Não sou, nem pouco mais ou menos, conhecedora de poesia. Não sou, sequer, grande apreciadora. Com isto não quero dizer que concorde com o Pan quando ele diz que a poesia são palavras agitadas e atiradas ao ar, que depois ficam como caem no papel, não. Diz Eugénio de Andrade que gostaria que a frase de Santo Agostinho que diz "A beleza é o esplendor da verdade" dissesse "A poesia é o esplendor da verdade", porque "só assim evitaremos que se torne na mais fútil das ocupações". E eu concordo. Ironicamente, há por aí muita gente convencida que é poeta que não é mais que um condenado à mais fútil das ocupações. Alguns poetas contemporâneos parecem apostados em escrever coisas que ninguém percebe, para ganharem, quiçá, o título de gente "instruída", "intelectual", "inteligente", uns cretinos, em resumo. Há que não esquecer que poesia é a expressão mais pura do sentir. Mais puro que a poesia, só o não-verbal. Poesia é a palavra a transcender o signo em direcção à essência, é a palavra a descrever o indescritível, a dizer o indizível, ou, pelo menos, a tentar. Em tentativas nobres e honestas. Um dos meus poetas favoritos é Alexandre O'Neill. Porque se percebe o que diz, e ninguém o diz como ele.
Hoje, para descansar da tese, passava os olhos sobre alguns dos meus textos favoritos, e escolhi este, reparem,
Um Adeus Português
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Isto já me aconteceu. Duas vezes. Alguém olhar para mim e dizer, não sirvo para ti; este espaço é demasiado pequeno; esta gente é demasiado mesquinha; esta cidade é demasiado limitada; esta vida é demasiado curta, mereces melhor.
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Isto já me aconteceu. Duas vezes. Alguém olhar para mim e dizer, não sirvo para ti; este espaço é demasiado pequeno; esta gente é demasiado mesquinha; esta cidade é demasiado limitada; esta vida é demasiado curta, mereces melhor.
Já me aconteceu. Duas vezes. Ironicamente, de ambas as vezes, aconteceu-me com as únicas pessoas, as únicas, por isso é que é irónico, que eu nunca tive dúvidas de que estavam muito, muito, acima do que achavam delas próprias. E, já agora, de mim. Este é um poema que me dói especialmente.
Precisamente por isso, amo-o. Porque acho que a poesia tem que se reconciliar com o simples leitor. Aquele que vê novelas, lê jornais desportivos, joga no euromilhões, mas não perdeu as capacidades de sonhar e sentir... desde que venham expressas em Português, e não em Arrogantês.
4 comentários:
Há um belo momento no filme "o carteiro de pablo neruda" em que o pablo explica ao carteiro o que é uma metáfora com a imagem de uma borboleta( eu só vi duas vezes mas acho que é isto).
Quando vi pela primeira vez o filme, ao meu lado o meu amigo joão de cinemas da sessão das 12.30, disse: "... que bom que era se nos deixassem escrever assim sobre poesia, sem termos de dissecar cada linha lá na faculdade."
Sem pretensões a poesia até pode ser uma boa leitura, mas tudo o que vem escrito ou é lido em arrogantês é, de facto, muito dificil de atingir.
O Rei Vai Nú!
O Rei Vai Nú!
O Rei Vai Nú!
A forma como lês )as teorias da recepção...) não impede que quem escreve o faça de forma a que haja vários níveis de sentido. Eu sou é a favor que haja pelo menos um, que toque leitores que não foram, inclusivamente à Faculdade. Porque podes ler Auster sem estares a identificar características pós-modernistas (acredita que metade da fruição vai à vida quando o fazes) e O'Neill é infinitamente belo para mim, que não faço puto de ideia do que está por trás, entendes? Por acaso até faço e não vejo nos textos dele puto de surrealismo, estás a ver? Ler em Arrogantês, só para quem pode, como nós... escrever....devia ser proibido! BJS
Ainda sofro com um tal violino que não "vi" num poema de Pessoa no final do liceu.
LOL! LOL! LOL!
Possivelmente não havia violino nenhum. Os professores de Português, às vezes, também gostam muito de falar Arrogantês! Explicá-lo, isso sim, são outros quinhentos!
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