Fim-de-semana sui generis. Aparentemente igual aos outros, se exceptuarmos o facto da Mzinha ter ficado para Sábado, por causa de uma Acção de Formação. Claro que na sexta fomos jantar fora, beber uns copos, ouvir música numa esplanada, ver gente, deitar conversa fora, relaxar. Logo aí, sem ter que enfrentar a neura de sexta à tarde sozinha, o tempo passou muito menos agreste que o costume.
Depois veio o sábado e a festa do segundo aniversário do meu sobrinho, festa de família na Cidade de Deus. Nada do outro mundo, não fosse a mentecapta da Jade ter escolhido precisamente esse dia para uma maratona “Anatomia de Grey, 5ª temporada” Cheguei a casa da família com os olhos de uma boga congelada há três semanas. A malta a olhar para mim em pânico, como se me tivesse acontecido alguma tragédia de última hora e eu, muito envergonhada, a balbuciar, eu até gostava de arranjar uma desculpa menos idiota que a verdade, mas o que se passou foi que estive a ver uma série, e… serei gozada por isto até ser velhinha. Adiante.
No domingo estive a cristalizar emoções. Na minha douta opinião (sim, neste caso, a minha opinião é douta, visto que sou doutorada na dita série, sei de cor deixas, trato as personagens todas pelo nome e vivo tudo aquilo como se de amigos reais se tratasse…) é a melhor temporada de todas, com o melhor último episódio de sempre.
Ainda agora me sinto atordoada. É uma temporada sobre a amizade, sem dúvida. É uma temporada sobre o nascimento de grandes amores, sobre olhares subtis, toques de mão discretos, palavras dúbias, uma delícia nostálgica. E é, sobretudo, uma temporada sobre o tempo e sobre a morte. É uma temporada sobre o momento, e o poder da palavra dita. É uma temporada que grita que o silêncio não é de ouro, e que tudo aquilo que não é dito em tempo corre o risco de assombrar os vivos no resto dos dias que passam em ausência dos que partem primeiro.
Aquele último episódio é uma bofetada dada com toda a força no rosto do espectador desprevenido e manipulado pelas acções a obcecar com pormenores; é uma alegoria das nossas vidas: a rat-race, em constante resolução de problemas, em constante organização de agendas, em constante selecção de prioridades. A vida moderna, agarrada enfim ao detalhe e descurando o quadro geral.
O que é mais premente? Decisões, eficácia, sucesso. O jantar, os testes por ver, as aulas a preparar. O que é mais razoável? O orgulho forjado para fazer perdurar a dor de quem nos ofendeu, o desdém que se oferece àquela gente que nos olha enjoada, o silêncio diplomático quando a nossa alma grita impropérios, a indiferença fingida quando estamos tudo menos indiferentes, e nos cresce uma enorme fúria ou o mais profundo amor, e engolimos as palavras, adiamos o discurso, deixamos para amanhã o beijo, procrastinamos lágrimas, abraços, confiamos ao tempo que passa a cicatrização das nossas feridas, deixamo-las ao ar. Tudo pelo bem maior que é ficar bem na fotografia e agarrarmos o respeito geral.
A minha verdade? Tudo uma grande perda de tempo, tudo absurdo. O último episódio confrontou-me com o ridículo das acções que consideramos, diariamente, as correctas, as equilibradas, as sensatas, as razoáveis.
Para sermos respeitados, temos que ser muita coisa. Temos que ser cada vez mais e melhores. Temos que nos distinguir dos outros, que nos evidenciar, mas pelos parâmetros que eles traçam. Não podemos ser fiéis a ideias díspares. Para sermos respeitados, temos que ser mais e melhores que o convencionalmente aceite. Mas nada de transgressões, nada de inovações, nada de divergências, nada de alternativas. Temos que ser mais trabalhadores, mais competentes, mais coerentes, mais fortes. E isso implica esforço e dedicação a causas que nos pagam o ordenado e que, com alguma sorte, nos dão também prazer, mas que, em muitos casos, nos transformam em robots programados para mostrar, não para fazer. Para ostentar, não para ter. Para fingir, não para sentir. E andamos todos a perder o nosso tempo, enquanto calculamos os meios para não fazermos tristes figuras de nós próprios, remetendo para os confins da alma a nossa genuinidade, os nossos quereres, as nossas atitudes mais naturais, just to belong.
“What if”… o que acontece quando pensamos pela nossa própria cabeça e valorizamos outras qualidades que não a competência, a eficácia, o sucesso? O que acontece se não nos apetece o orgulho, a gabarolice, se não nos apetece parecer bem, se não nos apetece parecer, se só queremos que nos deixem, simplesmente, “ser”?
O que descuramos, para nos defender? Quase sempre o melhor de nós. Evitamos conversas com amigos noite fora porque há que trabalhar cedo no dia seguinte. Faltamos a convívios porque temos mesmo que acabar aquele projecto. Não nos desviamos do caminho para tomar um café porque temos a casa por limpar. Não dizemos palavras importantes por termos a certeza de que serão mal-interpretadas, porque não nos queremos expor, porque não queremos ser magoados. Porque não queremos perder a dignidade, o respeito, não queremos dar o flanco, ficar vulneráveis.
Valerá a pena? Valerá a pena, chegar ao fim do dia com a consciência do dever cumprido e com tudo o que é importante por dizer? Valerá a pena chegar ao fim do dia com a dignidade intacta mas com a sensação de que o tempo passa, e o silêncio que usas como máscara ou armadura de gladiador te esconde, isso sim, a verdadeira essência do resto do Mundo?
Amizade, Amor, Tempo, Morte. “Já disseste hoje amo-te? Já disseste, és importante, preciso de ti na minha vida? Hoje? Traça um objectivo. Persegue-o. Mas, de vez em quando, pára. Bebe o momento. Porque amanhã, tudo poderá já não existir” (Meredith Grey, último episódio da quinta temporada, discurso final, mais coisa menos coisa).
... algumas palavras são de diamante. Duras mas brilhantes. E tão raras, únicas e preciosas quanto absolutamente essenciais.
4 comentários:
Grey's Anatomy - s05e06 - Life During Wartime
"Algumas guerras nunca acabam. Algumas terminam numa constrangedora trégua. Algumas guerras resultam... em vitórias absolutas.
Algumas guerras acabam com ofertas de paz. E algumas guerras... acabam em esperança. Mas todas estas guerras são insignificantes... Comparadas com a mais assustadora de todas as guerras... A que ainda temos que lutar."
A 5ª temporada é isto. O teu post, para mim, é isto. A vida. A vida é isto.
Corro o risco de me tornar repetitiva, mas sempre que leio um post teu, a vontade de comentar é muita. No entanto, fico sem palavras porque pura e simplesmente já disseste tudo...
A última tirada da Meredith é genial e deveria ser lida por muito "boa gente". Eu, felizmente, tenho aprendido a dizer muito do que me vai na alma, o bom e o mau. Não me coíbo de apontar eventuais atitudes menos positivas, mas também não economizo um "gosto de ti", um "tenho saudades tuas", mesmo que o eco desse sentimento não se faça ouvir...
Um beijo
Shadow, este comentário fez valer a pena o facto de me ter falhado a última frase, por burrice tecnológica. Porque o teu comentário seria diferente, e eu adorei este.
Teia, bem-vinda de volta. A quinta temporada dá-nos páginas e páginas de citações tão ou mais brilhantes que esta. E o melhor pedido de casamento de todos os tempos. E... bem, só vendo.
Beijos às duas
Também amo esta série e acho que esta é sem dúvida a melhor temporada. Não foste a única a chorar, chorei muito na última quinta-feira, muito!
Bjs
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