Esta é a última frase do Ondjaki. Genial. Pus-me a pensar no meu Antigamente. Eis o que, de repente e sem ordem pré-estabelecida, transporto no meu lugar assim dentro.
Um carrinho lilás dentro de uma cesta de brinquedos. Os livros da Anita. Um Snoopy de peluche, do meu tamanho. O pôr-do-sol na praia de Sesimbra. Um monte de testes da segunda classe a voar com o vento. Os cromos da colecção Dias Felizes. As aulas de Inglês da primária, em que cantávamos as músicas da Mary Poppins. Música Clássica sentada no chão da sala. Poesia em voz alta pelo timbre meigo da minha avó. Ovos mexidos aos Sábados de manhã. Um prato de Nestum com Mel na cama. Crescer. Um primeiro grande amor, um primeiro melhor amigo. Conversas infindáveis ao telefone. Tópicos para os testes de História que corriam a turma toda. Uma salva de palmas por uma aposta ganha ao professor de Português que em vez do dezoito, que nunca dera, teve que dar um dezanove àquela aluna rara. Uma viagem a Paris. O rapaz mais especial de todos. A Eurodisney vista pela primeira vez. O desgosto de uma vida inteira. A Faculdade que me viu crescer. O professor favorito. O grupo de amigas com que partilhei as primeiras farras à séria. Uma data de máquinas a apitar ao mesmo tempo, a gritar a morte do meu avô. Um amigo que me foi buscar à campa dele, quando já ninguém restava e eu me perguntava, será que ele fica bem aqui sozinho? Terá frio? O veredito da doença, crónica, disseram-me na altura. A primeira vez em que entrei numa sala de aulas do lado de lá, que agora é, há tanto tempo, o de cá. As caras dos meus alunos nos primeiros tempos, em que sou a bruxa. As caras deles, à despedida, com flores, cartões e abaixo-assinados para eu ficar na escola. A Cidade-de-Deus, quando regresso para ficar. Os casamentos das minhas amigas. O divórcio de uma delas. Os primeiros filhos delas, meus sobrinhos. O amor da minha vida adulta. A imagem de um homem, de costas para mim, a trabalhar no computador. O cheiro de um café, aos Sábados de manhã. Vodkas laranja, línguas-de-gato e póker de dados, madrugada fora, queres levar uma malha? Londres. Paul Auster a sussurrar-me ao ouvido. Amigos inesperados a pintar quadros e a fazer-me chorar. Um amigo pequenino aos gritos Vou Dizer de Ti a Toda a Gente!! Esplanadas ao entardecer com a seita do costume. Uma mensagem mandada para o meio de uma ópera a dizer "Ai o emplastro não foi? Faz aí uma falta como um cão à missa..." A Comporta e os chocos fritos a tapar um medo de morrer inédito. Uma sala de operações, uma anestesia geral e pela primeira vez a sensação de não estar só, e haver muita gente do lado de lá, à espera. Um dia de sol numa esplanada a almoçar, com a certeza absoluta de estar perante uma alma-gémea. Um poema. Uma árvore de frente para uma barragem. Um sofá duma sala. Um carro, a chuva a cair no pára-brisas, e um dia de Santo António de um ano já perdido no tempo. O primeiro beijo. Aquele sorriso. O meu coração no teu bolso do peito, sempre. E o cheiro da minha mãe, a sua voz meiguinha e as suas gargalhadas fortes a acompanhar tudo o resto, tipo leitmotiv.
Tudo, tudo, num lugar assim dentro. Num lugar assim dentro onde cabem ainda todos os mais anos que hão-de vir, cheios de arco-íris, gotas de chuva, céus estrelados e nuvens de algodão doce. Cheios de paixão e dor, risos e lamúrias, piadas e resmungos, que a vida é rica quando não nos acobardamos nem nos acomodamos.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.
7 comentários:
Também tenho para esse lugar aí dentro uma foto de sereia num entardecer em torre molinos; os cafés na grande sala de estar nanini.
A companhia das cabeleireiras nô, bruxinha e coelho da páscoa, mandam-te beijinhos. Foi giro ver uma miniatura de cada uma delas.
Já tenho o baldinho da hello kitty e a pá cor-de-rosa-parolo!
Tu tens muitas, muitas fotos no meu lugar assim dentro. Um restaurante em que sugeriste partir copos de cristal numa determinada banheira; uns collants verde-alface; festas de aniversário com as melhores iguarias do Mundo; a melhor sangria de todos os tempos; e, claro, eu é que sou o Presidente da Junta!
"Um carro, a chuva a cair no pára-brisas" : o pára - brisas que trabalhava quando lhe apetecia e principalmente quando não estava a chover...
Uma tarde que não era tarde. Uma vontade quebrada. Um grito, uma dor forte e constante que perdurou. O cheiro a éter, as batas de várias cores, ruídos de rodas que giram frenéticamente e o maná quase bíblico. O mergulhar numa profunda solidão partilhada com dor. O banho matinal com ajuda manipulada. Chamava-se Sofia e deixou cair duas lágrimas na despedida. "Grande homem" - disse. Vá lá saber-se porquê. 3 camas 3 joelhos direitos operados - Brigada do Joelho Direito. (BJD)
Há quem diga que só se fazem amigos em dois lugares: no hospital e na cadeia. Não sei! Sei que duas horas depois recebi uma sms "prof isto sem si não tem graça nenhuma. Pode parecer parvoíce mas já temos saudades suas."
A história de 3 vidas, a BJD, dentro de outras histórias e comoções durante o rio das flores e longe de manaus. Todo o tempo é em si único. Toda a memória é cuidadosamente guardada em pequenas caixas que mais não são senão os registos daquilo que os outros guardam de nós. Obrigado pelo rio das flores. Obrigado BJD.
Até um destes dias.
Não. Também se fazem amigos verdadeiros em salas de professores, quando estas antecipam notícias que tememos. Fazem-se amigos em qualquer lugar. O importante é sabermos reconhec~e-los e não os deixar passar ao lado, enquanto olhamos outros lugares. Beijos
Pois é, Mzinha. Tu foste a única testemunha (conhecida) de uns limpa-pára brisas com muita personalidade que se recusavam a trabalhar só em dias de chuva, e diziam adeus aos transeuntes, em dias de sol. Mas na Cidade de Deus tudo é possível, já nada espanta...
Descobri que as crianças, quase todas, por volta dos 3 anos dizem "Está lá indentro." o que me leva a acreditar que mesmo sem saber, flectem e emitem um som "in" que apela para o dentro.
Estou tão chomskyana...
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