domingo, 28 de junho de 2009

Conversas de Gajas

Hoje saí à noite com uma amiga. Estivémos um bom par de horas na conversa. E foi redentor. Há conversas que só dá para ter com mulheres. Descrever umas sandálias que vimos há três semanas, por exemplo, até ao pormenor mais ridículo, sem que a outra perca o interesse, muito pelo contrário, dar toda a minúcia dos detalhes e a tua ouvinte acenar, de olhos arregalados, e fazer perguntas do género “salto agulha?” e tu, não, pá “stilletos”, é “stilletos” que se diz… já foste ao site do Louboutin? Do quê? Ai, a minha vida "melher"… do Louboutin, o Deus dos Sapatos, mas tu não vês televisão? Não lês a Elle? E ela, ai, caneco, ando desactualizada, logo eu que adoro sapatos… e eu, e das Melissas, já ouviste falar? E da colecção de havaianas da Bündchen? E ela, conta, conta, conta-me tudo!
Vá lá, ela já sabia que as pochettes agora se chamam “clutch”, mas ensinei-lhes que os macacos ou macacões dão actualmente pelo nome solene de “all-in-one”. E voltámos às sandálias, comigo a dizer-lhe: não eram umas Louboutin, mas custavam cem euros, cacete… cem euros! E ela, olha, estas, foi o que custaram, e eu: são giríssimas, mas repara, as outras seriam para usar uma vez ao ano, com sorte, e ela, pois, e estas também não fui eu que as paguei...
Quem lhas deu, na altura, foi o namorado. Suspirei. Apre, tenho mesmo dedinho para homens mão-de-vaca. Só me oferecem, e já vou com sorte e é raro, livros e filmes em DVD. Ou gadgets. Gadgets, a mim, que embirro solenemente com tecnologias, só uso o telefone para chamadas e sms, e não faço puto de ideia de como as músicas vão parar dentro do MP3. Suspirei de novo. Não sei que raio de ideia passo eu aos namorados, caneco. Está bem que sou um bocadinho a dar para o arrogante-intelectual, mas o que é que passa pela cabeça de um homem para oferecer um livro a uma namorada? Ou a porra de um MP4, ainda por cima feio, porque “não consegui arranjar o cor-de-rosa que tu querias…” (quando a única coisa a que eu acharia piada no dito objecto seria, precisamente, a cor)
Ando com a pontaria muito aquém do desejável. Os gajos acham que eu vou lá com poemas. Que me desfaço de amores com presentes simbólicos. Que suspiro por cartas de amor. Que sou doida por livros, músicas e filmes. E sou. Mas esses escolho eu, compro, peço emprestado, leio compulsivamente nas livrarias, viro a Fnac do avesso, passo a pente fino a Almedina. Isso lá é romantismo?
Flores, também… dispenso. A não ser que seja um girassol no timing certo, murcham e deitam-se fora. Agora, a minha amiga, essa sim, fez-me inveja. Só um homem que sabe bem o que faz oferece à namorada um par de sandálias de cair para o lado. Ou a carteira que ela anda a namorar. Ou um perfume maravilhoso. Ou “aquele” relógio que a faz babar vezes sem conta em frente à montra. Ou roupa, pulseiras, anéis, brincos, écharpes, havaianas, gorros... enfim, a parafernália é infinita e não é preciso serem coisas caras por aí além. Há que ter pinta e dar-nos graxa à futilidade, somos mulheres, caramba!
Daquela vez que o meu namorado me ofereceu o MP4, estive para enrolar os phones à volta do braço para me servir de pulseira (mas era tão feio...). Quando me ofereceram pela vigésima-sétima vez uns poemas (eram sempre de autores diferentes, mas enfim), considerei fazer uns furos nos livros para os prender às orelhas, tipo brincos (mas faltava-lhes um je-ne-sais-quoi de fashion). Uma mulher gosta de presentes que possa usar, que a enfeitem, que possa trazer consigo de amuleto, e dizer "foi o meu rapaz que me deu, não é tão liiiindo?" Tentem fazer isso com um DVD.
Por isso, enquanto hoje se falou de moda e eu dizia à minha amiga: "tu actualiza-te, que estás na Cidade de Deus, e podes estar de patas na lama… desde que estejas calçada de Blahniks…", pensava, de mim para mim, na intimidade do mais profundo ser que, da próxima vez que um namorado me ofereça um presente a que eu não ache graça, hei-de arranjar maneira de o meter (ao presente, não ao namorado) na minha Pandora. Oxalá não seja um aspirador, que ele há gajos para tudo.

13 comentários:

L disse...

Já me ando a actualizar, q isto da ignorância é uma vergonha...:)
Encontrei um blog de alguém q tb entende mt de "Manolo's" e "Louboutin's". Já deves conhecer, mas mm assim aqui vai: minisaia.blogspot.com.
Estes sapatinhos são todos mt buunitos, mas têm dois probleminhas, na minha opinião, claro, preço (evidentemente) e stilettos não são propriamente a minha praia... Estás imaginar-me a andar na calçada da Cidade de Deus com uns stilettos daqueles?? Não tás, pois não? Qual cavalo a trote, qual quê! E além disso, chegava a meio da caminhada e já andava com os sapatinhos na mão, pq já tinha ficado descalça, no mínimo, umas 50 vezes... Cruzes credo!!! Vou andando de sapatilhas, sabrinas e sandalecas compensadas que bem me servem;)
Bjs

Anónimo disse...

Fartei-me de rir com este post. Mas vais dar um nó na inteligência de muitos homens que aqui venham parar... então não gostas de receber poemas? Isso não é normal...
Quanto ao resto, tembém acho que a vaidade deve ser alimentada. Todas nós gostamos de exibir, ou apenas de olhar várias vezes ao dia, para um presente que "nos enfeite" dado por alguém importante.

Vanda

Jade disse...

L., de facto stilletos e Cidade de Deus não combinam, mas é por isso mesmo que estamos desertas de nos pôr a andar daqui para fora, certo? (andar não é bem o termo, mas adiante). Aliás, o que menos combina com a Cidade de Deus somos nós, mesmo de sapatilhas All-Star ou Merrell. (acho que esta cena não se escreve assim, mas não tenho nenhumas, depois confirmo).

Vanda, bem-vinda. Claro que este post foi, em última instância, escrito para fazer rir. E eu não sou para ser levada muito a sério. E neste blogue está bem patente que aprecio poesia. Simplesmente... olha, há poemas e poemas, situações e situações, e se bem que tenhas razão, "não é normal", eu não sou uma pessoa normal, e tenho pena, mas tenho lidado com homens muitíssimo mais anormais que eu. Até a poesia, quando é demais, enjôa. E não se pode pendurar nas orelhas. Nem na Pandora. ;-)

Beijos às duas

Shadow disse...

Best of Jade's SEX and the CITY of GOD's is back ;)

Shadow disse...

Aproveito para dizer que, Merrell, está bem escrito sim senhora. E isso até nem eu calço... Talvez em África! (Já cá faltava a FDP da referência ;)

Jade disse...

Brilhante comentário, Shadow...
Mas eu mudaria o título para LACK OF SEX and the CITY OF GOD... Por onde andará o meu Mr. Big? Não vamos pegar nisto para fazer associações livres, tá?

Shadow disse...

Lembrei.me das associações.. mas evitei.as. E agora vou fugir daqui para não desatar a fazer associações a Mr Big...

- Mão, tá queta.... vamos, IMboraaaaaa jáaaaaaaa que vem asneira.
- Mas eu quer..............................................................

Jade disse...

Exacto... eu até tremi, quando escrevi Mr Big! Sagitária+Nortenha+Viciada em Associações livres=CRUZ CREDO!!!

Também me vou embora que tenho mais que fazer, e a vontade é inversamente proporcional à quantidade de trabalho.

Mirovich disse...

As caçadoras e as caçadas.
Actualmente a cinegética no mundo é de selecção, existem espécies em extinção. Acudam sempre as comunidades de animais mais desfavorecidas. LoooL

Carolina disse...

Não posso concordar mais. A pior prenda que me deram foi uma blusa com ursinhos bordados e chumaços nos ombros, isto já no fim dos anos 90, quando ninguém precisava de ombros de futebol americano... A dita blusa tinha sido escolhida pela menina da loja. Como sabes, foi um dos principios do fim...
A mais original foi um esfregão de arame brilhante para enfeitar a árvore de natal.

Jade disse...

Carolina: ahahahahah... às vezes os presentes são epifanias. Comigo aconteceu o mesmo e nem há tanto tempo assim. Tipo, o que é isto, que merda de cena é esta, nesta altura do campeonato? É que, às vezes, nem a intenção se safa e PUF! Príncipe vira sapo.

Ouve lá, um esfregão? Por muito original que seja esfregão+Natal... se fosse comigo, tinha engolido a árvore inteira, com luzinhas, esfregão e tudo...

LOOOOL, já sei, está-me a escapar a private joke que torna tudo muuuuito romântico e perfeito. BJOS ENORMES

Mirovich disse...

Bolas, era um esfregão sensivel ao toque!
Box! Sensivel ao toque...
quem visse, pensava que fosse para esfregar a loiça. Nop! esfregão sensivel ao toque.
LoooooL

Jade disse...

Olha que bom... assim passava lindamente até nos esófagos mais rebeldes! Imagino que tenha sido uma ideia tua... que romântico, Miro, que bonito, joga as mãos aos céus pela mulher que tens, que se fosse outra, como eu, ainda hoje arrotavas a palha de aço...
LLOOOOOOLLLLL