sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Vã Filosofia

Hoje não preguei olho. A minha ansiedade fez-me lembrar o pânico infantil do primeiríssimo dia de aulas, quando és, de facto, deitado ao Mundo pela primeira vez e estás sozinho no meio duma multidão de desconhecidos. Sabes, explicaram-te com toda a doçura do amor maternal, que é tudo gente inofensiva, que vais fazer amigos, que vais aprender, que é tudo para teu bem, mas no momento em que o que é familiar te vira, enfim, costas, só o cheiro denso do medo é real.
Assim passei eu hoje a noite, olhando as horas passar no écran do telemóvel, virando-me e revirando-me na cama, a tentar adivinhar os cenários do que me esperava. Muitas questões, muitas dúvidas, muitos receios. O desconhecido total no meio de um conhecido desolador. Parece até que saber exactamente quais as caras que ia ver tornava tudo mais penoso, o abismo por meio da incógnita do que iria calhar em sorte, a mim e aos meus, neste próximo ano de trabalho.
No fundo, o princípio do fim de um ciclo.
Tratando-se de um princípio, restava saber com quem trabalharia e a que horas, este ano. Como estariam distribuídas as pessoas de quem gosto e com quem me preocupo. Tratando-se, simultâneamente, do fim do ciclo, o mistério era, como vou lidar emocionalmente com tudo isto?
Lidei mal. Que surpresa... Passei o dia a pairar, a comer pouco, a desejar estar no extremo oposto do universo. Mal entrei na escola, lembrei-me imediatamente do mesmo momento de anos anteriores, do que era a minha vida então, do que foi o meu caminho, dos principais obstáculos, das coisas que fui perdendo e encontrando, do que tinha, do que tive, do que abri mão.
Feitas as contas, disse à Li: receava que me custasse mais, e lamento que não me tenha custado menos.
A distribuição de serviço foi pacífica, o horário, surpreendentemente, também. Num ambiente de início de trabalhos, o que mais me afectou, e derradeiramente, foi o confronto com o tempo que passou e com as mudanças que este espaço-escola viu surgir na minha vida. Esta escola assistiu de camarote ao fim da minha vida amorosa: era uma vez, fui muito feliz aqui. Houve dias, raros e preciosos, em que cruzei estes portões com o coração literalmente a cantar. O amor é duro quando morre só de um lado, e do outro vai definhando com o passar dos dias, lenta e dolorosamente. Parece que, quando a primeira pessoa do plural passa ao singular, nada mais havendo a fazer que encarar as costas do duplo e engolir as lágrimas antes que estas nos afoguem, nessa espera, enquanto o outro vai desaparecendo devagar, qualquer coisa de doce, generoso e genuíno se perde para sempre.
Foi essa a sensação que me perseguiu todo o santo dia, como um lamento, uma prece, um sussurro. No início do fim do ciclo, hoje chorei o meu amor perdido. Chorei-o exactamente com a mesma força do dia em que o perdi. Só que sem lágrimas, sem soluços, sem suspiros. Apenas com a mesma falta de ar e de apetite, a mesma saudade e o mesmo vazio que vou esquecendo gradualmente e que me invade quando tenho medo e a sua mão já não segura timidamente a minha.

10 comentários:

Anónimo disse...

Tu, durante a noite e eu durante a viagem que parecia que nunca mais terminava. uma viagem que na vez dos 250 Km, foram nada mais do que 2500 Km e com a cabeça sempre a rodar,... ano lectivo, as turmas, ... o trabalho deste ano e claro com atenção ao limite de velocidade e aos radares.
beijinhos

PS: só tenho pena da quinta de tarde que não tenho livre para ir a reunião semanal do grupo mais porreiro da escola.

Anónimo disse...

Também pensei em tudo isso quando cheguei à escola... No primeiro ano... casei-me! No segundo passei pela pior experiência da minha vida, em que perdi uma pessoa singular da qual sinto tantas saudades... e por causa dessa pessoa ganhei uma afilhado lindo que cresce a olhos vistos! E agora... neste terceiro ano preparo-me para aquela que espero ser a experiência´de uma vida! Pois é... a mesma escola, as mesmas paredes, quase as mesmas pessoas e tanta coisa mudou nas nossas vidas... Mas o núcleo duro mantém-se... e esperemos que a amizade se perpetue no tempo... Bom ano lectivo! Esperemos o que este nos reserva...

Jade disse...

Pois é, minhas lindas, só espero que este ano que aí vem seja rico em ganhos, que de (m)perdas estamos nós todas fartinhas!

Anónimo disse...

Belíssimo texto. Tens mesmo jeito para a escrita.Parabéns. ( O facto de esscrevermos sobre o que nós próprios experienciamos também ajuda, né?)
Bj

Jade disse...

Obrigada. De facto, saber do que falamos ajuda muito. Volta sempre.

Sol disse...

Jade, vim mesmo espreitar e prometo que vou voltar. São 3h41 e estou estoirada, as insónias andam a dar cabo de mim... Não consegui ler tudo o que queria, só o suficiente para dizer "tão bom"! Revi-me em muitas, muitas, muitas coisas!
Muitos Parabéns pelo blogue!

joana disse...

Oi..descobri por acaso o teu blog..mas fiquei logo rendida...como compreendi as tuas palavras neste post...sou professora..mas este ano...a vida deu muitas voltas e tive que arriscar e começar a trabalhar numa área diferente...bem...esta semana que foi 1ª custou.me tanto...
vou continuar a espreitar o teu cantinho.beijinhos

Jade disse...

Pois é, sol, eu ontem ao ler os teus posts pensava, que engraçado, este tema, também escrevi sobre isto... adorei o teu blogue, já est+a nos meus favoritos! Volta sempre!
Lady in Red, muito obrigada! Espero que apareças mais vezes: e muita coragem, para as mudanças que aí vêm.
Beijinhos!

Susana disse...

Apenas te queria deixar um grande beijinho pelas tuas palavras do outro dia. Queria dizer-te tantas outras coisas, mas a hora já vai avançada, os neurónios por esta altura já discutem uns com os outros e então decidi ir dizendo-te aos poucos. Temos tempo (uma das minhas frases favoritas, por sinal)

Bj da Susana aka Gaja

Anónimo disse...

Jade sweet Jade, eu já tinha visto o seu blog em tempos. Na altura não adicionei no meu blog.
Ontem, num outro blog fala da Jade. Vim aqui espreitar e lembrei-me que já o conhecia,pelo jeito que tem em escrever as banalidades do seu dia, os sentimentos,alguns escondidos , mas que se lêem nas entrelinhas.
Como outros blogs que adicionei e que todos os dias vou espreitar, faço-o também consigo. Tomara eu que os meus dedos se perdessem neste teclado e dissessem o que me vai na alma.
Já aconteceu, confesso. Admirei-me com o que escrevi, mas não está editado no blog... Não tenho coragem.
E, por vezes, como diz a Jade, olho para isto e não sei o que escrever. Fico daaaaahhhhhhh! Então recorro ás imagens e escrevo o que me apetece, quando algo sai...
Como já aconteceu no fim de semana passado, vou trabalhar. Deveria sair e tirar partido da noite mas como começou a chover,fico por aqui. A Lurdinhas não paga para isto, mas que seja pelos miúdos.
A anónima (um diz destes comunico meu blog...e tenho 2)