com problemas de consciência à vista de um trabalho mal-feito.
Por isso, um anjinho caiu-me do céu, num desafio para um café em boa companhia. É muito boa onda, este rapaz, e lá fomos ver a cidade adormecida, como sempre, aos Domingos, em busca de uma marca de cigarros que ninguém fuma, fumo eu, ora essa, já te disse que não sou normal, não és não, mas lá tiveste que fumar LM azul dos meus, e é se queres... uma breve conversa, um breve café, e foi o que bastou para que viesse para casa e resolvesse de uma assentada grande parte das tarefas domésticas. Depois, quis mudar a banda sonora, e lembrei-me que tenho cá uma colectânea de Sigur Rós emprestada, em DVD. E pensei, enquanto vejo testes, vou ouvindo... pois. Só que esta banda não é normal, e nao dá para ignorar a imagem.
Hipnotizei logo aos primeiros acordes, e colei-me às imagens duma cascata a subir uma falésia, em vez de escorregar para o abismo. Não há nada mais perturbante do que ver água a correr ao contrário. A mim provoca-me um medo escuro, esta inversão da ordem natural das coisas.
Ontem vi o filme Butterfly Effect. O tema é o mesmo, a inversão do tempo, o consumar da expressão batida "Se eu soubesse o que sei hoje...". Neste caso a pergunta dos escritores "What if..." termina em "... I could change my past?". Um bater de asas de uma borboleta pode causar um tornado do outro lado do Mundo. À vista das nossas desgraças pessoais, que momento mudaríamos no nosso passado, que frase não diríamos, para que autocarro correríamos e qual deixaríamos passar, que dia de sol lutaríamos contra a vontade de ficar a dormir e sairíamos, mesmo sem companhia? E, mudando esse momento, impediríamos as nossas desgraças sem criar outras? Sem prejudicar ninguém? Sem traçarmos algo de ainda mais escuro, com a mudança?
O mesmo arrepio que me atravessa a espinha quando olho a gota dos Sigur Rós largar os círculos que traça na água e ser sugada ascendentemente em direçcão a uma ponta de gelo, atravessa-me o espírito, quando penso na facilidade que todos temos em viver uma vida diferente pelo simples facto de nos atrasarmos cinco minutos numa qualquer manhã de Verão. E o tempo, o destino, ou o manobrador das marionetas, lá em cima, deve sempre seguir em frente. Este é o meu sentir: se eu soubesse o que sei hoje, faria exactamente o mesmo.
De todas as pessoas que conheci, apenas uma era dispensável na sua totalidade. Apenas uma em 32 anos. Todas as outras, bem ou mal, tiveram os seus momentos e os seus lugares, e há um sítio no meu coração em que guardo os bons tempos, embora não perdoe os maus. Apenas uma não me trouxe nada de bom, apenas maus sentimentos, uma repulsa do tamanho do meu mundo, uma aversão de sentidos e espírito, uma náusea. Essa, dispensava ter conhecido, sem dúvida, vejo-a abjecta. Mas, por outro lado, se não conhecesse o que de mais baixo pode haver, como poderia perdoar outros que, por comparação, não se lhe comparam?, passo o paradoxo...
Não. Se eu soubesse o que sei hoje, deixaria a água correr da fonte para a foz, pingar do céu à terra, e precipitar-se, do alto para o infinito. Sempre nesta ordem.

sábado, 3 de maio de 2008

Jade Srikes Again

Ora estava eu aqui muito metida na minha vidinha, num Sábado à noite fantástico, quando me telefona Mzinha, até me assustou, com uma conversa tipo, olha o meu irmão fez uma das minhas, e assim, e assado, e eu cada vez mais assustada, até que ela me diz, e agora queríamos fazer uma brincadeira, ligas-lhe e dizes-lhe isto assim e assim? E eu? Uma partida? Das boas? Count me in... E lá se combinou tudo, lá fiz a chamada, muito séria, muito competente, com uma história do arco-da-velha. A meio já eu me vangloriava da minha veia teatral, e receava provocar uma apoplexia ao moço, que eu só vi uma vez, e ainda por cima é bom rapaz, e lá cumpri a minha parte.
Mzinha exultava e rebolava a rir, quando lhe contei, do outro lado da linha. Bolas... com uma família assim, quem precisa de inimigos? E pensar que são todos escuteiros, apre!
Mas eu cá não sou escuteira, e estas coisas são das coisas que mais gosto de fazer. Brincadeiras (quase) inocentes. Na escola, já não dá, que sempre que desaparece ou aparece algum objecto estranho em sítio mais estranho ainda, toda a gente sabe que fui eu.
Mas este episódio fez-me ter muitas saudades do Norte, e daquele ano em que lá estive. Eu e a J., nesse ano, fizémos das coisas mais loucas que as mentes doentes podem congeminar. E também tivémos troco muitas vezes. Estes pequenos nada da vida sabem realmente bem; se há coisa que não tem preço, é uma boa gargalhada.

Cães e Gatos

Ainda há pouco, fumava pacificamente um cigarro à janela. O anoitecer está agradável, ao longe ouve-se música e há uma paz leve em todo este cenário. Há muito que não me sentia tão bem, e à janela, enquanto observava a plácida cidade, lembrava-me que, se fosse um animal, seria um gato.
Já disse aqui algumas vezes que tenho uma alma felina, e o que é engraçado é que, em miúda, detestava gatos. Tinha medo deles. Achava-os uns serezinhos ingratos e desprezíveis, traiçoeiros e incapazes de gostar de alguém.
Depois, o meu avô morreu. E eu e a minha mãe ficámos orfãs de pai. Assim, sem mais nem menos, sem explicações, sem preparações, sem percebermos bem o que se tinha passado. Um dia ele estava lá, no seguinte, já não, e nós remexíamos os seus pertences com os gestos desconfortáveis de quem está a invadir a privacidade de alguém que nos vai entrar porta dentro e gritar, mas o que é que vocês pensam que estão a fazer? Mas tal nunca aconteceu, infelizmente. O vazio deixado pelo homem da casa foi enorme, e o luto atroz. Concordávamos ambas que tinha sido melhor para ele e para nós assim, mas sem os horários do velhote, os seus passos, os seus risinhos e as suas teimosias, as suas perguntas repetidas milhares de vezes e os seus mimos, sem tudo isso, parece que pouco restava de nós. Nos últimos anos, tudo girava à volta dele, das refeições dele, da fruta e peixe fresco que a minha mãe todos os Sábados ia buscar para ele ao mercado, dos turnos que fazíamos para, numa cidade louca como é Lisboa, haver sempre alguém que fosse a casa ao almoço e chegasse cedo a casa, para que não mexesse em lumes, não subisse para algum banco com uma ideia peregrina, não resolvesse de repente ir à farmácia e se desorientasse, não escorregasse na casa de banho, não, não, não. E se bem que isto pareça um lamento ou um protesto, não é. Nada dava mais sentido à nossa vida do que cuidar de alguém que sempre cuidara de nós, vejo isso agora. Nada nos torna mais úteis e melhores que o sentimento de pertença e de dádiva. Quando ele foi embora, ficámos sem saber muito bem o que fazer, sem saber o que sentir, sem saber quem mimar, para além de uma à outra, e isso não chegava.
Foi num dia de sol de Inverno que conheci aquela que viria a ser a Margarida. Um gato com um ar desesperado, que me miava do lado de lá de um vidro, quando me dirigia para a Aeróbica. A minha mãe sempre amara gatos, e nunca tinha podido ter nenhum. Fiquei a olhar para aquele ser às riscas, com umas orelhas descomunais e tudo o resto minúsculo, e segui a minha vida. No fim do treino, fui buscá-la. Achei que era o melhor presente que podia dar à minha mãe, e eu que me aguentasse à bronca com uma espécie animal que me irritava solenemente. O importante era fazer a minha mãe sorrir, e dar-lhe algo que a entretivesse. Foi o bom e o bonito lá em casa, e pensei que ia ter que voltar à loja para devolver o saco de pulgas.
O saco de pulgas está connosco há dez anos e manda lá em casa. A minha mãe diz que quem manda lá em casa é ela, mas quem manda nela é o gato. A Guida ensinou-me muitas coisas, sobretudo sobre mim própria, e a principal foi que, por muito que adore cães, tenho que reconhecer que tenho alma de gato.
Ela entrou na minha vida com pezinhos de lã. Adoptou-me, porque fui eu que a resgatei. Fez várias aproximações subtis, acabou por dormir várias vezes na minha cama, comigo transida de medo. Parecia achar que eu era mãe dela, embora fosse a minha que lhe desse as refeições e os mimos, eu tentasse sempre manter uma distância segura. Demorou para aí... uma semana, a conquistar-me. E ao longo destes anos, continua a pasmar-me com as suas reacções, a sua personalidade e o seu feitio singular.
Tal como ela, vejo agora, sou fugidia e desconfiada, magra e elástica, e ainda assim, temível. Temos ambas expressões corporais muito transparentes, e não são precisas palavras para demonstrar desagrado, irritação, monotonia, prazer e amor. Ambas achamos que o facto de nos fazerem bem não justifica que sejamos gratas o suficiente para que toleremos eternamente que nos façam mal a seguir. Ambas acreditamos que a gratidão é relativa. Ambas demoramos muito tempo a confiar em alguém e um segundo apenas a perder essa confiança para sempre. Ambas mantemos sempre um ar indiferente embora nada, mesmo nada, nos escape no espaço que ocupamos. Ambas adoramos dormir, dormitar, vegetar, descansar, não fazer absolutamente nada. Ambas temos uma paixão irracional por janelas. Ambas gostamos de festas e jamais choramos à frente de quem nos agride... ela é melhor nisso que eu. Ambas gostamos de tratar das nossas feridas sozinhas e em silêncio. Ambas gostamos de pregar partidas parvas. Ambas ronronamos alto quando gostamos de alguém e nos assanhamos com força, quando não gostamos. Ambas somos donas do nosso nariz e levamos a nossa avante, dê lá por onde der. E ambas gostamos de peixe, lulas e camarão e abominamos bacalhau.
Às vezes, quando me criticam o comportamento arisco e brusco, dou comigo a sorrir. Nunca vi a Guida hesitar ou arrepender-se de não deixar que a maltratem. E eu, assino por baixo. Adoro cães, são os seres mais ternos, mais inteligentes, mais fiéis... mas há algo na expressão de um cão abandonado que um gato jamais terá. Um gato jamais perde a sua dignidade, jamais perde a sua independência; um gato abandonado é um gato livre. Um cão abandonado é um cão desamparado. E nada é mais triste que o desamparo.
Da próxima vez que me chamarem arisca, lembrem-se disto: um gato cai sempre de pé.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Something old, Something New

Este blogue foi criado num dia 13, número de pouca credibilidade no que toca a bons augúrios. Foi criado por uma necessidade de expressão que há muito, desde sempre, me atormenta, e há muito é posta em prática com cartas para amigos, textos pontuais, páginas de diário, notas em envelopes, citações em guardanapos de papel, todo um manacial de palavras que me invadem diariamente, histórias que conto a mim própria e a ninguém, diálogos que idealizo, pessoas reais que ficciono e que, algumas vezes raras, são melhores do que a ficção que delas fiz.

Este blogue não tem ainda dois meses e já me ensinou muita coisa. A primeira é que não estou sozinha, nem nas minhas amarguras, nem nas minhas alegrias. Estive a somar, por alto, os comentários, e tendo em conta que muitos são meus, a verdade é que os dos leitores já roçam a centena e meia. Minha Santa Jade, nunca esperei!!! Para quem, nos últimos anos, em vez de fazer amigos, diverte-se a pôr a andar gente que não quer na sua vida, ando muito bem acompanhada. E isso é reconfortante. Muito reconfortante.

Costumo ter presente, sempre, aquela música do Variações que diz "Muda de Vida".

De há dois anos para cá, não sei se é por ser trintona, virei costas a muita coisa que até então era importante. Fartei-me da quantidade, em prol da qualidade. É um luxo, mas eu mereço-o. Virei costas ao medo de estar só, e preferi correr atrás de quem valia, realmente, a pena. Reconciliei-me com a minha mãe, de uma vez por todas, independentemente de não nos conseguirmos aturar mais que dois ou três dias seguidos. Temos agora, uma plataforma de entendimento, que se baseia num ritual de implicâncias sempre presente, que é hilariante e que um dia descreverei, aliado a um respeito mútuo de espaços e humores, e uma cumplicidade digna de almas gémeas. Essa era uma pessoa que eu queria perto de mim, e que consegui ter, com muito trabalho, sofrimento e tolerância de parte a parte, que as desculpas não são para se evitar, são para se pedir. Não sei quem foi o idiota que se saiu com a frase contrário, ai, e tal, as desculpas nao se pedem, evitam-se. Que cretinice. Nem vou dissertar sobre isto.

Adiante. Pazes feitas com a minha trave mestra, limpar o pó e desinfectar a casa, que não sou alérgica a ácaros mas sou a outros bichos rastejantes disfarçados de gente. E foi cá uma limpeza... acho que os meus amigos do peito, a dada altura, devem ter pensado que eu estava a exagerar, a ser intolerante, inflexível. Mas, como sempre, o tempo foi-me dando razão, e agora já ninguém teima no assunto. À minha mãe fazia confusão outro virar de costas, mais difícil e profundo, mas a vida é assim, e a mim ninguém me diz que tenho que aturar quem não merece, mesmo que os desmerecedores usem o mesmo apelido que eu. Uns escolhem a família pelo casamento; eu não me casei e escolho a minha pelas relações de comunicação e afecto.

Ao contrário do que foi vaticinado pelos piores abutres, e temido pelos melhores amigos, não estou sozinha. Estou muito longe disso, e a afastar-me, cada vez mais dessa situação. A olhos vistos.

No dia antes de ser operada, o meu tmn morreu. De repente, como todas as mortes, até as esperadas, acontecem. Das coisas que mais me dão prazer é ter, neste momento, de volta, 90% dos contactos. Isto porque as pessoas me foram ligando, esta semana. Umas por acaso, outras para saber de mim, outras para me gozar... ouve lá pá, fulano de tal já me disse que ficaste outra vez sem os contactos do pessoal, mas será assim tão cara uma agenda?, e assim, tenho tudo de volta. E foi muito, muito agradável, não ter empreendido grande esforço para recuperar os contactos dos meus. De facto, estamos em contacto. De facto, as limpezas são importantes. Nada me dá mais prazer do que olhar para a minha lista de contactos, de um telemóvel novinho e a brilhar, e ver só nomes de gente brilhante.

Entretanto, vou mudar também o meu vodafone em breve. Não gosto deste cartão, que querem, picuinhices. Depois mando-vos o novo... ou melhor, digo-vos o novo, pessoalmente.

Este fim-de-semana, tudo cheira a novo... até os velhos amigos.

Todas as Cartas de Amor são Rídiculas

Sou uma pessoa discreta. E neste momento, todos os leitores que me conhecem estão a rebolar a rir. Discreta, tu? Boa piada...
Mas não confundam o meu profundo espírito crítico, que me leva a ter sempre opinião sobre tudo, nem o meu sentido de humor mordaz, que me faz andar sempre às piadinhas parvas e a rir-me como uma palerma, no meio de gente muito séria a quem escapou completamente a piada, não confundam isso com ostentação ou protagonismo. A maior parte das vezes, gostava de ser invisível, e se não o sou, é porque tenho uma bocarra do tamanho do Mundo, que é gerida por um cérebro que não é o meu. Senão, vejamos: odeio que me cantem os parabéns, odeio que me façam elogios abertamente e na cara, odeio ser o centro das atenções, odeio aquele momento nas reuniões de Conselhos Disciplinares em que me dão a palavra e está tudo em silêncio para me ouvir, detesto cenas extravagantes, não sei reagir a surpresas, mesmo quando são boas, e coro até à raiz dos cabelos muito facilmente. Detesto excessos, abomino peixeiradas, gritos, cenas macacas, exposição de vidas privadas e pormenores íntimos, obsessões, maluqueiras, detesto. Tal como me disse um dia a Miss Covilhã, detesto quando não controlo as coisas. E, normalmente, controlo tudo. Única excepção feita às grandes paixões e, mesmo assim, já lá vai o tempo em que perdi o pé... um ano, mais coisa menos coisa.
A Vzinha perguntou há pouco tempo, uns dias, quem me andava a arrepiar os cabelos da nuca... esta expressão é genial, de facto. Respondi-lhe que não exagerasse. Eu sou muito exagerada quando se trata de contar histórias mas detesto exageros quando se trata de falar de sentimentos. Na verdade, até gosto andar apaixonada, mas é coisa que me acontece muito raramente, e quando acontece, ando completamente alienada de mim mesma e dos que me rodeiam, num estado de nirvana permanente, que me desgasta as energias e me inquieta a alma, me troca os sonos e me faz um mal horrível à cabeça.
Gosto muito mais de andar feliz do que de andar apaixonada; a paixão tem o mesmo efeito que uma droga, incluindo o de ressaca, quando vai embora. Eu gosto mais de andar contente que doente. Às vezes sinto a falta da tal droga, mas a maioria das vezes, ultrapassada uma ou outra decepção e conquistada a paz de espírito, sinto-me muito mais segura.
Sou uma pessoa discreta, sou. Tímida, insegura, com uma vulnerabilidade própria, uma contradição enorme que me permite responder à letra aos meus alunos que dizem, gosto tanto de si, storinha, e ser incapaz de o fazer a qualquer adulto que me diga o mesmo, olhos nos olhos, sem estar já roxa de vergonha. Adoro ser elogiada, e no entanto é a coisa que mais temo, e que me deixa mais à nora.
Ultimamente, sobretudo na última semana, tenho corado muitas vezes, ficado sem palavras outras tantas, e visto a minha vida a andar para trás por diversas ocasiões. Tenho tido inúmeras demonstrações de amor e carinho, muita gente a oferecer ajuda para carregar tralha, muitas pessoas à minha procura, muitos seres a partilhar comigo sorrisos, beijos, abraços e gargalhadas.
Sinto-me muito amada. E a minha alma anda roxa de vergonha, e escarlate de prazer.
A todos... vocês sabem bem quem são, em Lisboa e na Cidade de Deus, obrigada, também vos adoro, e o Kut-vlinho está a sarar. Eu disse que não havia força curativa mais poderosa... e eu costumo ter razão no que digo, se não sempre, pelo menos a grande maioria das vezes.
Todas as cartas de amor são ridículas, e se há coisa que eu desprezo é o ridículo, mas abro uma única excepção para vos escrever esta: I love you all.