Detesto rótulos aplicados a pessoas. Ainda hoje uma encarregada de educação me falava disso em relação à filha, na mesma turma desde a pré-primária: professora, uma criança leva com um carimbo na pré e mantém-no até ao nono ano. Por mais que evolua, por mais que mude ou por mais que essa marca sempre tenha sido, desde o início, injusta.
Detesto preto e branco, detesto generalizações, detesto pressupostos, detesto preconceitos.
Detesto o rótulo que tenho, detesto que as pessoas me definam com uma ou duas palavras quando, eu própria, uso tantas e não me consigo definir devidamente.
Não nego, contudo, que palavras com fronteiras bem definidas dão uma sensação morna de segurança e que sou eu mesma, na cadeira do terapêuta, que o bombardeio com perguntas que pedem escolhas entre opostos: peço-lhe que me diga, por favor, sou depressiva, estou deprimida ou sou simplesmente preguiçosa? Sou boa pessoa ou sou idiota? Tenho uma autoestima fraca ou sou arrogante? Sou inteligente ou tão burra que nem sequer sei viver? E ele pergunta-me, sempre, se são apenas estas as opções ou se pode escolher outras. E recusa-se a responder. E eu resmungo contra os psiquiatras. E acabamos os dois a rir.
Não nego, contudo, que palavras com fronteiras bem definidas dão uma sensação morna de segurança e que sou eu mesma, na cadeira do terapêuta, que o bombardeio com perguntas que pedem escolhas entre opostos: peço-lhe que me diga, por favor, sou depressiva, estou deprimida ou sou simplesmente preguiçosa? Sou boa pessoa ou sou idiota? Tenho uma autoestima fraca ou sou arrogante? Sou inteligente ou tão burra que nem sequer sei viver? E ele pergunta-me, sempre, se são apenas estas as opções ou se pode escolher outras. E recusa-se a responder. E eu resmungo contra os psiquiatras. E acabamos os dois a rir.
Ontem o DOC abordou comigo um assunto particularmente difícil e doloroso. Às tantas, numa tentativa de simplificação, usou uma metáfora bem ilustrativa: há dois tipos de atitude, quando alguém está atrás de um volante de um carro descontrolado em direção a uma árvore... ou se resigna, encolhe os ombros e se deixa ir de encontro ao obstáculo, ou guina o volante, trava, volta a guinar, capota o carro e pode ir ou não de encontro à árvore, pode até morrer na mesma... ou não. Eu disse-lhe que achava que fazia parte do segundo grupo. E aí, ele surpreendeu-me. Disse-me que sim, que eu era dos que lutavam. Mas que era dos que lutavam na certeza, porém, de que essa luta não iria valer de nada e que iria, fatalmente, acabar estatelada na árvore. E que isso não era pessimismo intrínseco, era uma convicção absoluta, fruto de más experiências diversas e repetidas ao longo de uma vida inteira.
O meu problema, diz ele, não é falta de resistência, mas falta de fé. Diz que eu sou muito corajosa, porque luto em todas as frentes, apesar de estar convencidíssima de que tudo o que faça, por mais que tente, não vai adiantar nada nem mudar o que quer que seja na minha vida. E que essa é uma coragem que não faz sentido nenhum. Acreditando no que acredito, com a força com que acredito, seria muito mais natural que fosse suicidária. E não sou.
Será talvez mais difícil mudar de crenças que de atitude. E, ao que parece, não há nada de errado com as minhas atitudes. E isso, para mim, é a epifania de uma vida. E um medo novo, que agora ganha uma forma de contornos bem definidos, como um rótulo.
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