Ontem remeti-me ao silêncio, depois de se confirmarem as parcas expectativas que tinha no banco da minha velha amiga Dra F. Tinha que ser, estava à vista, lá se agendou a dita cirurgia e, silêncio, que não se vai cantar o fado, mas se vai voltar ao costume, sempre com os mesmos medos, sempre com as mesmas ansiedades de quem anda nisto há demasiado tempo.
À saída da clínica, eu e a minha mãe falámos de trivialidades. Há muito que deixámos de culpar pessoas e situações, práticas e vícios, desleixos e azares, da situação em que me encontro. Há que aceitar que as minhas feridas, sejam elas físicas ou emocionais, só se curam na base do in extremis. São sempre para marcar, são sempre para deixar cicatriz. Por isso, seja no Bloco Operatório, seja nos meus textos, seja nas minhas aulas, seja na minha cama com a minha almofada, elas cicatrizam; nunca a bem...? que cicatrizem, pois, a mal.
Não vejo nada na minha vida como uma derrota. Nunca me senti uma derrotada. Pelo menos agora que penso nisso a frio, com os meus neurónios, o Tico e o Teco, bem acordados e livres das porcarias emocionais que os sobrecarregam diariamente, das inseguranças de menina que sempre tive, dos medos adultos que surgiram depois, desta obsessão que tenho com a perda de entes queridos; livre de todos esses fantasmas irreais, posso afirmar que derrota por derrota, só o meu Sporting me deixa ficar mal.
O que a vida me demonstra diariamente é que nunca se perde nada que tenha, de facto, algum valor. Só a morte é excepção a esta regra de ouro. As coisas universais estão organizadas em termos de mudança, nada é eterno, tudo se transforma, já dizia o filósofo da Antiguidade. E se esta mudança implica perda, seja de um conforto de um apartamento ao lado da escola, seja de uma pessoa que julgavamos diferente do que se demonstra, esta perda não é uma derrota, é, isso sim, um presente valioso embrulhado em papel de jornal: não tem grande aspecto, mas quando se abre...
As derrotas dependem dos olhos que as vêem. E da inteligência que as avalia. Eu começo sempre por achar que é o fim do Mundo. A minha reacção a quente, quando as coisas dão para o torto, é ficar super infeliz. Dou sempre esse tempo de infelicidade como tempo perdido, uns instantes mais tarde. Não dou por bem empregues nem metade das lágrimas que já chorei até hoje. Não há, contudo, uma única gargalhada de que me arrependa. Por isso, cada vez mais, passo menos tempo preocupada com a mesquinhez e a idiotia dos que falam de fracassos e derrotas.
Não é fácil saber que, anualmente, mais coisa menos coisa, visito um bloco operatório, para a minha dose de anestesia geral. Não é fácil ouvir, de gente leiga que não sabe o que diz, ou de gente preocupada que me ama e se sente impotente para aceitar que não há nada a fazer, frases como"se tivesses feito isto", "se cuidasses mais de ti", "se não te enervasses". Não é fácil explicar que "se" é uma conjunção inútil. Eu vivo o melhor que posso com isto, e faço o melhor que posso, que é viver o mais independente possível dos males físicos. Não meto atestados, não peço transferências, não deixo de fumar, não perco um banho de mar, não como fruta ao desvario (Desculpa V.) . E sei, sei com a minha arrogância que me vale mais que um diploma de medicina, que nada disto me faz realmente um mal maior. Sei exactamente o que me faz mal ao organismo, os venenos que o afectam, e esses, infelizmente, ainda não aprendi a evitar com eficácia, mas estou no bom caminho.
Os venenos desta vida, os verdadeiros, os perigosos, são os que nos consomem a alma e nos impedem de seguir o nosso caminho de acordo com as nossas vontades. E esses são muito difíceis de combater. Têm nomes conhecidos: medo, hipocrisia, politicamente correcto, convencionalmente aceite, mesquinhez, inveja, maldade, irresponsabilidade, inconsciência, ignorância. Uns trazem os outros, e têm efeito bola de neve. Todos eles têm em mim um efeito atroz, porque me afectam profundamente. E recentemente, como defesa, aprendi a rir-me deles e a contra-atacar. A ironia é uma qualidade dos inteligentes, quem não o é, cai no sarcasmo e no ridículo... tem piada na mesma, mas o tiro sai pela culatra.
Combata-se a alegoria de V. numa folha de papel de mesa de restaurante, com a alegria de estar vivo e entre amigos à mesa desse mesmo restaurante. Sempre que sou operada, a minha vida dá um salto qualitativo enorme, exactamente porque o que me leva sempre à decadência física é uma fase longa de desgaste emocional. Tive dois anos, quase três, de atribulações grandes, de enormes mudanças, de picos de felicidade e decepção elevados... a entrada nos trintas foi difícil. Mas também acho que não crescia tanto e não melhorava tanto como pessoa, desde que me morreu o pai. Estou, verdadeiramente, cheia de força e optimismo. Sinto-me de facto, segura, agora que sei, finalmente, o que me espera. Estou confiante no fim do ciclo de coisas más.
O medo cresce exponencialmente ao tempo que demoramos a enfrentá-lo.
Esta Jade tremeu, ontem, dos pés à cabeça, à frente de uma médica que já a conhece de outros carnavais. Esta Jade trémula, ouviu serenamente o que havia a ouvir, com a calma estóica do costume, lágrimas a correr cara abaixo, (Quem disse que os estóicos não choram?), mas sem um queixume, sem uma palavra, o que a esperava e porquê. Esta Jade não escreveu no blogue, ocupada que estava a pôr em perspectiva a sua vida, os seus objectivos, os seus sonhos e os seus desejos.
E digo-vos, aos que me lêem e me conhecem, e conhecendo-me, gostam de mim, e aos outros, que não gostam, digo-vos a todos: esta Jade, meus senhores, sempre foi, é, e continuará a ser sempre, uma vencedora. Para alguns será chato, para outros, inconveniente, para outros ainda, incompreensível, mas é verdade. Aquilo por que luto, alcanço sempre; aquilo de que desisto, jamais me arrependo... e as contrariedades da vida, mais do que lições, têm sido diamantes embrulhados em papel de jornal. Isto é que é a verdadeira aleg(o)ria, V... conseguirá o V2 desenhar isto de forma tão brilhante como a de há bocado, depois do jantar?