terça-feira, 4 de novembro de 2008

Tears

Sinto-me feliz, hoje. Nem contente, nem alegre, feliz. Foi um dia pleno de emoções fortes e boas notícias. Foi um dia de partilha, de reforço, de vislumbres de amizade sólida, de gente a dar boas notícias, de acasos felizes e coincidências agradáveis.
Dias assim fazem-me repensar aquele momento amargo em que abro os olhos muito cedo, está um frio de rachar e eu penso, com um suspiro, será que tem mesmo, mesmo, que ser? Será que não é hoje o dia em que vou mandar tudo e todos pastar, e fazer a diferença, promover a quebra na rotina das coisas sempre iguais? E nunca é, nunca consigo arranjar a coragem, ou uma desculpa suficientemente boa, para mandar um dia de trabalho às urtigas em prol da minha sanidade mental e existência mais pacífica.
Tenho andado muito em baixo. Sábado foi dia de defuntos e eu não fui a Lisboa dar dois dedos de conversa junto à campa do meu avô. No próximo dia um faz anos que ele morreu, e este mês é sempre muito complicado para mim, as datas trazem recordações, saudades, sentimentos meio-adormecidos no lufa-lufa do resto do ano. É sazonal, há alturas do ano em que a falta dos que já partiram bate mais forte. Os meus Novembros são pouco doces, e os meus Dezembros, bem, no Natal é melhor nem falar. De modo que o tempo tem estado de chuva e a vontade de me levantar da cama não é grande, não.
Por isso, o dia de hoje, em que me levantei como sempre, mas me vou deitar muito diferente, foi um presente do destino a dizer que a monotonia não existe obrigatoriamente num dia que tem tudo planeado para ser igual aos outros. Que os bombons-rajás pequeninos e iguais, trazem recheios diferentes. E assim são as pessoas. Já lhes conhecemos a embalagem, mas às vezes sai-nos um sabor a morango onde esperávamos baunilha, e a surpresa agrada, ou não fosse o morango o nosso favorito.
Hoje fiquei feliz por dar uma oportunidade ao dia porque ele esteve à altura. Não trocava por nada cada minuto dele, não trocava por nada as palavras que disse e ouvi, as que não disse mas disseram os meus olhos e o meu sorriso, as que não me disseram mas ficaram claras nas entrelinhas. Não trocava por nada, mesmo nada, os dois ou três abraços que dei a uma amiga minha, nem as lágrimas nos olhos com que vim para casa. Lágrimas de saudades de um futuro já tão próximo, de um passado em comum, lágrimas de agradecimento por ainda me conseguir comover quando a minha vida não está para grandes emoções ou ternuras há tanto tempo.
É que eu choro muito, mas choro muito pouco por coisas que valham realmente a pena. E o meu avô, de quem sinto tanta falta, e as pessoas que me comovem porque as amo, como as que me cruzaram hoje o caminho, não são causa de lágrimas vãs. E se elas vêm, ao menos que não sejam vãs.

9 comentários:

Anónimo disse...

Só para reafirmar algo tão simples (mas que teimas em não acreditar!): VALES MUITO MAIS DO QUE JULGAS.

Jade disse...

Achas? eu continuo a achar que sou óptima em questões de auto-avaliação. Como vês, presunção não me falta...

Anónimo disse...

De alguém para quem o Novembro também custa muito a passar, porque me levou alguém de quem gostava tanto... no Domingo tive oportunidade de trocar "dois dedos de conversa" com ele... e apresentar-lhe o sobrinho que um dia irá saber tudo sobre o tio... desculpa o desAbafo... mas precisava de o dizer a alguém que compreenda...
TENHO MUITAS SAUDADES TUAS!!

Jade disse...

Russinha, meu doce, entendo bem, e sei que o teu caso é pior ainda, é mais recente, e o tempo encarrega-se de trazer alguma sabedoria à nossa relação com as ausências. A amiga que eu abracei hoje várias vezes, podias muito bem ser tu... não andou assim tão longe. Há boas notícias que doem cá dentro Beijos

Anónimo disse...

Olá Jade.
Gostei deste post. Apesar da sua rudeza em alguns dos seus escritos, e sendo a Jade Sagitário, mulheres mais "frias", aparentemente, prepotentes, por vezes também, tem coração, sentimentos, sensibilidade.
Estas manifestam-se em pequenas atitudes, frases e carinhos.
Já perdi familiares jovens, cheios de vida. Eles estão cá dentro.
Lembrei-me agora de algo. Estava a ver Praça da Alegria" enquanto esperava uma consulta de rotina,quando vejo um excerto de um filme antigo, em que Milu, que faleceu hoje, cantava "Cantigas da rua".
Acredite que fiquei com as lágrimas nos olhos...fez-me lembrar minha mãe, que faleceu há 26 anos. Ela cantava muitas vezes essa canção.
Trauteei-a também baixinho e feliz por recordar a voz dela.
Se ela está sempre no meu coração, por pequenas coisas que me fazem recordar, nesta canção escutei a voz da minha mãe, bem perto de mim.
Eles vão, as memórias ficam. Eles estão aqui ao nosso lado.Eles dão-nos força para viver e lutar.
Eu sinto isso. Recentemente perdi a minha irmã. Por vezes nem acredito que aconteceu. Mas continuo a viver, a recordar, a chorar, a dizer o que sinto. E os dias, mais felizes ou menos felizes, não são iguais. Há sempre um momento bonito em cada dia que passa. Escute e observe.
Beijo

Anónimo disse...

É estranho como a dor dos outros nos faz lembrar a nossa propria dor!
Mas não importa, muito na onda dos U2 digo "i'm not the only, one staring at the sun..."

Anaísa

Jade disse...

Pois é, minha querida. Somos mais os que temos dor e perdas dos que não sabem a sorte que têm por não as terem...
U2 faz-me sempre lembrar uma aluna do oitavo ano há muitos anos atrás, que me gravou um CD e me fez amar um "Beautiful Day"

Anónimo disse...

Oitavo ano!! pihhhh O Ano do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, do Mundial 2002, das conversas sobre o Sr. Prof Flp d Ed.Fisica e desse CD dos U2 "all that you can't leave behind" (pelo menos pra mim foi)... ;)
Hoje com quase 8 anos mais (na verdade so passaram +/- 7) OK com 6 anos mais estou "pretty much the same" e acho que vocemecê foi umas das coisas que "i couln't leave behind" naquele ano.

bjinhos
Hope you can always have your BEAUTIFUL DAY
:)

Anaísa

Jade disse...

Do que tu te foste lembrar... pormenores guardados no baú dos sonhos bons... nunca mais soube nada do Flp, esse grande querido que partilhava connosco os gostos musicais e tinha os olhos mais bonitos do mundo... LOL