sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Para a Joana

Minha princesa,

Sei que existes algures em mim, apesar de não te ver com os meus olhos escuros, iguais aos teus. Vejo-te com outros olhos, também meus, mais claros e brilhantes, atravessados pelas rugas de um eterno sorriso. Minha querida, és, foste, serás sempre muito desejada. Tão desejada que não ganharás corpo terrestre enquanto não te encontrar o pai que tu mereces, o teu pai, aquele que te reinventa por aí algures, como eu faço, te faz as tranças onde te pendura fitas cor-de-rosa, te adivinha o cheiro, te conta as sardas juntamente com as histórias de fadas, te canta canções enquanto dedilha uma velha viola, para que adormeças.
Filha, minha filha, não imaginas o orgulho que esta mãe tem quando te leva pela mão à escola e te vê entrar, de mochila às costas, a roer uma maçã. Olho para ti e vejo o meu caminho. Vejo as minhas marcas, vejo os meus sorrisos. As tuas lágrimas infantis são as minhas, as tuas gargalhadas ecoam as de toda a família de mulheres que temos ambas, atrás de nós. Amas versos, como a tua bisavó, adoras a lua, como a tua avó, e sonhas acordada, como a tua mãe nunca conseguiu evitar. Cantas com voz desafinada, como todas nós e, ainda assim, continuas a cantar sempre, baixinho e distraidamente.
Tens em ti o melhor de mim, pequenas peculiaridades de que te alimentei os genes no tempo de gestação que levaste a amadurecer. Anos e anos de gestação. Tens sorriso fácil, resposta pronta, humor inconstante, tendência à teimosia e à impaciência, à irritação e à ternura. Cheiras tudo antes de comer. Cheiras ainda muitas coisas que não comes, como livros novos, flores, o pescoço da tua mãe, a almofada e todos os perfumes que há na loja.
Minha querida, temos longas conversas e tu nunca cresces. Por isso és a minha vozinha mais sábia, mais pura, mais genuína. És aquela minha vozinha que sabe sempre de quem gosta e de quem não gosta, não sabendo responder ao meu porquê de outra forma que não seja, porque sim, mãe, porque sim.
Sonhei contigo uma vez há muitos anos. Acordei com um sorriso e escrevi-te numas páginas em branco que ainda guardo. Foste as palavras mais importantes, e foi assim que nasceste. Primeiro um sonho, depois o verbo. E desde aí tens sido criada e acarinhada por mim, alimentada e nutrida nas minhas alegrias, consolada pelos meus alívios. É em silêncio que te afago os cabelos, e te dou o mesmo beijo todas as noites, antes de adormecer. És minha muito antes de simplesmente ser.
Quando um dia leres esta carta, já a vais saber de cor. Até breve, minha vida.
Todo o amor do Mundo desta que é, desde um sempre maior que o teu, a tua
Mãe.

22 comentários:

Anónimo disse...

A Joana, é a filha que gostaria de ter????
Quando se é jovem. quer-se ter um filho, como eu quis também, com o homem que eu queria...
O tempo passou. Ele também passou.
Novos objectivos. Novas mudanças.
O filho não o tive.
Hoje, não me arrependo.
Arrependo-me de outras atitudes que tive para comigo e que jamais teria evitado.
Mas recuperei...anos depois.
Um beijinho.

Jade disse...

Não, não gostaria de ter, já tenho. Só ainda não a vi. Bjs

Shadow disse...

Caramba.

Anónimo disse...

I was there when she was born. I read all the lines of this beautiful child to be. I remember to feel her alive, owning a soul and an endlessly tender heart. I remember the powerful feeling she caused on me. I remember the tears that I did not cry, because embarassment is stupid but it exists on foolish men. I have no doubt. She exists. I was there when she was born.

You know who

Anónimo disse...

The child is YOU.
A kiss.
Maria

Anónimo disse...

You are the child...aren´t you???

Jade disse...

Que engraçado, quando escrevi este texto, há umas horas nunca pensei que ele viessse suscitar tantas polémicas e interpretações. Não anónimos, eu não sou a criança, sou a mãe. Por isso, ela tem muito de mim, sim. Por isso, tenho muito dela, sim.
Shadow, não sei como interpretar o teu comentário, mas foi com um sorriso que o recebi e publiquei.
You know who... thank you for your words. You are, in fact, one of the few people who really know Joana, and what I'm talking about.
Beijinhos a todos.

Anónimo disse...

Se isto não é escrever bem... então não sei o que será! Além disso, tens o condão de expressar de forma sublime os sentimentos...

Beijinho

Shadow disse...

O comentário veio na sequência do teu texto, em que não tinha qualquer palavra. Era aquilo (o texto) e ponto. Se tentasse comentar, interpretar... só ia conseguir roubar o sorriso com que o recebi.

=)

Jade disse...

Teia, obrigada. E igualmente, que o elogio é recíproco e os teus posts imperdíveis.
Shadow... já vi que partilhamos sorrisos, então. Eu também gostei muito de escrever este texto, que me saíu num só fôlego, vindo não sei bem de onde. Bjs

Anónimo disse...

O texto é belíssimo mas do que eu ainda gostei mais foi da tua resposta a um comentário:" Não, não gostaria de ter, já a tenho. Só ainda não a vi."

Lindo! E como te entendo querida Jade...

Bj da Gaja

Anónimo disse...

LooooL

Ainda sou Aprendiz de feiticeiro!

Pouco entendo ainda de feitiços, no entanto observo e sinto magia no ar...
vejo, magia branca, magia boa, magia sonhadora, magia fertil....
Viva o Sonho!

Anónimo disse...

Só me lembro de "O Banquete" de Platão, quando fala dos homens e da sua capacidade para engravidar de ideias. Tu só podes estar grávida desta ideia. Eu quero ser madrinha de batismo já sabes que não tenho qq religião, por isso tinhamos de imaginar algo diferente.
Agora, pode ser um livro, uma menina uma tese, ou apenas uma anja da guarda.
Eu sonhava assim...

Jade disse...

Entendes, não entendes, Gaja? Eu sei. Ser blogger tem-me mostrado que a vida é injusta nos encontros. Que passamos os dias rodeados de muita gente que nos diz muito pouco, e pouca gente que nos muito, quando nunca chegamos a conhecer muitas outras que nos seriam bem mais agradáveis e enriquecedoras...
Mirovski, aprendiz de feiticeiro? Não o somos todos nós?
Carolina... está combinado. Serás a madrinha da Joana, qualquer que seja a forma que ela assuma.
Bjs a todos

Rosário disse...

Uau! Muito bom!
Onde quer que esteja a Joana, só pode estar muito feliz!...
Um beijinho.

Anónimo disse...

As Joanas estão a levar os bons da nossa escola. Espero que, quando encontrares a tua Joana, não te vás embora também. Penso que há, algures, uma Joana à tua espera. Tens de a encontrar, pois tenho a certeza que passarias a ter, de ti mesma, uma opinião diferente, mais ajustada áquilo que és. Como disse outro dia, vale a pena não desistir de sonhar.
Vejo que há algumas músicas brasileiras que referes que eu também gosto muito (se soubesses como me dói ouvir "Pedaço de Mim", especialmente um verso...).
Mas lembra-te do Milton, (amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito).
Já pensaste em compilar alguns textos e editá-los?
Um beijo

Jade disse...

Dr House, se as músicas que escolhi são das tuas favoritas, tal não se deve a um simples acaso do destino. Estava a ouvir um determinado CD na altura em que cumpri o desafio. E a música de que falas dói-me especialmente. Dói-me muito. Se a ti te dói, acompanhado que andas na vida, imagina o que não diz às almas solitárias... e eu que dizia não apreciar Simone... mudei de ideias.
Bj

Jade disse...

Dr. House, uma adenda:
No outro dia, dizia de uma música do Eddie Vedder, que era um decalque do que eu sentia. Esta também é, o tal "Pedaço de mim". Podia ter escrito esta carta a alguém, não há tanto tempo quanto isso. E o verso que mais me dói, não sei se é o mesmo que o teu é "e eu não quero levar comigo, a mortalha do amor...adeus". O adeus que eu nunca disse. Sou incapaz de dizer adeus, só "até breve". Acho que é assim, inclusivamente, que um dia me vou despedir da vida, com um "até breve". Agora que é lindo termos em nós a convicção de que alguém é uma "metade amputada/exilada" de nós, é. Dói muito, muito, mas não deixa de ser bonito.
Bjs

Sol disse...

Jade, um dia a Joana ganha lugar nos teus braços! Um lugar tão doce como o que já tem no teu coração!

Ela chega um dia!

A vida é um desencontro até ao dia em que uma parte de nós ficar para sempre presa, num sorriso que é nosso não o sendo inteiramente. A vida é feitas de perdas até ao dia em que temos connosco um amor que ninguém pode roubar.

Eu sou só uma miudeca mas, às vezes, também sinto uma vontade maluca de ter uma Madalena ou um Simão nos meus braços!

Um beijinho
(Amei este texto!) =)

Jade disse...

Gracias, chica.
Besos

Brilhozinhos disse...

Brilhozinho Jade,

Tal como tu, também eu tenho uma Joana. Mas a minha já tem forma, já tem gostos e tem um cheirinho que nem que viva 100 anos vou esquecer. É um dos meus amores (a outra chama-se ritinha), a razão que encontro em quase tudo o que faço. A melhor coisa que me podia ter acontecido. Por ela abdicava de tudo. Até da vida, e com um sorriso no rosto. Tenho a certeza que valeria a pena.

Beijos brilhantes para ti

Jade disse...

Acredito, Brilhosinhos. Beijinhos para ti e as tuas lindas filhotas. Um hino ao amor, os filhos, só por existirem.