domingo, 25 de maio de 2008

Sense and Sensibility

Não me perguntem, que eu confundo sempre a Austen com as irmãs Brontë; Sensibilidade e Bom Senso, mais do que o título de um livro famoso é, para mim, uma filosofia de vida... talvez porque me falte muito de ambas as qualidades e considere, seriamente, que quando adquirir um pouco mais de ambas, com o tempo, a experiência e a idade, tudo pareça mais fácil.
Senão, vejamos: Sensibilidade. A minha querida Isa mandou-me para o Hi5 um buzz a uma foto que dizia "Handle carefully" ou "This side up"... "Sensitive person inside"... ou algo do género. Vieram-me, de imediato, as lágrimas aos olhos. Nunca me considerei uma pessoa lá muito sensível. Sou até bastante bruta no trato. Acontece que Isa teve o privilégio (sim, embora os actuais não dêem lá muito por isso, é um privilégio...) de ser minha aluna. E eu, modéstia à parte, sou uma querida com os meus alunos. Gosto deles, divirto-me com eles, e não há sítio onde me sinta mais à-vontade que dentro de uma sala de aulas. Não sei explicar porquê, foi assim desde sempre, desde os tempos em que era aluna e ensinava, com a maior paciência do mundo, o teorema de Pitágoras aos meus colegas. Está-me no sangue. Nas aulas sou eu, elevada ao expoente máximo de mim mesma. Dou o meu melhor a todos os níveis, intelectual e humano.
Fora das aulas, temos outros quinhentos. Acho que sou pouco sensível. Solidária, sim, mas pouco dada a pieguices, a miminhos, pouco paciente e tolerante, um zero à esquerda em diplomacia, uma nulidade na política. Ninguém me procura para formar listas, nem desempenhar cargos em que seja necessária alguma dose de hipocrisia, e eu entendo. De facto, eu sou aquela que diz o que pensa, às vezes o que todos pensam, mas ninguém quer ouvir. Sempre assim foi. Falta-me verniz social, polimento, sensibilidade. Detesto gente parva, gente medíocre, gente mesquinha e, sobretudo, gente má.
Não, de facto, sou muito pouco sensível às nuances sombrias do ser humano.
Quanto ao bom senso... pior um pouco. Não sou, nem de longe, uma insensata. Faço pouca coisa na minha vida por impulso. Infelizmente, uma das coisas que faço sem pensar é falar... um grande amigo meu, que é advogado, e sagitário, diz que é do signo. Somos os reis das gaffes, é hilariante... e muito desconfortável. Tem vantagens. A maior de todas é passarmos por parvos, o que dá muito jeito, quando se trata de enganar tolos. Numa escola em que estive recentemente, o Executivo mudou, e o presidente eleito dizia-me... vem cá parar, vem, que vais ver o que te acontece... tiveste um ano santinho, com essa postura de gaiata desbocada e inocente, que não percebe nada de nada e está sempre a leste, vem cá parar que te ponho a trabalhar à séria! E eu não fui, ainda bem.
Nesta sala de professores, tenho a certeza que mais de cinquenta por cento do pessoal docente acha que eu sou uma rematada atrasada mental. Primeiro, porque esses cinquenta por cento acham, com certeza, que rir é pecado, e a simpatia um acto de fraqueza, coisa de gente pobre e pouco instruída. Depois, porque uma tipa que vem de Lisboa, fala alto, não tem marido e olha para eles com enfado e desdém, só pode ser parva. E eu, que faria, se tivesse bom senso? Sorria-lhes, dava os bons dias sem obter resposta, olhava-os com respeito e admiração, tratava-os por senhores doutores... só que eu não tenho bom senso nenhum. Assim não vais longe, pá, dizem-me os meus amigos, a minha mãe, temos que engolir sapos. Mas eu é que não gosto de sapos.
No outro dia, na sala de professores, um "senhor doutor" lá da escola vociferava que a "malta de línguas" não tem nível nenhum, o que é compreensível, dizia ele, porque são "uma cambada de solteironas". A minha falta de bom senso esteve mesmo para lhe dizer que esta solteirona, pela parte que lhe toca, seria muito mais infeliz e teria muito menos nível se fosse casada com um paquiderme como ele, que não deve muito nem à beleza, nem à simpatia e muito menos à inteligência, mas calou-se a tempo. Porque falta de bom senso também tem limites.
Mas vos garanto: almejo o dia em que, já uma senhora, cheia de sensibilidade e bom-senso, possa continuar a ver o mundo como agora... porque me parece que, apesar de insensata e insensível, não me falta perspicácia e espírito crítico para me poder rir do circo que é a natureza humana num microcosmo restrito de uma sala de professores de uma escola da província. Sem desmérito para a terra em questão.

2 comentários:

Anónimo disse...

Ler-te tem sido uma aventura, qual explorador simpático, uma "Jade" que não conheço e que antes não ousava considerar. Mas, agora, seria capaz de conversar contigo, até só restarem migalhas do último biscoito do mundo. Depois de te ler tenho de desenhar uma pessoa diferente, com outros traços. Presumia que sabia quem tu eras. Afinal, enganei-me, surpreendendo-me. A certeza porem que a partir de agora existe na estrada uma bifurcação: a "Jade" e Tu! Ao ler-te revejo-me no meu próprio palco da vida. Tão intensamente que pode chegar até a ser ridicula tanta intensidade...Quanta coragem em tão breves notas. Quanta coragem ao enalteceres a rejeição de modelos socialmente decretados. Quanta coragem em recusares as limitações! Com muita sensibilidade e também bom senso deixa que registe desta forma o meu sincero apreço por tudo quanto por aqui vais "dedilhando"...

Jade disse...

Obrigada. É sempre muito bom surpreender as pessoas pela positiva. Também gosto de ser surpreendida assim, mas é muito raro... não faço ideia quem sejas, mas agradeço muito, e quando quiseres, se quiseres, apresenta-te. Beijinhos.