quinta-feira, 29 de maio de 2008

Uma questão de TCHAN

Esta semana tem sido das mais ricas da minha vida no que toca a surpresas. Das boas. Parece que o Universo se uniu para conspirar a meu favor. Tenho ficado siderada uma e outra vez, especialmente com palavras de apreço vindas de sítios inesperados.
A minha chefe diz que eu tenho uma auto-estima como ela nunca viu. Rara. Não é a primeira pessoa a dizer-mo, não há-de, certamente, ser a última. Sou uma pessoa muito contraditória, a esse nível. Sou das pessoas mais arrogantes que eu conheço quando se trata de avaliar os outros e, no entanto, a pior crítica de mim mesma. Acho que não conheço alguém, para além de mim, que ache tanta gente medíocre sem que tal implique que me considere melhor que isso, seja a que nível for.
Sei que tenho muitas capacidades e boas qualidades, só não acho que seja suficientemente boa a algo específico para ser especial, para me distinguir seja no que for. E acho os meus lapsos, as minhas falhas e as minhas insuficiências muito embaraçosas, muito perniciosas e muito desconfortáveis. Admiro as pessoas que estão bem na sua pele, mas apenas quando o meu próprio sentido crítico as avalia de forma positiva: não há nada no Mundo que eu mais despreze que gente arrogante e pedante que, na verdade, não passa de balões cheios de nada.
Talvez por achar que não sou suficientemente bonita, culta ou inteligente, trabalhadora, responsável e sensível, solidária, simpática e tolerante, talvez por achar que estou bastante aquém dos parâmetros aceitáveis de uma pessoa digna de admiração, me espante e me choque por ver gente bem mais bera tão segura de que é o supra-sumo da batata.
De facto, este mundo não foi feito à minha medida, não foi.
Cumpro os requisitos mínimos indispensáveis para conseguir conviver comigo mesma diariamente, viver em paz com a minha consciência e andar de cara alegre, se não tiver problemas de maior. Mas confesso que adorava distinguir-me de algum modo. Como tal não acontece, sou profundamente irónica em relação a mim própria. A mesma ironia corrosiva que MCS diz que tenho em relação ao resto do mundo, aplica-se a mim.
Contudo, como toda a gente, sou sensível a quem me tente dizer o contrário. Uma sensibilidade céptica, mas terna. E esta semana correu muito bem a nível pessoal e profissional. Sou muito acarinhada pelos meus alunos. Começo a sê-lo também por colegas fora do grupo restrito a que chamo amigos. Houve até um leitor anónimo do blogue que me presenteou com um comentário muito bem escrito e muito elucidativo de que as pessoas por vezes convivem sem se conhecer, e se surpreendem agradavelmente com as descobertas que vão fazendo.
Esta semana houve um lanche que se transformou no mais perto que existiu de uma noitada em Portalegre nos últimos meses, um convívio em que me ri até às lágrimas como não fazia há muito, muito tempo: contaram-se histórias, disse-se muita, muita asneira, e, quase no fim, um colega meu disse-me "Gosto de te ver assim, tão bem disposta... já fazia tanto tempo..." Pus-me a pensar e fui contá-lo, o tempo, quanto teria passado desde que me perdi? Costumo dizer que foi em Dezembro, mas bem vistas as coisas, foi alguns meses antes disso.
Há pessoas que nos marcam a carne. Que vivem em nós muito depois de morrerem ou nos partirem o coração. Que nos assombram o espírito e têm um efeito devastador na nossa auto-estima, quando ela existe, mesmo que levemente. Que nos convencem que, se um abandono, um virar de costas, físico ou emocional, foi possível com elas, não devemos insistir com outras. Eu demoro eternidades a amar verdadeiramente alguém, e eternidades elevadas ao expoente da loucura a deixar de amar, a aceitar a perda, a largar da mão. Isso é algo que aprendi a aceitar em mim, não tentando forçar o contrário. Porque, eventualmente, acabo por largar.
Os leitores deste blogue não saberão, mas lido, desde muito jovem, com perdas e ausências fundamentais na minha vida. O facto de ser experiente na questão do abandono e da morte de entes queridos não me torna mais madura ou sensata a lidar com o facto, pelo contrário. A experiência, neste caso, é muito contra-producente. Traz o pânico, a revolta, a não-aceitação, a frustração e a desconfiança. Bloqueiam-se sentimentos, afastam-se pessoas, recusam-se intimidades, e quando se baixam as armas e alguém entra, quase sempre à revelia de quereres racionais, se as coisas dão para o torto, como dão sempre comigo, pinta-se um quadro de Guernica e acumulam-se lutos sem fim.
Por isso, semanas como esta, se bem que raras, são preciosas. Semanas em que as insónias se encarregam de nos baixar as tais armas, vencendo-nos pelo cansaço, e coincidentemente as pessoas nos dão atenção. Aí, voltamos para casa com o coração a cantar, e com a sensação, efémera, bem sei que é assim, que somos importantes, embora nunca cheguemos a ser especiais.
Quando era adolescente, definia fases como esta com a expressão "É tudo uma questão de tchan!" O tchan é a vida a acontecer e a surpreender-nos, quando tínhamos planos em direcções opostas. O tchan é acordarmos com o som da chuva a bater no vidro e, de repente, sem percebermos bem como, um arco-íris irromper com uma força avassaladora, pela mão de meia-dúzia de palavras simpáticas. E outras tantas atitudes que caem bem.

4 comentários:

Anónimo disse...

O teu texto fez me lembrar o ano anterior e as muitas vezes que nos riamos com a Mary ou claro com as "situações" ( melhor: ai que fofo... PUM)

Anónimo disse...

Porquanto, a vida avança, segue instigada alguns metros à nossa frente, o medo, a consciência e a adrenalina permanecem guardados na mochila. Este “breve apontamento” serve para retribuir as tuas agradáveis palavras.
Também as insónias me afogam num imenso mar de espuma branca entre papéis e a corrida do dia-a-dia. Hastear os braços e gritar de felicidade, acredita que, sim, é “uma questão de TCHAN”. E a cada grito, ainda mais e mais forte, devemos sorrir!
Viver mais um dia, como se não houvesse noite, como se a festa não tivesse fim…é essa a máxima que me preenche, e te preenche, a vida de euforia!

Anónimo disse...

Acredita que algumas das tuas palavras me deixam indignada... passo a explicar a indignação: acho um "insulto", à maioria das pessoas, quando escreves que não te sentes suficientemente culta e inteligente!
Posso confessar-te que já desejei n vezes ter um décimo da tua cultura, inteligência, do teu humor, da tua coragem... Não será inveja, mas anda por lá perto:)
Quando te ouço a dizer coisas semelhantes ou quando leio palavras como algumas que li até ao momento, fico um bocado triste, porque noto que tu não levas nada a sério o que te digo, mas mesmo assim, volto a repetir: MULHER, TU ÉS UM ESPECTÁCULO, CARAGO!!!!! Por isso nunca deixes que alguém ouse dizer o contrário.
Sempre cabeça erguida e muita força para deixar para trás das costas alguns dos fantasmas que apoquentam a tua genialidade... Espero assistir ao momento do novo "tchan" da tua vida!
Beijo

Jade disse...

Bem, bem... as surpresas continuam... hoje tinha um estojo da Hello Kitty metido num embrulho, na mala. Mas quem me fez a surpresa não se aguentou e disse "Vai à tua mala, sim? chata!" LOL
Mzinha, não me lembres essa cena... continua a provocar-me ataques de riso e pareço uma tontinha, aqui no puff, a rir-me sozinha numa sala vazia.
Anónimo: acho que começo a perceber quem és... pelo menos hoje alguém se queixou que não dormiu nada... terás sido tu? ando curiosa...
Quanto à outra mocinha... juízo. Não me tenhas como exemplo, que sabes bem que não sou exemplo para ninguém. E tu destacas-te pela doçura, és especial por isso, tens algo que te distingue... para além de teres quem te dê valor, alguém para quem és o mundo inteiro, ou não? Se alguém te inveja, com uma inveja positiva, sou eu.