terça-feira, 11 de novembro de 2008

Momento de Pausa

Estou sentada na minha sala, no meu puff, no meu chão. Estou sentada a gozar o meu momento de pausa, aquele breve instante em que páro e digo, agora não. Agora não vês testes, agora não lês livros, agora não dormes para esquecer e desperdiçar mais um pouco da tua mortalidade. Agora páras e finges que o tempo pára contigo, agora apreendes a eternidade num momento efémero e finges que és Deus a observar os homens, a observar-te a ti. És Deus e tens as mãos em concha segurando um puff com uma menina lá sentada, de computador ao colo, coração cheio de sonhos não consubstancializados em desejos específicos. Ela sonha com a frágil força de vontade pouco séria com que vive. Ela sonha sem se atrever nunca a querer, ela sonha filosoficamente, sem racionalizar. Ela espera. Ela pensa sem raciocinar, pensa porque nunca ninguém a ensinou a não pensar, e ela só aprendeu o que lhe ensinaram, é uma nódoa em auto-didáctica. Ela pensa em árvores, em pássaros e em cores. Ela pensa em melodias e em poemas que leu um dia. Ela pensa em gente, em muita gente, em rostos, em sorrisos, em vozes antigas, em álbuns de fotografias a preto e branco. Ela pensa e espera pelo futuro, pela estrada que a puxa, olhando de soslaio a liberdade que continua a ter, tão contra sua vontade, de decidir tudo na sua existência sem ter que prestar contas a ninguém. Num momento de pausa passivo e inerte, ela está sentada sobre as mãos de um Deus que lhe sorri por lhe dar de presente uma vida que ela não sabe bem como usar.

12 comentários:

Anónimo disse...

Deus tem mais que fazer do que segurá-la em suas mãos. De resto não saberia o que fazer consigo. Mas é sempre bom invocar Deus e sentir a sua omnipresença em tudo o que mexe. "Deus criou o verbo" ou seja as palavras que tão sabiamente colocou na sua pausa. Há vezes em que as suas palavras têm o poder de levitar espíritos mais preguiçosos. Já agora, e porque Deus é meu amigo, vou pedir-lhe que afinal, a segure em suas mãos e lhe dê um avo de calma, sossego, ternura, carinho e muita fiesta se for caso disso.
I´m Gabriel your angel

Anónimo disse...

Não sei dizer o que sinto quando a leio.
Não sei se prefiro ler os seus momentos de raiva.
Não sei se prefiro ler os seus momentos de reflexão.
Só sei que Deus dá a todos uma cruz.Cada pessoa transporta-a conforme as forças e a fé que tem.
Desejo-lhe tudo de bom. Quando me deito, apesar de não rezar muito, penso nas minha amigas que têm câncro, penso em todas as pessoas que não conheço e sofrem imenso, penso na minha família,penso nos meus que sofreram e Deus encarregou-se de os levar, penso em si Jade...
Tente ser feliz.
Um beijinho.

Sol disse...

Acho que é mesmo essa a magia! O não saber... =)

(Tens um desafio no meu blog, assim para aligeirar o tom da coisa) =) *

Jade disse...

Gabriel, duas coisas: primeiro, o posto de "my angel Gabriel" já está tomado... terá que se decidir por outro anjo qualquer, se não for pedir muito; segundo, qualquer que seja o anjo, anjo que é anjo, trata-me por tu. É que eu sou tu-cá-tu-lá com todas as entidades superiores, até mesmo com esse Deus que tem mais que fazer do que me segurar nas suas mãos. Era uma metáfora, e eu acho que Deus, 1-não tem mãos; 2- jamais tem mais que fazer, porque é omnipresente e omnisciente e omni tudo o resto. Beijinhos, volte sempre.
Maria, obrigada, é um doce de pessoa.
Sol, às vezes não saber não tem graça nenhuma e é muito muito chatinho.
Beijinhos às duas

Anónimo disse...

Adorei este "momento de pausa"!
Era exactamente o que eu gostaria de fazer, mas vai ter de ser adiado por tempo indeterminado!

bjinho
Anaísa

Anónimo disse...

Estou sentada na minha sala, no meu puff, no meu chão. Estou sentada a gozar o meu momento de pausa, aquele breve instante em que páro e digo, agora não.
És Deus e tens as mãos em concha segurando um puff com uma menina lá sentada.
Ela sonha com a frágil força de vontade pouco séria com que vive.
Ela pensa em árvores, em pássaros e em cores. Ela pensa em melodias e em poemas que leu um dia. Ela pensa em gente, em muita gente, em rostos, em sorrisos, em vozes antigas, em álbuns de fotografias a preto e branco. Ela pensa e espera pelo futuro, pela estrada que a puxa, olhando de soslaio a liberdade que continua a ter, tão contra sua vontade, de decidir tudo na sua existência sem ter que prestar contas a ninguém. Num momento de pausa passivo e inerte, ela está sentada sobre as mãos de um Deus que lhe sorri por lhe dar de presente uma vida que ela não sabe bem como usar.


Assim gosto mais do texto. Gosto, quando não faz muitas referências a actividades profissionais e quando a linguagem se enche de simplicidade.
Assim é maravilhoso.


Ah, e achei um amor o outro, com a menina agarrada ao volante, a ver a vida a passar: como no terminal do aeroporto, da Maria Rita.

citylag

Anónimo disse...

o cometário do Gabriel é também muito bonito.


ingst

Jade disse...

citylag, welcome. Conseguiu transformar um bom texto num texto melhor. O outro texto, "o amor" de texto... não conheço a tal melodia de Maria Rita, mas conheço a menina que abraça o volante. Essa tem dias, mas em alguns deles é, de facto, um amor. ;-)
Beijinhos

Anónimo disse...

Today I´m Gabriel... o pensador. mas não aquele do 1,2,3,4,5,7,e 8 tá na hora de afogar o biscoito.
Jade três coisas: Uma, nunca quis tomar o posto de ninguém porque sabia não ter vaga; duas, as metáforas ainda são um recurso livre para qualquer um, mesmo para mim el Gabriel. Até faz eco. Três e agora é de vez, caramba eu só queria contribuir porque o momento de pausa estava delicioso e ainda sem comentários, por isso meti uma colherada se calhar demasiadamente banal e prevísivel. Procurarei guardá-la, a si, sem que disso se dê conta para que não rediga que lisboa está tomada aos mouros.
Para terminar, brincar é bom. brincar com as palavras é melhor ainda. Jade não castigue com tanta seriedade as palavras, coitadas. De quando em vez faça-as esvoaçar alegremente num voo picado e arriscado qual fernão capelo gaivota - El Pensador Gabriel

Jade disse...

Gabriel, o pensador... gostei, gostei muito. Gostei ainda mais deste segundo comentário que do primeiro, que estava bonito mas bastante provocatório. e eu, de quando em vez, gosto de responder a provocações.
Volte sempre, é um prazer. Mesmo quando castigo as palavras não deixo de gostar delas.
Beijinhos

Anónimo disse...

Ola sou El Gabriel. Desta vez o Marques. Não o pensador, o escritor Garcia Marques. E digo-lhe: "Nunca esqueci o seu olhar sombrio enquanto tomávamos o pequeno almoço: Porque me conheceu tão velho? A idade não é a que temos mas a que sentimos.
Desde então tive-a na minha memória com tal nitidez que fazia o que queria. Mudava-lhe a cor dos olhos conforme o meu estado de espírito: cor de água ao despertar, cor de calda de açucar quando ria, cor de fogo quando a contrariava. Vesti-a de acordo com a idade e a condição que convinham às minhas mudanças de humor. E outra vez, como sempre, ficámos na mesma desde há tantos anos"
GGM

Jade disse...

Este é, sem dúvida, o meu Gabriel favorito. Por muitos motivos que não vêm ao caso. E esta é uma das minhas obras favoritas. Mais uma vez por motivos que não vêm ao caso. Aliás, um deles, posso dizer qual é: tem um final feliz, e eu sou pouco adepta de finais, mas a haver, que sejam felizes.