quinta-feira, 31 de julho de 2008

Malas Feitas

O título é enganador. Até à hora de fecho desta edição não está nada, mesmo nada, preparado. Poderia ser assustador, se não fosse o costume. É sempre a mesma coisa, e neste caso, a tradição vence. Estão elaboradas 362534 listas de coisas a fazer, a ver, a levar, a comprar, a reservar... e nada feito, nada tratado, nem um itemzinho pequenino da lista.
Temos desculpa, estamos de rastos, entre sudokus profissionais, dias a fio, escreve daqui, apaga dali, confere do outro, erro, asneira, não bate certo, horas a mais, horas a menos, nome errado, apre!, volta ao princípio... é chegar a casa e cair na cama, em coma bestializante...
Amanhã logo se cumprem as listas, com calma. O que não se fizer, paciência.
Estamos finalmente de férias, estamos finalmente entre amigos, estamos finalmente sem preocupações de maior, que não sejam onde dormir, onde ficar, por onde ir, quais dos milhares de lugares paradisíacos ir ver, quais não ir ver... ele há vidas difíceis.
Podem contar com um diário de bordo, que a Jade vai de férias sempre de caneta em riste e máquina fotográfica em punho... mas só deve dar para "passar tudo a limpo" quando chegar. Até lá, aguardem, divirtam-se... que eu vou internacionalizar!
Até breve.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

On the Road

Ontem, enquanto duas ressacavam dias de trabalho difícil, uma em frente a um puzzle e outra em frente ao computador, e um ressacava dias de morrinha solitária, sentado num sofá com um portátil nos joelhos, entretido em conversas no messenger e todo partido do ginásio, comentava-se cá em casa que esta será, possivelmente, uma das viagens das nossas vidas. Pela dimensão, pela diversidade e pela aventura.
Mzinha é profissional de viagens ao estrangeiro. Mesmo ela concorda que esta, a correr bem, será memorável. Temos Bilbao e o Guggenheim, temos San Sebastian e Biarritz, temos a Riviera Francesa e o Principado do Mónaco, temos Veneza e Florença, e temos a Eslovénia e a Croácia. Só de pensar nisto, a minha alma de viajante sorri, com um sorriso tipo anel de Saturno à volta da cabeça...
Resta saber se no meio de tanta civilização, de tanto museu es-pec-ta-cu-lar e natureza pa-ra-di-sí-a-ca, se no meio de tantas louras-croatas-de-cair-de-costas, e louros-croatas-brasas-de-perder-a-cabeça, resta saber, dizia, se algum de nós algum dia volta a Portugal e à Cidade-de-Deus para cumprir o serviço que estamos a passar uma semana das nossas vidas, uma semana inteirinha, a distribuir...
Se fôssemos espertos, ficávamos era por lá, a ensinar CEFs croatas, em CNOs croatas, e a vender água de côco na praia, ou em Plietvice, nos intervalos...

domingo, 27 de julho de 2008

Le Couple

Fui ver a tal exposição com obras de Vieira da Silva e Arpad Szénnes. Não estou certa quanto à ortografia do apelido húngaro, peço desculpa. Aconselho vivamente a todos os que, mais do que de arte, gostam de ver o amor celebrado. Adorei a exposição e a companhia. Adorei a tarde que se arrastou pelo CCB, não pela colecção Berardo, ainda não foi desta, mas por bons momentos naquele espaço de que eu gosto tanto, nas lojas que me agradam (um ordenado, V.? O ordenado do ano inteiro...), no cafézinho com uma pincelada de CSI Lisboa, nos geisers de água fresca, numa sessão fotográfica muito fashion, adorei.
Mas adorei, sobretudo, o amor daquele casal de artistas, de pintores, de sonhadores, de dois velhinhos a partilhar um livro. Aquela fotografia... não do estúdio, desculpa, Mirovski, tu lá te encantas com os espaços, com os patamares de trabalho, com as telas encostadas às paredes, as escadas, os vãos, os cavaletes... eu gostei da última. Adorei. Como adorei todos os rascunhos, especialmente aquele que nos lembrou a nota de William Carlos Williams à mulher, no frigorífico, aquele que dizia "C'est le seule cadeau que je te peut offrir", e apresentava um coração naïve, tipo Agatha Ruiz de Prada, na mão de uma figura masculina.
Não sei se foram sempre felizes, o "par-ímpar" tão bem retratado nas palavras de Césarini. Não sei se foram sempre apaixonados. Mas a imagem de, "ao atravessar a rua, se trancarem, por fora, dentro de casa", aquece-me o coração. A arte deles, o terceiro elemento, "a terceira pessoa do singular de ambos"... inspira-me.
Porque eu não sei quanto tempo vou ainda viver, nem quanto dele viverei sozinha, sem um par, uma metade, uma imagem masculina reflectida no espelho da minha alma, mas sei, isso sim, sei, que a fotografia que imagino como perfeita para mim, seja igual à daqueles dois velhotes a partilhar um livro. E a sorrir.
E aquele homem doce que não conheci e encontrou a sua musa, ganhou o meu respeito e carinho incondicionais, ao pintá-la numa cadeira, com os cabelos multicores, meio-fada, meio-deusa, toda ela mulher... a mulher que era dele e ele amou. Não sei se foram sempre felizes. Mas todos os casais deviam ver a exposição. E todas as almas solitárias, tantas vezes à beira do abismo sombrio que é o azedume, a falta de fé, e a decepção com a natureza humana, também.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Major Set-back

Quem quiser ler coisas bonitas e optimistas volte amanhã, que eu hoje não estou para amar.
As coisas até corriam no seu jeitinho assim-assim, quando, por volta das cinco e meia da tarde, o meu trabalho de ontem e hoje se transformou, com certeza por alguma burrada tecnológica minha, que continua até agora um sombrio mistério, em caracteres chineses, quadradinhos e o diabo a sete. A minha expressão, antes de me desfazer em lágrimas, claro está, deve ter sido digna de ser gravada, para fazer rir o comum mortal. Foi o necessário e suficiente para fazer surgir em mim o pior que eu tenho, não a bruxa-madrasta, mas o Calimero que há em mim, que eu detesto e, no entanto, não consigo evitar.
Fiquei literalmente doente. Sim, sei que não é o fim do Mundo. Sim, estou habituada a que nada na minha vida seja fácil. Sim, estar habituada não é o mesmo que aceitar o facto de forma resignada. Quando estas coisas me acontecem, entro numa espiral de self-pity, espiral essa que, para além de não resolver ponta de chavelho, normalmente deita tudo o resto a perder. E sim, tenho essa noção e essa consciência. E não, mesmo assim não consigo evitar.
Estou um caos. Porquê? Porque como digo é uma espiral. Porque estava tudo, o trabalho quero eu dizer, a avançar de forma lenta mas sólida e quase disciplinada, não estava a progredir a olhos vistos, mas estava a conseguir pegar-lhe diariamente, esquecer um pouco da minha solidão e dos meus fantasmas e fazer algo útil em meu proveito próprio.
E a primeira ideia que me vem em pranto, a olhar para as minhas páginas perdidas, foi, não vale a pena. Nada disto vale a pena. Passei uns últimos meses que nem um bicho mau merece, tenho uns dias de férias e resolvo que vou passá-los a lutar pela minha dissertação e isto acontece porquê, quando podia estar na praia, ou na piscina, ou na cama a dormir? Não vale a pena. Para provar o quê a quem?
Esta dissertação está amaldiçoada desde o início. Amaldiçoada por mim própria, claro está. Um projecto iniciado por todas as razões erradas, adiado por todas as razões erradas, inacabado por todas as desculpas que, por muito verdadeiras que sejam, são no fundo erradas. A Li diz muitas vezes que não a faço porque não quero. Que se quisesse, fá-la-ia sem dificuldade nenhuma, ela diz, com uma perna às costas. Infelizmente, o que carrego às costas não é uma perna, mas todos os absurdos do meu mundo. Toda a idiotia que é possível conceber e me impede de evoluir.
Neste momento sinto-me muito pequenina. Sinto-me muito parva, no sentido latino do termo. Sem força. Como se a falta de força de vontade fosse novidade em mim, quando há anos me acompanha como uma sombra. Irrita-me este modo que tenho de ser, esta fatalidade do meu modo de agir que me faz transformar sempre um copo de água em tempestade. A gota que cai sempre em sítio e tempo errados e arrasta a maré de porcarias que penso estarem ultrapassadas mas regressam sempre que algo corre inesperadamente mal. As coisas que passo a vida a convencer-me que já não me magoam nem me afectam e que revivo, como uma lista, sempre presente, para me deitar ainda mais abaixo quando a altura é de reacção e fuga para a frente. Como se fosse o primeiro e último ser humano a perder umas páginas escritas por intermédio de um computador que resolveu tomar uma atitude por vontade própria, ou assim me parece.
Sei que não. O meu desespero, dirão alguns, a minha loucura, dirão outros - mais malévolos, de sorrisinho irónico, parece que os estou a ver - não me leva a tanto, a achar que sou a única a quem isto acontece. A minha lucidez leva-me, isso sim, a achar que pouca gente reage desta forma a um acontecimento tão infinitamente fútil. Uma reacção infantil e mimada, de quem acha que as coisas não tinham que ser assim, logo, que se lixe, não brinco mais. Porque estou cansada que tudo em que toque se pulverize, nos antípodas do toque de Midas.
Porque gostava que, de uma vez por todas, de cada vez que algo me corre ao contrário do previsto, visse nisso apenas o que é, uma fatalidade que tem conserto. Sem chamar à baila tudo o que aconteceu nos últimos anos que não tem conserto nenhum, e que devia estar morto e enterrado. Chego à decepcionante - e temível - conclusão que não encerro nem ultrapasso nada na minha vida. Apenas guardo as coisas más numa gaveta alta de um qualquer armário escuro e a elas regresso, quando as coisas correm mal, para me sentir ainda pior. Não será este o cúmulo do masoquismo?

quinta-feira, 24 de julho de 2008

You Are

Já agora, um de Césarini, e vou-me deitar, que se continuo na Net madrugada adentro a ler poesia e a chorar - quão patética sou eu, às vezes, é verdade... - amanhã não trabalho nada de jeito. Mas deixo-vos, então, outro bom exemplo, na minha modesta opinião de leiga sobre o assunto, do que a poesia deve ser...
You Are Welcome
To Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
Entre nós e as palavras há hélices que andam
E podem dar-nos morte violar-nos tirar
Do mais fundo de nós o mais útil segredo
Entre nós e as palavras há perfis ardentes
Espaços cheios de gente de costas
Altas flores venenosas portas por abrir
E escadas e ponteiros e crianças sentadas
À espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis
À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras ,os emparedados
E entre nós e as palavras ,o nosso dever falar.

Um Adeus Português

Não sou, nem pouco mais ou menos, conhecedora de poesia. Não sou, sequer, grande apreciadora. Com isto não quero dizer que concorde com o Pan quando ele diz que a poesia são palavras agitadas e atiradas ao ar, que depois ficam como caem no papel, não. Diz Eugénio de Andrade que gostaria que a frase de Santo Agostinho que diz "A beleza é o esplendor da verdade" dissesse "A poesia é o esplendor da verdade", porque "só assim evitaremos que se torne na mais fútil das ocupações". E eu concordo. Ironicamente, há por aí muita gente convencida que é poeta que não é mais que um condenado à mais fútil das ocupações. Alguns poetas contemporâneos parecem apostados em escrever coisas que ninguém percebe, para ganharem, quiçá, o título de gente "instruída", "intelectual", "inteligente", uns cretinos, em resumo. Há que não esquecer que poesia é a expressão mais pura do sentir. Mais puro que a poesia, só o não-verbal. Poesia é a palavra a transcender o signo em direcção à essência, é a palavra a descrever o indescritível, a dizer o indizível, ou, pelo menos, a tentar. Em tentativas nobres e honestas. Um dos meus poetas favoritos é Alexandre O'Neill. Porque se percebe o que diz, e ninguém o diz como ele.
Hoje, para descansar da tese, passava os olhos sobre alguns dos meus textos favoritos, e escolhi este, reparem,
Um Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual


Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Isto já me aconteceu. Duas vezes. Alguém olhar para mim e dizer, não sirvo para ti; este espaço é demasiado pequeno; esta gente é demasiado mesquinha; esta cidade é demasiado limitada; esta vida é demasiado curta, mereces melhor.
Já me aconteceu. Duas vezes. Ironicamente, de ambas as vezes, aconteceu-me com as únicas pessoas, as únicas, por isso é que é irónico, que eu nunca tive dúvidas de que estavam muito, muito, acima do que achavam delas próprias. E, já agora, de mim. Este é um poema que me dói especialmente.
Precisamente por isso, amo-o. Porque acho que a poesia tem que se reconciliar com o simples leitor. Aquele que vê novelas, lê jornais desportivos, joga no euromilhões, mas não perdeu as capacidades de sonhar e sentir... desde que venham expressas em Português, e não em Arrogantês.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A Flor e a Cana

A minha mãe tem uma cana dentro de uma jarra com água há que tempos. E a cana, verde, cresce, enrola, ganha folhinhas, é muito engraçada. Todas as semanas, ao fim-de-semana, a minha mãe compra uma flor para me oferecer, na vinda a casa. Como somos mulheres pouco lamechas, nunca me dá a flor pessoalmente, e eu nunca lha agradeço: ela mete a flor entrelaçada na cana, e eu faço um comentário casual à sua beleza. É um dos nossos rituais de aproximação, à chegada, quando eu chego, claro está, e há aqueles primeiros momentos de estranheza, do tanto que há para dizer e de repente nada surge.
Esta semana, há uma geribera vermelho-sangue entrelaçada à cana. É lindíssima, como são também as rosas, as outras geriberas multicores que por lá passaram, os mais raros e tão apreciados girassóis, que a minha mãe sabe que eu amo. "Só podias gostar de girassóis, essa florzinha empertigada de muita personalidade, que olha de frente o que interessa e o resto, que se lixe!" Exacto. Boa descrição da flor, e de mim própria, por sinal.
Em frente ao computador onde tenho passado horas a dedilhar teorias e controvérsias sobre o pós-modernismo, costumo descansar a vista na cana e na flor, abraçadas. E penso, embelezam-se mutuamente. Às vezes brilha a cana, outras, destaca-se a flor. O par não dura mais que uns dias e, no entanto, que diferença olhar a jarra com a cana e o seu flavour of the week, ou a jarra com a cana solitária.
E lembro o que ouvi num filme qualquer há pouco tempo: "Nem todas as histórias de amor estão destinadas a ser Epic Novels. Muitas serão sempre e apenas Short Stories." Não quer dizer que sejam menos belas. Desde que a flor realce a cana, e vice-versa, o que dura é irrelevante.

Post-It à Presidente da Junta

Já te respondi ao comentário. Ontem mandei-te umas parvoíces para o hi5. Quero mesmo ir ver as tais exposições, sabes? E adorava ir vê-las, se não convosco, contigo. Não tenho novidades, mas tenho conversas, dois ou três assuntos em que gostava de te ouvir. Agora que está toda a gente de férias, só tu e a Mzinha é que lêem isto, e torna-se tudo bastante mais intimista. Tal permite facilmente deixar-te este post-it no écran do teu PC. É cor-de-rosa (claro, é meu) e diz: tenho saudades tuas e preciso de ir ao CCB!!! (É que tenho um irmão que faz anos e é artista e vou estar com ele no dia do aniversário, ainda por cima em trabalho, e queria ver se lhe arranjava qualquer coisa que lhe arrancasse um sorriso...)
Até já.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Primeiros Dias de Férias

Estou imersa em coisas que gosto de fazer e, pela primeira vez em algum tempo, a conseguir relaxar e de facto fazê-las. Estou a ler compulsivamente, por exemplo. Já terminei um livro que tinha começado há mais de um ano, Nem aqui, nem ali, um livro de viagens hilariante de Bill Bryson, e um olhar americano sobre a velha Europa, que nos ensina a nós, que gostamos tanto de apontar o dedo inquisitorial aos americanos, que gostamos tanto de dizer que não gostamos nada deles, a quem fica sempre tão bem e é tão politicamente correcto e bem visto chamar todos os nomes, desde fascistas a capitalistas, a arrogantes, a ignorantes, ensina-nos a nós, dizia eu, a olhar mais vezes ao espelho. A ver como são os alemães tão diferentes dos italianos, e os turcos tão diferentes dos austríacos, e assim sucessivamente. Ora, arrisco eu, se somos nós tão diferentes dos espanhóis, como poderemos pôr os americanos todos dentro do mesmo saco, sejam eles nova-iorquinos, texanos ou hawaianos? A mim parece-me coisa de gente com poucos estudos e ainda menos visão. Gente narrow-minded, como dizem os ... "Amaricanos".
Adiante. Para além de ler que nem uma maluca, já comecei outro do mesmo autor, este em Inglês, The Life and Times of the Thunderbolt Kid, sobre a infância de Bryson, anos 50 na América, uma época que me apaixona, além disto, dizia, tenho dormido que nem uma desvairada e visto séries que nem uma condenada. CSI, Crossing Jordan, Women's Murder Club, Bones, Miss Match, Ugly Betty, The Closer... uma barrigada de Ciência Forense, Policiais e Comédias, até à overdose.
Fui assistir ao concerto de Léonard Cohen e ainda não consegui encontrar as palavras certas, deixo-vos algumas imagens, um pouco de ambiente, uma noite quente de lua cheia e um rio ao fundo, prateado. Seis ou sete homens e três mulheres a entrar em palco, lembrando o gang do Capone, fatos e gravatas pretas, camisas brancas, chapéus pretos. Uns segundos de silêncio absoluto e Dance me to the end of love com uma voz de estúdio, envolvente, sensual, forte, rouca, grave, afinada. Uma voz jovem num corpo já muito maduro. Um sentido de humor experiente, uma simpatia quase latina num nórdico, as raízes de gentleman que honrou todo o tempo. Um público cuja média de idades rondou os quarenta e tal, e que, talvez por isso, tenha sido o público mais bem comportado que já vi num concerto ao ar livre. As minhas músicas favoritas, duas ou três vezes as lágrimas nos olhos, e um sorriso do Tejo ao Saldanha. E um casal à minha frente, na casa dos setentas e muitos, oitentas, abraçados, a acariciarem-se mutuamente, de lés a lés, as faces e as mãos. Uma vida em conjunto? A sua banda sonora? Ou recém-namorados? Ou recém-reencontrados que passaram toda uma vida separados e agora, finalmente, passam o que lhes é derradeiro juntos? Impossível saber o que está por trás daqueles dois seres velhinhos e apaixonados. Seja o que for, é bom, estavam felizes, aguentaram três horas de concerto sem nunca se sentarem e sem nunca se queixarem, ensinaram-me muitas lições sem nunca me terem dirigido a palavra ou um olhar mais demorado.
Nos intervalos, ainda tenho dado uns toques na tese...
Agora sim, isto começa a cheirar a férias, a fazer o que apetece, o que dá prazer, o que faz sorrir, desenvolver, prosperar, evoluir, sonhar, viver a sério. Até já.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Settling in

A todos aqueles que me têm mandado sms, a saber se cheguei bem e se quero ir dar uma volta, beber um café, vegetar numa esplanada ou levar pancada de um dia de praia, tenho a dizer que sim, que quero, que está tudo bem, que estou em casa, na minha terra, a viagem correu bem e o silêncio deve-se ao facto de me estar a instalar. Preciso de tempo para o fazer, para me habituar ao novo ambiente, encontrar velhas rotinas, criar novos hábitos, mudar de monotonia.
Já vos disse que tenho alma de gato. Acreditem que é verdade. Fartei-me de gozar com a Pi, que quando esteve connosco na Cidade-de-Deus passava os dias debaixo do édredon da Mzinha e só saía quando caía a noite, cheia de fome, mas o seguro morreu de velho... fartei-me de a gozar para, mais uma vez, ter que dar razão aos gatos. Isto de mudar de repente de ambiente, de cama, de companhia, de cenário, não é fácil. Mesmo que se mude para melhor.
Por isso, ma frends, um pouco de paciência. Estou calmamente a cheirar tudo, em missão de reconhecimento; ando a esfregar (metaforicamente, claro está) o pescoço e o nariz pelas paredes, a marcar território; a dar marradinhas nos lojistas aqui da rua em troca de cafés e revistas cor-de-rosa; a fazer três a quatro vezes por dia os mesmos percursos, para lhes decorar os pormenores e avaliar as mudanças; e, claro, a passar tanto tempo na caminha quanto o necessário para me habituar a ela e senti-la, novamente, minha.
Assim que me sentir de novo em casa e em segurança, passarei então à fase aventura/ sociabilização com os outros gatos...
Até já.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Jade's Anatomy II

Acabei agora de ver mais um dos episódios que não tinha visto da terceira temporada de Grey's Anatomy. Hoje era sobre família. A Meredith tinha a madrasta e a meia-irmã, que não conhecia anteriormente, no hospital. O George, então, tinha lá a família toda, com o pai internado. Uma das cirurgias era para separar dois gémeos siameses de 35 anos. Tudo girou à volta de relações familiares, dessas que unem pessoas por apelidos e tipos de sangue, dessas que eu, ao longo da vida, passei a perspectivar e relativizar. Ironicamente, quase no final do episódio, Meredith diz a Christine "You're my sister, you're my family, you're all I've got".
Cheguei a essa conclusão há muitos anos atrás. Quando se falava de pais adoptados e filhos adoptivos. Quando me perguntavam pelo meu pai e eu respondia em função do meu avô. Quando tal facto não me parecia mesmo nada estranho, por muito pequena que fosse na altura. Dizem os psiquiatras que não é a mesma coisa. Que o simples facto de uma criança passar toda uma vida sem pronunciar o vocábulo "pai" é traumatizante. Traumatizante, meus caros, é pronunciá-lo em relação a alguém que chega a casa bêbado e bate na família inteira, ou viola criancinhas, ou está constantemente em fait-divers com outras mulheres e um belo dia traz a SIDA para casa. Já viram o novo anúncio da Abraço, o do anjo? Ge-ni-al! Adiante...
Quem opina sobre a importância da família, dos laços de carne, das gerações e tradições, do clã e da santidade do casamento, esses que falam a criticar o divórcio e aquilo a que chamam destruição familiar, esses tantos que há por aí a invocar a moral e os bons costumes e as convenções sociais, esses, das duas uma: ou são privilegiados vindos de famílias felizes, que as há, e ainda bem, que são essas que alimentam sonhos e objectivos de uma solitária como eu, ou são, dizia eu, rematados hipócritas, cobardes auto-indulgentes e acomodados, que se convencem a si mesmos de que as suas crianças sofrem menos num clima de guerra fria e agressões verbais permanentes entre os adultos que lhes servem de exemplo, do que a viver com apenas um deles, e ainda assim amados pelos dois, dois esses se não mais felizes, pelo menos mais equilibrados. O que qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe bem que é falso.
A minha família inclui, à cabeça, a minha mãe. Inclui os meus dois animais de estimação, choquem-se agora todos aqueles que não conseguem perceber tais ligações, choquem-se o suficiente para ficarem mesmo indignados, pelo menos a indignação traz um pouco de sensibilidade extra, à falta da que não têm para perceber o amor infinito que um gato, um cão, ou um papagaio nos podem oferecer, incondicionalmente. Ou quase, no caso da Guida.
A minha família inclui o clã de uma prima inteligentíssima que eu tenho, uma pessoa com uma cultura invejável e, ainda assim, uma modéstia desarmante e um sentido de humor, melhor, uma piada natural, que faz com que eu e a minha mãe nos ríamos até nos doer o corpo sempre que estamos juntas. É dessa prima que vem a expressão que eu uso recorrentemente para classificar os que me são próximos, "a seita". Diz ela que não tem "família", tem uma "seita", e acrescenta, num mail enviado há dias, aquela parte da música, tão fundamental para uma vida, essa sim, familiar: "Quem é que não nos enjeita? É a seita, é a seita".
No fundo, é isso que conta. O sentimento de partilha, de dádiva e de reconhecimento pela oferta; não é uma troca: é dar e receber sem correspondência directa.
Tenho muitas irmãs, dentro da seita. Tenho a melhor escuteira do Mundo. Tenho a SlummyMummy mais culta do Universo. Tenho a maior conhecedora de verdades absolutas, daquelas que ninguém questiona, ditas de forma invulgar e com pronúncia do Norte, a começar sempre com "a minha avó diz sempre que...". Tenho a irmã mais atarefada do Mundo, que põe sempre filhos, trabalho e casa antes de si mesma, anda sempre a correr e tem tempo para fazer coisas que eu não faria nem que os meus dias tivessem 72 horas. Tenho outra, que não vejo há muito tempo, que é a mais dissimulada de todas, e a mais concentrada também, já que mede para aí um metro e meio, mas que metro e meio cheio de riso e personalidade... não vem nos livros. Tenho uma irmã mais velha, que entrou há pouco tempo na família mas é responsável por muitos e bons sorrisos e ainda mais numerosos bons momentos. Tenho outra irmã mais tímida, de presença discreta, que diz sempre coisas sensatas, chora a rir e tem uns olhos grandes e bonitos, que condizem com a decoração da nossa sala na Cidade-de-Deus. E tenho um irmão artista, que pinta quadros e faz caricaturas, escreve histórias e inventa quadras, conhece filmes antigos e fica décadas com os meus livros emprestados, para os ganhar por antiguidade. Tenho outro irmão que é designer, que eu raramente vejo, e de vez em quando lá se lembra de me cobrar atenção. E depois há os primos, as primas, os cunhados, as cunhadas, os sobrinhos e as sobrinhas. Nestes incluem-se os filhos dos amigos e todos os meus alunos, mesmo os que já são adultos e para mim serão sempre "os meus meninos".
Falta o marido, faltam os filhos. Mas faltarem é uma coisa. Fazerem falta é outra. E isto aplica-se também ao tal pai biológico. E a todos os outros com quem partilho apelido e sangue, mas não partilho risos e lágrimas, sonhos e decepções, alegrias e fúrias, fogos de artifício e estrelas cadentes. Marés altas e baixas.
Quem é que não nos enjeita? É a seita, é a seita...

De Partida

Li não sei onde, para variar, que eu falho sempre quando se trata de fazer jus às fontes, que o cérebro precisa de um a dois meses para transformar um acto rotineiro num verdadeiro hábito. Lembro-me de, na altura, ter pensado, só? Isso é pouquíssimo... e ter esquecido o assunto. Mas agora, de partida para a minha terra, enquanto lavava roupa à mão, e separava outra tanta em montes, Lisboa, Croácia, Portalegre, Caridade, Lixo, enquanto metia no saco frascos de perfume, shampoo, cremes para todas as partes do corpo e mais algumas, o que eles inventam..., bâtons, máscaras, bases e uma parafernália de pulseiras e brincos, e relógios, então e se o primeiro-ministro me convidar para jantar, a fim de discutir as políticas da educação? Preciso mesmo destas sandálias a condizer com esta mala, a fazer pandan com este par de brincos, e o cinto... mas, e se em vez de um jantar, for um piquenique? Bom, nesse caso... e no meio da imagem (temível) do Sr Engenheiro de calções e Crocs, a discutir comigo os melhores meios para lutar contra o abandono escolar, de rissolito de pescada na mão, eis que tive uma epifania, lembrando a tal história da rotina e do hábito.
Espera lá, que isto é uma boa altura, esta, do regresso a casa, para estabelecer novos hábitos na minha vida... Dizia o artigo que, se uma pessoa, durante dois meses, se forçar a repetir determinados procedimentos, num mínimo de três vezes por semana, sempre aos mesmos dias, e fizer questão de não falhar um único, no início do terceiro mês o processo torna-se natural, já não exige do cérebro aquela hormona da força de vontade que os cérebros normais segregam, e os anormais, como o meu, continuam à espera que se venda em ampolas na farmácia mais próxima. Vocês fazem ideia do potencial da cena? Dois meses mudam uma vida! No meu caso, há uma lista enoooorme de novos hábitos a incluir na minha rotina diária, difícil vai ser estabelecer prioridades. Estes incluem comer mais fruta, beber menos café, praticar exercício físico - dois, dos meus três, personal trainers deitaram as mãos à cabeça quando se inteiraram do número de pulsações/minuto de Sôdôna Jade - dormir oito horas, trabalhar na dissertação pelo menos duas, ler coisas extra-tese num mínimo de três vezes por semana, cantar no duche, forçar o riso três ou quatro vezes ao dia, arrumar papéis duas vezes por semana, sair à noite duas vezes por semana, assistir a um espectáculo (cinema, teatro, concertos, exposições) uma vez por semana, and soyon and soyon...
Estou certa de que a minha saúde vai agradecer. A física e a mental. Uns põem botox e silicone; outros preferem fazer upgrades à máquina. Eu sou dos últimos. Gosto de investir na memória... e, já agora, cuidar da engrenagem, que ultimamente a cretina tem feito ameaças de shut-down e já teve que reiniciar umas quantas vezes.
De regresso a casa, o objectivo é confirmar empiricamente o tal estudo da revista. Porque, meus amigos, a ser verdade, na altura do outro regresso, o regresso às aulas, ninguém me pára!!!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Post-Scryptum a Boletim Informativo

Como os meus planos são o que são e dão no que dão, é favor não cobrar alterações nem fazer reclamações no meu livro amarelo se nada disto chegar a acontecer, tipo se amanhã acordar com o corpo às pintas e já não for para Lisboa, se perder a pen com a minha dissertação e já não houver mestrado para ninguém, se o Léonard Cohen cancelar o concerto para ir de férias para as Bahamas ou o Sr. Berardo tiver um ataquito e resolver pegar fogo à sua colecção, é minha, é minha, e faço o que me apetecer, independência ao puvo da Madêra ou, em vez da Croácia, à última hora, toda a gente resolver que Moscovo, Moscovo é que é, 'bora aí, pessoal...
É que eu e os planos, meus senhores, temos uma relação amorosa muitíssimo conturbada...

Boletim Informativo

Como esta se tornou uma forma rápida e eficaz de comunicar com a minha seita espalhada por esse Portugal fora, e pelo Mundo, why not? tenho a dizer-vos que me preparo para ir passar uns valentes dias a Lisboa! Sim, Vs, já ouço os foguetes, estrala a bomba, vou finalmente conhecer o Alber(ga)to... e assistir ao Léonard Cohen, e visitar a colecção Berardo, e ir à praia com um baldinho da Hello Kitty, e ao cinema, já estreou o Mamma Mia, V? e quem sabe até ao teatro... Ahhhh, Lisboa, que bom... Depois, volto na última semana de Julho e ponho-me a milhas para a Croácia, de onde espero regressar a doze ou treze. Dependendo do que me for sussurando Auster, emparedo-me viva na Cidade de Deus, ou queimo os últimos cartuxos entre Lisboa e Azeitão, boa? Devo chegar jeitosa depois de milhares de quilómetros de carro... é um trabalho duro, mas alguém tem que o fazer...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A small contemporary joke

Depois das afirmações da Ferreira Leite e do manancial que elas suscitaram, lembrei-me de uma fala de um filme ou de uma série que achei hilariante...
- És a favor do casamento entre homossexuais?
- Com certeza! Porque é que só os heteros é que têm que sofrer esse inferno?
Sem mais acrescentar, acho que é uma boa resposta a comentários reaccionários, e às vozes que me desdenham por continuar solteira aos trinta (e tal...)!

Dia Cinzento

Em "amaricano" rima: Gray Day.
Já não bastava ter passado a noite de pestana aberta, por nada de concreto, e sem dar qualquer utilidade à insónia que não fosse virar-me para a direita, depois para a esquerda, depois de barriga para cima, depois, de barriga para baixo, tapar-me, destapar-me, levantar-me para fumar um cigarro, deitar-me de novo, e ir tendo epifanias que não interessam nada nos intervalos.
Já não bastava ter tido esta noite péssima na véspera de, precisamente, ser o único dia da semana em que não podia dormir de manhã, marcada que estava reunião de departamento para bem cedo.
Já não bastava tudo isto, tinha o dia que amanhecer cinzento, mesmo a convidar ao soninho profundo, manhã fora, o meu favorito.
Já se adivinhava o descalabro que se seguiria. O não dar uma para a caixa. O raciocínio lento. A total falta de pachorra para as intrigas cortesãs do costume. A tentação atroz de pegar no JadeMobile, mandar tudo às urtigas e ir para Lisboa, ou para Aveiro, ou para qualquer outro sítio que não este, onde me espera um fim-de-semana de dissertação de mestrado, quando não consigo articular duas palavras seguidas, ou manter um fio condutor lógico intelectual mais que trinta segundos. Bem pensado, bem pensado, seria pegar no JadeMobile e ir para o raio que me partisse... (adoro estas tiradas poéticas...)
Se calhar, como comentava com o MMS, as nuvens apenas ajudam à concentração e afastam as tentações de uma ida à piscina azulinha e a horas a esturricar ao sol. Há que ver sempre o lado positivo, mas francamente, hoje estou fartinha de me aturar, morta de tédio, exausta de cansaço e com a ansiedade de uma consciência pouco limpa, aos gritos comigo, a vociferar palavrões misturados com palavras-chave do tipo "dissertação", "pós-modernismo", "Paul Auster", "preguiçosa", "irresponsável", "inconsciente", "falhada"...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Blind Spot

Ângulo Morto.
Aquele bocadinho do cenário que a câmara não consegue apanhar. A tal "parvicidade", vulgo, para os mais desatentos, privacidade, de que tanta gente fala tanto mas tão pouca gente sabe respeitar. Ou reservar-se o direito, luxo? de exercer como direito adquirido. Um ângulo morto, um pouco de invisibilidade social, para além do "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada a ver com isso". É mais o "eu faço o que me apetece e ninguém tem nada que olhar para mim como se nunca me tivesse visto" ou, como diz a Li, como se tivesse perdido alguma coisa no meu bolso.
Às vezes custa viver numa cidade big brother, onde há sempre alguém conhecido, mas não íntimo, que temos que saudar de sorriso amarelo e nos avalia as roupas e as companhias. Olha, aquela agora dá-se com esta... com que fim, com que objectivo, sim, tem que ser algo para além do óbvio, que é divertirem-se em conjunto, tem que haver um interesse obscuro, um pormenor escabroso, uma escandaleira qualquer por trás disto. (suspiro)
Às vezes custa, ter que aturar gente maldosa, em prol de um bem maior. Cansa. Sou bicho de cidade grande, de shoppings atafulhados de desconhecidos, de rastas e piercings e betos e tias e labregos e doutores, todos eles unidos pelo anonimato e a convicção de que o Mundo é grande e a nossa vida deveras complicada para ainda termos que estar a conjecturar sobre a dos outros.
Amanhã vou entrar num ângulo morto, longe de olhares perscrutadores, inquiridores, inquisitoriais. Vou desaparecer das câmaras, vou respirar, dando-me ao luxo de ser quem sou, gostar de quem me apetece, ser amiga de quem bem entendo e rir-me do que será sempre, para mim, ridículo e incompreensível. Aos que gostam de me observar e ainda assim não percebem, coitados, o transparente que eu sou, tenho a dizer uma frase genial da douta Li: Só fala de orelhas quem é orelhudo...