terça-feira, 30 de setembro de 2008

The Twilight Zone

O dia ainda não acabou. Falta a missa das Terças, vulgo, a Anatomia de Grey. Falta jantar. Faltam milhares de pontas soltas, as mesmas de que se queixa a Susana na entrada de ontem do blogue dela. Parece que há sintonia de bloggers e anda tudo a tentar abraçar o Mundo com braços demasiados curtos. O que acontece? Há sempre algo que deixamos cair. Não o que é menos importante, simplesmente o que o acaso nos faz deixar escapar do abraço. E depois, apre, irra, chiça, e coisas bem mais imagéticas, cacete, que nos esquecemos disto, bolas, que o prazo acaba amanhã, canudo, que és cretina, tanta imbecilidade junta devia pagar imposto, caneco, catano...
No meio das pontas soltas, um dia de absoluta quinta dimensão. Desabafei com a Miss Covilhã, ainda a missa (desta vez refiro-me ao dia surreal, e não à Grey) ia a meio: "tenho a certeza que amanhã vou acordar e é de novo Terça-feira, sim, porque esta não me está a acontecer! É demasiado mau para ser verdade!"
Twilight Zone. Só consigo perceber o dia de hoje, se amanhã acordar e ele não tiver existido!
E agora vou jantar, nem me preocupo bem o quê, porque amanhã é que é a sério...

sábado, 27 de setembro de 2008

Sábado

Ora bolas, se escrevo tanto sobre os Domingos, que não deviam existir, como os 13ºs andares nos EUA, não havia de escrever sobre os Sábados? Todos os dias da semana deviam ser como os Sábados. Planos há sempre muitos. Às Sextas está tudo muito planeadinho, levanto-me às tais horas, nem muito cedo nem muito tarde, tomo um grand'a pequeno-almoço, saio de casa ainda de manhã para um cafézinho, vou até ao supermercado à hora em que ele está quase vazio, chego, dou um jeito à casa, trabalho calmamente durante a tarde ao som de um CD calminho, vou caminhar com alguém que tenha ficado na Cidade de Deus, e depois vou jantar fora e, talvez, beber uns copos e até ir dançar. Belo Sábado. Depois sai tudo ao contrário, para poder stressar no Domingo, que não devia existir, repito, com tudo o que ficou por fazer.
Para já, levanto-me sempre duas ou três horas mais tarde que o previsto, o que é uma delícia. Como é Sábado, não me sinto culpada. Depois, o café da manhã acaba por ser com companhia, assim como as compras no supermercado, o que é triplamente mais divertido, mas muito mais demorado. Não me sinto culpada, porque é Sábado. Depois chego a casa, e quando se trata de pôr música, em vez de pôr Sigur Ros, a ajudar à meditação e ao trabalho, espeto com um disco de música comercial no leitor de CDs, a bombar. Aguilera, Pink, Alanis, Avril, todas. It's the Chics Club! Claro que passo mais de quinze minutos a rodopiar na sala, com as cortinas corridas, olh'ó escândalo, a cantar e a dançar como se estivesse na disco onde, inevitavelmente, acabo sempre por não pôr os pés... e não me sinto culpada, porque é Sábado!
Tive uma semana difícil. Tive stresses que não vêm nos livros, e com os quais não contava. Ontem estava de rastos, sentia-me a pessoa mais pequenina e infeliz do Mundo, na ressaca de uma semana que, apesar de ter terminado de forma pacífica, prometia ser um desastre. Passei a tarde com a Li, horas a falar de filmes e de livros, a afastar as conversas de coisas tristes. Ainda assim, quando cheguei a casa, e durante o serão, o ambiente da minha alma estava muito nebulado, com períodos de chuva a passar a regime de aguaceiros fortes. Fui-me deitar a pensar que já era altura de passar a noite de sexta-feira num "date" com um qualquer tipo interessante e denso, que não sei onde anda, o caramelo...
Hoje acordei bem-disposta, o que me faz questionar intimamente a minha sanidade mental e reescrever a definição de "doença bipolar". Cantei no duche, ao som do "The Story" no meu telemóvel. Ia-me matando à saída da banheira, por estar aos saltinhos, a dançar como uma maluca, e ter inevitavelmente escorregado nos mosaicos da casa-de-banho. Depois do primeiro sentido F***-SSSSE!" à boca cheia, ri-me. Ri-me sozinha e continuei a cantar, toda contente, e a dançar (depois de ter calçado umas pantufas...)
Devo ter resquícios de bipolaridade. Ou então são os Sábados, com a sua alegria muito própria, a sua despreocupação, as tarefas que depressa se abandonam ou transformam em verdadeiros prazeres porque acompanhadas de caras amigas com quem discutimos agarradas ao mesmo cesto de supermercado cheio de compras. Aos Sábados, olho-me ao espelho e reconheço uma cara de antigamente, cheia de riso e boa-disposição, num corpo, agora com um peso que não tinha desde os dezoito anos e que me deixa muito orgulhosa... que fixe, estou mais larga, dizia eu à minha amiga à porta do Modelo (não acrescentei, agora que sou, finalmente, uma gaja a caminhar para o "boa", ninguém me pega, cacete!) e ela, quem te ouvir acha que deves ser maluca, ao contrário de toda a gente, e eu, a segurar o meu pneu"zinho", de bicicleta de estrada, 'tás a ver, 'tás a ver? já não há risco de morrer de gripe ou tuberculose, tenho defesas...
Parvoeiras e música. Assim passo os Sábados, para poder justificar as minhas neuras de Domingo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Momento da Verdade

Há uns dias atrás, n' "avidinhadeumagaja", a Susana tinha um post muito breve, mas hilariante, sobre a relação de uma insónia dela com o novo programa da Teresa Guilherme, em que se fazem perguntas indiscretas a pessoas ligadas ao polígrafo, em troca de quantias avultadas de dinheiro. Nessa altura não comentei o post, não tinha visto o dito concurso, não tinha grande opinião sobre o assunto. Ontem, à espera de uma das minhas séries da madrugada, apanhei um "Especial", e fiquei parva da minha vida: o tipo de perguntas, as respostas, os familiares e amigos a participar em directo nos segredos mais íntimos da "vítima", a saída pública do armário, ao que isto chegou.
Prezo muito a minha intimidade. Tenho segredos bem guardados que hão-de morrer comigo. Não se trata de vergonha, não há muita coisa na vida de que me envergonhe, e as minhas vergonhas passam muitas vezes pelo facto de terem sido públicas e, por isso, não se inserirem na categoria de segredos. Os meus segredos não são cabeludos, hediondos ou vergonhosos. São íntimos, são especiais, são meus e de outras pessoas que os partilharam comigo, são factos, acontecimentos, memórias boas e más, situações que me fizeram crescer e aprender, que fizeram de mim o ser humano que sou hoje, permanentemente em construção, que fizeram de mim melhor e pior pessoa. É a tal privacidade, de que eu tanto falo e que tão pouca gente respeita. Os meus medos mais profundos são inconfessáveis. É inconfessável o que considero os meus pontos fracos, para não correr o risco de ser manipulada. Ninguém tem nada que saber o efeito que têm em mim determinadas palavras, sempre as mesmas, ninguém tem nada a ver com a forma peculiar e única com que vivo a minha vida.
A minha mãe passou-se quando soube que eu tinha um blogue. Leitores deixaram comentários a textos dizendo "nunca tinha comentado antes por escreveres coisas muito pessoais". Houve amigos meus que deixaram de fazer comentários porque "havia muita gente a ler". Já várias pessoas me aconselharam "não te exponhas tanto, olha que quem te lê não são só amigos". Compreendo as preocupações de todos. Mas apesar de parecer, muitas vezes, inconsequente e irresponsável, sei bem o que faço, tenho uma ideia bastante aproximada dos olhos que me lêem, e em caso de dúvida, pondero quais as piores pessoas que podem ler o que escrevo e... não me podia estar mais nas tintas.
O facto de tratar as coisas pelos nomes, de assumir desaires sentimentais, de me confessar triste por estar só, de aceitar o facto de ter, provavelmente, levado com os pés do homem da minha vida, de me auto-caracterizar como uma pessoa sem a mínima paciência para a hipocrisia que impera em tudo o que é sítio, tudo isto, faz de mim uma pessoa mais vulnerável? Não creio. Que me importa a mim que gente cobarde leia o blogue às escondidas e aproveite para dizer mal dele e de mim, nas minhas costas? Sou eu, a fraca? Ou são esses, os leitores que não assumem sequer uma ideia original, enquanto batem nas dos outros?
Desengane-se quem acha que este blogue é uma exposição pública da minha vida privada. Para isso tenho um diário, boa? Desengane-se quem acha que, lendo o blogue, tem matéria para lançar o boato e fomentar a escandaleira. Tem matéria para cortar na casaca, isso sim, mas meus amigos, se não fosse pelo blogue, seria por outro motivo qualquer.
Não ligo puto ao que diz de mim quem de mim não gosta. Não ligo pevide a quem me critica e não assume os próprios telhados de vidro, porque não há quem não tenha uma bela estufa recheada de vidros por todos os lados. Que falem. Que critiquem. Que lancem veneno. No fundo, cai tudo em saco roto. Quem me conhece, só se pode rir. E às vezes, avisar-me preocupado "não te exponhas tanto, pá..." Mas sosseguem: se fizerem uma análise cuidada, não me exponho mais aqui do que na sala de professores, onde falo alto e em bom som, só digo baboseiras e passo, muito convenientemente, por atrasada mental.
Porque vos garanto, os meus maiores segredos, o que de mim há de íntimo, no melhor e no pior, nem todo o dinheiro da Teresa Guilherme me faz revelar. Muito menos um blogue para o qual escrevo à borla...

domingo, 21 de setembro de 2008

Memória

A memória é uma ficção, uma história baseada em factos reais que filtramos com a nossa subjectividade emocional. A nossa biografia não deixa de ser ficcional, o que realmente vivemos perdeu-se num espaço longínquo, que o nosso tempo tenta organizar, reconstruir, muitas vezes até reviver, mas que não é real. Já li sobre isto, e hoje apercebi-me disso na pele quando, num acesso de solidão e desespero, me lembrei de momentos passados felizes e me perturbou a força desses sentimentos, como se o que vivi anteriormente fosse tão mais precioso que a minha presente existência. Enquanto chorava, contudo, assomaram-me ao espírito vários outros instantes, com a mesma pessoa, a mesma relação, em que fui profundamente infeliz. E fixando-me nesses períodos de tempo em que estava acompanhada e, ainda assim, chorava as mesmas lágrimas de hoje, pensei que, de facto, até o nosso passado é exactamente aquilo que queremos que seja: grandioso, para lhe sentirmos a falta, ou tristemente avassalador, para podermos seguir em frente, à espera, ou à procura, de diferente. Para melhor.
Todas as memórias são ficção. Há que usá-las em nosso proveito, e encaminhá-las para um final feliz.

Domingo

Para que servem os Domingos? Os Domingos irritam-me profundamente. Passo-os a pensar que amanhã é Segunda. Passo-os a tapar buracos e a atar nós de pontas que ficaram durante a semana. Passo-os com uma preguiça enorme, aliada à revolta de ter mesmo que fazer o que deixei para a última, a descompor-me e insultar-me intimamente por ser tão desorganizada.
Aos Domingos, tudo me faz sentir culpada. Até os filmes que vejo, à tarde, me sabem mal e me põem mal-disposta.
Se estou na Cidade de Deus, é certo e sabido que este é o dia da semana em que me sinto mais só. Também é o dia em que saio de casa muito raramente e por pouco tempo. Se estou em Lisboa, é dia de regresso, e custa-me sempre deixar a minha mãe e os meus bichos, os meus livros, a minha cama e os shoppings da minha terra.
O Domingo é dia de me deprimir. Quase prefiro as Segundas-Feiras... mal por mal, às Segundas, o dever chama. Aos Domingos, o que chama é o sofá, e ter que lhe fazer orelhas moucas dá cabo de mim.

sábado, 20 de setembro de 2008

Noite Cubana

Sempre que fico de fim-de-semana na Cidade de Deus saio à noite. É muito mais frequente fazer noitadas aqui que em Lisboa. Primeiro, porque em Lisboa gosto dos serões com a minha mãe e a minha gata, a papar as séries da TV Cabo que não tenho aqui. Já perdi a conta às vezes que disse aos meus colegas de escola "Quatro! Só tenho quatro canais, pá! Porque insistes em perguntar-me o que achei do debate na SIC notícias, ou do documentário do Odissey? Irra!"; depois, porque saídas à noite aqui implicam menos logística, é tudo "já ali", há sempre lugar para pôr o carro, e a oferta é reduzida, perde-se pouco tempo a discutir onde se vai, onde se vai a seguir, onde se acaba a noite. Então quando há novidades, ou acontecimentos... está tudo definido à partida.
As companhias também não variam muito, mas aí passa-se o mesmo em Lisboa: sou uma pessoa de alguns hábitos, e que gosta de pouca gente à volta, sinto-me segura no seio de grupinhos pequenos de gente agradável e despreocupada, boa onda e alguma calma, sorrisos e gargalhadas. Sem muito escarcéu, sem muita loucura, sem muito espalhafato. Grandes grupos de gente ruidosa enfrento eu, de noventa em noventa minutos, todos os dias. E quando se trata de sair, espairecer, beber copos e ouvir música, jantar fora, tomar cafezinhos, partilhar conversas como se fossem chocolates a derreter lentamente na boca, ou dizer baboseiras com o único intuito de rir e fazer rir, não faço fretes, não aturo gente de que não gosto, não saio com pessoas a quem não tenho nada a dizer, não.
Por isso, ontem, poucos mas bons, decidimos ir averiguar o grau de interesse de uma determinada noite cubana organizada na Cidade de Deus. Pese embora o meu fraco espírito para convicções políticas radicais, tenho que reconhecer que sou uma interessada pelas coisas da terra de Fidel. Gosto. Gosto do ritmo, gosto das cores, gosto da cultura, do imaginário, das utopias, gosto. Imagino o calor, vejo fotos antigas, quase sinto aquele mar no corpo, tenho uma paixão por Havana com aqueles carros antigos, com aquela gente, aquelas casas.
Então fomos. E correu bem. Entre cubanos da Figueira da Foz, música a oscilar entre rumbas, salsas, e até uma valsa, um violinista que vinha tocar às mesas de quando em vez, casais a rodopiar numa pista de dança inexistente e mojitos, ai, senhor, que belos mojitos, esteve-se muito bem.
Agora que penso nisso, não se falou de grande coisa. A certa altura, houve até algum silêncio na nossa mesa. Não sei em que pensavam os outros, mas eu deixei-me envolver pela música, senti uma certa sensualidade despertar no corpo, ondulei sem me mexer ao som do ritmo, visualizei um tecto cheio de ventoinhas a girar lentamente num qualquer bar de calor sufocante e paredes pintadas de verde água. Acho que cheguei a passear em Havana de mãos dadas e sorriso aberto.
Cuba. Hasta la vitoria, siempre, não é assim?

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Preferências

Isto é do pior que há. Do mais politicamente incorrecto que existe. Mas eu sei que toda a gente é assim, embora só alguns alucinados como eu o reconheçam: eu tenho alunos preferidos. Pior, tenho turmas preferidas. A cena dilui-se, enfim, porque são muitos. E, verdade seja dita, prefiro-os sem os beneficiar nas notas. às vezes até acho que tenho tendência para gostar dos piores alunos, acho-lhes graça, sei lá. Normalmente, os que têm mais piada são os cábulas.

Há uma turma, então, que me enche as medidas. Só dizem disparates, e a minha vontade é passar a aula a meter-me com eles, a saber dos seus problemas existenciais, a picá-los, a dar-lhes atenção e conselhos. Não posso, claro está, por isso adoro as primeiras e últimas aulas do período, que são muito mais informais. Hoje vim para casa com a memória dos sorrisos, das gargalhadas e das piadas, das férias deles e dos resmungos por estar de volta, os protestos "A professora vem um bocadinho acelerada, não? Vá com calma...", "TPC??? Deve estar a brincar...", desculpem lá, mas se tomam café nas minhas aulas, trabalham em casa o que deviam ter trabalhado aqui, ora essa!... "Ok, stôrinha, é justo, é justo... gostamos tanto de si!".

A minha vida interior (que piroso!) não está para grandes risos, está mesmo bastante lunar, mas não consigo evitar abrir um grande sorriso ao lembrar as macaquices dos meus queridos, as bocas ao novo look, os gestos a gozar com a minha franja-Mata-Hari, os murmúrios, "fashion, muito fashion", e os desabafos, em voz baixa mas audível, "já cá faltava a porcaria do Homework..."

E pensar que só os apanho a meio da semana... estava cheia de saudades deles!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Regresso às Aulas

Hoje começaram as aulas, e sinto-me um bocadinho mais feliz. Não é que goste de me levantar de madrugada, nem que me apeteça começar a passar o meu tempo de ócio a ver testes diagnóstico, nem que me sinta útil por aí além, é certo e sabido que se há alturas em que me sinto uma perfeita incompetente é no regresso às aulas com alunos que não se lembram de nadinha do que eu disse no ano transacto, e que olham para mim como bois para o Taj Mahal de cada vez que lhes faço uma pergunta básica... mas, ainda assim, é nas aulas que sou mais feliz. Isso revela, por um lado, o triste e deprimente que é a minha vida; mas por outro, dá-me a leve consolação de ter, de facto, uma vocação. Esteja à altura dela ou não. Os alunos continuam a arrancar-me gargalhadas genuínas. É com eles que vou pondo em prática o meu lado terno, que anda esquecido há tanto tempo. É para eles que canalizo os meus sorrisos mais bonitos, a minha paciência mais estóica, uma ou outra meiguice, palavras raras como "querido/a", "lindo /a", "filhote", princesinha", enfim, o melhor de mim. Gosto de mim com eles, gosto de mim entre eles e gosto da ilusão que eles me dão de gostar de mim.
Só não gosto do que vou fazer a seguir, que é trabalhar... por e para eles. A vida é assim. E não é perfeita.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Falsas Modéstias

Acusam-me muitas vezes de falsa modéstia. Acusam-me várias outras de não me dar o devido valor. As opiniões sobre mim dividem-se nestes dois grandes grupos, os que acham que sou hipócrita quando rejeito os elogios, e os que acham que não tenho noção das minhas qualidades.
A minha opinião é, obviamente, diferente. Sei quais são as minhas qualidades, e respeito-as, acarinho-as. Simplesmente acho que não são motivo de grandes elogios porque conheço pessoas muito melhores que eu a todos os parâmetros que em mim são dignos de apreciação positiva. Este blogue abriu-me um universo de novos conhecimentos, de mundos de outras pessoas que escrevem. E que escrevem muito bem. Como gosto de elogiar quem escreve bem, tenho deixado comentários nesses blogues, e autores e leitores desses têm vindo ao meu. E têm comentado. E esses elogios, esses sim, caem que nem ginjas. Fico particularmente envaidecida com os comentários que essas pessoas têm deixado aos meus posts, todos esses ilustres desconhecidos que agora, na intimidade dos seus nicks e na individualidade das suas solidões, me acompanham, em silêncio, ou deixando uma palavra amiga.
Sem falsas modéstias, e sem, só hoje, dar os meus argumentos do costume a refutar elogios, digo, a todos os que por aqui passam, caladinhos ou a dizer de sua justiça, muito obrigada. Tem sido muito bom ler os vossos comentários, conhecer-vos, dar-me a conhecer. Nem sempre o vento leva as palavras. Há algumas que nos marcam a alma e nos aquecem o coração.
Beijinhos a todos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Folha em Branco

Todos os santos dias, desde a publicação do último post, venho ao blogue e olho para o écran em branco. Passam-se minutos nisto, e não consigo dar uma para a caixa. Não há tema que me apeteça desenvolver, não há episódios dignos de registo nos meus dias, não há irritações compulsivas, ao menos isso, a merecer grandes e dramáticos desabafos, enfim, não se passa nada. Inédito. Não me apetece escrever. Passo os olhos pelos meus blogues favoritos, rio-me, sorrio, emociono-me e quando abro o meu, puf! Carruagem vira abóbora, e não tenho nada para dizer. Bloqueei. Ando a tomar vitaminas para a memória e, no entanto, cada vez ando mais destrambelhada. Vou ao quarto e a meio do corredor esqueço-me do que lá ia fazer. Abro um caderno e já não sei o que lá ia anotar. Passo horas a olhar para os objectos como um boi para um palácio, a tentar descortinar que raio de uso lhes queria dar quando lhes peguei. Abro e fecho gavetas como uma mentecapta.
Mas consola-me saber que não sou a única. As minhas amigas estão na mesma e parecemos tolinhas completas imersas em conversas de surdos, cada uma a falar de seu tema, a responder a perguntas que nunca foram feitas, a trocar as palavras e a dizer absurdos, demasiado cansadas sequer para nos rirmos das enormidades que nos saem boca fora, já só suspiramos enquanto perguntamos a cada vinte segundos, o que é que ela disse? , e encolhemos os ombros, esquece!
O que mais me preocupa no meio de toda esta confusão mental, em que o Tico e o Teco ora estão de costas viradas, ora andam às turras, ora se armam em autistas e cantam em voz alta melodias diferentes, o que me assusta, dizia eu, é que segunda começam as aulas e continua a não haver coerência no meu discurso.
E, a avaliar por este post, também não há grande assunto sobre que dissertar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Vã Filosofia

Hoje não preguei olho. A minha ansiedade fez-me lembrar o pânico infantil do primeiríssimo dia de aulas, quando és, de facto, deitado ao Mundo pela primeira vez e estás sozinho no meio duma multidão de desconhecidos. Sabes, explicaram-te com toda a doçura do amor maternal, que é tudo gente inofensiva, que vais fazer amigos, que vais aprender, que é tudo para teu bem, mas no momento em que o que é familiar te vira, enfim, costas, só o cheiro denso do medo é real.
Assim passei eu hoje a noite, olhando as horas passar no écran do telemóvel, virando-me e revirando-me na cama, a tentar adivinhar os cenários do que me esperava. Muitas questões, muitas dúvidas, muitos receios. O desconhecido total no meio de um conhecido desolador. Parece até que saber exactamente quais as caras que ia ver tornava tudo mais penoso, o abismo por meio da incógnita do que iria calhar em sorte, a mim e aos meus, neste próximo ano de trabalho.
No fundo, o princípio do fim de um ciclo.
Tratando-se de um princípio, restava saber com quem trabalharia e a que horas, este ano. Como estariam distribuídas as pessoas de quem gosto e com quem me preocupo. Tratando-se, simultâneamente, do fim do ciclo, o mistério era, como vou lidar emocionalmente com tudo isto?
Lidei mal. Que surpresa... Passei o dia a pairar, a comer pouco, a desejar estar no extremo oposto do universo. Mal entrei na escola, lembrei-me imediatamente do mesmo momento de anos anteriores, do que era a minha vida então, do que foi o meu caminho, dos principais obstáculos, das coisas que fui perdendo e encontrando, do que tinha, do que tive, do que abri mão.
Feitas as contas, disse à Li: receava que me custasse mais, e lamento que não me tenha custado menos.
A distribuição de serviço foi pacífica, o horário, surpreendentemente, também. Num ambiente de início de trabalhos, o que mais me afectou, e derradeiramente, foi o confronto com o tempo que passou e com as mudanças que este espaço-escola viu surgir na minha vida. Esta escola assistiu de camarote ao fim da minha vida amorosa: era uma vez, fui muito feliz aqui. Houve dias, raros e preciosos, em que cruzei estes portões com o coração literalmente a cantar. O amor é duro quando morre só de um lado, e do outro vai definhando com o passar dos dias, lenta e dolorosamente. Parece que, quando a primeira pessoa do plural passa ao singular, nada mais havendo a fazer que encarar as costas do duplo e engolir as lágrimas antes que estas nos afoguem, nessa espera, enquanto o outro vai desaparecendo devagar, qualquer coisa de doce, generoso e genuíno se perde para sempre.
Foi essa a sensação que me perseguiu todo o santo dia, como um lamento, uma prece, um sussurro. No início do fim do ciclo, hoje chorei o meu amor perdido. Chorei-o exactamente com a mesma força do dia em que o perdi. Só que sem lágrimas, sem soluços, sem suspiros. Apenas com a mesma falta de ar e de apetite, a mesma saudade e o mesmo vazio que vou esquecendo gradualmente e que me invade quando tenho medo e a sua mão já não segura timidamente a minha.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Maquilhagem

"Coisas de Gaja".
Gosto da expressão. Sei que é usada quase sempre de forma perjorativa e, ainda assim, gosto. Gosto de viver imersa num mundo de peculiaridades femininas, adoro os objectos que enchem esse mundo, amo roupas, os trapinhos, e sou perdidinha por acessórios, cremes, bijutaria e jóias à séria, maquilhagem, perfumes, toda essa parafernália me encanta. Acho um fenómeno, como é que só tão tarde os homens despertaram para o prazer de tudo isso, os tais metrossexuais que agora competem connosco por um lugar nas esteticistas.
Quando estou mais em baixo, procuro as minhas amigas. Mulheres. Acho que há um tipo de consolo que só uma mulher sabe dar a outra. Primeiro, as conversas. Dissecamos os nossos problemas até à náusea, vemo-nos chorar umas às outras sem preconceitos ou julgamentos, dizemos mal dos homens que nos magoam, ou ignoram, ou infernizam, e sentimo-nos logo melhor. E depois, depois há os mimos que surgem das nossas cabeças fúteis e que nos fazem tão bem. Tinha uma amiga que, cada vez que eu aparecia lá em casa lavada em lágrimas, pegava em mim, levava-me ao supermercado, escolhia uma tinta para o cabelo e pintava-mo. Tenho outra, a Vzinha, cuja filosofia de vida, aqui há uns anos largos, era: não há tristeza que um bom creme hidratante não resolva. Não há nada mais apaziguador que o mundo se estar a desmoronar e uma amiga ligar para uma ida às compras. Um par de brincos de dois euros conserta momentaneamente qualquer coração partido.
E depois, há sempre a maquilhagem, máscara veneziana, reinvenção do ser. Raramente saio à rua de cara lavada, (entenda-se, apenas de cara lavada, sem maquilhagem, que eu lavo sempre a cara, não pensem...) a idade e a própria cara não o permitem, e mesmo com maquilhagem, sabe Deus. Mas a verdade é que, quase sempre, quando ouço um elogio, estás tão gira, esse bâton fica-te a matar, estás com uma cara óptima, quando isso acontece, dizia, é certo e sabido que são dias em que a minha alma está de luto por qualquer motivo. Até havia certo amigo, que me conhece desde sempre e bem, que dizia... estás muito bonita hoje, que se passa?
Nunca mais esqueci uma deixa de uma personagem numa novela brasileira antiga: Coração partido, mas maquilhagem perfeita!
Coisas de Gajas. Mas de Gajas com G Grande, de Gloriosas!

Arrumações

Diz que quem arruma a casa, arruma a cabeça. Hoje falei com uma amiga que passou grande parte das suas férias a arrumar os roupeiros e as gavetas em que não mexia há muito tempo... há tempo demais, diz ela, que vergonha, acrescenta, em simultâneo com a frase, andei a deitar contas à vida...
Por todo o lado, as caras que me rodeiam são pouco felizes. Não diria que são infelizes, mas são, sem dúvida, caras preocupadas, cansadas, desiludidas ou ansiosas. A minha não foge à regra. Parece que, em altura de fim de férias, tudo o que vejo é cansaço, e também eu me sinto já cansada, imersa no que tenho para fazer já, e também no que me espera num futuro próximo. Anda muita gente deprimida, triste, insatisfeita com a vida, com os acontecimentos ditados pelos acasos, com as atitudes das pessoas próximas que julgam, em vão, conhecer. Estou eu também a deixar-me levar pelo desânimo geral, pelo meu em particular.
Em tempos, em tempos já idos e, no entanto parecem ainda tão recentes, também eu fui enredada nas teias de uma depressão, que os médicos, na altura, disseram ser leve. Leve, mas demorou seis meses a tratar, felizmente sem deixar marcas ou dependências físicas.
Nunca consegui perceber qual a gota de água que, na altura, fez derramar o copo, causar uma semana de privação de sono e atirar comigo para um médico in extremis, mas sei o medo que permaneceu depois do tratamento, o medo de uma recaída, do regresso a anti-depressivos, da volta à questão essencial, estou aqui porquê? Que sentido tem tudo isto, viver para quê?
É agora altura de começar o tratamento de prevenção: tenho tido demasiados maus pensamentos. É altura de me levantar disciplinadamente de manhã, olhar a luz do dia, sair de casa, agradecer estar viva enquanto a água quente do duche me escorre corpo abaixo, repetir a lista de coisas boas que existem e trabalhar para ser feliz. Ser feliz exige esforço, exige luta, tal como tudo o que vale a pena. E é altura de começar a trabalhar. Duas semanas antes do regresso às aulas. Espantar as depressões que aí vêm com o Outono, ao cair das primeiras folhas e das enésimas ilusões.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Madrugada, II

Quantas Madrugadas tem a Noite? Só a pergunta já é linda. É também o título do livro que comprei do Ondjaki, o último que tive tempo de ler, ou melhor, de saborear em paz e sossego, em tempo de férias. Gostei. Não me apaixonou como a AvóDezanove, mas o narrador deste já é adulto, o que explica parte do desencanto, e não há vez como a primeira, toda a gente sabe disso. Por isso, quando aconselho Auster, aconselho sempre o primeiro livro que li, que continua, até hoje, a ser o meu favorito, Leviathan.
Adiante, ao contrário do que parece, este não é um dos meus famosos posts de crítica literária. Debruço-me, sim, na pergunta: quantas madrugadas tem a noite?
As minhas noites têm muitas madrugadas. A mesma noite tem madrugadas carregadas de preguiça, de hipnose frente à televisão, de páginas de livros a contra-relógio, tenho que dormir, já é tarde, pronto, vá lá só mais esta página, só até ao fim do capítulo; tem textos escritos ao computador e milhares de outros que ficam na intimidade que se cria genuinamente entre a nossa cabeça e a nossa almofada; tem versos de poesias que pesquiso na net e me derreto a ler, das quais não consigo memorizar nem um verso, mas que ficam gravadas na memória que acredito ter o nosso coração; tem fotografias do passado, somos sempre tão felizes nas fotografias; tem chazinhos quentes; tem perseguições e embuscadas entre mim e a Guida nos corredores compridos da casa da minha mãe; tem músicas ouvidas repetidamente, com o telemóvel no mínimo para não acordar ninguém; tem os sonhos, quando o sono vem, imagens do inconsciente tantas vezes do reino do incrível; tem tristezas e saudades, e sorrisos e gargalhadas nas memórias de uma vida.
As minhas noites têm muitas madrugadas. Se pensar nisso, muitas mais madrugadas têm as minhas noites que entardeceres os meus dias.
Até logo

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ano Novo, Vida... Nova(???)

Cheguei.
A vontade é tanta que parámos na escola o tempo es-tri-ta-men-te necessário para fazer a apresentação ao serviço e dar os bons-dias à nossa chefe. À espera de sermos recebidas, lá tivémos o o melhor da festa: nós, o núcleo duro, Mzinha, Li, T., Miss Covilhã, Pêlo Russo e eu, sentadas na sala de professores, a deitar conversa fora e a conversar, isso sim, eloquentemente, com os olhares e as expressões, essas sim, a dizer tudo...
Parece que está tudo na mesma onda, feliz ou infelizmente.
Almocei já só com a Mzinha, numa esplanada. Literalmente a ver o tempo passar devagar. Depois viémos para casa e ainda ninguém se mexeu para arrumar seja o que for, como se os sacos de viagem indicassem partida, e não chegada. Acho que vamos passar todo o santo ano lectivo a acostumar-nos à ideia de que estamos cá outra vez. Pode ser que quando, resignadas, encolhamos por fim os ombros, seja hora de partir.

domingo, 31 de agosto de 2008

E pronto!

Acabou-se. São seis da tarde e já tanto fazia que fossem oito da manhã de amanhã e tivesse eu que me fazer à estrada, as férias acabaram, não há remédio. Já tudo me sabe mal, os jogos de computador, as séries de televisão, os cafézinhos no bairro, as visitas preguiçosas ao supermercado, já tudo tem um travozinho amargo de despedida.

Estou sentada na mesa da cozinha, e só de olhar para o lado e ver a tralha que tenho que arrumar para levar, dá-me um aperto no coração. A picadora, os chás que trouxe da Croácia, um pacote das minhas batatas fritas favoritas, sim, Li, são dessas, e mais trezentas coisas que a minha mãe decidiu à última hora que não queria ou não precisava de ter cá em casa, que isto a casa da filha é o depósito nacional de guloseimas e objectos que a mãe rejeita ou resolve, em acessos de generosidade pura e desinteressada, oferecer: olha, este amaciador é fa-bu-lo-so, leva-o lá que deve resultar mesmo bem no teu cabelo; e este molho para massas? Comprei-o a pensar em ti...; divide lá os pacotes de Cappucino, e leva uma embalagem de Nestum. Ah, e não te esqueças do secador de cabelo novo, e de deitares o teu para o lixo mal lá chegues, era só o que me faltava, uma filha de permanente por causa de um secador em curto-circuito! Em curto-circuito tenho eu os neurónios, desde que acordei hoje, Domingo, que eu já detesto por si só, último dia de férias, apre, que pesadelo... ainda ontem fui para a Croácia...

Tenho tantas saudades da minha mãe e da minha gata... sempre que se aproxima a altura de me ir embora, elas ainda estão aqui à mão de semear e dá-me umas saudades infinitas.
(...)
Entretanto já são oito da noite. Fui interrompida pelo telefonema -longo- da minha linda Mary, a inteirar-se das últimas, e a dar as suas boas novidades. Como de costume, conversas são como as cerejas e lá lhe fui dando pormenores infindáveis do ano que passou, das pessoas que conhecemos em comum, dos nossos alunos, que sentem tanto a falta dela, das contrariedades, das particularidades da cidade. Ficou super feliz por saber que, se a sorte ajudar, é possível que me mude para o Algarve. Diz que não guarda boas recordações da Cidade de Deus, embora lá tenha feito amigos, e que no Algarve é que está o futuro. Falar com ela relativizou a minha neura. Para já porque nem a pior das neuras lhe resiste e, claro, chorei a rir ao telefone, com as descrições das férias dela em Amesterdão no ano passado. Depois porque, verdade seja dita, entre votos de boa sorte e bom início de ano lectivo, ela disse, passa num instante, chegas lá, fazes o teu trabalho e vens-te embora para casa onde te espera toda a calma do Mundo. E tem razão. Embora não pareça, tudo é relativo. E nos finalmentes, até os maus momentos foram apenas isso, maus, mas momentos. Coisas pequenas e efémeras que acabam por se dissolver na espuma dos dias.

Depois dos 30

Hoje estive à conversa com Vzinha. Soube bem, soube a bons velhos tempos. Não te incomodas que comente aqui o nosso encontro, não, minha amiga? É que não te disse explicitamente que iria falar sobre isso no blogue, não escrevo aqui de forma premeditada, tipo, olha espera lá aí um bocadinho, não fales agora, hold that thought que eu quero anotar tudo para depois espetar tim-tim por tim-tim no blogue logo à noite ou amanhã de manhã. Não é assim que funciona. Há, de facto, ideias de conversas que me ficam a bailar na alma e que, depois de muita valsa, lá fazem uma vénia e olham à volta, a chamar outro par. Por isso, e visto ter mencionado o teu nick, espero que não vejas a tua parvicidade invadida, mas eu também só escrevo sobre o que para mim é importante, vai daí… adiante.
Disseste, a certa altura de uma conversa que apesar de longa me soube a pouco, “aos 30, já não há paciência”, referindo-te a determinadas atitudes. Eu concordei, e até ilustrei com um exemplo da minha vida íntima, tão nosso conhecido. E acrescentei, se tivesse vinte anos, a coisa se calhar tinha passado, mas já tinha 30, pá… não deu.
E pus-me a pensar: o que muda aos 30? O que mudou comigo mudará com toda a gente? Com todas as mulheres, pelo menos? Julgo que não. Uma mulher que é mãe aos vinte anos tem, necessariamente, que pensar de forma diferente da minha, que sou solteira aos trinta. Mas apesar das vivências, terá esta idade alguma coisa em comum, que não olhe a vivências e, quem sabe, a sexos?
Aos 30 aprendi a privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade. Apliquei isto a tudo na minha vida, desde os filmes que vejo e os livros que leio, às pessoas com quem me relaciono. Cá está, é a tal perda de paciência para o medíocre. Não se lêem mais de duas páginas, não se vêem mais que quinze vinte minutos, não se aturam atitudes parvas ad aeternum. Se a exigência se apura, o mesmo acontece com a tolerância. Tolerância é antónimo de ignorância, e aos 30 somos mais cultos, palavra manhosa, vá, menos ignorantes. Enquanto os níveis de pachorra diminuem, a compreensão do Mundo aumenta, aumenta a paleta de cinzentos entre o preto e o branco. Não quer dizer que nos tornemos cinzentões, que eu acho que é um adjectivo muito injusto para classificar gente monótona. O que perdemos é o grande radicalismo, os grandes fundamentalismos. Aos 20 era-me fácil rotular pessoas, agora é quase impossível. A não ser quando são mesmo más. Ou mesmo boas. As excepções confirmam a regra e eu conheço umas quantas, é verdade, nos dois clubes.
Aos 20, generaliza-se: “os homens são todos iguais”. Aos 30, relativiza-se: ”São todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”. E condescende-se, acrescentando “e a gente precisa deles”. E ganha-se sabedoria, concluindo “E eles, de nós”.
Aos 30, aprendi que um mau corte de cabelo não passa disso. Não me vai fazer perder o homem dos meus sonhos, não me vai fazer ser despedida, não me vai fazer ficar doente nem deixar de me rir até que cresça. Aos 30, aprendi que a vida se vive na mesma sem um companheiro, embora perca alguma graça. Os nossos objectivos e missões têm que ser levados para a frente, as nossas vitórias comemoradas, os nossos amigos acarinhados, as nossas responsabilidades cumpridas e as nossas necessidades primárias satisfeitas. Somos completos sozinhos. Um companheiro é um bónus. E quem está sozinho não está incompleto, quem está acompanhado é que beneficia do tal bónus, que não é para todos. E estou a falar apenas dos que andam bem acompanhados, que aos 30 também aprendi que se assim não for, antes sozinha.
Aos 30, aprendi que é importante gostarmos do que fazemos, para nos apetecer levantar de manhã, que é minha crença absoluta que as manhãs foram feitas para um gajo dormir na cama, só que a cabra da Eva estragou tudo. Deus compensa com a alegria no trabalho os inocentes que até hoje pagam pelo erro da cretina. Megera. Também quem é que se lembra de fazer um ser humano a partir de uma costela? Tivesse arranjado melhor matéria-prima…
Aos 30 aprendi tanta coisa nova que acho que ficaria aqui muitas horas a enumerar pormenores. Só que também aprendi aos 30 que pouca gente está para nos aturar, e que se queremos ser ouvidos, devemos ser sucintos. Por isso, por enquanto, fico por aqui.
Obrigada, Vzinha, pelos dois dedos de conversa, pelo café e pela oportunidade de, como disseste, mais coisa menos coisa, desemperrar a verbalização. Espero não ter feito como a querida tia Ausenda. Beijos da Jade