domingo, 4 de maio de 2008

Sigur Rós e The Butterfly Effect

Hoje, eram 3 da tarde, e um querido amigo veio despertar-me duma morrinha que prometia durar todo o santo dia. Estava imersa num daqueles estados de espírito em que toda a preguiça do mundo é desculpável e se encontram argumentos para tudo excepto para fazer o que é preciso. Uma auto-indulgência que se paga, obrigatoriamente, com o dobro do trabalho, ou o mesmo trabalho em metade do tempo para o fazer, o que vai dar ao mesmo. Ou, pior, que se paga com problemas de consciência à vista de um trabalho mal-feito.
Por isso, um anjinho caiu-me do céu, num desafio para um café em boa companhia. É muito boa onda, este rapaz, e lá fomos ver a cidade adormecida, como sempre, aos Domingos, em busca de uma marca de cigarros que ninguém fuma, fumo eu, ora essa, já te disse que não sou normal, não és não, mas lá tiveste que fumar LM azul dos meus, e é se queres... uma breve conversa, um breve café, e foi o que bastou para que viesse para casa e resolvesse de uma assentada grande parte das tarefas domésticas. Depois, quis mudar a banda sonora, e lembrei-me que tenho cá uma colectânea de Sigur Rós emprestada, em DVD. E pensei, enquanto vejo testes, vou ouvindo... pois. Só que esta banda não é normal, e nao dá para ignorar a imagem.
Hipnotizei logo aos primeiros acordes, e colei-me às imagens duma cascata a subir uma falésia, em vez de escorregar para o abismo. Não há nada mais perturbante do que ver água a correr ao contrário. A mim provoca-me um medo escuro, esta inversão da ordem natural das coisas.
Ontem vi o filme Butterfly Effect. O tema é o mesmo, a inversão do tempo, o consumar da expressão batida "Se eu soubesse o que sei hoje...". Neste caso a pergunta dos escritores "What if..." termina em "... I could change my past?". Um bater de asas de uma borboleta pode causar um tornado do outro lado do Mundo. À vista das nossas desgraças pessoais, que momento mudaríamos no nosso passado, que frase não diríamos, para que autocarro correríamos e qual deixaríamos passar, que dia de sol lutaríamos contra a vontade de ficar a dormir e sairíamos, mesmo sem companhia? E, mudando esse momento, impediríamos as nossas desgraças sem criar outras? Sem prejudicar ninguém? Sem traçarmos algo de ainda mais escuro, com a mudança?
O mesmo arrepio que me atravessa a espinha quando olho a gota dos Sigur Rós largar os círculos que traça na água e ser sugada ascendentemente em direçcão a uma ponta de gelo, atravessa-me o espírito, quando penso na facilidade que todos temos em viver uma vida diferente pelo simples facto de nos atrasarmos cinco minutos numa qualquer manhã de Verão. E o tempo, o destino, ou o manobrador das marionetas, lá em cima, deve sempre seguir em frente. Este é o meu sentir: se eu soubesse o que sei hoje, faria exactamente o mesmo.
De todas as pessoas que conheci, apenas uma era dispensável na sua totalidade. Apenas uma em 32 anos. Todas as outras, bem ou mal, tiveram os seus momentos e os seus lugares, e há um sítio no meu coração em que guardo os bons tempos, embora não perdoe os maus. Apenas uma não me trouxe nada de bom, apenas maus sentimentos, uma repulsa do tamanho do meu mundo, uma aversão de sentidos e espírito, uma náusea. Essa, dispensava ter conhecido, sem dúvida, vejo-a abjecta. Mas, por outro lado, se não conhecesse o que de mais baixo pode haver, como poderia perdoar outros que, por comparação, não se lhe comparam?, passo o paradoxo...
Não. Se eu soubesse o que sei hoje, deixaria a água correr da fonte para a foz, pingar do céu à terra, e precipitar-se, do alto para o infinito. Sempre nesta ordem.

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