Sou uma pessoa discreta. E neste momento, todos os leitores que me conhecem estão a rebolar a rir. Discreta, tu? Boa piada...
Mas não confundam o meu profundo espírito crítico, que me leva a ter sempre opinião sobre tudo, nem o meu sentido de humor mordaz, que me faz andar sempre às piadinhas parvas e a rir-me como uma palerma, no meio de gente muito séria a quem escapou completamente a piada, não confundam isso com ostentação ou protagonismo. A maior parte das vezes, gostava de ser invisível, e se não o sou, é porque tenho uma bocarra do tamanho do Mundo, que é gerida por um cérebro que não é o meu. Senão, vejamos: odeio que me cantem os parabéns, odeio que me façam elogios abertamente e na cara, odeio ser o centro das atenções, odeio aquele momento nas reuniões de Conselhos Disciplinares em que me dão a palavra e está tudo em silêncio para me ouvir, detesto cenas extravagantes, não sei reagir a surpresas, mesmo quando são boas, e coro até à raiz dos cabelos muito facilmente. Detesto excessos, abomino peixeiradas, gritos, cenas macacas, exposição de vidas privadas e pormenores íntimos, obsessões, maluqueiras, detesto. Tal como me disse um dia a Miss Covilhã, detesto quando não controlo as coisas. E, normalmente, controlo tudo. Única excepção feita às grandes paixões e, mesmo assim, já lá vai o tempo em que perdi o pé... um ano, mais coisa menos coisa.
A Vzinha perguntou há pouco tempo, uns dias, quem me andava a arrepiar os cabelos da nuca... esta expressão é genial, de facto. Respondi-lhe que não exagerasse. Eu sou muito exagerada quando se trata de contar histórias mas detesto exageros quando se trata de falar de sentimentos. Na verdade, até gosto andar apaixonada, mas é coisa que me acontece muito raramente, e quando acontece, ando completamente alienada de mim mesma e dos que me rodeiam, num estado de nirvana permanente, que me desgasta as energias e me inquieta a alma, me troca os sonos e me faz um mal horrível à cabeça.
Gosto muito mais de andar feliz do que de andar apaixonada; a paixão tem o mesmo efeito que uma droga, incluindo o de ressaca, quando vai embora. Eu gosto mais de andar contente que doente. Às vezes sinto a falta da tal droga, mas a maioria das vezes, ultrapassada uma ou outra decepção e conquistada a paz de espírito, sinto-me muito mais segura.
Sou uma pessoa discreta, sou. Tímida, insegura, com uma vulnerabilidade própria, uma contradição enorme que me permite responder à letra aos meus alunos que dizem, gosto tanto de si, storinha, e ser incapaz de o fazer a qualquer adulto que me diga o mesmo, olhos nos olhos, sem estar já roxa de vergonha. Adoro ser elogiada, e no entanto é a coisa que mais temo, e que me deixa mais à nora.
Ultimamente, sobretudo na última semana, tenho corado muitas vezes, ficado sem palavras outras tantas, e visto a minha vida a andar para trás por diversas ocasiões. Tenho tido inúmeras demonstrações de amor e carinho, muita gente a oferecer ajuda para carregar tralha, muitas pessoas à minha procura, muitos seres a partilhar comigo sorrisos, beijos, abraços e gargalhadas.
Sinto-me muito amada. E a minha alma anda roxa de vergonha, e escarlate de prazer.
A todos... vocês sabem bem quem são, em Lisboa e na Cidade de Deus, obrigada, também vos adoro, e o Kut-vlinho está a sarar. Eu disse que não havia força curativa mais poderosa... e eu costumo ter razão no que digo, se não sempre, pelo menos a grande maioria das vezes.
Todas as cartas de amor são ridículas, e se há coisa que eu desprezo é o ridículo, mas abro uma única excepção para vos escrever esta: I love you all.
4 comentários:
O teu blog é agora uma visita diária e pensava que o teu texto de hoje era sobre o outro assunto...
Beijinhos, bom fim de semana na nova casa
Tu não me provoques... tu não me faças falar... deixa assentar a poeira, que eu tenho que me inspirar para falar de outros assuntos... escrever um texto a matar, como aquele que ficou por ler, no ano passado, lembras-te? Quanto é que pagam, digam lá... quanto é que pagam pela palavra certa?
Quero deixar aqui o meu simples e humilde testemunho, relativamente a essa estória sobre as cartas de amor serem rídiculas... Quem pensa assim ou é oco e vazio, ou tem vergonha dos sentimentos. Nada há de mais belo do que uma carta de amor.
A propósito...! I love you too, my dear Jade! Sobretudo porque aprendi a gostar de ti. A louca correria de todos os dias da minha vida, por vezes não me deixa muito espaço para dizer aos meus amigos o quanto eu gosto deles. Boa estadia na casa nova. Sê muito feliz!
Quem o disse foi Fernando Pessoa, Pyppas. Mas termina o poema dizendo, "Mas mais ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor ridículas!"
E eu concordo. Beijos e obrigada
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