Sou um prodígio a meter-me em encrencas, nas chamadas fases Murphy. Fases em que tudo o que há para correr mal, corre mesmo. Sempre coisas sem gravidade, mas encadeadas umas nas outras, como as cerejas, e que, ao fim de um dia de trabalho, levam uma pessoa como eu ao desespero.
Hoje comemorava mentalmente o facto do meu horário marcado ter sido cumprido, e conseguir estar em casa a horas normais. Ainda bem que não gastei dinheiro em foguetes: depois de passear com o Chico, ia sentar-me ao computador e... tinha deixado o cabo do dito na escola. Ora a bateria já morreu vai para dois anos. Para ajudar à festa, o meu telemóvel está sem saldo, logo não havia hipotese de pedir a alguém que ainda lá estivesse para mo trazer.
Conformada com o facto de ter que fazer mais 40Km estupidamente, mal fecho a porta de casa, dou pela falta da chave da mesma. Tal não seria grave se a Mzinha não desse aulas hoje à noite. Bendito Facebook. Lá a consegui contactar de um dos computadores da escola e, felizmente, uma das colegas dela que mora na mesma cidade que nós ainda lá estava e trouxe-ma. Nisto se foi uma hora e meia da minha vida e toda a restante paciência que ainda sobrava. Isto porque, apesar de até nem ter corrido mal, e para ajudar à festa que já era de arromba, nos entretantos ainda levei com uma daquelas pessoas que não se tocam (toda a gente conhece alguém assim, e eu conheço várias, e normalmente aturo-as com delicadeza e paciência de Job), e aproveitam qualquer coisa que alguém diga para estarem tempos infinitos em monólogos infindáveis sobre a sua própria vida e as suas próprias experiências, que são sempre piores ou mais interessantes que as do resto do mundo. Se não fosse uma alma caridosa oferecer-me um cigarro, acho que desta vez teria sido mesmo desagradável. Com o cigarro, em vez de me dar a travadinha, entrei em modo passivo-agressivo e desliguei. Quando houve uma pausa no discurso, pirei-me da escola, recuperei a chave e agora, já em casa, considero a hipótese de ir respirar para dentro de um saco de papel.
Não há dúvida, contudo, que "practice makes perfect", e estou cada vez melhor e mais prática na resolução de problemas. Embora depois continue a precisar de me lamentar e de resmungar. Mesmo que seja por este meio e, cada vez menos, ao vivo e a cores.
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