sábado, 20 de setembro de 2008

Noite Cubana

Sempre que fico de fim-de-semana na Cidade de Deus saio à noite. É muito mais frequente fazer noitadas aqui que em Lisboa. Primeiro, porque em Lisboa gosto dos serões com a minha mãe e a minha gata, a papar as séries da TV Cabo que não tenho aqui. Já perdi a conta às vezes que disse aos meus colegas de escola "Quatro! Só tenho quatro canais, pá! Porque insistes em perguntar-me o que achei do debate na SIC notícias, ou do documentário do Odissey? Irra!"; depois, porque saídas à noite aqui implicam menos logística, é tudo "já ali", há sempre lugar para pôr o carro, e a oferta é reduzida, perde-se pouco tempo a discutir onde se vai, onde se vai a seguir, onde se acaba a noite. Então quando há novidades, ou acontecimentos... está tudo definido à partida.
As companhias também não variam muito, mas aí passa-se o mesmo em Lisboa: sou uma pessoa de alguns hábitos, e que gosta de pouca gente à volta, sinto-me segura no seio de grupinhos pequenos de gente agradável e despreocupada, boa onda e alguma calma, sorrisos e gargalhadas. Sem muito escarcéu, sem muita loucura, sem muito espalhafato. Grandes grupos de gente ruidosa enfrento eu, de noventa em noventa minutos, todos os dias. E quando se trata de sair, espairecer, beber copos e ouvir música, jantar fora, tomar cafezinhos, partilhar conversas como se fossem chocolates a derreter lentamente na boca, ou dizer baboseiras com o único intuito de rir e fazer rir, não faço fretes, não aturo gente de que não gosto, não saio com pessoas a quem não tenho nada a dizer, não.
Por isso, ontem, poucos mas bons, decidimos ir averiguar o grau de interesse de uma determinada noite cubana organizada na Cidade de Deus. Pese embora o meu fraco espírito para convicções políticas radicais, tenho que reconhecer que sou uma interessada pelas coisas da terra de Fidel. Gosto. Gosto do ritmo, gosto das cores, gosto da cultura, do imaginário, das utopias, gosto. Imagino o calor, vejo fotos antigas, quase sinto aquele mar no corpo, tenho uma paixão por Havana com aqueles carros antigos, com aquela gente, aquelas casas.
Então fomos. E correu bem. Entre cubanos da Figueira da Foz, música a oscilar entre rumbas, salsas, e até uma valsa, um violinista que vinha tocar às mesas de quando em vez, casais a rodopiar numa pista de dança inexistente e mojitos, ai, senhor, que belos mojitos, esteve-se muito bem.
Agora que penso nisso, não se falou de grande coisa. A certa altura, houve até algum silêncio na nossa mesa. Não sei em que pensavam os outros, mas eu deixei-me envolver pela música, senti uma certa sensualidade despertar no corpo, ondulei sem me mexer ao som do ritmo, visualizei um tecto cheio de ventoinhas a girar lentamente num qualquer bar de calor sufocante e paredes pintadas de verde água. Acho que cheguei a passear em Havana de mãos dadas e sorriso aberto.
Cuba. Hasta la vitoria, siempre, não é assim?

5 comentários:

Anónimo disse...

Olá Jade,

O meu tempo contado em anos é muito diferente do teu, mas, no que respeita a Havana, sinto que a trouxe colada ao corpo, quando há uns anos lá estive dois dias em (mais ou menos) trabalho.

Também convivi com Cubanos e Cubanas noutras partes do mundo, e adoro aquela gente.

Conheço bem os efeitos do ritmo “das músicas cubanas” em rios de transpiração que correm, correm… sem destino, e sem limites de tempo daquele tempo que nos nossos dias são horas minutos e segundos de rotina.

Aproveita as tuas noites Cubanas…

Hasta la alvorada siempre!

Pelicano

Jade disse...

Nunca estive em Cuba. Faço parte daqueles milhares que sonham lá ir antes que morra El Comandante (Se bem que El Comandante, o verdadeiro, parece, seja hasta siempre, Che). Acontece que Cuba, a sua cor e sensualidade me atraem sobremaneira. Tenho ainda a sorte de ter tido alguns amigos, cultos e informados, que conhecem a sua história a fundo e me deram grandes palestras, um bocadinho tendenciosas, é certo, sobre a bela ilha. O profundo amor de Garcia Marquez ao regime também ajuda. E fundamental, o ritmo e uma noção um pouco esotérica de que lá vivi outras vidas, se não anteriores, pelo menos, paralelas... volta sempre, pelicano.

Sol disse...

Jade, eu nem sou pessoa de beber, mas os mojitos sabem-me sempre à canja da minha mãe, sabem a casa lol (Tou parvissima hoje, não se pode...)

É nessas noites que as Cidades de Deus ficam um bocadinho menos favelas não é? =P Eu prefiro mil vezes sair nos sitios pequeninos, do que para os caos de Lisboa, com discotecas cheias de gente, e cafés cheios de fumo, onde tenho que gritar para que a pessoa que está esborrachada contra mim me consiga ouvir. Tortura é quando tenho que me levantar às 6h30 depois de ter dormido três horas. Tortura é quando n tenho escolha.

Ah, e estou inteiramente solidária com a coisa dos quatro canais. lol Eu tb só tenho os quatro canais em Évora. 1,2,3, 4 a galinha mais o pato... (Aiii como isto está lol). Enfim, eu ainda perco tempo a dizer às pessoas que se pode viver sem cabo mas ninguém acredita em mim... lol

Beijinho
Sol =)
*

Anónimo disse...

Proponho um movimento! O movimento dos quatro canais! É preciso imaginação! Sempre sobra tempo para outras coisas...
Também gosto muito de cubanices! Mojito nem por isso que eu é mais aguinha, como sabes. Nas tuas visões, vislumbraste Ernest?

Jade disse...

Ernest? Qual, o Guevara? Não vislumbrei mas gostava...