Quem quiser ler coisas bonitas e optimistas volte amanhã, que eu hoje não estou para amar.
As coisas até corriam no seu jeitinho assim-assim, quando, por volta das cinco e meia da tarde, o meu trabalho de ontem e hoje se transformou, com certeza por alguma burrada tecnológica minha, que continua até agora um sombrio mistério, em caracteres chineses, quadradinhos e o diabo a sete. A minha expressão, antes de me desfazer em lágrimas, claro está, deve ter sido digna de ser gravada, para fazer rir o comum mortal. Foi o necessário e suficiente para fazer surgir em mim o pior que eu tenho, não a bruxa-madrasta, mas o Calimero que há em mim, que eu detesto e, no entanto, não consigo evitar.
Fiquei literalmente doente. Sim, sei que não é o fim do Mundo. Sim, estou habituada a que nada na minha vida seja fácil. Sim, estar habituada não é o mesmo que aceitar o facto de forma resignada. Quando estas coisas me acontecem, entro numa espiral de self-pity, espiral essa que, para além de não resolver ponta de chavelho, normalmente deita tudo o resto a perder. E sim, tenho essa noção e essa consciência. E não, mesmo assim não consigo evitar.
Estou um caos. Porquê? Porque como digo é uma espiral. Porque estava tudo, o trabalho quero eu dizer, a avançar de forma lenta mas sólida e quase disciplinada, não estava a progredir a olhos vistos, mas estava a conseguir pegar-lhe diariamente, esquecer um pouco da minha solidão e dos meus fantasmas e fazer algo útil em meu proveito próprio.
E a primeira ideia que me vem em pranto, a olhar para as minhas páginas perdidas, foi, não vale a pena. Nada disto vale a pena. Passei uns últimos meses que nem um bicho mau merece, tenho uns dias de férias e resolvo que vou passá-los a lutar pela minha dissertação e isto acontece porquê, quando podia estar na praia, ou na piscina, ou na cama a dormir? Não vale a pena. Para provar o quê a quem?
Esta dissertação está amaldiçoada desde o início. Amaldiçoada por mim própria, claro está. Um projecto iniciado por todas as razões erradas, adiado por todas as razões erradas, inacabado por todas as desculpas que, por muito verdadeiras que sejam, são no fundo erradas. A Li diz muitas vezes que não a faço porque não quero. Que se quisesse, fá-la-ia sem dificuldade nenhuma, ela diz, com uma perna às costas. Infelizmente, o que carrego às costas não é uma perna, mas todos os absurdos do meu mundo. Toda a idiotia que é possível conceber e me impede de evoluir.
Neste momento sinto-me muito pequenina. Sinto-me muito parva, no sentido latino do termo. Sem força. Como se a falta de força de vontade fosse novidade em mim, quando há anos me acompanha como uma sombra. Irrita-me este modo que tenho de ser, esta fatalidade do meu modo de agir que me faz transformar sempre um copo de água em tempestade. A gota que cai sempre em sítio e tempo errados e arrasta a maré de porcarias que penso estarem ultrapassadas mas regressam sempre que algo corre inesperadamente mal. As coisas que passo a vida a convencer-me que já não me magoam nem me afectam e que revivo, como uma lista, sempre presente, para me deitar ainda mais abaixo quando a altura é de reacção e fuga para a frente. Como se fosse o primeiro e último ser humano a perder umas páginas escritas por intermédio de um computador que resolveu tomar uma atitude por vontade própria, ou assim me parece.
Sei que não. O meu desespero, dirão alguns, a minha loucura, dirão outros - mais malévolos, de sorrisinho irónico, parece que os estou a ver - não me leva a tanto, a achar que sou a única a quem isto acontece. A minha lucidez leva-me, isso sim, a achar que pouca gente reage desta forma a um acontecimento tão infinitamente fútil. Uma reacção infantil e mimada, de quem acha que as coisas não tinham que ser assim, logo, que se lixe, não brinco mais. Porque estou cansada que tudo em que toque se pulverize, nos antípodas do toque de Midas.
Porque gostava que, de uma vez por todas, de cada vez que algo me corre ao contrário do previsto, visse nisso apenas o que é, uma fatalidade que tem conserto. Sem chamar à baila tudo o que aconteceu nos últimos anos que não tem conserto nenhum, e que devia estar morto e enterrado. Chego à decepcionante - e temível - conclusão que não encerro nem ultrapasso nada na minha vida. Apenas guardo as coisas más numa gaveta alta de um qualquer armário escuro e a elas regresso, quando as coisas correm mal, para me sentir ainda pior. Não será este o cúmulo do masoquismo?
7 comentários:
Bom dia alegria. Não, não partas ainda o pc, tá! Espeta mas é essas garras cá para fora e continua. Desta vez escreve sem consultar nada. Livremente. Sairá melhor.
Apesar de tudo o que possas pensar jade, os meus bolos de iogurte "still stink and go directly into the garbage bin"
Acredites ou não, e por estranho que pareça, essa informação deu-me muita força. Priemiro porque me fez sorrir. Depois porque eu sei que, entre os que vão para o lixo, há exemplares que vão saindo perfeitos.
Foi pena, mas sempre podes pedir ajuda a Ye para os caracteres Chineses. Mas não desistas, para a semana eu dou apoio moral.
beijinhos
Também me lembrei da Ye, acredita... por enquanto, não lhe peguei mais. Vamos ver...
Não vou tecer mais considerações sobre o sucedido... Tem calma, respira fundo, fecha os olhos e relax! Tudo tem remédio. Vira a página, avança, recomeça se for preciso e se tiveres vontade. Não tens que provar nada a ninguém. Mas, não contenhas a raiva e a ira deixa-as sair! Faz bem...! Acredita que nada acontece por acaso, apesar de eu saber que não partilhas a mesma filosofia. Aproveita as férias para fazeres o que te possa trazer prazer e bem-estar, não te castigues, pelo amor de ti própria.
Desculpa o silêncio e a ausência, foi mais uma travessia no deserto.
Bem vinda. Um dia podemos falar sobre isso, se quiseres. Acho que valia a pena. Obrigada.
querem ver que a Ye sempre serve pa alguma coisa!???
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