quarta-feira, 16 de abril de 2008

Just to say...

... I'm alive.
Ontem escrevi um texto lindo à minha mãe, mas a net foi abaixo, e perdeu-se... fica para uma próxima!
Temos chegado a Green Acres tardíssimo, entre trabalho que nasce das pedras, busca de uma toca melhor e mais perto, lanchinhos no Twins, hoje houve o segundo... no comments we're in blackout, e pouca, muito pouca coragem para mais que não jantar, comentar as últimas da sala de professores e... caminha!
Esta semana está a dar comigo e com os meus em doidos. Viro-me para os meus alunos e digo CHI-CO!, em vez de CHI-U!, pergunto o número da página a um grupo estarrecido, e emendo, a sala, eu quero saber é o número da sala onde vamos temos aula..., digo que chove da tarde de quinta até à madrugada de segunda, e embasbaco com o coro de protestos... pois, eu queria dizer sexta, não segunda... desatino com os comentários dos meus colegas à minha indumentária, desculpem lá, hoje o meu traseiro saiu na primeira página do Público? deslarguem-me pá! No Twins peço cachorros com "tudo a que eu tenho direito, ora essa!" e o dono, salsicha também? e eu, salsicha? não, quero dizer, sim, enquanto ele explode a rir. Enfim, não sou a única... os professores andam a passar-se.
Por isso, entre os almoços com os meus alunos na cantina, e os lanches com os meus colegas no Twins, os jantares com Mzinha em Green Acres e uns pequenos-almoços engolidos no carro onde bomba Mr. DJ Vibe, não consigo engordar os quilos que me faltam, nem alimentar o Tico e o Teco a vitaminas...
Isto está bonito, está. Já disse aos gaiatos que se desaparecer, me procurem no manicómio mais perto. A não ser que falte numa segunda... aí, meus amigos, ganhei o euromilhões e estou num spa na Polinésia Francesa...
Até lá, até já!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Fim de Tarde ao Sol

Juntam-se quatro professorinhas de província. Em comum, a mesma escola, alguns alunos, o mesmo sentido crítico das situações, o mesmo cansaço resignado, a mesma vontade de quebrar rotinas.
Arranja-se à pressão a desculpa de um lanche tardio, para dois dedos de conversa, uns copos de cerveja, (a Betinha bebeu Ice-Tea mas não se cortou ao licor de maçã verde...) e um pouco de sol vespertino na esplanada do Twins.
É verdade, damos nas vistas: somos bem-parecidas, bem-dispostas, bem-lixadas, bem-jovens, bem-livres! Naquela esplanada fez-se a festa, com o dono do bar a ficar à conversa sempre que trazia novo hot-dog, novas tostas mistas, novas bebidas.
Conjugou-se o verbo gargalhar, irregular de tão raro por estes dias, nesta específica escola. Falou-se de tudo, não se falou de nada, "Vocês não me façam falar!...". Descontraímos a atirar palavras e risos ao vento da tarde, e levantámo-nos quando começou a fazer frio.
À despedida, T. ainda disse, "Sou apologista de fazermos isto mais vezes!" A saúde mental de todas - entre aulas, explicações, acções de formação, planos da matemática e mestrados - agradece.

Thinking Happy Thoughts

Diz Peter Pan a Wendy que este é o segredo para voar, think happy thoughts!, e um pózinho dourado mágico de Twinky, claro. Para vos ajudar a voar, e na esteira de Mary Poppins, "these are a few of my favourite things", aleatoriamente, à medida que vão surgindo. Bons vôos...
Concentro-me. Estou sentada no beiral da janela a olhar a rua, como os gatos, de que herdei a alma. Ficaria assim horas, mas Pan desafia-me ao vôo, por cima dos céus de Londres e em direcção à Terra do Nunca. Pois seja. Arco-íris, bolas de sabão de mil cores, estrelas cadentes, lua cheia, quarto minguante a lembrar o sorriso do gato da Alice, gatos, gatinhos bébés, cachorritos trôpegos, coelhitos, pintainhos, ovos de Páscoa, amêndoas coloridas, chocolate, chuva de chocolate, tempestade de chocolate, milhares de caixas de bombons, bons, bons, bons como um sorriso do tamanho do universo, como o primeiro beijo apaixonado que dás numa boca que desejas há muito, como acordar nos braços do teu grande amor. Acordar, hmmmm... tarde! Acordar tarde e beber um café forte, acordar tarde e transferir o corpo para um sofá onde se fica a ver um filme levezinho, porque chove mansamente lá fora e estás de folga. O momento em que bebes um capuccino doce, o instante em que, desesperado de sono, te deitas numa cama de lençóis lavados, o segundo em que, morto de sede dás o primeiro gole na garrafa de água que finalmente conseguiste comprar. E depois, há as emoções... quando vemos alguém de quem tínhamos saudades monstruosas, ou levamos um abraço duma criança de quatro anos, ou um bébé desconhecido nos abre um grande sorriso, ou somos abençoados com aquelas gargalhadas que só os gaiatos pequenos sabem dar. Até parece que os estou a ouvir...
Morangos, cerejas, chantilly, campos carregados de violetas e papoilas, campos de girassóis e de tulipas a ondular suavemente so sol. O mar à tardinha, dourado. O sol, ao pôr-se, laranja num céu escarlate? não, rosa-choque. Os cheiros, os cheiros... o cheiro da pele da minha mãe, o cheiro do pêlo da minha gata, das penas do meu papagaio, o cheiro a família; cheira a café, a chocolate, a pipocas, a pink lotion, a baunilha, a caramelo, mmmm...
E os vícios? rebentar bolinhas de ar nos plásticos de protecção dos electrodomésticos, comer línguas-de-gato e cerejas, amendoins e pipocas até à náusea, jogar tetris de telemóvel, fumar cigarros uns atrás dos outros porque a conversa está boa, dançar até os pés doerem, rir até doer a barriga e os maxilares, ler um livro de empreitada enquanto te chamam para jantar, é só mais um bocadinho!..., sair duma sessão de cinema para te ires enfiar na próxima, ver os 27 episódios da tua série preferida uns a seguir aos outros quando estás, desde o número 10 a dizer, é só mais um...
E depois, há as imagens: um céu cheio de balões coloridos; outro céu cheio de fogo de artifício, outro céu com um bando de gaivotas; um lago a espelhar outro céu pintado de núvens brancas; um lago aos círculos depois de receber outra pedra; ondas em fúria a bater contra as rochas; castelos altaneiros com princesas presas em torres; vinte mustangs a correr na pradaria em liberdade...
Há muito que vôo alto, querem acompanhar-me? What are your happy thoughts?

domingo, 13 de abril de 2008

21 gramas

Comprei ontem o DVD deste filme espectacular. O realizador surpreende sempre, seja com "Amores Perros", seja com o mais recente "Babel". A fórmula é a mesma, mas não é simples: histórias que, aparentemente, nada têm a ver, acabam por se entrecruzar e formar teias cerradas de sentimentos extremos.
21 gramas, no entanto, mexeu com a minha sensibilidade para além das histórias das três personagens principais. Foi o título, e a sua teoria, que me prenderam a atenção. Sou uma fascinada pela teoria da transmigração das almas. O fascínio não implica a fé; na verdade, não sei bem em que acredito, e a minha parte mais racional e céptica sussurra-me continuamente que, depois da morte, não há nada. Não há prémio nem castigo, não há reencontro com os entes queridos que já partiram, não há novas oportunidades nem recomeços. Isto é o que tenho por mais certo. E, no entanto...
Toda a teoria das almas mexe com os nossos mitos mais enraizados, explica porque temos que sofrer quando achamos não o merecer, facturas vindas de vidas passadas, porque parecemos conhecer pessoas desde sempre quando lhes dirigimos o primeiro olhar, almas gémeas, porque devemos sempre fazer o melhor possível, para a nossa alma deixar de migrar e atingir, finalmente o estado zen, longe do Mundo dos mortais.
21 gramas. Um pacote de açúcar pesa 7, a nossa alma são três pacotes de açúcar.
Eu não acredito muito em almas, mas gosto de imaginar a minha. O meu ser de 21 gramas, com um peso igual ao de todos os outros seres. A minha alma, ao contrário do meu corpo, não é gozada pelas outras almas por ser magrinha, o que é um alívio.
A minha alma é uma alma cor-de-rosa e sorridente, morninha e a cheirar a pink lotion. É uma alma gulosa, que se alimenta das maiores iguarias, e nunca engorda... é uma alma que conhece muitos livros, muitos filmes, muitas pinturas, alguns países, muitas pessoas, muitos bons sentimentos, e está sempre esfomeada por mais. Quando se enfurece, tinge-se de violeta, ou até de vermelho vivo, sangue. Quando se apaixona, vira fluorescente e é vista no escuro, à noite, mesmo que tente passar despercebida. Nas suas 21 gramas cabe um Mundo inteiro de pares com quem troca diálogos intermináveis num simples olhar de reconhecimento.
Não acredito que haja almas. Mas gosto da minha, e imagino-a de formas elásticas e felinas, de gestos seguros e rápidos, de intuição certeira e inteligente. Clever. Smart. Enlightened.
A minha alma felina e cor-de-rosa, paira sobre mim, de perna traçada, sorriso escarninho, um cigarro entre os dedos e um olhar irónico sobre tudo o que a circunda. Bem vindos às minhas 21 gramas. Call them Jade.

Pelos Cabelos

E já que ontem foi dia de pausa e reflexão, hoje é dia de eleições... vamos lá compensar o tempo perdido com uma historieta absurda das minhas.
Como sempre, quando a maré vira, fui visitar o N. É periódico, gosto de celebrar as mudanças, mudando. E ver N. é sempre uma aventura. Isto porque N. é um tipo da minha altura e sensivelmente do meu peso, ou isso aparenta, com ar de puto reguila e auréola de anjo que não parte um prato... e o único homem que eu conheço actualmente que faz de mim o que bem entende. Calado, muito poucas palavras diz, num tom de voz baixo e cara séria, olhos a rir-se de maldade. De cada vez que me vê, atira um "Então, ao que vem?" Agora que penso nisso, acho que se lhe dissesse, olha, venho aqui para ver se me lês uma história de encantar e me fazes um chocolate quente, a reacção seria a mesma. Ele não me ouve, não vale a pena. Desliga quando começo a falar, e faz exactamente o que acha certo, quer eu concorde com ele, quer não... pormenor de somenos importância.
O N. é o meu cabeleireiro, já toda a gente adivinhou, certo?
Hoje cheguei lá e disse, N. é para cortar, e ele, sim, sim... olha-me para o cabelo e diz à Andreia, cor P5, nuances T4, matizados, ampolas Kérastase reinforce, e para mim, estarrecida, passe ali àquele sofá. E eu, cortar, N., eu disse, cortar, e ele, sim, sim, isso também, depois. E eu, não, depois, não, agora. E ele, ouça lá, vamos ter que nos chatear? E eu, não, não, deixe lá isso... e pensei que a última coisa de que precisava hoje era de um fulaninho mal-disposto com uma tesoura na mão. Suspirei, encolhi os ombros e lá fui ter com a Andreia-pincel-em-riste, enquanto N. mostrava o catálogo das cores e das madeixas às outras clientes.
Eu, pintada até aos olhos, folheava todas as revistas cor-de-rosa que lá havia, e ele passava e dizia, parece-me que vai ficar bonito, em tons de laranja e rosa fluorescente, e eu, ai a brincadeira, olhe que eu sou professora, e ele, já cá faltava a ladainha da professora, acha que me mete medo?, e eu, não, espero é que não se esqueça que a sua obra de arte vai andar na cabeça de uma stôrinha de província que não está para ser brindada com um coro de gargalhadas adolescentes a cada noventa minutos, e ele, verde...vou juntar ainda um pouco de verde, e eu, porque é que não me deixou escolher ao menos as cores? porque é que só as outras têm direito ao catálogo? e ele, porque você confia em mim... não lhe expliquei que não queria era ver a versão do Eduardo-Mãos-De-Tesoura em fúria a pegar-me nas melenas...
Chegámos à parte do corte. Então como vai ser? E eu, mentalmente, olhe vai ser como eu quero, para variar, seu grandessíssimo pedante, e pela boca fora, sai-me... é como o N. quiser. É disto que eu preciso, dum gajo que mande em mim, sempre disse. Ele sorriu. Uma resposta à medida dele, pois está claro. Gostava de ter uma franja, arrisco. Nada de muito certinho, nada de menina de coro, uma coisa assim... assimétrica. Excelente ideia, diz ele.
Tenho que reconhecer que saí de lá outra, que era o objectivo. A minha mãe diz que eu estou com um ar "muito sofisticado". Os meus amigos ao jantar disseram que a cor está "muito gira". Não há tons de rosa, laranja ou verde, e achei graça ao resultado final, tenho que dar a mão à palmatória. Estou com um ar de espia internacional, e a ponderar mudar o nome para B(l)ond, Jade B(l)ond. A franja até ajuda ao look... mas garanto-vos que, à primeira lavagem, me vou dar por muito contente se não me transformar em abóbora... ou num simpático ouriço caixeiro.

Aleg(o)rias

Ontem remeti-me ao silêncio, depois de se confirmarem as parcas expectativas que tinha no banco da minha velha amiga Dra F. Tinha que ser, estava à vista, lá se agendou a dita cirurgia e, silêncio, que não se vai cantar o fado, mas se vai voltar ao costume, sempre com os mesmos medos, sempre com as mesmas ansiedades de quem anda nisto há demasiado tempo.
À saída da clínica, eu e a minha mãe falámos de trivialidades. Há muito que deixámos de culpar pessoas e situações, práticas e vícios, desleixos e azares, da situação em que me encontro. Há que aceitar que as minhas feridas, sejam elas físicas ou emocionais, só se curam na base do in extremis. São sempre para marcar, são sempre para deixar cicatriz. Por isso, seja no Bloco Operatório, seja nos meus textos, seja nas minhas aulas, seja na minha cama com a minha almofada, elas cicatrizam; nunca a bem...? que cicatrizem, pois, a mal.
Não vejo nada na minha vida como uma derrota. Nunca me senti uma derrotada. Pelo menos agora que penso nisso a frio, com os meus neurónios, o Tico e o Teco, bem acordados e livres das porcarias emocionais que os sobrecarregam diariamente, das inseguranças de menina que sempre tive, dos medos adultos que surgiram depois, desta obsessão que tenho com a perda de entes queridos; livre de todos esses fantasmas irreais, posso afirmar que derrota por derrota, só o meu Sporting me deixa ficar mal.
O que a vida me demonstra diariamente é que nunca se perde nada que tenha, de facto, algum valor. Só a morte é excepção a esta regra de ouro. As coisas universais estão organizadas em termos de mudança, nada é eterno, tudo se transforma, já dizia o filósofo da Antiguidade. E se esta mudança implica perda, seja de um conforto de um apartamento ao lado da escola, seja de uma pessoa que julgavamos diferente do que se demonstra, esta perda não é uma derrota, é, isso sim, um presente valioso embrulhado em papel de jornal: não tem grande aspecto, mas quando se abre...
As derrotas dependem dos olhos que as vêem. E da inteligência que as avalia. Eu começo sempre por achar que é o fim do Mundo. A minha reacção a quente, quando as coisas dão para o torto, é ficar super infeliz. Dou sempre esse tempo de infelicidade como tempo perdido, uns instantes mais tarde. Não dou por bem empregues nem metade das lágrimas que já chorei até hoje. Não há, contudo, uma única gargalhada de que me arrependa. Por isso, cada vez mais, passo menos tempo preocupada com a mesquinhez e a idiotia dos que falam de fracassos e derrotas.
Não é fácil saber que, anualmente, mais coisa menos coisa, visito um bloco operatório, para a minha dose de anestesia geral. Não é fácil ouvir, de gente leiga que não sabe o que diz, ou de gente preocupada que me ama e se sente impotente para aceitar que não há nada a fazer, frases como"se tivesses feito isto", "se cuidasses mais de ti", "se não te enervasses". Não é fácil explicar que "se" é uma conjunção inútil. Eu vivo o melhor que posso com isto, e faço o melhor que posso, que é viver o mais independente possível dos males físicos. Não meto atestados, não peço transferências, não deixo de fumar, não perco um banho de mar, não como fruta ao desvario (Desculpa V.) . E sei, sei com a minha arrogância que me vale mais que um diploma de medicina, que nada disto me faz realmente um mal maior. Sei exactamente o que me faz mal ao organismo, os venenos que o afectam, e esses, infelizmente, ainda não aprendi a evitar com eficácia, mas estou no bom caminho.
Os venenos desta vida, os verdadeiros, os perigosos, são os que nos consomem a alma e nos impedem de seguir o nosso caminho de acordo com as nossas vontades. E esses são muito difíceis de combater. Têm nomes conhecidos: medo, hipocrisia, politicamente correcto, convencionalmente aceite, mesquinhez, inveja, maldade, irresponsabilidade, inconsciência, ignorância. Uns trazem os outros, e têm efeito bola de neve. Todos eles têm em mim um efeito atroz, porque me afectam profundamente. E recentemente, como defesa, aprendi a rir-me deles e a contra-atacar. A ironia é uma qualidade dos inteligentes, quem não o é, cai no sarcasmo e no ridículo... tem piada na mesma, mas o tiro sai pela culatra.
Combata-se a alegoria de V. numa folha de papel de mesa de restaurante, com a alegria de estar vivo e entre amigos à mesa desse mesmo restaurante. Sempre que sou operada, a minha vida dá um salto qualitativo enorme, exactamente porque o que me leva sempre à decadência física é uma fase longa de desgaste emocional. Tive dois anos, quase três, de atribulações grandes, de enormes mudanças, de picos de felicidade e decepção elevados... a entrada nos trintas foi difícil. Mas também acho que não crescia tanto e não melhorava tanto como pessoa, desde que me morreu o pai. Estou, verdadeiramente, cheia de força e optimismo. Sinto-me de facto, segura, agora que sei, finalmente, o que me espera. Estou confiante no fim do ciclo de coisas más.
O medo cresce exponencialmente ao tempo que demoramos a enfrentá-lo.
Esta Jade tremeu, ontem, dos pés à cabeça, à frente de uma médica que já a conhece de outros carnavais. Esta Jade trémula, ouviu serenamente o que havia a ouvir, com a calma estóica do costume, lágrimas a correr cara abaixo, (Quem disse que os estóicos não choram?), mas sem um queixume, sem uma palavra, o que a esperava e porquê. Esta Jade não escreveu no blogue, ocupada que estava a pôr em perspectiva a sua vida, os seus objectivos, os seus sonhos e os seus desejos.
E digo-vos, aos que me lêem e me conhecem, e conhecendo-me, gostam de mim, e aos outros, que não gostam, digo-vos a todos: esta Jade, meus senhores, sempre foi, é, e continuará a ser sempre, uma vencedora. Para alguns será chato, para outros, inconveniente, para outros ainda, incompreensível, mas é verdade. Aquilo por que luto, alcanço sempre; aquilo de que desisto, jamais me arrependo... e as contrariedades da vida, mais do que lições, têm sido diamantes embrulhados em papel de jornal. Isto é que é a verdadeira aleg(o)ria, V... conseguirá o V2 desenhar isto de forma tão brilhante como a de há bocado, depois do jantar?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Abrigo

Ora aqui está a razão pela qual quero comprar o CD do Gil do Carmo há tanto tempo. Algo de tão simples pode ser tão imensamente belo.
Esta música é o meu porto de abrigo.


Vejo o teu olhar tranquilo,
E uma serena ausência, amor
Madrugada suave no cais
Olho-te bem nos olhos, sim
Choro reflectido no rio, no rio

Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer

Pelo mar adentro vou entrando
Como o teu semblante na memória, amor,
Pescador de sonhos
Vivo a faina pura, dia-a-dia,
Na incerteza de uma vida
Meu amor, eu volto

Fiz-me ao mar de manhã,
Na maré de ti, ao amanhecer,
Fiz-me ao mar de manhã
Na maré de ti, ao amanhecer!

(Gil do Carmo)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Tapete Voador

Hoje houve um tornado em Santarém. Grau 2 em 6. Ventos que chegaram a 180 Km por hora. O hi5 está cheio de novidades: chovem super fives, drinks, gifts, super comments, emoticons e grafittis. Qual a ligação entre estas duas verdades inquestionáveis? Recebi um gift de V., com um tapete voador: interpretei como transporte de saída de Green Acres, e mandei um igual à Mzinha, que partilha comigo o monte alentejano e, consequentemente, todas as preocupações, desconfortos, estafas e queixas inerentes.
Assim, o presente materializou-se. Eu e Mzinha estamos sentadas na soleira (chuveira) da porta de rua, montadas no tapete da entrada à espera do tornado de Santarém. Como chove, pretendemos abrir um certo chapéu de chuva rosa-choque em forma de gato de olhos azuis e grandes orelhas que alguém comprou no Lidl e me ofereceu há uns anos. É , assim, um tapete voador com pára-quedas, o bólide com que pretendemos zarpar daqui para fora.
Mas faz frio. Daqui a pouco temos que interromper a espera para ir descongelar o esqueleto. O optimismo reina: com este tempo aprazível para vôos, temos a certeza que, com ou sem tapete, voamos nós ou a casa inteira, tipo Dorothy no feiticeiro de Oz. A Dorothy é Mzinha, e eu sou uma mistura de leão, espantalho e homem de lata. Sapatinhos vermelhos de verniz não se arranjam, mas tenho uns lindos, tipo Minnie, pretos. É só obrigar a Dorothy a calçá-los, quando chegar o momento... e fazer pontaria contrária à monstra palmeira que nos impede o caminho.
A única dúvida que permanece é o local de aterragem... há sugestões?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Fita Multicor

Talvez tenha descoberto a resposta àquela questão de ontem, aquela sobre esquecimento selectivo, talvez.
Encerra-se a porta do passado, não o procurando, muito simplesmente. Ele está lá, morto e enterrado, porquê ir no seu encalço? não. É mais fácil do que parece, ele há coisas que só por si põem pedras sobre assuntos; domina-se a vontade de chorar com um livro, um exercício que se tem que corrigir; trava-se a obsessão das más memórias aceitando um convite para o quinto café do dia, que se transforma num chazinho à chegada do bar da escola; chora-se, nesse mesmo bar, em frente a uma amiga abismada e aterrada, todos os stresses dos últimos meses.
E depois, fim.
Regressa-se à sala de professores, de olhos inchados e alma limpa, e o sorriso é, finalmente, verdadeiro, e a mente já não é, de repente, bússola de tristezas.
A solução não está em esquecer, está em lembrar, encolher os ombros, tentar entender, desistir de o fazer, aceitar que há pessoas que são mesmo assim, pobres, situações que são mesmo assim, tristes, e fases que são mesmo assim, chatas como a chuva de Abril. E depois de aceitar, largar: atirar à sétima onda como a pulseirinha do Nosso Senhor do Bonfim, e ficar à espera que os três desejos se realizem.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Chuva Ácida

Tinha que ser. Como o que Green Acres tem de bom é o pátio, era certo e sabido que esta semana ia chover. Combate-se o desânimo com crepes de chocolate, leituras de livros leves, melancólicos cigarros e pouco mais.
Este tempo faz-me um mal horrível ao corpo e ao espírito. Ao corpo, porque como toda a gente sabe, tenho um termómetro avariado que dá sinal abaixo dos dez graus; muito especialmente quando é o caso de mudanças bruscas de temperatura: envelheço vinte anos, no meio de ais e uis, olheiras até aos joelhos e cansaço insuportável. A Mzinha atira crepes ao ar com profissionalismo e eu rio-me, a tentar espantar tudo isto.
Hoje, às 8.30 da manhã, eu lutava contra uma ficha de trabalho que estava a fazer, apesar do sono e das dores, e um colega meu, diabético, dizia-me, as nossas desgraças nunca são as piores do Mundo. É verdade. Mas em dias assim, nem as verdades consolam.
Ontem li um livro que contava uma história simples que ensina a lidar com a mudança: apropriado à minha realidade de momento. Fiquei tão animada que julguei que ia ter uma semana fantástica... o que faz uma chuvinha, Meu Deus!...
Hoje é uma Jade triste, aquela que vos fala. Uma Jade assombrada por todos os seus fantasmas, os seus desgostos, as suas inseguranças, os seus disparates, as suas culpas, os seus arrependimentos. As vezes em que podia ter evitado mal maiores. Os momentos em que, apesar da consciência do abismo, se atirou de cabeça. O preço que paga, até hoje, por isso, uma conta que parece não mais se saldar.
Assisto lucidamente à minha vida de camarote... como diz a Mzinha, vale-te de um grosso!... outro amigo meu, recente, dizia-me, porque não evitas tu meter-te em situações que sabes que não são para ti, porque não te respeitas? Tu, antes de toda a gente, não te respeitas, com essa atitude de menina-que-sabe-tudo e que, no entanto, faz sempre, sempre, o que toda a gente quer, o que toda a gente acha melhor para ti, se deixa manipular de forma aberrante, e só diz não quando já é demasiado tarde... porque não dizes não mais cedo? porque só dizes chega, quando em vez de chegar, já houve abusos que ninguém aguenta? É verdade. Passo a vida a fazer e a dizer coisas que não quero, para evitar ser a má da fita, vou enchendo, e quando rebento, sou sempre ainda pior. É como disse outro amigo meu, L., com imensa piada, há coisa de duas semanas, "nem vale a pena dizer que te sirva de lição, que tu não aprendes, rapariga, tão inteligente, tão inteligente e só fazes coisas parvas!" Coitado, é que em Dezembro ele ainda me disse, não fiques assim, é a bater com a cabeça na parede que a gente aprende... para perceber, duas semanas depois, que a aprendizagem não se aplica a pessoas da minha qualidade.
Estou muito cansada. Não e fácil, um dia como o de hoje, em que tudo parece feito de encomenda para me dificultar a vida.
Teve o seu momento mágico, como todos os dias. Talvez tivesse sido o beijo na mão que um amigo me deu, depois de um comentário que lhe fiz, com toda a naturalidade, mas que lhe caiu especialmente bem. Sim, foi o meu momento de carinho e e afeição. Infelizmente, não chega para contrariar a minha tendência de hoje, que é relembrar muitos outros momentos recentes destituídos de sorrisos e beijos, palavras amigas e gestos afáveis.
O livro de ontem dizia que, para encarar a mudança de frente, temos que nos livrar do que é velho. Belo chavão, belo lugar-comum, aponta-se o óbvio e ganham-se rios de dinheiro em direitos de autor... não se explica é como isso se faz. Como nos livramos dos momentos marcantes do passado, sobretudo quando são tão maus que nos trazem as lágrimas aos olhos quando nos afloram a mente? Como se aplica o esquecimento selectivo? E, caramba, como se faz isso num dia de chuva que parece, ele próprio, chorar todos os males da humanidade?

domingo, 6 de abril de 2008

Green Acres

Cá estamos. Escrevo-vos do pátio, com uma vista que seria linda, não fosse uma palmeira, árvore tipicamente alentejana, a tapá-la.
As mudanças, limpezas e arrumações duraram todo o dia, e eu e a minha amiga, tipo almas penadas, fizémos calmamente o que havia a fazer e instalámo-nos no pátio, a comer e a beber sangria em canecas de barro. A diferença entre a nossa realidade e umas férias no campo é pura coincidência... isto se não comentar o facto de que Mzinha, neste preciso momento, prepara aulas de rabo para o ar aqui ao lado sobre um banco, só para não ter que se ir meter dentro de casa, com abelhas a zumbir e passarinhos a cantar, andorinhas em vôos rápidos e o som de carros muito ao longe; e amanhã há aulas às oito e meia da manhã, hey!
Pois é, depois de muito resmungar e queixar-me, este momento, afinal, é quase perfeito. O tempo está óptimo, já liguei ao Pan, por causa da sangria do lidl, parece que mais logo vai haver crepes de chocolate, e a minha máquina fotográfica está a carregar para se encher de instantâneos de Green Acres: o quarto da tralha, a cozinha do campismo, a sala dos beliches, Jade empoleirada numas pedras, Jade de pernas para o ar depois de se desêcalitrar das ditas pedras, Jade no pátio a beber sangria à caneca, Mzinha a preparar aulas no meio de 23654 papéis, Mzinha de portátil no colo, testemunhando um momento tecnológico no fim do Mundo, Mzinha a rir-se enquanto Jade espeta com o carro silvedo adentro... enfim... as fotos vão surgir.
Só vos digo... enquanto a realidade não cair e doer, está um belíssimo fim de tarde alentejana. A sangria está perfeita... são servidos?

sábado, 5 de abril de 2008

O que é que se bebe aqui?

Bem... estou que nem posso, nem sei bem como me chamo. Quais mudanças, quais caminhadas, quais mestrados, quais aulas de Inglês, se querem acabar comigo, ponham-me numa festa duma inocente menina de quatro anos e seus primos, a rondar essas idades!
Cheguei atrasada, claro, a tentar aparecer a uma hora em que os gaiatos já estivessem todos drogados de sono e de doces, cada um a cair para seu lado. Como se diz aqui na Cidade de Deus, "Ora, Adeus", devo ter chegado no pico do Inferno, uma gritaria, uma confusão de balões, papéis de embrulho, adultos com chapelinhos de cartão do Noddy, e eu cheia de embrulhos do meu tamanho, aterro no meio de uma sala apinhada, a tentar não pisar ninguém, a balbuciar um "Boa Noite" de voz bem colocada de stôra, que eram muitos para dar beijinhos, e a ser arrastada por um bando de arruaceiros dos quatro aos catorze anos, olha o que me deram, deixa ver o que trouxeste, Xana dá cá um beijinho, dá cá colo, quero um abraço, tenho sede, posso comer mais um rissol?
Eu vi logo que eles iam acabar comigo. Tive foi a ideia brilhante de oferecer, entre outras coisas, uma corda de saltar e um elástico que parece o sonho de alguém com uma trip de LSD. Um sucesso: foi logo tudo a galopar porta fora jogar ao elástico e saltar à corda! Lá me sentei, lá cumprimentei a família, tão próxima que é como se fosse minha, lá contei as minhas últimas aventuras em Green Acres e lá vieram as costumeiras piadinhas de gente que me conhece há quinze anos, me quer muito bem e acompanha as desventuras e aventuras que periodicamente me entram vida dentro.
Lá me consolaram com uma garrafa de Licor Beirão, que sabem que eu adoro, e me põe bem disposta, depois de fazerem questão de controlar se eu comia em condições e se havia vinho tinto para mim. Vim para casa muito contente, depois de ter cantado e dançado num karaoke infantil, com música selecta que inclui Toranja, Xutos, e também, claro Floribella! Porque eu cá só canto karaoke e dou tristes espectáculos assim, em família!
Valeu-me o meu querido Mestre, o pai da S. que me disse, à entrada, ai, rapariga, estás cada vez mais nova... e à saída, bons olhos te voltem a ver em breve.
Por isso, parece que fui atropelada por um camião tir de matrícula de 2004, mas vim-me embora feliz... de gatas, mas feliz!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Nothingman

once divided...nothing left to subtract.
some words when spoken...can't be taken back.
walks on his own...with thoughts he can't help thinking.
future's above...but in the past he's slow and sinking.
caught a bolt 'a lightnin'...cursed the day he let it go...

nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.

she once believed...in every story he had to tell.
one day she stiffened...took the other side...
empty stares...from each corner of a shared prison cell...
one just escapes...one's left inside the well...
and he who forgets...will be destined to remember.

nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman.

oh, she don't want him...
oh, she won't feed him...
after he's flown away...
oh, into the sun...ah, into the sun...burn...burn...

nothingman... nothingman...
isn't it something?nothingman...nothingman.
coulda' been something...nothingman.



Amo esta música. Traz-me o cheiro de maresia e a paisagem da Nazaré. Um par de olhos azuis, frios como o mar. Uma máquina fotográfica, um cinzeiro, gatos, muitos gatos. Música electrónica. Uma garrafa de vinho com um rótulo a dizer "Amo-te", outra com outro a dizer "Auster". Uma casa pequenina em Sines. Uma noite louca em que éramos dois e um abat-jour, onde quer que fôssemos; dois finais de ano em que a esperança era mesmo real; um grupo de gente divertida, descontraída, unida; as vezes em que me senti a Branca de Neve entre sete anões mais altos do que eu; cartas e bilhetes escritos à mão e escondidos entre os meus pertences, para eu os encontrar quando calhasse; muitas lágrimas, muita tristeza, muita mágoa, mas nunca um grito, nunca uma ofensa atroz, nunca um desrespeito descarado.
Ontem, numa reunião de conselho disciplinar, o representante dos E.E. afirmava que uma avaliação de um desrespeito a uma regra tem que ser feita sem base em termos de comparação com outros casos. E eu ri-me, de mim para mim. A avaliação deve ser isenta, mas também deve ser justa, e a justiça é observável, na prática, através de comparações.
Quando ouvi sem parar Nothingman, achava que a pessoa que me tinha dito um adeus definitivo nessa altura pouco mais era que a pior pessoa do mundo. Nunca lhe vou conseguir perdoar, é certo, mas pode agradecer às lições que aprendi desde aí, uma subida no meu ranking de decência. É que a mudança de New York para Green Acres é uma metáfora da minha vida, e desde aí já vi e já conheci situações bem piores.
E assim, hoje, dou comigo, aliviada, a lembrar pela primeira vez com algum carinho um par de olhos azuis, frios como o mar, e a acreditar que o ódio, tal como o amor, pode não ser eterno.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Teoria da Relatividade

O tempo é relativo. Os relógios páram quando queremos que avancem e correm quando queremos um momento de eternidade; passamos os dias a trabalhar e chegamos ao final da semana sem saber bem como, parece que ainda foi ontem o primeiro dia de aulas, e já suspiro por férias outra vez. Am I normal or am I hopeless?
A minha Leonoreta faz quatro anos hoje e parece que foi ontem que a vi pela primeira vez, linda, que parecia desenhada à mão. Já estamos em Abril: parece que ainda ontem foi Dezembro... e, ainda assim, estas duas últimas semanas pareceram meses repletos de acontecimentos, de novidades, de zangas e gargalhadas, de aulas e reuniões, de férias e televisão, e noites de sono ao desvario e insónias bem aproveitadas, e pensamentos profundos, compras fúteis, conversas sérias, comentários surpreendentes, convites inesperados, sorrisos espontâneos, palavras duras, palavras cúmplices, desespero, paz, dúvidas, certezas.
Como diz Pedro Paixão, viver todos os dias custa.
Pela janela da sala, é tarde e ainda há luz. Se tudo na vida fosse assim, seria uma réstia de esperança, um toque de milagre no profano que é a agenda cheia de deveres e obrigações, tarefas e listas de assuntos a resolver.
A minha teoria, no carro com a minha amiga cá de casa, há uns dias, era a seguinte: todos os seres humanos, quando chegasse a hora de morrer, deveriam ter um bónus pelo tempo perdido. Quanto mais tempo tivessem perdido sem culpa, mais bónus teriam. Eu seria imortal. Tenho um problema sério com isqueiros, chaves, chapéus de chuva e o cartão da escola. Materializam-se e desmaterializam-se com o único intento de me fazer perder tempo precioso, e gozar com a minha cara, aparecendo sempre em sítios para os quais já tinha olhado milhares de vezes. Quando tenho alguma chatice com o carro, é certo e sabido que o meu telefone está sem saldo ou sem bateria. Quando estou atrasada, é óbvio que parto um salto da bota, entorno qualquer coisa sobre a camisa branca ou tenho que voltar atrás porque algo se evaporou instantaneamente da minha mala. Quando estou a entrar na biblioteca, o livro ficou na sala de professores; quando chego à sala de professores, trago comigo o dicionário que devia ter deixado na biblioteca. Estou quase em casa e o livro de ponto aparece misteriosamente no meio do monte de coisas que carrego ao colo, acabo de fechar a porta da sala, quero começar a aula e puf! o mesmo livro de ponto ganha perninhas e raspa-se para o armário da sala de professores...
Viver todos os dias custa. Não tenho tempo para perder tanto tempo. Pareço o coelhinho da Alice, permanentemente atrasado, permanentemente a correr.
Quando for a minha hora, quero um bónus grande como a vida que ficou para trás.
E quero que esse bónus seja livre de chaves, isqueiros, chapéus de chuva, cartões da escola, e, já agora, livros de ponto.

Feliz Aniversário

Ainda não tinhas nascido, já eu te chamava Leonoreta, sem que os teus pais percebessem porquê. Talvez porque te estava destinado o distinto nome de rainha, talvez porque adoro este poema do Gedeão, talvez porque soubesse que ias conquistar-me para sempre, com esse teu feitio difícil, esse olhar perscrutador e curioso, esse sorriso alegre, essa vontade de abraçar o mundo, percebê-lo, absorvê-lo, na tua inata tendência para a asneira. És tão mimada, Leonoreta, e a primeira criança no Mundo que acompanho desde sempre, e que gosto de estragar às escondidas dos teus educadores. Digam o que disserem, venha quem vier, és a minha sobrinha, a minha afilhada, a minha menina.
Feliz Aniversário, minha querida. Hoje é o teu dia... come doces com fartura.




POEMA DA AUTO-ESTRADA

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão (Rómulo de Carvalho, 1906-1997)
in Máquina de Fogo (1961)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Inveja...

A Inveja é uma sentimento muito feio, como canta o rapper.
Estava eu, muito sossegadinha, a dormitar no sofá, a pensar, enquanto dormia, é hoje que me vou deitar cedo, telenovela em pano de fundo, e tu mandas-me uma sms, queres vir ter comigo ao Algarve? o tempo está óptimo...
E eu, que estou a trabalhar, e no meio de uma semana para esquecer, a preparar-me para um fim-de-semana de mudanças para Green Acres, puf,puf, mais um caixote, truz, bate a porta do carro, toc, toc, toc, sobe escadas, desce escadas... vrummm, carro em primeira, olha a gravilha, eu... fiquei para morrer...
Acordaste-me, desassossegaste-me, tentaste-me, e isso não se faz.
Não se faz, jovem.
A vingança é um prato que se serve frio, e a minha vai ser terrível... a próxima vez que me vieres com o discurso ai, e tal, que os professores têm grandes vidas, vais ver com quantos paus se faz uma canoa. (Tricky question, descobri, há pouco tempo, que é só com um...)
Foi-se o sono e a única coisa que me ocorre, obsessivamente, agora, é, que bem que se estava agora aí, na praia, na esplanada, no Algarve, contigo. Obrigada pela lembrança, que não te perdôo.

terça-feira, 1 de abril de 2008

April Fool's Day

Sei que sabes que sim, que percorremos o mesmo espaço e tempo em diferentes dimensões. Como se eu fosse corpo e tu éter ou vice-versa, que nunca entendi bem onde tu acabas e eu começo: o mesmo átomo habitando longínquas galáxias.
Osmose. Olho para alguém que já não és tu e identifico aquilo que em ti é meu, contra-vontade nossa: um certo sorriso, um determinado olhar, um disfarçado suspiro de quem usa a máscara veneziana da comédia para esconder um rosto riscado de lágrimas e marcado por um tempo que avança lento em direcção a lugar nenhum.
De soslaio vejo alguém que já foste tu e surge-me a imagem de uma árvore e o cheiro dorido de um perfume que a memória não guarda, tatuado que ficou num âmago mais profundo de alguém que já fui eu.
Em silêncio, o mesmo olá, bons olhos te vejam, o que andas a ler por estes dias? Imóvel, o mesmo toque suave no teu peito triste.
E se não te olho, melhor te vejo, se não estás, melhor te sinto, se não falas, mais nítido te ouço, de voz suave e grave, de melancólico murmúrio de perdão. E continuamos de mãos dadas, caminhando trilhos de direcções opostas, de pés nus na espuma dos dias iguais.