Aqui há uns tempos, uma colega minha falava-me deste blogue, da forma como às vezes gostaria de intervir, mas que havia, muito mais premente, "a porra das máscaras". Percebi perfeitamente o que ela me queria dizer. Curiosamente, no mesmo dia, um outro colega meu me dizia recear que, esta coisa do blogue, quando lido por conhecidos, tivesse o mesmíssimo efeito que tem quando são desconhecidos a ler, ou seja, transformar alguém de carne e osso, com quem se partilham problemas profissionais, conversas informais, e com quem vamos construindo um processo, se não de amizade, pelo menos de conhecimento mais ou menos superficial, transformar-me a mim, neste caso, numa personagem ficcional. Acrescentava, o que se desabafa na blogosfera tem um entendimento distinto consoante o receptor. E tem toda a razão. Daí a questão da exposição da vida privada. Creio que ninguém seja naïve o suficiente para pensar que publico inconfidências por este meio. Contudo, sim, dou a conhecer aspectos meus que colegas que me conhecem apenas da sala de professores nunca saberiam de outra forma. E que tal facto, inconsequente no caso dos leitores que nunca me viram, poderá ser causa de vulnerabilidades futuras no grupo restrito e pouco pacífico de que faço parte.
Encaro esse facto, que entendo e até aceito, com a maior das tranquilidades. (Agora imaginei-me com o corte de cabelo do Paulo Bento, vá-se lá saber porquê)
Estou tranquila porque, lá está, tudo o que aqui é escrito leva o carimbo de "cálculo de riscos". Até há vezes, confesso, que o realmente importante é calado. Não é arriscado, sequer, em meras entrelinhas. Há fases, pessoas, acontecimentos, momentos, medos, traumas e lembranças, muito importantes, fundamentais até para a compreensão de quem sou, que não têm lugar neste blogue, que são, consciente e deliberadamente, afastados daqui.
Desde sempre que empreendo uma luta enorme comigo mesma. Sou uma pequena selvagem exposta desde muito pequena, como todos nós, ao espartilho da sociabilização, das convenções, do pensamento dominante, do status quo. Mas rebelo-me constantemente contra ele, e cada vez mais. É uma luta diária entre o viver em sociedade e o viver em paz com a minha consciência.
E é aí que entram "as porras das máscaras". Não é que a máscara que trago não seja eu e sim uma fraca dissimulação de mim mesma. Não, sou eu. Simplesmente sou um eu à defesa. Alguém que sorri, diz disparates, faz trocadilhos indecentes e vira de pernas para o ar reuniões sérias, chatas e compridas como a espada do Afonso Henriques. Essa máscara Veneziana da Comédia é espelho do meu íntimo. Simplesmente esconde o outro lado, o lado lunar. Não aquele mal-disposto e zangado, revoltado e amargo. Esse transborda muitas vezes sem que eu o consiga dominar, não. Só que quem olha para este ser contraditório e irritante que eu mostro ser, julga-me uma pessoa que eu, de facto, não sou. Feliz, dizem os meus alunos; sem comentários. Ressabiada e irresponsável, infantil e inconsequente, dizem alguns adultos; no comments at all.
E depois, há surpresas. Há aquele sorriso que trago muitas vezes estampado no rosto para oferecer a alguns e, de repente, cai. E é disso que eu tenho medo, desse cair da máscara. De ser confrontada com a minha própria violência, com as dezenas de sorrisos que dou, porque ninguém tem culpa, ou alguns talvez até a tenham, quando só me apetece gritar, chorar, dizer o que trago entalado, perguntar, enfim "mas pensarás tu que eu me esqueci do que já fizeste? pensarás tu que este sorriso que te dou implica que não tenho em mim toda a dor por que já passei, toda a mágoa que ainda passo, toda a vontade que tenho de desaparecer daqui, de ir para um sítio qualquer que ainda não decidi? pensarás tu que o meu sorriso significa que nasci hoje e te estou a ver pela primeira vez?" Por isso, costumo dizer que me armo em parva. Que finjo ser muito mais parva do que aquilo que realmente sou, e que já não é pouco. Que detesto que as pessoas, por eu lhes sorrir, ou por gostar mesmo delas, mais do que seria esperado ou aceitável, achem que eu sou tipo peixinho, de memória imediata, e me façam ainda mais de parva, e se choquem quando, por nada, por me cair a máscara presa por arames, levam com o que de pior há em mim de repente em cima.
As máscaras servem para isso. A minha serve para dar um pouco de humanidade, dar maneiras, como diria a minha mãe, a quem tem muito mais de animal e irracional, de instintivo e de politicamente incorrecto, com a consciência, essa sim, muito clara, de que as nossos traços profundos não são para descarregar em cima do resto do Mundo. Mesmo quando este nos provoca a isso. Só, que às vezes, acontece. E quando acontece, há uma parte de mim que não se arrepende. E outra parte, pequena mas importante, confesso, que até aplaude.
7 comentários:
O último parágrafo fez-me pensar na máscara do "fantasma da ópera"!
Não há o que temer em deixar cair a máscara até porque para quem realmente nos conhece e que gosta de nós essa "coisa" não existe!
Nem sempre somos o que gostariamos de ser ou o que gostariam que fossemos, mas somos NÓS e é isso que importa, pois somos seres únicos e insubstituíveis!...
bjinhos...
Anaísa
Depois de ter iniciado a tal conversa que andava prometida há tempos, e onde expus as minhas "intranquilidades" sobre como esta exposição te podia afectar junto daqueles que não têm o direito de saber aquilo que não lhes queres contar, compreendo que esta seja uma forma de equilibrares a tal luta entre o viveres em sociedade e o estares em paz contigo mesma. Penso que esta é mais importante que a primeira. Eu procuro que todos os dias, quando me olho ao espelho, goste daquilo que vejo, mesmo que não seja fisicamente. Quanto à "porra das máscaras", com o tempo vamos deixando cair as que nos atrapalham, até ao ponto de serem as máscaras a incomodarem-nos.
Admiro forma como reflectes sobre ti mesma, expondo as tuas pequenas "misérias", algo que eu nunca seria capaz de fazer, não porque pudesse cair de algum pedestal (onde, aliás, não me encontro), mas porque entendo que só me consigo "desmontar" para aqueles que entendo que merecem e, egoísticamente falando, prefiro esconder essas mesmas fraquezas.
Quando falei contigo, era essa exposição, essa radiografia que te tornava transparente, que me "incomodava", porque me incomoda ver reveladas as "fraquezas" das pessoas que, com o tempo, vou aprendendo a admirar e a conhecer. Sou de uma geração (ou melhor, de um grupo)que teve a sorte de viver de uma forma solidária, na alegria e no sofrimento, que partilhava experiências, aventuras e ressacas (das mais variadas espécies), que ouvia religiosamente os discos que alguém tinha trazido "lá de fora", que entendia que tinha, enquanto seres que respiravam oxigénio, o dever de dar algo em troca ao planeta, nem que fossem apenas uns recitais de poesia, umas peças de teatro, ou qualuer outra manifestação mais ou menos radical. Por isso tornei-me alguém que não gosta de ver os seus póximos expostos naquilo que não necessita.
Quanto aos outros, aqueles que "desprezas", penso que dás demasiada importãncia àquilo que possam pensar (se é que alguns são providos dessa capacidade).
Desculpa a confusão do texto, e a dimensão do mesmo mas, afinal, é muito mais fácil escrever que falar.
E agora vou preparar-me psicologicamente, porque a partir de logo, aguardam-me 85 testes para ver.
Tal como os chapéus, máscaras há muitas... servindo muitos propósitos. Ocultam o bem e o mal. são catárticas, libertadoras, divertidas, protegem das doenças, dos gases, das pessoas. Todos usam uma, a sua. Nem boa nem má. Usam a que têm, aquela que foram construindo ao longo da sua existência. É feita de camadas cheias de experiências e histórias por contar,de creme protector solar,de restos de rimel( ou mascara), batôn e pregas de almofada. Esta não se compra na loja para pôr em dias especiais. Mas pode ser lavada com lágrimas e colada com paciência. É tão real, que muda connosco. It becomes us.
Mas, quando queremos que seja outra e que mostre ao mundo o que não somos. Quando lhe impomos tiques que não os nossos e usamos tiradas que não entendemos apenas porque caem bem. Aí, então a máscara cai. Cai e parte-se e ficamos despidos. Mas esta não é a nossa. A nossa nunca nos deixaria ficar mal.
(Desculpa a "espaciosidade" mas estava inspirada e não sabia!)
Quem não usa uma máscara que atire a primeira pedra.
Quando era jovem (ai como dói dizer isto) recusava-me a usar máscara. Orgulhosamente afirmava que as pessoas não deviam ser cínicas, fingidas, falsa, hipócritas. E, orgulhosamente, mostrava claramente de quem gostava e não gostava.
Claro que levei um montão de murros nas trombas! Claro que tive que me render ao uso da máscara! Claro que não gosto disso mas, reconheço, é preciso.
Hoje, sou verdadeira unicamente comigo mesma. Com os outros já não posso por variadissimas razões.
Também me faço, muitas vezes, passar por loira (loiraças desculpem a piada), por platinada mesmo. E não é que resulta? E não é que a vida corre melhor? Mas não sabe melhor.
Quantas vezes gostaria de mandar com um pano encharcado nas trombas e estou a dar sorrisos e simpatias a quem não merece? God is my witness.
A vida é dura, mas se a soubermos levar...
Ai Isinha, tu és e serás sempre a permanente sonhadora. Adoro-te assim, tal e qual, imune à pancada da vida e guerreira nas suas convicções. Eu já caí de joelhos no pó da arena há muito tempo. Bravo!
Carolina, adorei a sua espaçosa intervenção. Volte sempre ou crie de uma vez por todas o seu próprio blogue, que a sua escrita e as suas opiniões já merecem... basta compará-las com outras coisas publicadas tão pobrezinhas de espírito e regras do Português que só servem para a gente se rir...
Ana, é mesmo isso. Que atire a primeira pedra... infelizmente, apesar de haver por aí gente bem mais pecadora que Maria Madalena, quando se trata de julgamentos públicos, toda a gente se acha no direito de atirar pedras. É por isso que, de quando em vez, tiro a máscara e mostro o meu lado mais selvagem. Um pano encharcado nas ventas... isso é que era! LOL
Beijinhos
Caiu "de joelhos no pó da arena" mas só depois de ter o leão morto a seu lado que eu bem sei...
E eu já estive na bancada desse Coliseu, só não saltei lá para dentro porque acreditei sempre nas suas qualidades como GLADIADORA.
(sempre adorei metáforas, "biba" o bom português)
Lembrei-me de tentar fazer um trocadilho e ligar o título do post ao coliseu, mas o Coliseu não é em Veneza! :) Pena pá, dáva um bom trocadilho...
;)
bjinhos
Anaísa
Dr. House, a si, só um "muito bem-vindo". Sincero e admirado, surpreendido, até, por todos os motivos já conversados pessoalmente. Intervenha sempre, com a sensatez a que já me habituou. Nem sempre quem muito fala pouco acerta, e o doutor é prova viva disso. Beijinhos.
Isa, alguns leões são imortais...
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