terça-feira, 4 de novembro de 2008

Tears

Sinto-me feliz, hoje. Nem contente, nem alegre, feliz. Foi um dia pleno de emoções fortes e boas notícias. Foi um dia de partilha, de reforço, de vislumbres de amizade sólida, de gente a dar boas notícias, de acasos felizes e coincidências agradáveis.
Dias assim fazem-me repensar aquele momento amargo em que abro os olhos muito cedo, está um frio de rachar e eu penso, com um suspiro, será que tem mesmo, mesmo, que ser? Será que não é hoje o dia em que vou mandar tudo e todos pastar, e fazer a diferença, promover a quebra na rotina das coisas sempre iguais? E nunca é, nunca consigo arranjar a coragem, ou uma desculpa suficientemente boa, para mandar um dia de trabalho às urtigas em prol da minha sanidade mental e existência mais pacífica.
Tenho andado muito em baixo. Sábado foi dia de defuntos e eu não fui a Lisboa dar dois dedos de conversa junto à campa do meu avô. No próximo dia um faz anos que ele morreu, e este mês é sempre muito complicado para mim, as datas trazem recordações, saudades, sentimentos meio-adormecidos no lufa-lufa do resto do ano. É sazonal, há alturas do ano em que a falta dos que já partiram bate mais forte. Os meus Novembros são pouco doces, e os meus Dezembros, bem, no Natal é melhor nem falar. De modo que o tempo tem estado de chuva e a vontade de me levantar da cama não é grande, não.
Por isso, o dia de hoje, em que me levantei como sempre, mas me vou deitar muito diferente, foi um presente do destino a dizer que a monotonia não existe obrigatoriamente num dia que tem tudo planeado para ser igual aos outros. Que os bombons-rajás pequeninos e iguais, trazem recheios diferentes. E assim são as pessoas. Já lhes conhecemos a embalagem, mas às vezes sai-nos um sabor a morango onde esperávamos baunilha, e a surpresa agrada, ou não fosse o morango o nosso favorito.
Hoje fiquei feliz por dar uma oportunidade ao dia porque ele esteve à altura. Não trocava por nada cada minuto dele, não trocava por nada as palavras que disse e ouvi, as que não disse mas disseram os meus olhos e o meu sorriso, as que não me disseram mas ficaram claras nas entrelinhas. Não trocava por nada, mesmo nada, os dois ou três abraços que dei a uma amiga minha, nem as lágrimas nos olhos com que vim para casa. Lágrimas de saudades de um futuro já tão próximo, de um passado em comum, lágrimas de agradecimento por ainda me conseguir comover quando a minha vida não está para grandes emoções ou ternuras há tanto tempo.
É que eu choro muito, mas choro muito pouco por coisas que valham realmente a pena. E o meu avô, de quem sinto tanta falta, e as pessoas que me comovem porque as amo, como as que me cruzaram hoje o caminho, não são causa de lágrimas vãs. E se elas vêm, ao menos que não sejam vãs.

domingo, 2 de novembro de 2008

Admiro

Admiro pessoas calmas.
Admiro essa qualidade suprema que alguns têm de viver a vida sem se sobressaltar com os sobressaltos; aqueles que respiram fundo e contam até dez antes de deixar o que têm mais à mão sair boca fora; os que mantêm um sorriso quando tudo parece correr mal; os que reagem sempre da mesma forma ao infortúnio, com aceitação; os que, no segundo seguinte a tudo ruir, já estão a pensar em soluções.
Admiro pessoas criativas.
Admiro esses cujas mentes não param para pensar em insignificâncias, trivialidades e futilidades, cheios que andam de ideias, de paletas e pincéis, de objectivas e lentes, de canetas e papéis, de barro e plasticina, de cores e matizes, e sombras e luz, e personagens e versos, e peças de teatro e artesanato.
Admiro pessoas arrumadas.
Admiro essa gente organizada e eficaz, que sabe sempre onde está tudo e quando sai de casa deixa a cama feita e a loiça do pequeno-almoço lavada. Esses seres que têm as gavetas sempre impecáveis, os papéis sempre em ordem, as facturas sempre à mão e ordenadas, os livros e os cds em estantes direitinhos e organizados por autor, colecção, banda, tipo, ordem, género. Que não precisam de abrir todos os compartimentos da mala trezentas vezes para localizar a chave e mais duzentas para encontrar o isqueiro.
Admiro pessoas satisfeitas.
Aquelas para a qual a alegria é natural, para as quais a simplicidade é um modo de vida. Aquelas que nunca complicam, aquelas para as quais está sempre tudo bem, que não fazem questão de nada, que vivem desapaixonadamente, que não deixam os seus desejos tornar-se obsessões, que vêem a vida com a curiosidade de quem sabe que há sempre algo de bom em tudo. Aquelas que estão bem consigo próprias e acham as suas conquistas as melhores de todas e os seus fracassos insignificantes e “insignificativos”.
Admiro pessoas activas.
Aquelas cujo tempo dá sempre para tudo e ainda sobra, e andam sempre de um lado para o outro, nunca se queixam e parecem funcionar ao segundo, a toque de caixa, daqui para ali, não param e alcançam tudo aquilo a que se comprometem.
Quando crescer quero ser igual às pessoas que admiro.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Tiritando...

Não sei se é só na Cidade de Deus mas está um frio que não se aguenta. Eu já sou friorenta por natureza, o meu termostato avariou sem remédio juntamente com outros orgãos há anos atrás. Estou acostumada a andar tapada até às orelhas enquanto o resto do Mundo anda descapotável, se não ai, jesus, que se me pára a circulação, fico de dedos brancos e roxos, dores execráveis nas mãos e nos pés, na ponta do nariz e, às vezes, até na língua viperina, o que dá um certo jeito, que assim digo menos asneiras.
Bato os dentes de uma forma tão peculiar que houve até determinado senhor que me passou a chamar "cegonhazita", sem a metáfora maternal da dita, graças a Deus, numa associação livre que ainda hoje me faz rir, quando as oiço, às cegonhas, a tentar imitar D.Jade a bater o dente.
Não há modo de aquecer. Nem com cachecóis, nem com mantinhas, nem com chás, nem com mézinhas. O calor humano também não abunda, mas eis senão quando, de repente e sem aviso, dois raios de sol quentinho...
O primeiro, na voz sonante de um colega meu, a dizer uma frase que em mim acende logo a lareira do bem-estar: "temos que combinar uma patuscada, uma festa, para breve, quais são as tuas disponibilidades?", e eu, totais, ora essa, festa é o meu nome do meio! O segundo, com notícias de alguém que mora no meu antigamente, que reside no meu lugar assim dentro, de alguém que há muito faz parte de uma lista singular de gente presente embora perdida em espaços paralelos àqueles onde me movimento. Alguém que me acompanha em silêncio e que, quando bota enfim discurso, me surpreende pelo modo como parou num tempo partilhado a dois, cristalizou na altura em que gostou de mim, e assim se deixou ficar, cheio desse bom sentimento, enquanto o tempo seguiu em frente e a vida de ambos também.
É bom saber que não sou a única a gostar das pessoas com a mesma intensidade, estejam elas a meu lado ou seguindo trilhos diversos. É bom saber que alguns amores cristalizam, que algumas verdades não mudam, que há alguém coerente na sua forma de gostar. Que para alguém não passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, só porque sim. Ou quando o sol não brilha, e faz um frio de rachar, como hoje.
Há duas ou três pessoas, talvez uma dúzia, que vão estar sempre comigo de pedra e cal, por muitas mágoas que haja a empatar caminho. Há pessoas que vou amar sempre, por mais que pintem a manta. O que é, para mim, surpreendente, é que elas me dêem exactamente o mesmo grau de tolerância em troca. A isso não estou habituada. O quase incondicional, que tanto calor nos dá em dias frios, é o supremo milagre.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Why write?

I write therefore I am.
I don't remember existence without writing. I was not, before I started putting myself into words. Even when I did not know how to write words on paper yet, I already knew how to write them on my mind. And it was then I started living, when I started all the fiction inside.
I write therefore I am.
I write lies which become solemn truth. So, I write therefore I create who I am, inventing what I could be. I write therefore I build me up a character in a lead role of the most outstanding film without a sequel.
I write therefore I am.
I write therefore I am, and while I am, I love. So, I write therefore I love, and I don't remember existence without loving you. I love you, therefore I write. To you. For you. Even when I realise I don't really know who you are. I write and I don't know. Knowledge doesn't exist, because I write, therefore I am, therefore I love and I still don't know. I write to figure out. To figure it out. To figure you out. To make some sense of this outrageous violence which is this love of mine for some big question-mark of a face which is yours.
I write therefore I am.
Even if the words are drawn only in blood and skin, and soul and heart, I write them loudly in silence with my perfect lady-like handwriting. I write them proudly. I sing them like a hymn, a prayer, a whisper, a sigh.
I write therefore I am.
Even when all I publish are foolish things because the wiser ones are tatooed elsewhere.
I write therefore I am.
I write silently therefore I am.
I'm silent. Still, I am.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Je me passe de la car(t)ole...

Estou que nem posso. Estou de tal forma desorientada que nem palavrões me apetece dizer, deve ser inédito. No mesmo dia, chegam-me duas cartas a Lisboa, uma da Universidade Aberta, outra do Centro de Formação do Norte Alentejano. Uma a dizer que foi formado júri... só me faltava esta para me pressionar ainda mais com a cabra da dissertação que não ata nem desata, outra para me informar que fui aceite numa acção de formação em que me inscrevi e que, pelos vistos, vou fazer em finais de Novembro.
E pensei, mas quando, quando, minha Nossa Senhora da Asneira, é que eu vou ter tempo para fazer tudo isto? Hoje voltei a sair da escola já de noite. A cena vai repetir-se até ao expoente da loucura. O meu tempo desta semana já está ocupado com aulas extra e reuniões, para a semana a mesma treta, estou em época de correcção de testes, preparação de alunos para os ditos que ainda não dei, Estudos Acompanhados por minha conta, aulas de apoio à pinha... que palavrão é que se diz numa altura destas? Não conheço nenhum suficientemente forte, e acreditem que o meu léxico de Português Erudito é rico...
Pronto, não sei para onde me virar, mas para norte não é, que estou desnorteadinha de todo...
Só há uma solução. Vislumbro apenas uma saída. E ela chama-se Euromilhões, com direito a dez minutos de tempo de antena em horário nobre, - pode ser no noticiário da TVI, para dizer umas quantas à Sra Ministra, ao Sr Engenheiro e à sua tribo toda,- seguidos de táxi para o aeroporto e bilhete só de ida para as Bahamas. Sim, que Nova Iorque neste momento está fora de questão, que me faz lembrar o mestrado...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Apetece-me

Apetece-me que acabem estes dias em que me deito com a consciência do dever cumprido, em que vou para a cama depois de milhares de tarefas riscadas da minha lista do "a fazer". Apetece-me acabar com esta sensação de ter feito coisas úteis e de ter sido produtiva, que o trabalho é daqueles monstros famintos que come, come, come, enquanto as iguarias se reproduzem tipo rodízio, sem ter fim. É como o nosso lava-loiças: não passa dois cretinos minutos vazio, não percebo. E apetece-me acabar com isto.

Apetece-me ir para a cama inventar histórias na minha cabeça, fantasiar, encher o universo de boas energias, inventar o futuro risonho. A minha cama costuma ser espaço de produção intelectual e literária, entre os livros que leio e os que escrevo mentalmente. Costuma, não, costumava, que há semanas que me deito e passo a vida a ver obrigações a desfilar-me em frente dos olhos. Acendo a luz duas ou três vezes para escrever no bloco de post-its que tenho à cabeceira, o ridículo a que isto chegou...

E eu não sou nada assim, não sou prática nem pragmática, nem responsável nem workaholic, nem obcecada com essas coisas tão importantes para as pessoas ditas normais. Detesto urgências, detesto tarefas domésticas, detesto ter que ir ao banco ou à costureira, às finanças ou ao supermercado, ter que dispender o meu tempo a limpar o pó e a fazer o jantar, quando tudo o resto que não quero e tenho mesmo que fazer se multiplica consubstancializado num monte de papéis à espera de serem vistos e avaliados.

Apetece-me ler um livro sem ter que o analisar. Apetece-me ler poemas que não conheço, ouvir música nova, passar os olhos nas exposições que esperam por mim há séculos. Apetece-me ir ao cinema. Apetece-me ir ao teatro. Apetece-me ir beber copos a casa de amigos. Apetece-me ir dançar a uma discoteca, e sair de lá já de dia. Apetece-me ir jantar fora com um grupo de gente porreira. Apetece-me rir. Apetece-me dar um beijo enorme e um abraço forte. Apetece-me estar apaixonada e ser retribuída, e viver momentos de pura perfeição. Apetece-me não fazer absolutamente nada, ser inútil, uma árvore à beira de um rio com o sol espelhado. Apetece-me dormir em cadeirinha, acordar tarde e arrastar-me com uma mantinha e uma caneca de chocolate quente para a frente de um bom filme de DVD.

Por isso, e porque tudo isto me apetece tanto, vou ali já venho que tenho (mais) um teste para preparar... e não me apetece nada!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Máscara Veneziana

Aqui há uns tempos, uma colega minha falava-me deste blogue, da forma como às vezes gostaria de intervir, mas que havia, muito mais premente, "a porra das máscaras". Percebi perfeitamente o que ela me queria dizer. Curiosamente, no mesmo dia, um outro colega meu me dizia recear que, esta coisa do blogue, quando lido por conhecidos, tivesse o mesmíssimo efeito que tem quando são desconhecidos a ler, ou seja, transformar alguém de carne e osso, com quem se partilham problemas profissionais, conversas informais, e com quem vamos construindo um processo, se não de amizade, pelo menos de conhecimento mais ou menos superficial, transformar-me a mim, neste caso, numa personagem ficcional. Acrescentava, o que se desabafa na blogosfera tem um entendimento distinto consoante o receptor. E tem toda a razão. Daí a questão da exposição da vida privada. Creio que ninguém seja naïve o suficiente para pensar que publico inconfidências por este meio. Contudo, sim, dou a conhecer aspectos meus que colegas que me conhecem apenas da sala de professores nunca saberiam de outra forma. E que tal facto, inconsequente no caso dos leitores que nunca me viram, poderá ser causa de vulnerabilidades futuras no grupo restrito e pouco pacífico de que faço parte.
Encaro esse facto, que entendo e até aceito, com a maior das tranquilidades. (Agora imaginei-me com o corte de cabelo do Paulo Bento, vá-se lá saber porquê)
Estou tranquila porque, lá está, tudo o que aqui é escrito leva o carimbo de "cálculo de riscos". Até há vezes, confesso, que o realmente importante é calado. Não é arriscado, sequer, em meras entrelinhas. Há fases, pessoas, acontecimentos, momentos, medos, traumas e lembranças, muito importantes, fundamentais até para a compreensão de quem sou, que não têm lugar neste blogue, que são, consciente e deliberadamente, afastados daqui.
Desde sempre que empreendo uma luta enorme comigo mesma. Sou uma pequena selvagem exposta desde muito pequena, como todos nós, ao espartilho da sociabilização, das convenções, do pensamento dominante, do status quo. Mas rebelo-me constantemente contra ele, e cada vez mais. É uma luta diária entre o viver em sociedade e o viver em paz com a minha consciência.
E é aí que entram "as porras das máscaras". Não é que a máscara que trago não seja eu e sim uma fraca dissimulação de mim mesma. Não, sou eu. Simplesmente sou um eu à defesa. Alguém que sorri, diz disparates, faz trocadilhos indecentes e vira de pernas para o ar reuniões sérias, chatas e compridas como a espada do Afonso Henriques. Essa máscara Veneziana da Comédia é espelho do meu íntimo. Simplesmente esconde o outro lado, o lado lunar. Não aquele mal-disposto e zangado, revoltado e amargo. Esse transborda muitas vezes sem que eu o consiga dominar, não. Só que quem olha para este ser contraditório e irritante que eu mostro ser, julga-me uma pessoa que eu, de facto, não sou. Feliz, dizem os meus alunos; sem comentários. Ressabiada e irresponsável, infantil e inconsequente, dizem alguns adultos; no comments at all.
E depois, há surpresas. Há aquele sorriso que trago muitas vezes estampado no rosto para oferecer a alguns e, de repente, cai. E é disso que eu tenho medo, desse cair da máscara. De ser confrontada com a minha própria violência, com as dezenas de sorrisos que dou, porque ninguém tem culpa, ou alguns talvez até a tenham, quando só me apetece gritar, chorar, dizer o que trago entalado, perguntar, enfim "mas pensarás tu que eu me esqueci do que já fizeste? pensarás tu que este sorriso que te dou implica que não tenho em mim toda a dor por que já passei, toda a mágoa que ainda passo, toda a vontade que tenho de desaparecer daqui, de ir para um sítio qualquer que ainda não decidi? pensarás tu que o meu sorriso significa que nasci hoje e te estou a ver pela primeira vez?" Por isso, costumo dizer que me armo em parva. Que finjo ser muito mais parva do que aquilo que realmente sou, e que já não é pouco. Que detesto que as pessoas, por eu lhes sorrir, ou por gostar mesmo delas, mais do que seria esperado ou aceitável, achem que eu sou tipo peixinho, de memória imediata, e me façam ainda mais de parva, e se choquem quando, por nada, por me cair a máscara presa por arames, levam com o que de pior há em mim de repente em cima.
As máscaras servem para isso. A minha serve para dar um pouco de humanidade, dar maneiras, como diria a minha mãe, a quem tem muito mais de animal e irracional, de instintivo e de politicamente incorrecto, com a consciência, essa sim, muito clara, de que as nossos traços profundos não são para descarregar em cima do resto do Mundo. Mesmo quando este nos provoca a isso. Só, que às vezes, acontece. E quando acontece, há uma parte de mim que não se arrepende. E outra parte, pequena mas importante, confesso, que até aplaude.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dias Bons

Há dias bons. Continua sempre a haver dias bons. Noites em que a sorte muda inesperadamente, como a de ontem, em que começas por estar derreada de trabalho, e comentas com a tua companheira de casa que agora é que é, está na altura de ires fazer um TAC para ver se o Tico ou o Teco, ou ambos, emigraram de repente e sem aviso, ou estão presos numa bolha de sabão, porque te esqueces de tudo o que é importante, escreves absurdos no quadro e os teus alunos olham para ti com um misto de diversão e paternalismo, enquanto perguntam, a gozar-te, "WHATI?" e tu respondes "Forget about it...", e eles, ó professora, e tratar-se, não?, e eu, pois, se calhar é melhor... umas vitaminazinhas contra as chatices e o mau humor, não há?
E ontem estava assim, de rastos, exausta, com uma neura de meter medo ao susto. E foi então que a sorte virou. A Mzinha fez jantar para duas, e eu respirei de alívio: vocês imaginam o que é não termos vontade nem para dizer o nome, quanto mais para ir fazer amizade com o fogão ou um pacote de congelados... Depois disso, as chatices ainda continuavam: estava a desesperar com uma treta de um teste que tive de reformular à pressão, (hoje havia simulacro à mesma hora do dito teste e tanto eu como os miúdos démos por ela tarde demais, e lá andou sôdôna Jade a cortar perguntas para encaixar o Rossio na betesga...), e a impressora resolve ter um amoque! Chiça, mas esta casa só tem gajas de personalidade dura e difícil, incluindo a parva da impressora? A chilicar quando mais precisamos dela? Ai, a cumbersa... Passei-me logo da cartola: Ouve lá minha... (seguem-se palavrões de fazer corar as pedras da calçada) quem é que manda aqui? E a cabra, impassível, mando eu. E ganha-me sempre, cacete das modernices, saltas já borda fora que é um mimo! Quando pondero escrever o teste todo à mão, tenho uma letra tão bonita, Mzinha carrega em dois ou três botões e mostra, sem palavrões e sempre com o mesmo sorriso-zen, que quem manda aqui é ela. Valha-nos isso... Depois da altercação com a parvalhona da máquina, e já de teste nas mãos, ofereci à não-sei-quantas-HP um sorriso vitorioso e comecei a pensar, isto até está a correr bem. Isto está, de facto, a começar a correr mesmo muito bem!
Depois fui ver o horário e... hoje saía às dez, só entrava à tarde e não tinha lições suplementares marcadas, pela primeira vez este ano! Eh, lá... corrijo, isto está a correr melhor que a encomenda! Amanhã vou pôr finalmente a vida em dia, até vai dar para ir ao banco! I-na-cre-di-tá-vel, nem que seja só por hoje, a sorte mudou! (Sim, eu sou uma fulaninha muito dada aos sinais do Universo...)
Entretanto fui ao telemóvel para programar o despertador e tinha um "gudenaite kiss" via sms. Está visto, sou uma felizarda, o que eu gosto de beijos, beijinhos e beijocas não vem nos livros. Só não bebi, para comemorar, uns valentes copos do licor que a mãe da Mzinha mandou porque... enfim, mal ou bem entrávamos as duas às oito da matina.
Hoje, às dez, depois do teste dado e do simulacro feito, estava de saída da escola e alguém diz... vem comigo às compras. Compras? Roupa? Trapinhos? 'Bora lá!!! E fomos. E revolucionámos a loja. E experimentámos tudo o que nos deu na veneta. E rimo-nos. E trouxémos roupa nova. E rimo-nos mais. E ainda fui ao banco. E ainda recebi de presente uma almofada enooooorme da Hello Kitty, de surpresa, tipo, olha, vi isto e lembrei-me de ti... que cunteinte! Até bati palminhas!
Entrei na escola, muito bem-disposta, à tarde, e havia um colega com um CD gravado para mim. Olá, o Natal chegou em Outubro? Ele há dias...
E depois, a minha querida Vzinha, com quem já não falava há tanto tempo, manda-me uma sms toda contente, e voltei a rir-me descontroladamente com ela ao telefone. Santo Deus, não há nada que faça melhor que o riso entre amigas que estão genuinamente de bem com a vida, depois de uns dias de fugir. E hoje, para além de muitos presentes, houve muito riso. Gosto disso. Gosto de boa onda, gosto de sentido de humor. E adoro presentes e beijinhos. Há quem lhes chame sinais. Eu acredito em dias-sim. E este meu dia-sim foi cheio de tudo o que eu prezo como importante, mais os bónus das surpresas que me fizeram e que pareciam combinadas, tipo para o meu aniversário ou assim.
Et voilà! Ainda há dias bons. Basta um para compensar semanas de twilight zone, de chatices, gripes, insónias, esquizofrenias e trabalho que se multiplica como os coelhos. Assim sim. Venham mais semanas de fugir para, um dia de repente, chegarem, como diz a Grey, Mcfriends, Mclaughs, Mcgifts and Mckisses.

domingo, 19 de outubro de 2008

Boa Educação

Este é um assunto que me é muito caro. Tanto que até decidi, ainda muito nova, integrar as fileiras do Ministério da dita Educação. Como subalterna de terceira categoria, mas isso ainda não sabia quando tinha seis anos e dizia "quando crescer quero ser Professora de Português" e o meu avô cientista suspirava e abanava a cabeça em desaprovação.
Lá levei a minha em frente, numa idade já boa para ter juízo, mas pronto, tudo em favor da dita educação.
E agora, depois de um fim-de-semana a que não vou tecer comentários, chego à conclusão que isto da educação tem muito mais que se lhe diga que a instrução de crianças e adolescentes. Passei a sexta à noite à conversa com um amigo meu, também professor, e dizia-lhe que a minha mania para inventar trocadilhos ordinários anda em alta. Que cada vez me saem mais palavrões boca fora. Que sou, de facto, progressivamente mais mal-criada a cada dia que passa. E que me sento em cima das mesas, parece que é crime, entre gente bem nascida. E perdi o respeito que me ensinaram a ter às pessoas mais velhas. E viro costas e bato portas, o que também é coisa de gente possidónia e mal-formada. E não faço sorrisinhos e contumélias a pessoas que estão muito bem cotadas na escala do lambe-botismo.
A minha mãe ensinou-me a ser uma senhora. A distinguir todos os tipos de talheres e copos. A sorrir e cumprimentar toda a gente. A tratar os mais velhos com a maior delicadeza possível. A responder gentilmente a todos os superiores hierárquicos. A jamais desrespeitar os meus professores. A nunca falar alto. A nunca bater em ninguém. A nunca fazer queixinhas. A minha mãe ensinou-me a ajudar sempre os meus colegas, a nunca os ridicularizar nas suas falhas e erros, a nunca passar por cima de ninguém para atingir os meus objectivos e a sair do meu percurso, por muito que me custasse, para dar uma mão amiga a quem dela precisasse.
A minha mãe, vejo agora, educou-me muito mal. Educou-me para ser uma perdedora e levar no focinho até ser velhinha. Ensinou-me, através do seu próprio exemplo, o altruísmo, e essa sim, é uma qualidade de gente pobre e pouco instruída, que não leva ninguém a lado nenhum, e vale, apenas e no final, aquela medalha de cortiça que, escarninhamente, me andam sempre a prometer.
Há coisas que se aprendem em tenra idade e que jamais se esquecem, feliz ou infelizmente. Esta minha mania irritante de me desdobrar para dar uma mãozinha a quem precisa, sem que ninguém me peça, faz parte de mim, e eu detesto-a. Detesto-a porque me prejudica, porque me empata a vida, e porque me faz sentir imensamente idiota, uma alien nos dias de hoje, e muitas vezes acaba por se virar completamente contra mim. O que a minha mãe me devia ter dito é que, antes de dar uma mão aos outros, devo usar as duas para fazer algo por mim.
Por isso, quando as pessoas que me chamam mal-educada, porque estou sentada em cima de uma mesa ou me sai um palavrão daqueles cabeludos boca fora, concordo. Porque fui de facto muito mal educada. Se tivesse sido bem educada, era com certeza, uma pessoa de muito sucesso. Como há tantas por aí, que se sentam, sempre e só, nas cadeiras e jamais dizem um palavrão. Da mesma forma que não sabem o que é ajudar alguém quando se tem mil e uma coisas privadas por fazer. Da mesma forma que jamais saberão o que é cumprir um objectivo sem ser à custa de, ou passando por cima de, toda a gente que seja preciso.
Fui muito mal-educada. Por isso digo palavrões feios, de cada vez que o resto do mundo me choca com a sua boa-educação.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Moderação de Comentários

Ando para falar disto desde a altura em que resolvi moderar os comentários deste blogue. Hoje a Gaja escreveu um post no blogue dela sobre a moderação de comentários, dentro da rubrica "Coisas parvas com que Embirro". Recomendo a sua leitura atenta e só tenho pena de não saber incluir os links dos meus blogues favoritos nesta página. Vão lá ler. A morada é diáriodeumagaja.blogs.sapo.pt O que ela diz, eu subscrevo. Fala de censura e de liberdade de expressão. Concordo plenamente. Leiam também os comentários que lhe deixaram ao dito post.
Desde que moderei os comentários, há menos gente a comentar, talvez pelas razões apresentadas pela Susana, talvez porque não tem a mesma piada ficar à espera de ver os nossos textinhos publicados. Os meus amigos mandam piadas, os meus colegas perguntam porquê, toda a gente quer saber, o que é válido.
Não sou uma censora pidesca, nem uso lapinhos encarnado. Publico tudo, bom ou mau, anónimo ou identificado. Tenho comentários menos elogiosos publicados, e continuo a achar que a diferença de opiniões é saudável.
Moderei os comentários porque há um idiota de um anónimo, que de anónimo não tem nada, que não se conforma que eu tenha cortado todos os canais de comunicação que nos ligam. É uma pessoa que não vou perder tempo a descrever, mas que gosta de ser desagradável gratuitamente, fruto de muito ressabiamento que, temos pena, mas não estamos para aturar. Há muito que não respondo a nada que venha dali, que apago mails sem ler, que me estou perfeitamente nas tintas para a existência de tal espécime no mesmo mundo que eu. Não quero conversas, pronto. Ora como não há muito que se possa fazer quando alguém nos ignora completamente, chateia-se, de forma mesquinha, gratuita e pública. À espera de uma resposta, que como todos podem ver, dou sempre a quem tem a paciência de ler e comentar os meus textos, de forma positiva ou negativa.
E há coisas que não merecem estar publicadas em lado nenhum, desculpem lá. Nem eu tenho que levar até ser velhinha com gente doente dos neurónios. Detesto aquilo a que os amaricanos chamam "stalkers" (nem sei se é assim que se escreve, mas basicamente são pessoas que impõem a sua presença a quem as quer ver pelas costas).
Logo, modero. Sou uma moderadora, não uma censora, ok? Peço desculpa pelos danos colaterais.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Lua Cheia

Hoje é noite de Lua Cheia, ou assim parece, ou parecia, à saída da escola. Sim, quando de lá saí, já a lua ia alta, redonda, enorme. Sem paciência para ir ao supermercado, passei pelas bombas de gasolina, para comprar tabaco. Eu sei, é triste, mas depois das oito da noite e tendo entrado na escola para dar aulas às oito da manhã, a fome de cigarros é maior que a do jantar.
Fiquei, como sempre, embasbacada a olhar para a lua. É mais forte que eu, adoro o satelitezito. Branco, ali pendurado, a dar ideia que sorri permanentemente. Encostei-me ao carro (agora que choveu, não está assim tão nojento) e fumei um cigarro, à porta de casa, a curtir o panorama.
Foi um dia sui generis, mas deu para acalmar e assentar ideias. As conversas com os colegas andaram muito à volta do que se passou ontem, e é bom saber que não estou sozinha, nem na injustiça, nem na consequente revolta. Só na peixeirada, que acho que fui a única a perder as estribeiras, mas convenhamos, não me sinto envergonhada por isso. Lá está, cada um que dê largas ao seu temperamento, quando se trata de dar um coice. Os meus são ruidosos. Sou assim. Tenho aprendido a aceitar-me como sou, aos poucos, e hoje senti-me muito bem comigo mesma.
Troquei a sala de professores pela minha própria sala, em horas de furo. E fez-me um bem enorme estar em casa, a gozar o meu direito de não fazer ponta de chavelho que não seja em proveito próprio e pessoal.
Chego à conclusão que ouço muita coisa parva, incoerente e excessiva ao longo dos meus dias. Que testemunho muita injustiça e muito abuso calada. Que anda toda a gente a toque de caixa de um ministério que se passou da cabeça. Que todos protestam, mas vão cumprindo as directivas, mesmo as mais ridículas. E eu também. Sou igual aos demais, que remédio.
Por isso hoje comecei a fazer a minha parte. A fazer contas às horas. Obrigam-me a acompanhar uma visita de estudo na sexta à tarde, porque não há tardes livres. Deve ser este um daqueles empregos confortáveis para as chefias em que, como temos menos de trinta e cinco horas marcadas na mancha horária, tudo cabe nas que não estão marcadas e não podem ser controladas. Mas uma coisa vos digo: entre reuniões, trocas de aulas com colegas que andam em formação forçada (e ainda assim têm que repôr aulas!) e cinco conselhos de turma a uma hora cada um, as horas de sexta à tarde são, pasme-se... extraordinárias. Mesmo que não faça NADINHA fora do horário, ou seja, se as aulas se prepararem a si mesmas e os trabalhos dos alunos ficarem para ver... na próxima semana. Não é fantástico?
Por isso acho que as pessoas de direito devem ter tento na língua quando, de forma arrogante, dizem ao comum dos mortais que têm pedir autorização para faltar a convocatórias descabidas. Devem morder a língua quando dizem que, para faltar a uma reunião, devem pedir uma autorização com cinco dias úteis de antecedência, quando as convocatórias são feitas 48h antes das ditas reuniões. Teremos agora, além de outros dons, o da adivinhação? As pessoas têm que parar para pensar antes de dizer e impor baboseiras. Porque estão em lugares de responsabilidade. E habilitam-se a grandes, grandes broncas. Até quando têm as costas quentes de um ministério autoritário e de cabeça perdida. Porque nem sempre o ministério sabe o que diz. E por vezes, o comum dos mortais ganha força na ira e vai para a frente com medidas de reacção, essas sim, que podem, de parte a parte, causar danos colaterais graves.
Às vezes nem é o que se diz. É a forma como se diz. E contra mim (mas não só) falo.
Feitas as contas, benditos sete minutos, os que se leva a olhar para a lua enquanto se fuma um cigarro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

T de Tansa

Lembram-se de vos ter dito que recusei um amável convite para passar a minha sexta-feira à tarde "livre"a acompanhar uma visita de estudo? O que acontece quando se recusa aquilo que parece ser um convite? Eu digo-vos. Quando se recusa um convite, recebe-se uma convocatória. Não é agradável? Não é o cúmulo do respeito, o cúmulo da ética profissional? Eu acho que sim.
E depois, perde-se a calma e a razão. Grita-se, diz-se as últimas, que ninguém é de ferro e eu não tenho sangue de nabo. É preciso descaramento... os mesmos que pedem favores para ontem, sabem lavar as mãos quando se trata de fazer o que é preciso. E porquê? Porque se trata da tansa da Jade, que ladra mas não morde, e acaba por desenrascar o pessoal, sempre. A mesma tansa que passa os dias na escola dentro e fora do seu horário, que ajuda todos os directores de turma, independentemente das questíunculas pessoais e profissionais que existem naquele antro em que os dois domínios se confundem de tal forma que ninguém sabe muito bem de onde vêm os ódios. A mesma que diz sim a tudo e, claro, não é levada a sério quando, uma vez, uma, diz que não.
E a Jade gritou. A Jade disse, a quem a quisesse ouvir, que não ia, que queria saber o que era preciso para justificar a falta. Um dia de férias? Dois? Resposta: precisas de autorização para faltar. Pasme-se. Preciso de autorização para faltar, dos mesmos que me convocaram, depois de terem levado uma nega ao "convite". Tem graça...
A minha primeira reacção foi, em ano de avaliação e tudo, espetar-lhes com um atestado médico. O mesmo que podia ter posto com muita razão já várias vezes, o mesmo que justificava até, e há muitos anos, a minha presença em Lisboa, ao pé de um médico assistente, em função de uma doença degenerativa que não é brinquedo. Espetar com o atestado médico que o meu médico anda sempre a insistir que eu meta, para fazer todos os exames anuais que não faço, para cumprir todos os tratamentos que devo, e não cumpro, por todos os motivos e mais alguns. E, juro-vos, foi por um bocadinho assim, tipo danoninho, que não liguei para Lisboa e disse, é já a partir de amanhã e por tempo indeterminado, senhor doutor.
E porque não o fiz? Porque, simplesmente, acho que, apesar de me estar completamente nas tintas para a avaliação e a ética profissional, e tendo perdido há muito o respeito pelo ministério e pelo sistema, as minhas aulas, os meus alunos e o meu Inglês ninguém me tira.
Mas o T de Tansa, esse, raspou-se. A partir de hoje, e não é de sexta, é de hoje, querem favores, convoquem-me. Souberam fazê-lo agora, então hão-de fazê-lo sempre. Não mexo uma palhinha fora do meu horário de trabalho, e estando na escola, sou muito menina para me recusar a fazer o que quer que surja, e até a levantar-me e sair da sala, do edifício, da cidade, para não dar um dedo que seja a mais do que aquilo que sou obrigada. E sexta-feira lá estarei, que não há tardes livres, embora eu seja a única convocada nessas circunstâncias, tem a sua graça. Tem, sim senhor. Estou farta de rir. Diz que quem ri por último, ri melhor.

domingo, 12 de outubro de 2008

Meu Lado Esquerdo

E já que estamos numa de revivalismos e dor de cotovelo, e afins, aqui está o ponto alto da minha relação de amor (falhada, bem sei, mas na altura não sabia e achava que o Carlos Tê me conhecia e tinha escrito isto de propósito a pensar em mim...)

O meu lado esquerdo
é mais forte do que o outro
é o lado da intuição
É o lado onde mora o coração

O meu lado esquerdo
Oriente do meu instinto
É o lado que me guia no escuro
É o lado com que eu choro e com que eu sinto

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

O meu lado esquerdo
não sabe o que é a razão
É ele que me faz sonhar
É ele que tantas vezes diz não

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

(E agora, às vezes penso: e mais valia que de facto não tivesses existido para mim, no Mundo. Mas isso sou eu agora a falar, do alto do meu ressabiamento. E é assim que se encerra a onda revivalista, que eu não aguento muito tempo a pensar no que já foi. Muito tempo de cada vez, pelo menos.)

sábado, 11 de outubro de 2008

Es el amor…

Ao som de corazon partío pela voz da Maria João, as minhas lembranças chegam em catadupa. Dizia hoje a uma amiga, e a propósito, mais uma vez, de um post da Susana no blogue dela, que onde há uma gaja nos trintas e sozinha, há intermináveis conversas sobre esse tópico inesgotável que é o amor. Essa incógnita suprema, esse mistério indecifrável. Sobre se existe, se é sempre ilusório, se é continuamente efémero, se existirá, de facto, em permanência para alguns e se, a existir, será de facto amor ou tomará outras formas. Parece que estou a ver o Pan, de sorriso amarelo, a contar que fica para morrer quando alguém diz, sobre um qualquer casal junto há muito tempo “são muito amigos”. Se o amor degenerará, ou melhorará, ao transformar-se em amizade, ou se haverá, de facto, gente unida há muitos anos por um amor que se cola mais à paixão que à amizade.
Há estudos científicos sobre o caso. Eu não sou grande exemplo ou grande sumidade, quando se trata de dissertar sobre o amor. A relação mais próxima disso que tive acabou por não se transformar em amizade. Talvez até tenha começado por aí, mas acho que de facto nunca o foi. A amizade é um sentimento generoso e desinteressado que não se compadece com a existência de desejo físico, de posse emocional, de sintonia ou osmose perfeita de almas. E o amor é tudo isso. Quem diz que o amor é desinteressado, provavelmente não sabe o que diz. O amor é exigente e obsessivo, embora tenha que ser simultaneamente generoso o suficiente para se compadecer das necessidades do outro. O amor põe o outro num plano acima do nosso, o que não faz mal, porque o outro faz o mesmo connosco.
O amor traduz-se em atitudes que, muitas vezes, passam-nos de estranhas a naturais. Aquilo que fiz, enamorada, parece-me agora excessivo e absurdo. Pequenas delicadezas e grandes demonstrações, todas são agora metidas no saco do inconcebível. Estaria eu louca? Não, muito melhor, estava apaixonada. E, ao contrário do que se assume por aí, essa paixão durou bem mais que a meia-dúzia de meses que referem os cientistas. Evoluiu para algo mais calmo, sim, mas não para aquela calma acomodada que mata o desejo e culmina na amizade pura e simples, nada disso. O maior cansaço, que chega quando uma relação acaba, advém do facto do amor nos mudar os valores, as crenças e a essência, transformando-nos em pessoas altruístas, que vivem para agradar os outros, sem que isso seja voluntário ou consciente. Pelo menos comigo, assim foi sempre.
Eu, que gosto de acordar tarde, acordava cedo e cheia de energia. Eu, que gosto de estar sossegada e de que ninguém me chateie, andava sempre de um lado para outro, de uma casa para outra, carregada de sacos com roupa e livros. Eu, que detesto que mandem em mim, andava a toque de caixa, agora vais ao supermercado, depois carregas-me o telemóvel, levas-me o lixo em caminho, sim? E lá andava eu, toda contente, a percorrer a feira do livro para trás e para a frente, à procura de um livro que nunca iria ler, mas de que alguém precisava. Enfim. O amor tem uma linguagem muito própria, e não deve haver silêncio mais opressor que a ausência desta linguagem numa vida.
Isto tudo por causa da Maria João e do bendito CD da sorte. Sabem o que é uma sorte? É estar sem dinheiro no telemóvel e o Multibanco ter colapsado. Porque já me apeteceu, confesso, muitas vezes hoje, mandar uma mensagem ao meu amor perdido. Só para recordar os tempos em que mandava essas mensagens de forma natural e elas tinham respostas igualmente naturais. Só para reviver outros Sábados, em que a escolha do jantar era a meias, e as conversas eram fáceis, fluentes e se arrastavam até de madrugada, ao ritmo dos dados do póker ou de um qualquer CD a tocar baixinho numa sala, tão parecida com esta, mas a anos-luz de distância.
tendré que ocultárme ou huir. (Borges)

Superstições

Uma mulher culta e inteligente como eu devia ser imune a superstições. Acontece que sou do mais supersticiosa que existe, o que desafia, por um lado, a minha inteligência e a minha intelectualidade acima da média (hoje deu-me para aqui, para o auto-elogio e a arrogância) e, por outro, me insere naquele grupinho deprimente das pessoas da new-age, com explicações metafísicas para todos os acasos que lhes acontecem. A teimosia de tentar dar um sentido ou descobrir uma qualquer lógica nas circunstâncias e nas contingências é, como a maior parte das teimosias, irracional e inútil.
E, no entanto, as minhas superstições são individuais. Passam-me ao lado as histórias de embalar que metem gatos pretos, dias treze, noites de lua-cheia, escadas e trevos de quatro-folhas. São coisas íntimas, que nada têm a ver com figas ou com pés direitos a entrar em salas de exame. Por exemplo, tenho a mania perversa e idiota de que os dias se sucedem, invariavelmente, em dias-sim e dias-não. Há anos que conto os dias assim, e é ridícula a forma como a cena bate certo umas oitenta por cento das vezes. Hoje, por exemplo, era suposto ser dia-sim. E foi dia-não.
Fui uma das vítimas do colapso do Multibanco. Já estava com tudo na passadeira rolante do Modelo, para pagar e "Avisam-se os estimados clientes de que por motivos alheios à nossa vontade o serviço multibanco não está disponível para pagamento das compras". Uma hora e meia de tempo perdido entre prateleiras e filas de espera. O dia-sim passou de imediato a dia-não. E, posto isto, há que tomar as medidas de prevenção possíveis, que incluem sair o mínimo possível de casa, pegar o mínimo possível no JadeMobile, verificar trezentas vezes se tenho a chave de casa quando fecho a porta atrás de mim, não empreender nada de importante, salvar quinhentas vezes os ficheiros em que estou a trabalhar, minimizar efeitos colaterais.
Depois, já em casa e de volta da dissertação, lembrei-me de um CD que ouvi uma vez numa viagem para Lisboa. Numa noite em que se operou um milagre, daqueles milagres da vida, que agora não vem ao caso. É claro que eu, sensível como sou a estes sinais, investi logo o tal CD de poder cósmico, de amuleto, de boa-onda. Ridículo, não acham? Eu acho... e, no entanto, mal me lembrei disso, fui desencantar o dito objecto, que está neste momento a tocar ininterruptamente aqui na sala vazia. Maria João e Mário Laginha, os mensageiros da boa nova. Não que espere por um milagre hoje, decididamente, não. Mas para afastar as más energias que transformaram o meu dia-sim num dia de fugir. Até porque uma falha no sistema não o altera, e amanhã, pela lógica ilógica da superstição, é dia-não.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Jantar de Convívio

Eu sei. Eu sei que por mais chata, mal-disposta, irritante, sarcástica e má-onda que seja, o meu nome do meio é "vamos!". Sou sempre a primeira a alinhar em farras, ai não, com a vida social que levo, a cena não está para recusas a convites. Tirando, claro, aqueles que passam por fazer fretes de morte, aquele tipo de farras que para mim não são farras mas brutas maçadas, para isso não contem comigo, tipo, uma colega para mim esta semana, tens a tarde livre na sexta? Queria fazer-te um convite... e eu, fixe, o quê? ai, e tal, era para acompanhares a minha turma a uma visita de estudo a tal parte... a tal parte estive eu quase para a mandar: convites para trabalhar na minha tarde livre, embrulhados em papel de presente? Mas eu tenho cara de tansa? tenho, a cara... mas, ainda assim, recusei, quase amavelmente.
E agora "diz que" há um jantar de convívio. O tradicional jantar de início de ano, recepção a novos colegas, é da praxe. Não me inscrevi, pela primeira vez em muitos anos. E pronto, foi logo, então, que se passa, o que aconteceu, o que vai mal, com quem andas chateada, amuaste? Eu explico. Ando chateada com o bacalhau e os coentros. Desde que nasci. O jantar de amanhã não vai para barato e eu não vou gastar esse dinheiro para "levar marmita" ou passsar uma fomeca de morte. E é só isso, canudo. Sem mais delongas, entrelinhas, desculpas esfarrapadas e afins. Sim, devo ser a única portuguesa que odeia bacalhau. E quê? Não gosto do raio do bicho, e já passei muita vergonha por isso, especialmente em casamentos... mas em casamentos há prato de carne. Todos os meus amigos sabem disso. Quando, a 5 minutos do jantar, apareço em casa da Susi -tantas, tantas vezes, com ar de esfomeada e aspecto de indigente- ela diz-me, fica, ou então, estás com azar, pá, hoje é bacalhau... queres ovos com salsichas? Nos Natais lá em casa, antigamente, nos tempos em que o meu avô era vivo e as tradições eram para cumprir, independentemente das esquisitices da criançada, havia sempre pescada cozida "para a Nini". Verdade. Porque não é um capricho do paladar, é mesmo um ódio atroz, entranhado na carne sob a forma de intolerância total. Até o cheiro me faz impressão. Até a canção do bacalhau desse grande músico que dá pelo nome de Quim Barreiros me provoca náuseas. Não gosto, pronto. E, logo por azar, também não simpatizo muito com coentros. Até os tolero num belo arrozinho de peixe ou marisco, não sou daquelas pessoas que dão cabo da paciência a um santo enquanto, com um garfo, separam as ervilhas do arroz, neste caso os coentros do resto, não. Como-os caladinha e cara alegre, siga. Agora creme de coentros... isso é demais para mim. E, nesse caso, olha, hélàs, não há convívio para ninguém.
Mas pronto. Queria explicar que só estou zangada com o peixe e as ervas, mesmo. Nothing personal. Just in case.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Oração da Manhã

A Mzinha mandou-me agora mesmo esta oração para o mail. Foi um mail que fez um percurso de cerca de dois metros, do computador dela para o meu, da mesa onde está sentada para o puff de que me apodero sempre. Ela acredita em Deus, eu... tem dias. Ela disse que tinha que a ler já, e que era muito boa para mim. Eu... não percebi. Mas que é mais útil que muitos "Pai-Nosso", lá isso... e é curtinha, memoriza-se rapidamente:

"Senhor, dai-me sabedoria para suportar alguns colegas, porque, se me dais força... parto-lhes a cara!"