Para concluir, o assunto e a trilogia, que não será transformada em filme mas é, isso sim, causa de milhares de filmes todos os dias, vou então dar a minha opinião sobre o que deveria ser uma avaliação de professores mais justa. Reitero que este texto não é para ser levado muito a sério. Um modelo de avaliação coerente e eficaz é, certamente, dos documentos mais difíceis de construir. Quem o elaborar tem que pesquisar muito, tem que estudar a fundo a realidade do nosso país (isto de se querer espetar um modelo que é eficaz na Finlândia, ou nos EUA, ipsis verbis, no nosso cantinho à beira-mar plantado, é uma cretinice tão evidente que eu pergunto-me que tipo de iluminados pensa que isto é possível), tem que ter acesso à opinião dos soldados rasos sobre o assunto, tem que gerir interesses, tem que respeitar verbas disponíveis, tem que fazer listas de prioridades e objectivos. Este texto não se arroga essa intenção. Mais, lança mesmo essa questão: quem acredita que o modelo de avaliação que nos querem impingir foi fruto de um trabalho sério e demorado, ponha a mão no ar! Não foi. Foi o resultado de uma reunião em que o Sr. Primeiro-Ministro deve ter dito qualquer coisa como: há que apertar o cinto. Arranjem-me um conjunto de medidas em que o país possa poupar muito dinheiro, mas dando a ideia de que somos um governo preocupado com as grandes questões da Educação. Arranjem-me um conjunto de medidas para que a Educação deixe de dar prejuízo económico ao país ao mesmo tempo que se vira toda a opinião pública contra os que fizerem barulho por estar a ser roubados. E façam-me isso para ontem.
E o que digo eu, sem pesquisas, sem estudos, sem inquéritos, sem trabalho científico sério que justifique a minha opinião? Digo o seguinte:
Objectivos Individuais
Há três grandes sectores económicos, o primário (agricultura), o secundário (indústria) e o terciário (serviços). Qualquer coisa anda mal quando se pede a um professor, que ensina pessoas, ou a um médico, que as trata, que defina objectivos individuais, como se produzisse parafusos ou plantasse batatas. Os objectivos requeridos jamais serão individuais. Porque não depende de nós, individualmente, cumpri-los. Todas as profissões têm especificidades. Se se quer avaliar desempenhos, tem que se respeitar as características únicas da classe a avaliar, tem que se identificar os seus traços distintivos. Dizer, “eu vou ter 60% de sucesso em todas as turmas”, não é o mesmo que dizer “eu vou fabricar mais 534 papo-secos”. É que o padeiro não pode fingir que os fez. Nem os papo-secos se recusam a ser fabricados.
E o que digo eu, sem pesquisas, sem estudos, sem inquéritos, sem trabalho científico sério que justifique a minha opinião? Digo o seguinte:
Objectivos Individuais
Há três grandes sectores económicos, o primário (agricultura), o secundário (indústria) e o terciário (serviços). Qualquer coisa anda mal quando se pede a um professor, que ensina pessoas, ou a um médico, que as trata, que defina objectivos individuais, como se produzisse parafusos ou plantasse batatas. Os objectivos requeridos jamais serão individuais. Porque não depende de nós, individualmente, cumpri-los. Todas as profissões têm especificidades. Se se quer avaliar desempenhos, tem que se respeitar as características únicas da classe a avaliar, tem que se identificar os seus traços distintivos. Dizer, “eu vou ter 60% de sucesso em todas as turmas”, não é o mesmo que dizer “eu vou fabricar mais 534 papo-secos”. É que o padeiro não pode fingir que os fez. Nem os papo-secos se recusam a ser fabricados.
Avaliação Entre Pares
Quem avalia tem que saber mais que quem é avaliado. Não me perguntem onde é que isto está escrito, parece-me senso comum. Por isso, quem avalia, é quem ENSINA. Avalia se aquilo que ENSINOU foi assimilado ou não, e com que grau de eficácia. Logo aí, a avaliação entre pares é um paradoxo. O que é que o meu avaliador vai testar? Foi ele que me ensinou o que vai agora avaliar? E se eu não desempenhar bem na sua opinião, que garantias tenho eu que ele sabe mais e melhor acerca dos procedimentos, para me julgar? Que garantias tenho eu que não estou a ser influenciada pela sua ignorância, e que vou mudar os meus procedimentos de acordo com o que ele achou mal, incorrendo no risco de mudar para pior?
Teria que haver confiança, crédito, certeza de que aquela pessoa sabe mais do que tu nos parâmetros que avalia. Os seus conhecimentos teriam que ser reconhecidos formalmente de forma clara. E os ditos conhecimentos não vêm com o estatuto da titularidade, isso é mera nomenclatura, pelos motivos já expostos. A titularidade NÃO FAZ um bom avaliador.
Primeiro, os avaliadores deveriam prestar provas. Fazer exames. Demonstrar conhecimentos científicos e pedagógicos. Os que já têm. Depois, deveriam fazer formação. Um ano é o mínimo indispensável para uma pós-graduação. Que todos deveriam ter. Todos. Científica e Pedagogicamente. Depois, deveriam ser uma classe à parte. Assistir a muitas aulas. Toda a gente sabe que as aulas assistidas são teatrinhos montados para parecer bem. E ainda assim, como não produzimos parafusos, às vezes correm mal. Os alunos são, sempre, a derradeira incógnita. As aulas assistidas deveriam ser um conjunto de aulas combinadas e outras de surpresa. Isso é avaliação de desempenho. Averiguar o professor em acção no seu espaço natural, não duas ou três aulas preparadas para impressionar. As aulas que se dão sem se ter tempo para as preparar, não me venham com hipocrisias, elas existem. As aulas que se dão quando se está com uma gripe descomunal, ou não se dormiu bem, ou temos um filho doente, ou nos morreu o animal de estimação.
Os avaliadores não deveriam ser professores da mesma escola. Não devia ser possível observar aulas de amigos e de ódios de estimação. Que credibilidade tem alguém que olha para uma aula que correu mal a uma pessos de quem se tem uma opinião pessoal formada? Nenhuma. Se é um amigo, é desculpabilizado, se é alguém de quem não se gosta, é a justificação ideal para o entalar de vez. Nós, professores, temos incompatibilidades. Não podemos dar aulas a parentes directos, por exemplo. Então, porque podem os nossos avaliadores avaliar gente com quem vão jantar fora e para os copos, ou pessoas com quem mantiveram relações amorosas, ou com quem já foram casados, ou outros que não suportam porque lhes roubaram o yô-yô quando tinham dez anos, há quarenta ou cinquenta anos atrás? Porque vão avaliar eles pessoas com quem já andaram à pancada, a quem deixaram de falar, de quem dizem mal sempre que podem a quem os queira ouvir,ou por quem têm uma grande paixão, ou de quem são amigos de infância? Não. Não me venham atirar com a ética profissional à cara, todos nós somos gente. De pele e carne, sangue e cor. Não.
Os avaliadores deveriam trabalhar em equipas fora da escola. Conhecer os seus avaliados bem, mas a nível estritamente profissional. Observar os seus avaliados em acção, como se eles fossem ratos de laboratório. Eu acusei os titulares da minha escola de levarem a cabo uma avaliação que está, na teoria, suspensa. Vocês acham que eles se vão esquecer disso, do facto de eu o ter feito publicamente, de os ter deixado sem defesa possível, de lhes ter apontado o dedo, acham que isso não vai pesar quando estiverem a avaliar-me? Em que mundo? E isso significa que tenho medo de ser avaliada? Não. Significa que, à partida, a minha avaliação está comprometida por factores que nada têm a haver com a qualidade do meu desempenho quando se trata de ensinar alunos.
Conclusão (Hallehluia!!!)
Para concluir, digo: sou contra este modelo de avaliação de desempenho.
Para concluir, digo: sou contra este modelo de avaliação de desempenho.
As escolas não são fábricas e a avaliação é um processo sério e difícil, demasiado complexo para ser levado de ânimo leve e legislado em cima do joelho. Requer estudo, trabalho, preparação e motivação. Requer vocação por parte de quem avalia. A vocação necessária para exercer a justiça da forma mais linear possível.
Ainda assim, este jamais será um processo completamente transparente. É impossível. Mas, por isso mesmo, jogando com tanta variável, acho que é fundamental que se definam estratégias, parâmetros e critérios que dispam o processo da maior quantidade de subjectividade possível. A maior possível E isso não está a ser feito. Por ninguém. E o erro vem de cima. Do topo.
Por isso vou fazer greve. Por isso vou lutar, até ao fim. Até poder. Até ser confrontada, de facto, como acho que vou ser, com a chantagem do “se estás mal, muda-te, muda de vida”. E aí vou quebrar, capitular, e obedecer como os outros. Porque não saberia fazer outra coisa com a mesma paixão com que estou na sala de aula com vinte seres pequeninos e barulhentos a infernizar-me o juízo mas a fazer-me sorrir.