Acabei agora de ver mais um dos episódios que não tinha visto da terceira temporada de Grey's Anatomy. Hoje era sobre família. A Meredith tinha a madrasta e a meia-irmã, que não conhecia anteriormente, no hospital. O George, então, tinha lá a família toda, com o pai internado. Uma das cirurgias era para separar dois gémeos siameses de 35 anos. Tudo girou à volta de relações familiares, dessas que unem pessoas por apelidos e tipos de sangue, dessas que eu, ao longo da vida, passei a perspectivar e relativizar. Ironicamente, quase no final do episódio, Meredith diz a Christine "You're my sister, you're my family, you're all I've got".
Cheguei a essa conclusão há muitos anos atrás. Quando se falava de pais adoptados e filhos adoptivos. Quando me perguntavam pelo meu pai e eu respondia em função do meu avô. Quando tal facto não me parecia mesmo nada estranho, por muito pequena que fosse na altura. Dizem os psiquiatras que não é a mesma coisa. Que o simples facto de uma criança passar toda uma vida sem pronunciar o vocábulo "pai" é traumatizante. Traumatizante, meus caros, é pronunciá-lo em relação a alguém que chega a casa bêbado e bate na família inteira, ou viola criancinhas, ou está constantemente em fait-divers com outras mulheres e um belo dia traz a SIDA para casa. Já viram o novo anúncio da Abraço, o do anjo? Ge-ni-al! Adiante...
Quem opina sobre a importância da família, dos laços de carne, das gerações e tradições, do clã e da santidade do casamento, esses que falam a criticar o divórcio e aquilo a que chamam destruição familiar, esses tantos que há por aí a invocar a moral e os bons costumes e as convenções sociais, esses, das duas uma: ou são privilegiados vindos de famílias felizes, que as há, e ainda bem, que são essas que alimentam sonhos e objectivos de uma solitária como eu, ou são, dizia eu, rematados hipócritas, cobardes auto-indulgentes e acomodados, que se convencem a si mesmos de que as suas crianças sofrem menos num clima de guerra fria e agressões verbais permanentes entre os adultos que lhes servem de exemplo, do que a viver com apenas um deles, e ainda assim amados pelos dois, dois esses se não mais felizes, pelo menos mais equilibrados. O que qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe bem que é falso.
A minha família inclui, à cabeça, a minha mãe. Inclui os meus dois animais de estimação, choquem-se agora todos aqueles que não conseguem perceber tais ligações, choquem-se o suficiente para ficarem mesmo indignados, pelo menos a indignação traz um pouco de sensibilidade extra, à falta da que não têm para perceber o amor infinito que um gato, um cão, ou um papagaio nos podem oferecer, incondicionalmente. Ou quase, no caso da Guida.
A minha família inclui o clã de uma prima inteligentíssima que eu tenho, uma pessoa com uma cultura invejável e, ainda assim, uma modéstia desarmante e um sentido de humor, melhor, uma piada natural, que faz com que eu e a minha mãe nos ríamos até nos doer o corpo sempre que estamos juntas. É dessa prima que vem a expressão que eu uso recorrentemente para classificar os que me são próximos, "a seita". Diz ela que não tem "família", tem uma "seita", e acrescenta, num mail enviado há dias, aquela parte da música, tão fundamental para uma vida, essa sim, familiar: "Quem é que não nos enjeita? É a seita, é a seita".
No fundo, é isso que conta. O sentimento de partilha, de dádiva e de reconhecimento pela oferta; não é uma troca: é dar e receber sem correspondência directa.
Tenho muitas irmãs, dentro da seita. Tenho a melhor escuteira do Mundo. Tenho a SlummyMummy mais culta do Universo. Tenho a maior conhecedora de verdades absolutas, daquelas que ninguém questiona, ditas de forma invulgar e com pronúncia do Norte, a começar sempre com "a minha avó diz sempre que...". Tenho a irmã mais atarefada do Mundo, que põe sempre filhos, trabalho e casa antes de si mesma, anda sempre a correr e tem tempo para fazer coisas que eu não faria nem que os meus dias tivessem 72 horas. Tenho outra, que não vejo há muito tempo, que é a mais dissimulada de todas, e a mais concentrada também, já que mede para aí um metro e meio, mas que metro e meio cheio de riso e personalidade... não vem nos livros. Tenho uma irmã mais velha, que entrou há pouco tempo na família mas é responsável por muitos e bons sorrisos e ainda mais numerosos bons momentos. Tenho outra irmã mais tímida, de presença discreta, que diz sempre coisas sensatas, chora a rir e tem uns olhos grandes e bonitos, que condizem com a decoração da nossa sala na Cidade-de-Deus. E tenho um irmão artista, que pinta quadros e faz caricaturas, escreve histórias e inventa quadras, conhece filmes antigos e fica décadas com os meus livros emprestados, para os ganhar por antiguidade. Tenho outro irmão que é designer, que eu raramente vejo, e de vez em quando lá se lembra de me cobrar atenção. E depois há os primos, as primas, os cunhados, as cunhadas, os sobrinhos e as sobrinhas. Nestes incluem-se os filhos dos amigos e todos os meus alunos, mesmo os que já são adultos e para mim serão sempre "os meus meninos".
Falta o marido, faltam os filhos. Mas faltarem é uma coisa. Fazerem falta é outra. E isto aplica-se também ao tal pai biológico. E a todos os outros com quem partilho apelido e sangue, mas não partilho risos e lágrimas, sonhos e decepções, alegrias e fúrias, fogos de artifício e estrelas cadentes. Marés altas e baixas.
Quem é que não nos enjeita? É a seita, é a seita...