terça-feira, 18 de novembro de 2008

Póker de Dados

Do conceito em questão já se escreveram livros e tratados, poemas e peças de teatro, frases a bâton em espelhos e bilhetinhos em páginas quadriculadas de cadernos da escola primária, já se pintaram graffitis em muros por onde passam comboios; iniciais foram talhadas em troncos de árvores centenárias, statements em Inglês macarrónico foram tatuados em portas de casas-de-banho públicas, mensagens a lápis foram rascunhadas em guardanapos de papel, códigos secretos foram inventados com chaves partilhadas a dois. Fala-se muito de amor. Do conceito já se disse tudo, e nunca li nada que dissesse realmente alguma coisa. Hoje, exausta e levemente triste, fumava um cigarro, relembrava uma frase muito minha, fools are the men who insist in defining love without noticing that it is in fact love that defines them, olhava o fumo subir para um lugar mais alto e pensava, nessa altura, no tal Deus. Eu acredito mais nos Acasos que em Deus. Ou melhor, acredito num Deus rendido aos Acasos, num Deus com dois dados na mão, a gozar o profundo prazer de os atirar e lhes ouvir o som enquanto rolam, assim decidindo muitas das questões fundamentais das nossas vidas mortais. Só assim consigo compreender a Sua coexistência com o absurdo da condição humana. Imagino um ser superior cansado da idiotia dos homens e da sua propensão inata para a asneira e para o abismo. Um Deus desistente a pensar, não aprendes, pois não, seja então a tua sorte a que estes dois dados quiserem. So be it. E assim acontece. Acontece assim, por acaso. Por circunstâncias no limite da lei das probabilidades. Acontece assim, como poderia acontecer da forma diametralmente oposta. São depois os homens que se entretêm a justificar o injustificável, a arranjar razões e motivos para o aleatório. Não foi destino, não foi vontade divina. Foi, apenas, um simples rolar de dados, a ditar um póker de Ases… ou nada.

14 comentários:

Anónimo disse...

Olá.
Fantástico. Até Deus desiste...
Sem mais comentários.

Beijinho

Jade disse...

Exacto, Maria, Exacto. Até Deus desiste, perante o homem que insiste.

Anónimo disse...

LoooL
Ninguem desiste!
Todas as jogadas são válidas, até mesmo quando so dados ficam de quinas, voltam a ser lançados.

Jade disse...

NINGUÉM me desdiz ao póker, ma frend... vê lá se queres levar uma malha das grandes. Sou imbatível... sorte ao jogo, sabes como é!

Anónimo disse...

200º post! Trouxe confetti!
---- festa----- mais festa-------
Assim somos! Sempre muito preocupados em perceber o porquê e a inventar teorias do retorno e do karma...
Desde que os dados não estejam viciados que o jogo continue!

Alexandra disse...

Depois de ver o teu/seu comentário no meu blog (muito obrigada :P), vim aqui e pura e simplesmente adoro cada texto. Mesmo.
Tornei-me seguidora e adicionei à minha lista de blogs amigos. Obrigada por posts destes,

Beijinho*

Jade disse...

Obrigada, minha linda, sempre pronta para fazer alarde. Para quando o teu primeiro? Levo-te duzentos de avanço...
Alexandra, obrigada. Claro que é "teu" e não "seu" blogue. Prefiro sempre que me tratem por tu, e não tem nada a haver com a idade, vai mais com o meu jeito descontraído de estar. Eu, mal vi, "Sporting", misturado com "Tim Burton" e música e, e, e,... também já adicionei a tua morada aos favoritos... foi logo! Beijinhos.

Shadow disse...

Hmmm.... Desta vez não concordo. A grande vantagem do "meu Deus" está precisamente nos acasos. Que milagre maior pode haver que um acaso?!

há uns anos li, "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera.. A reflexão sobre o peso dos acasos onde as personagens acreditam que as coincidências são uma marca do destino.
A história de um casal que atribui diferentes pesos a estes acasos. Ela como sinais, ele como obrigação. Ambos lembram uma frase de um quarteto de Beethoven que diz: "Muss es sein? Es muss sein! Es muss sein!" (Tem de ser assim? Tem de ser! Tem de ser!) e apartir dai regem a sua vida, até ao dia que põe em causa a sua convicção e tentam adoptar a do outro.

Jade disse...

Também li o livro, e não percebo onde reside a tua discordância, moça, não foi precisamente isso que eu disse? Agora o acaso pode ser um milagre, sim, mas se for um acaso feliz. Porque nem sempre o é. Muito menos as coincidências.Pode sair um póker... ou nada. Beijinhos

Jade disse...

Ah, espera, já percebi. Achas que os acasos não são um encolher de ombros divino, mas um instrumento da sua glória. É um ponto de vista, sim. Eu acho que se assim for, Deus tem um sentido de humor bastante negro. Mas isso sou só eu a falar...

Shadow disse...

Exacto, é o mesmo humor negro de "Escrever certo por linhas tortas".

(Por falar em humor negro, afinal se somos feitos à semelhança Dele, tenho de sair a alguém lol!)

Mas parvoices minhas aparte... acho que temos sempre a hipotese jogar uma 2ª mão, e 3ª, e 4ª. A vida não nos expulsa do casino por bancarrota ou falta de cash.flow.

Atenção: Não me agrada a ideia que a vida dependa delas, mas atrai.me a beleza do pormenor de uma coincidencia...
Quando é uma das boas: Gosto do sorriso parvo com que fico.
Quando é uma das más: Acho que foi para esta situação que se deu a junção das palavras "Foda.se! Puta que pariu está merda!"

Agora vou deixar de disparatar, porque se continuo a divagar daqui a nada já subscrevo o teu texto... e então é que não percebes mesmo o que quis eu dizer afinal. :)

Jade disse...

Shadow... LOL!!! Ultimamente tenho usado muito Português Erudito, com essa conjugação de palavras e outras que vou inventando à pressão. Não há nada mais libertador que uma lista de palavrões...

Anónimo disse...

LooooL

O amor que existe cá em casa foi uma coincidência.
Foi uma aposta certa que podia não ter existido, dois jogadores apostaram no encontro que podia ter sido desencontro.
Os desencontros tambem são apostas válidas.
Um royal Flush ou um poker de Ases, são sequências quase imbativeis...Gosto de marcar 380(a dita piçalhada)

LoooL Beijinho

Jade disse...

LOOOL! Assim é que se fala. Queres levar uma malha?