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sábado, 17 de janeiro de 2009

Hoje (parte 3) O Regresso do Rei

Para concluir, o assunto e a trilogia, que não será transformada em filme mas é, isso sim, causa de milhares de filmes todos os dias, vou então dar a minha opinião sobre o que deveria ser uma avaliação de professores mais justa. Reitero que este texto não é para ser levado muito a sério. Um modelo de avaliação coerente e eficaz é, certamente, dos documentos mais difíceis de construir. Quem o elaborar tem que pesquisar muito, tem que estudar a fundo a realidade do nosso país (isto de se querer espetar um modelo que é eficaz na Finlândia, ou nos EUA, ipsis verbis, no nosso cantinho à beira-mar plantado, é uma cretinice tão evidente que eu pergunto-me que tipo de iluminados pensa que isto é possível), tem que ter acesso à opinião dos soldados rasos sobre o assunto, tem que gerir interesses, tem que respeitar verbas disponíveis, tem que fazer listas de prioridades e objectivos. Este texto não se arroga essa intenção. Mais, lança mesmo essa questão: quem acredita que o modelo de avaliação que nos querem impingir foi fruto de um trabalho sério e demorado, ponha a mão no ar! Não foi. Foi o resultado de uma reunião em que o Sr. Primeiro-Ministro deve ter dito qualquer coisa como: há que apertar o cinto. Arranjem-me um conjunto de medidas em que o país possa poupar muito dinheiro, mas dando a ideia de que somos um governo preocupado com as grandes questões da Educação. Arranjem-me um conjunto de medidas para que a Educação deixe de dar prejuízo económico ao país ao mesmo tempo que se vira toda a opinião pública contra os que fizerem barulho por estar a ser roubados. E façam-me isso para ontem.
E o que digo eu, sem pesquisas, sem estudos, sem inquéritos, sem trabalho científico sério que justifique a minha opinião? Digo o seguinte:

Objectivos Individuais
Há três grandes sectores económicos, o primário (agricultura), o secundário (indústria) e o terciário (serviços). Qualquer coisa anda mal quando se pede a um professor, que ensina pessoas, ou a um médico, que as trata, que defina objectivos individuais, como se produzisse parafusos ou plantasse batatas. Os objectivos requeridos jamais serão individuais. Porque não depende de nós, individualmente, cumpri-los. Todas as profissões têm especificidades. Se se quer avaliar desempenhos, tem que se respeitar as características únicas da classe a avaliar, tem que se identificar os seus traços distintivos. Dizer, “eu vou ter 60% de sucesso em todas as turmas”, não é o mesmo que dizer “eu vou fabricar mais 534 papo-secos”. É que o padeiro não pode fingir que os fez. Nem os papo-secos se recusam a ser fabricados.

Avaliação Entre Pares
Quem avalia tem que saber mais que quem é avaliado. Não me perguntem onde é que isto está escrito, parece-me senso comum. Por isso, quem avalia, é quem ENSINA. Avalia se aquilo que ENSINOU foi assimilado ou não, e com que grau de eficácia. Logo aí, a avaliação entre pares é um paradoxo. O que é que o meu avaliador vai testar? Foi ele que me ensinou o que vai agora avaliar? E se eu não desempenhar bem na sua opinião, que garantias tenho eu que ele sabe mais e melhor acerca dos procedimentos, para me julgar? Que garantias tenho eu que não estou a ser influenciada pela sua ignorância, e que vou mudar os meus procedimentos de acordo com o que ele achou mal, incorrendo no risco de mudar para pior?
Teria que haver confiança, crédito, certeza de que aquela pessoa sabe mais do que tu nos parâmetros que avalia. Os seus conhecimentos teriam que ser reconhecidos formalmente de forma clara. E os ditos conhecimentos não vêm com o estatuto da titularidade, isso é mera nomenclatura, pelos motivos já expostos. A titularidade NÃO FAZ um bom avaliador.
Primeiro, os avaliadores deveriam prestar provas. Fazer exames. Demonstrar conhecimentos científicos e pedagógicos. Os que já têm. Depois, deveriam fazer formação. Um ano é o mínimo indispensável para uma pós-graduação. Que todos deveriam ter. Todos. Científica e Pedagogicamente. Depois, deveriam ser uma classe à parte. Assistir a muitas aulas. Toda a gente sabe que as aulas assistidas são teatrinhos montados para parecer bem. E ainda assim, como não produzimos parafusos, às vezes correm mal. Os alunos são, sempre, a derradeira incógnita. As aulas assistidas deveriam ser um conjunto de aulas combinadas e outras de surpresa. Isso é avaliação de desempenho. Averiguar o professor em acção no seu espaço natural, não duas ou três aulas preparadas para impressionar. As aulas que se dão sem se ter tempo para as preparar, não me venham com hipocrisias, elas existem. As aulas que se dão quando se está com uma gripe descomunal, ou não se dormiu bem, ou temos um filho doente, ou nos morreu o animal de estimação.
Os avaliadores não deveriam ser professores da mesma escola. Não devia ser possível observar aulas de amigos e de ódios de estimação. Que credibilidade tem alguém que olha para uma aula que correu mal a uma pessos de quem se tem uma opinião pessoal formada? Nenhuma. Se é um amigo, é desculpabilizado, se é alguém de quem não se gosta, é a justificação ideal para o entalar de vez. Nós, professores, temos incompatibilidades. Não podemos dar aulas a parentes directos, por exemplo. Então, porque podem os nossos avaliadores avaliar gente com quem vão jantar fora e para os copos, ou pessoas com quem mantiveram relações amorosas, ou com quem já foram casados, ou outros que não suportam porque lhes roubaram o yô-yô quando tinham dez anos, há quarenta ou cinquenta anos atrás? Porque vão avaliar eles pessoas com quem já andaram à pancada, a quem deixaram de falar, de quem dizem mal sempre que podem a quem os queira ouvir,ou por quem têm uma grande paixão, ou de quem são amigos de infância? Não. Não me venham atirar com a ética profissional à cara, todos nós somos gente. De pele e carne, sangue e cor. Não.
Os avaliadores deveriam trabalhar em equipas fora da escola. Conhecer os seus avaliados bem, mas a nível estritamente profissional. Observar os seus avaliados em acção, como se eles fossem ratos de laboratório. Eu acusei os titulares da minha escola de levarem a cabo uma avaliação que está, na teoria, suspensa. Vocês acham que eles se vão esquecer disso, do facto de eu o ter feito publicamente, de os ter deixado sem defesa possível, de lhes ter apontado o dedo, acham que isso não vai pesar quando estiverem a avaliar-me? Em que mundo? E isso significa que tenho medo de ser avaliada? Não. Significa que, à partida, a minha avaliação está comprometida por factores que nada têm a haver com a qualidade do meu desempenho quando se trata de ensinar alunos.
Conclusão (Hallehluia!!!)
Para concluir, digo: sou contra este modelo de avaliação de desempenho.
As escolas não são fábricas e a avaliação é um processo sério e difícil, demasiado complexo para ser levado de ânimo leve e legislado em cima do joelho. Requer estudo, trabalho, preparação e motivação. Requer vocação por parte de quem avalia. A vocação necessária para exercer a justiça da forma mais linear possível.
Ainda assim, este jamais será um processo completamente transparente. É impossível. Mas, por isso mesmo, jogando com tanta variável, acho que é fundamental que se definam estratégias, parâmetros e critérios que dispam o processo da maior quantidade de subjectividade possível. A maior possível E isso não está a ser feito. Por ninguém. E o erro vem de cima. Do topo.
Por isso vou fazer greve. Por isso vou lutar, até ao fim. Até poder. Até ser confrontada, de facto, como acho que vou ser, com a chantagem do “se estás mal, muda-te, muda de vida”. E aí vou quebrar, capitular, e obedecer como os outros. Porque não saberia fazer outra coisa com a mesma paixão com que estou na sala de aula com vinte seres pequeninos e barulhentos a infernizar-me o juízo mas a fazer-me sorrir.

Hoje (parte 2) A Saga Continua

Cheguei agora a casa. Belas horas... mas eu avisei, nos meus objectivos pessoais (deverei eu decalcá-los para a lista de objectivos individuais que me vão obrigar a entregar até 6 de Fevereiro?) de Ano Novo, que ia sair à noite com os amigos mais vezes... e estou a cumprir. (3 pontos na Avaliação, mais 2 e faço linha, mais 10 e faço bingo).
Para quem acabou de chegar, avance para a casa seguinte, sem passar pela partida e receber os dez euros. Este post é continuação do anterior, e acho que amanhã escrevo a conclusão, em jeito de trilogia.
Tinha ficado nas ameaças. São descaradas. Um Governo em maioria absoluta nem se dá ao trabalho de disfarçar intenções absolutistas e fala abertamente em sanções. Os executivos ajoelham. Capitulam. Alguns resistem. Mas poucos. As nossas hierarquias superiores, por nós eleitas, acobardam-se e não nos representam nem nos dão voz. Estou careca de dizer isto à minha chefe, à minha vice, ao contrário de alguns titulares que lhes sorriem pela frente, as avisam do perigo de ter amigos como eu (que as criticam em reuniões sindicais) quando depois, pelas costas, são os primeiros a apoiar denúncias anónimas para a inspecção escolar, sonhando com o dia em que vão conseguir o supremo poder de dirigir uma escola. Bem hajam os pobres de espírito, os tais que chegaram a titulares porque existem, tão somente, nas escolas, a mobilar, há anos demais, ou os outros, piores ainda, ressabiados por não serem titulares e frustrados por não terem o (ridículo) poder de mandar seja em quem for. Uns tristes, todos eles. Curtas ambições, quando a ambição máxima é uma cadeira num gabinete que os livre do contacto com os alunos que desprezam.
E, por isso, digo, de minha justiça: Li en passant o comentário de um anónimo (Qualquer-Coisa Catano) ao texto anterior. Percebi a ideia geral. Não concordo com ela. Mas não a vou rebater. Avisei, logo de início que isto é um texto pouco analítico e nada imparcial. O Sr. Catano fala com a sabedoria que lhe confere a profissão docente, que é a mesma que a minha. Não, não disse que era professor. Mas também não escondeu os tiques, ficou apresentado. E logo ali se vê, no seu comentário, em comparação com o meu, a cisão (cisões) dentro do grupo.
Arrogantes os que põem medos em casas alheias. Quem sou eu para dizer que os meus colegas têm medo de ser avaliados? Quem é o Sr Catano para dizer dos outros o que, com certeza, não afirma sobre si próprio?
Esta questão transformou-se numa comédia de costumes, caíu na mais decadente palhaçada. Sei quem sou e o que valho. A DREA, no ano passado, foi mais vezes avaliar um projecto que estou a desenvolver na escola, que as minhas orientadoras de estágio quando o fiz. Avisavam-me, às vezes, de véspera. Quando começaram a aparecer, eu nem sabia o que iam observar, o que queriam ver, quanto tempo ficariam. E foi sempre pacífico. Nunca pus entraves, nunca tremi das pernas, nunca perdi o sono, nunca pestanejei. Sei para o que me pagam, sei o que devo fazer, sei o que estou a dizer e se me perguntam algo que não sei, meus amigos, ninguém é perfeito, queimem-me em praça pública.
Jamais tive medo de ser avaliada. Venham as avaliações. Se forem más, digam-me onde posso melhorar. Não cometo os mesmos erros muitas vezes. Sou boa aluna, aprendo depressa. E sei que sou boa professora. Não sou excelente, nem sei se sou muito boa, conheço bem melhor. Mas também conheço muito pior.
E a questão que ponho, na avaliação de desempenho, é só uma: se os avaliadores não têm os ditos no sítio, para bater com a porta como deviam, por questões económicas ou de jogos de poder (que as questões de valores são claras e nenhum deles as cumpre), terão os ditos no sítio para atribuir "não satisfaz" aos amigos incompetentes? Terão os executivos, que não levantam a grimpa à ministra, os ditos no sítio para "chumbar" titulares e avaliadores? Não têm. Então eu, que sou contra esta fantochada toda, e NÃO TENHO MEDO DE SER AVALIADA, e até acho que o Bom é justo para alguém como eu, se estivermos a avaliar com isenção, digo aqui, publicamente, que se me derem Bom (que eu mereço) a mim e também derem Bom às nódoas do meu Departamento, vai haver recurso. Repito, vai haver recurso. Porque eu sou boa, e há melhores. Só que eu sei quem são. Os melhores. Os piores, não sei eu quem são, sabe toda a gente. E livrem-se de me meter no mesmo saco com eles.
Quem tem medo da avaliação, afinal?
I'll be back for part three, "The Return of the King"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hoje


… apetece-me falar de escola. Já sei que vai ser uma desilusão para a maior parte dos assíduos deste blogue. Para mim, é sempre, quando abro os meus blogues favoritos à procura de novidades, da publicação de uma foto, um poema, um desabafo, uma piada e trás, um texto sério sobre um assunto gasto.
Mas hoje, apetece-me falar sobre escola. Pior, apetece-me falar sobre o modelo de avaliação do desempenho docente. Não lhe vou fazer uma análise. Há textos publicados por gente séria que o faz bem melhor que eu, quer porque conhece a fundo a legislação e suas consequências, quer porque percebe de sociologia e direitos laborais, quer, muito simplesmente, por estar fora do sistema, não ser político ou professor, e ter, por isso, uma isenção que eu nunca terei.
Vou escrever um texto parcial. Preconceituoso. Rotulado. Intolerante. Politicamente incorrecto. Manipulador. Interesseiro. Incómodo. Criticável. E, por isso, absolutamente genuíno. A minha opinião sincera sobre este assunto.
Quando ouvi falar, há muitos anos atrás, em avaliação do desempenho, fiquei literalmente feliz. Por um milésimo de segundo. No milésimo seguinte, pensei… isto vai dar uma bronca de todo o tamanho.
Num Mundo perfeito, ou numa sociedade aceitável, não haveria nada mais justo que premiar a competência através da progressão da carreira. Acontece que nós não estamos em nenhum desses casos.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu admiro fossem premiados. Gente que dá o litro. Gente que pensa muito na melhor forma de ensinar os miúdos. Gente que tenta ser original quase todos os dias. Gente que sabe a sério do que fala. Gente que os alunos temem mas adoram. Gente que dá más notas, se for preciso. Gente que faz participações disciplinares ao mínimo desrespeito. E há muita gente assim. Tanta que não cabe em cotas. Por isso sou contra elas. Pelo menos, na teoria.
Quando ouvi falar em avaliação, pensei que seria muito interessante que os colegas que eu desprezo fossem postos no seu devido lugar. Gente que não faz nenhum. Gente que devia estar em casa, com um atestado por doença mental e é obrigada por um estado hipócrita, a ir para as aulas dizer baboseiras. Pôr alunos a jogar cartas. Fazê-los passar noventa minutos a copiar textos e listas de vocabulário para os manter caladinhos. Falar da sua vida pessoal. Dizer mal dos colegas e dos antecessores que não ensinaram nada. Gente que não tem vocação nem vontade. Gente que nem sequer gosta ou compreende crianças e adolescentes. Gente autoritária que descarrega as suas frustrações na parte mais fraca. E também há dessa gente aos magotes. Para esses, não há cotas. Logo, sou contra as cotas. Pelo menos, na teoria.
Havendo cotas, não deveriam abranger todas as excepções à regra? Porque a senhora ministra defende que as cotas não são uma medida economicista. Nesse caso, são o quê? Dizer que numa escola em que há cinco pessoas excelentes, só duas podem ser assim avaliadas é o quê? A avaliação não se quer um processo justo e isento? Que justiça têm as outras três?
Adiante. A reforma na avaliação foi legislada, e os docentes sublevaram-se. Tardiamente, no meu ponto de vista. Porque antes de se legislar a avaliação, dividiu-se a classe em duas partes. Os titulares e os outros. E, pasme-se. Quem vai avaliar a maioria dos colegas são professores que nunca deram provas da sua própria competência. Chegaram a Titulares por Passagem Administrativa, aquele 10 que depois do 25 de Abril tanta gente obteve. Uns que mereciam 18. Outros que não passsariam nunca do 5. Estão a ver onde quero chegar?
E se há titulares irrepreensíveis, também os há deploráveis. Todos rotulados pela mesma bitola. A maior parte deles, se não todos, avaliadores de pares. Como já disse, no meio da minha atitude desbocada e irresponsável, ouço e vejo muita coisa. E não só na minha escola. Vejo titulares arrependidos de terem concorrido ao lugar porque “agora têm muito trabalho”. Vejo titulares que parecem pavões armados porque, com certeza, nem eles próprios nunca pensaram que com o pouco que sabem e o menos que fizeram toda a vida, algum dia chegariam a ser importantes. Essa importância que agora, que continuam a não saber nadinha, mas a trabalhar um pouquinho mais, toda a gente lhes dá. E vejo titulares profundamente desagradados com o novo estatuto, e muito desconfortáveis por ter que avaliar colegas. Muitos deles com mais habilitações. Outros com maior vocação. Outros, uma completa nódoa. E esses titulares, os humildes, são, sempre, os que mais sabem, os que mais trabalham, os que mais deram e dão à nossa classe.
Os professores manifestaram-se em massa. Fizeram greve em massa. Assinaram moções em massa. O Governo está autista. A avaliação, ao que parece, continua. Sucedem-se ultimatos, chantagens e ameaças. Não me parece bem. Não me parece mesmo nada bem.
(agora vou sair, mas este post chatíssimo ainda não acabou.Cá voltarei)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Lua Cheia

Hoje é noite de Lua Cheia, ou assim parece, ou parecia, à saída da escola. Sim, quando de lá saí, já a lua ia alta, redonda, enorme. Sem paciência para ir ao supermercado, passei pelas bombas de gasolina, para comprar tabaco. Eu sei, é triste, mas depois das oito da noite e tendo entrado na escola para dar aulas às oito da manhã, a fome de cigarros é maior que a do jantar.
Fiquei, como sempre, embasbacada a olhar para a lua. É mais forte que eu, adoro o satelitezito. Branco, ali pendurado, a dar ideia que sorri permanentemente. Encostei-me ao carro (agora que choveu, não está assim tão nojento) e fumei um cigarro, à porta de casa, a curtir o panorama.
Foi um dia sui generis, mas deu para acalmar e assentar ideias. As conversas com os colegas andaram muito à volta do que se passou ontem, e é bom saber que não estou sozinha, nem na injustiça, nem na consequente revolta. Só na peixeirada, que acho que fui a única a perder as estribeiras, mas convenhamos, não me sinto envergonhada por isso. Lá está, cada um que dê largas ao seu temperamento, quando se trata de dar um coice. Os meus são ruidosos. Sou assim. Tenho aprendido a aceitar-me como sou, aos poucos, e hoje senti-me muito bem comigo mesma.
Troquei a sala de professores pela minha própria sala, em horas de furo. E fez-me um bem enorme estar em casa, a gozar o meu direito de não fazer ponta de chavelho que não seja em proveito próprio e pessoal.
Chego à conclusão que ouço muita coisa parva, incoerente e excessiva ao longo dos meus dias. Que testemunho muita injustiça e muito abuso calada. Que anda toda a gente a toque de caixa de um ministério que se passou da cabeça. Que todos protestam, mas vão cumprindo as directivas, mesmo as mais ridículas. E eu também. Sou igual aos demais, que remédio.
Por isso hoje comecei a fazer a minha parte. A fazer contas às horas. Obrigam-me a acompanhar uma visita de estudo na sexta à tarde, porque não há tardes livres. Deve ser este um daqueles empregos confortáveis para as chefias em que, como temos menos de trinta e cinco horas marcadas na mancha horária, tudo cabe nas que não estão marcadas e não podem ser controladas. Mas uma coisa vos digo: entre reuniões, trocas de aulas com colegas que andam em formação forçada (e ainda assim têm que repôr aulas!) e cinco conselhos de turma a uma hora cada um, as horas de sexta à tarde são, pasme-se... extraordinárias. Mesmo que não faça NADINHA fora do horário, ou seja, se as aulas se prepararem a si mesmas e os trabalhos dos alunos ficarem para ver... na próxima semana. Não é fantástico?
Por isso acho que as pessoas de direito devem ter tento na língua quando, de forma arrogante, dizem ao comum dos mortais que têm pedir autorização para faltar a convocatórias descabidas. Devem morder a língua quando dizem que, para faltar a uma reunião, devem pedir uma autorização com cinco dias úteis de antecedência, quando as convocatórias são feitas 48h antes das ditas reuniões. Teremos agora, além de outros dons, o da adivinhação? As pessoas têm que parar para pensar antes de dizer e impor baboseiras. Porque estão em lugares de responsabilidade. E habilitam-se a grandes, grandes broncas. Até quando têm as costas quentes de um ministério autoritário e de cabeça perdida. Porque nem sempre o ministério sabe o que diz. E por vezes, o comum dos mortais ganha força na ira e vai para a frente com medidas de reacção, essas sim, que podem, de parte a parte, causar danos colaterais graves.
Às vezes nem é o que se diz. É a forma como se diz. E contra mim (mas não só) falo.
Feitas as contas, benditos sete minutos, os que se leva a olhar para a lua enquanto se fuma um cigarro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

T de Tansa

Lembram-se de vos ter dito que recusei um amável convite para passar a minha sexta-feira à tarde "livre"a acompanhar uma visita de estudo? O que acontece quando se recusa aquilo que parece ser um convite? Eu digo-vos. Quando se recusa um convite, recebe-se uma convocatória. Não é agradável? Não é o cúmulo do respeito, o cúmulo da ética profissional? Eu acho que sim.
E depois, perde-se a calma e a razão. Grita-se, diz-se as últimas, que ninguém é de ferro e eu não tenho sangue de nabo. É preciso descaramento... os mesmos que pedem favores para ontem, sabem lavar as mãos quando se trata de fazer o que é preciso. E porquê? Porque se trata da tansa da Jade, que ladra mas não morde, e acaba por desenrascar o pessoal, sempre. A mesma tansa que passa os dias na escola dentro e fora do seu horário, que ajuda todos os directores de turma, independentemente das questíunculas pessoais e profissionais que existem naquele antro em que os dois domínios se confundem de tal forma que ninguém sabe muito bem de onde vêm os ódios. A mesma que diz sim a tudo e, claro, não é levada a sério quando, uma vez, uma, diz que não.
E a Jade gritou. A Jade disse, a quem a quisesse ouvir, que não ia, que queria saber o que era preciso para justificar a falta. Um dia de férias? Dois? Resposta: precisas de autorização para faltar. Pasme-se. Preciso de autorização para faltar, dos mesmos que me convocaram, depois de terem levado uma nega ao "convite". Tem graça...
A minha primeira reacção foi, em ano de avaliação e tudo, espetar-lhes com um atestado médico. O mesmo que podia ter posto com muita razão já várias vezes, o mesmo que justificava até, e há muitos anos, a minha presença em Lisboa, ao pé de um médico assistente, em função de uma doença degenerativa que não é brinquedo. Espetar com o atestado médico que o meu médico anda sempre a insistir que eu meta, para fazer todos os exames anuais que não faço, para cumprir todos os tratamentos que devo, e não cumpro, por todos os motivos e mais alguns. E, juro-vos, foi por um bocadinho assim, tipo danoninho, que não liguei para Lisboa e disse, é já a partir de amanhã e por tempo indeterminado, senhor doutor.
E porque não o fiz? Porque, simplesmente, acho que, apesar de me estar completamente nas tintas para a avaliação e a ética profissional, e tendo perdido há muito o respeito pelo ministério e pelo sistema, as minhas aulas, os meus alunos e o meu Inglês ninguém me tira.
Mas o T de Tansa, esse, raspou-se. A partir de hoje, e não é de sexta, é de hoje, querem favores, convoquem-me. Souberam fazê-lo agora, então hão-de fazê-lo sempre. Não mexo uma palhinha fora do meu horário de trabalho, e estando na escola, sou muito menina para me recusar a fazer o que quer que surja, e até a levantar-me e sair da sala, do edifício, da cidade, para não dar um dedo que seja a mais do que aquilo que sou obrigada. E sexta-feira lá estarei, que não há tardes livres, embora eu seja a única convocada nessas circunstâncias, tem a sua graça. Tem, sim senhor. Estou farta de rir. Diz que quem ri por último, ri melhor.