quinta-feira, 10 de julho de 2008

Blind Spot

Ângulo Morto.
Aquele bocadinho do cenário que a câmara não consegue apanhar. A tal "parvicidade", vulgo, para os mais desatentos, privacidade, de que tanta gente fala tanto mas tão pouca gente sabe respeitar. Ou reservar-se o direito, luxo? de exercer como direito adquirido. Um ângulo morto, um pouco de invisibilidade social, para além do "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada a ver com isso". É mais o "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada que olhar para mim como se nunca me tivesse visto" ou, como diz a Li, como se tivesse perdido alguma coisa no meu bolso.
Às vezes custa viver numa cidade big brother, onde há sempre alguém conhecido, mas não íntimo, que temos que saudar de sorriso amarelo e nos avalia as roupas e as companhias. Olha, aquela agora dá-se com esta... com que fim, com que objectivo, sim, tem que ser algo para além do óbvio, que é divertirem-se em conjunto, tem que haver um interesse obscuro, um pormenor escabroso, uma escandaleira qualquer por trás disto. (suspiro)
Às vezes custa, ter que aturar gente maldosa, em prol de um bem maior. Cansa. Sou bicho de cidade grande, de shoppings atafulhados de desconhecidos, de rastas e piercings e betos e tias e labregos e doutores, todos eles unidos pelo anonimato e a convicção de que o Mundo é grande e a nossa vida deveras complicada para ainda termos que estar a conjecturar sobre a dos outros.
Amanhã vou entrar num ângulo morto, longe de olhares perscrutadores, inquiridores, inquisitoriais. Vou desaparecer das câmaras, vou respirar, dando-me ao luxo de ser quem sou, gostar de quem me apetece, ser amiga de quem bem entendo e rir-me do que será sempre, para mim, ridículo e incompreensível. Aos que gostam de me observar e ainda assim não percebem, coitados, o transparente que eu sou, tenho a dizer uma frase genial da douta Li: Só fala de orelhas quem é orelhudo...

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