Infelizmente para o meu cão e todos os serial killers desta cidade, não sou bicho de rotinas. Sou bicho de impulsos. Gosto de rotinas, é verdade, mas não consigo manter nenhuma, com grande pena minha: não como a horas, não me levanto nem deito a horas, não trabalho a horas, enfim, sou uma grande desorganizada e, ainda assim, o meu DOC diz que me organizo muito bem, dado o meu feitio e as minhas circunstâncias. No entanto, continuo a achar que sou um caos, especialmente quando se trata de combinar coisas, nem que seja para essa mesma tarde, desse mesmo dia. Nunca sei qual a veneta que me vai dar, ou o fogo que terei que apagar.
Hoje tinha planeado ir ao supermercado pela fresca da manhã, e já só fui pela fresca da tarde. Gosto de ir ao supermercado quando está quase vazio, porque há lá perto um café onde aprecio sentar-me sozinha a beber a minha meia de leite, rodeada de velhas cuscas por todos os lados. As tipas, que me olharam desconfiadas das primeiras vezes que lá me viram entrar, já se habituaram à minha presença domingueira. Devem lá passar o dia, que as vejo lá sempre, seja a que horas me dê na cartola dar às caras.
A Alice Vieira disse, há pouco tempo, no Câmara Clara, que quando escrevia crónicas semanais e lhe dava uma branca, ia ao café e dizia "vou à rua buscar uma história". Posso enganar todos os serial killers desta cidade, mas jamais trocarei as voltas às velhas cuscas. E trago sempre histórias. Da vida dos outros, claro está. E de adultério, de preferência. Hoje soube de uma determinada senhora a quem pagam a renda e dão vinte euros ao dia. Isto apesar da dita ter um emprego, e de quem paga as contas ter uma mulher. Por enquanto. Ao que parece a legítima descobriu, está armada a escandaleira, o tipo foi corrido de casa com uma mão à frente e outra atrás e... a outra, agora, sem renda e sem vinte euros, ainda tem que o gramar lá em casa. Isto há coisas mesmo injustas!
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