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quinta-feira, 24 de julho de 2008

You Are

Já agora, um de Césarini, e vou-me deitar, que se continuo na Net madrugada adentro a ler poesia e a chorar - quão patética sou eu, às vezes, é verdade... - amanhã não trabalho nada de jeito. Mas deixo-vos, então, outro bom exemplo, na minha modesta opinião de leiga sobre o assunto, do que a poesia deve ser...
You Are Welcome
To Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
Entre nós e as palavras há hélices que andam
E podem dar-nos morte violar-nos tirar
Do mais fundo de nós o mais útil segredo
Entre nós e as palavras há perfis ardentes
Espaços cheios de gente de costas
Altas flores venenosas portas por abrir
E escadas e ponteiros e crianças sentadas
À espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis
À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras ,os emparedados
E entre nós e as palavras ,o nosso dever falar.

Um Adeus Português

Não sou, nem pouco mais ou menos, conhecedora de poesia. Não sou, sequer, grande apreciadora. Com isto não quero dizer que concorde com o Pan quando ele diz que a poesia são palavras agitadas e atiradas ao ar, que depois ficam como caem no papel, não. Diz Eugénio de Andrade que gostaria que a frase de Santo Agostinho que diz "A beleza é o esplendor da verdade" dissesse "A poesia é o esplendor da verdade", porque "só assim evitaremos que se torne na mais fútil das ocupações". E eu concordo. Ironicamente, há por aí muita gente convencida que é poeta que não é mais que um condenado à mais fútil das ocupações. Alguns poetas contemporâneos parecem apostados em escrever coisas que ninguém percebe, para ganharem, quiçá, o título de gente "instruída", "intelectual", "inteligente", uns cretinos, em resumo. Há que não esquecer que poesia é a expressão mais pura do sentir. Mais puro que a poesia, só o não-verbal. Poesia é a palavra a transcender o signo em direcção à essência, é a palavra a descrever o indescritível, a dizer o indizível, ou, pelo menos, a tentar. Em tentativas nobres e honestas. Um dos meus poetas favoritos é Alexandre O'Neill. Porque se percebe o que diz, e ninguém o diz como ele.
Hoje, para descansar da tese, passava os olhos sobre alguns dos meus textos favoritos, e escolhi este, reparem,
Um Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual


Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Isto já me aconteceu. Duas vezes. Alguém olhar para mim e dizer, não sirvo para ti; este espaço é demasiado pequeno; esta gente é demasiado mesquinha; esta cidade é demasiado limitada; esta vida é demasiado curta, mereces melhor.
Já me aconteceu. Duas vezes. Ironicamente, de ambas as vezes, aconteceu-me com as únicas pessoas, as únicas, por isso é que é irónico, que eu nunca tive dúvidas de que estavam muito, muito, acima do que achavam delas próprias. E, já agora, de mim. Este é um poema que me dói especialmente.
Precisamente por isso, amo-o. Porque acho que a poesia tem que se reconciliar com o simples leitor. Aquele que vê novelas, lê jornais desportivos, joga no euromilhões, mas não perdeu as capacidades de sonhar e sentir... desde que venham expressas em Português, e não em Arrogantês.