sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lisbon Song

O sobressalto interrompeu um fim-de-semana XL que se queria na Cidade de Deus, entre tarefas domésticas, profissionais e intelectuais. Comigo, é assim. Há muito que desisti de fazer planos sérios seja para o que for, limito-me a delinear "mais ou menos" o que pretendo fazer, e a encolher os ombros, resignada, quando me sai, vez após outra, o tiro pela culatra.
Lá vim de charola para a Clínica a Lisboa, de cotovelo a latejar, e sem força sequer para pensamentos deprimentes. Eu já só quero que isto acabe rápido, pensava, se for para me internar, vamos a isso, se for para meter um atestado, é já, quero lá saber, eu já só quero que isto acabe. Alarme falso. Tudo normal, disse a experiente enfermeira, depois da costumeira desinfecção a éter.
E assim me vi na minha terra, sem chaves de casa, que deixei lá em cima, e umas boas horas pela frente, antes da minha mãe chegar do trabalho, endoideceste, Alexandra? Com este tempo pavoroso, o que vais tu andar a fazer quase seis horas na rua, anda cá buscar a chave! Em Lisboa? Seis horas é um instantinho. Se fosse na Cidade de Deus, era motivo para suicídio com justa causa, agora aqui... almocei calmamente no shopping onde fui à minha sessão de cinema do costume. Desta vez um filme muito agradável, com uma Norah Jones a dar ares de Angelina Jolie, e uma Natalie Portman sempre espectacular. O Jude Law é sempre uma surpresa, e não desiludiu. My Blueberry Nights, aconselho a quem queira passar umas horas agradáveis sem ser estupidificantes. O resto da tarde passei-o enfiada em lojas de roupa e livrarias, onde estava quando a minha mãe me ligou. Já?, e viémos para casa.
Lisboa é, cada vez mais, um puzzle de peças coloridas, semelhantes e, ainda assim, diferentes. É a gargalhada da minha mãe, a caixinha de surpresas do costume; o olhar da minha gata, e uma turrinha esporádica e pouco assídua; é uma pizza ao domicílio, sempre diferente; uma ida ao cinema, ou duas, sempre uma festa; uma sobremesa bruta, a de hoje foi uma fantástica mousse de chocolate; vários episódios de várias séries de eleição, CSI, NCIS, A Patologista, Sem Rasto, Bones, o melhor da TV Cabo que a minha mãe já não pode ver à frente e eu devoro; e as minhas lojas de roupa e livros, os cafés e a tabacaria onde me tratam pelo nome, a rua que conheço desde sempre e aquele pormenor delicioso do raio de sol a bater num vidro de um prédio e a encadear o transeunte mais próximo.
O fim-de-semana XL, tal como planeado, foi-se. Mas há beleza no improviso.
Dizia Robert Frost que a felicidade compensa em altura o que lhe falta em comprimento. E embora tal conclusão, genial de tão simples, jamais me passasse pela cabeça, subscrevo-a de corpo e alma.

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