sábado, 6 de junho de 2009

Post-Scryptum à Cereja

Lembrei-me, entretanto, de uma frase de um colega, há muito tempo, no ano em que dei aulas no Norte. Já falei dele, do F., um rapaz que trarei sempre num lugar especial algures no ventrículo esquerdo, juntamente com mais dois ou três seres, da altura, que trocavam os vs pelos bs, mas não trocavam nada do que se pode chamar "importante": não trocavam elogios por achincalhos, obrigados, desculpas e gosto d ti por silêncios. Não trocavam amizades por interesses, nem tempo de qualidade por pressas indiferentes. Não trocavam a sua dignidade por nada, e preferiam morrer a ser desleais. Um ano inteiro, pelo menos.

E F. disse-me um dia, enquanto eu, insegura, lhe perguntava: "Achas que fulano de tal achou que eu estava zangada com ele? Opá, sou tão bruta a dizer as coisas, que merda!" E ele respondeu-me, estupefacto: "Tu, zangada? Fu*da-se, rapariga, diz lá, tu és capaz de te zangar realmente com alguém? Ninguém acredita nesta escola que isso é possível... tu, zangada. Havia de ter a sua graça. Já toda a gente aqui te deu razões mais do que suficientes para levar três estalos. Tu só resmungas e ris-te. Tem juízo, pá. Cresce. Quando cresceres, talvez te tornes capaz de te zangares a sério com alguém. Ou não, que és uma paz-de-alma".

Terei crescido finalmente, ou continuarei a mesma banana de sempre? Ai, F., a falta que tu me fazes!... As vezes que eu ouvia "A Moura tem a mania que é má", e me passavam logo as fúrias num sorriso de menina apanhada em falso.

Aposto nas dores do crescimento. Porque deixar de falar às pessoas de que não gosto e que não gostam de mim porque não há entendimento possível, é uma coisa. Zangar-me com outras que me dizem muito, é outra completamente diferente. E desde aqueles anos no Norte, infelizmente, isso tem acontecido. Hoje, por exemplo, estou mesmo muito zangada. Mesmo muito.

E eu só gostava de saber se fui eu que cresci, ou se, simplesmente, a malta do Norte me dava a volta com uma limpeza sem igual. Não levando a sério a minha resinguice. Mas, sobretudo, dando-me, todos os dias, razões para estar bem-disposta. Aquela malta sabia levar-te à certa, dirão uns. Tratavam-te bem, diz, simplesmente, o meu ventrículo esquerdo.
Só concorri até Coimbra. Devia ter concorrido, pelo menos, até ao Porto.

F., estejas onde estiveres, de pijama e apito, que estejas bem, e que continues a ver as pessoas à transparência. Era incómodo. Era embaraçoso. Mas foi inesquecível. E a prova está aqui, nove anos depois, num acesso de saudades. Um beijo do tamanho do Porto, que toda a gente sabe que é uma Naçon!

3 comentários:

teia d'aranha disse...

Também temos em comum esse apreço, esse carinho especial pelo pessoal do norte... Também eu era chamada de "moura"... Eu convivi 2 anos com pessoas que jamais esquecerei, que me trataram, desde o primeiro minuto, como se eu fizesse parte da família, que me abriram a porta de suas casas como se fôssemos amigos de infância... E eu, que sempre me fui de guardar distâncias, de estar de pé atrás com receio de levar mais uma "pancada", fiquei totalmente desarmada e rendida por tamanha generosidade e, sobretudo, pela autenticidade de carácter... E ainda hoje, e já passaram 4 anos, me desloco duas a três vezes por ano para simplesmente ir jantar com eles e passar momentos que me fazem acreditar que ainda há gente que vale muito a pena... Que saudades!

Um beijo e espero que o que resta do fim-de-semana te dê ainda motivos para sorrir

Shadow disse...

tb eu só concorri até coimbra. Também eu devia ter concorrido um pouco mais a baixo. Até Lisboa pelo menos.

E... Ontem foste a minha cereja lol. Mas isso foi ontem que hoje é um novo dia e vesti-me de amarelo e vermelho (que não deixei as coisas por menos).

Jade disse...

Teia, como te compreendo. Eu nunca mais os vi. Mas,como disse, trago-os sempre comigo. E de vez em quando, a saudade dói (normalmente por comparação à realidade actual...)

Shadow: pode ser que a gente se encontre, então, em Coimbra! Tinha muita piada...

Bjos às duas