Isto é do pior que há. Do mais politicamente incorrecto que existe. Mas eu sei que toda a gente é assim, embora só alguns alucinados como eu o reconheçam: eu tenho alunos preferidos. Pior, tenho turmas preferidas. A cena dilui-se, enfim, porque são muitos. E, verdade seja dita, prefiro-os sem os beneficiar nas notas. às vezes até acho que tenho tendência para gostar dos piores alunos, acho-lhes graça, sei lá. Normalmente, os que têm mais piada são os cábulas.
Há uma turma, então, que me enche as medidas. Só dizem disparates, e a minha vontade é passar a aula a meter-me com eles, a saber dos seus problemas existenciais, a picá-los, a dar-lhes atenção e conselhos. Não posso, claro está, por isso adoro as primeiras e últimas aulas do período, que são muito mais informais. Hoje vim para casa com a memória dos sorrisos, das gargalhadas e das piadas, das férias deles e dos resmungos por estar de volta, os protestos "A professora vem um bocadinho acelerada, não? Vá com calma...", "TPC??? Deve estar a brincar...", desculpem lá, mas se tomam café nas minhas aulas, trabalham em casa o que deviam ter trabalhado aqui, ora essa!... "Ok, stôrinha, é justo, é justo... gostamos tanto de si!".
A minha vida interior (que piroso!) não está para grandes risos, está mesmo bastante lunar, mas não consigo evitar abrir um grande sorriso ao lembrar as macaquices dos meus queridos, as bocas ao novo look, os gestos a gozar com a minha franja-Mata-Hari, os murmúrios, "fashion, muito fashion", e os desabafos, em voz baixa mas audível, "já cá faltava a porcaria do Homework..."
E pensar que só os apanho a meio da semana... estava cheia de saudades deles!
6 comentários:
PS: Li-te, pela ausência, em dose dupla. Com os olhos a ficarem esbugalhados no ecran. Sorri. Ri. E pensei: “Porra, é isto mesmo”. E depois comecei a escrever algo enquanto me ri-a dos porquês de estar a abanar a cabeça e sorrir. Provavelmente seria algo a enviar para o e-mail... mas como não tens no perfil, aqui fica.
Contexto:
Hoje passei por aquela (ainda) sensação desconfortável de entrar numa nova sala dos professores e… Não conhecer, colegas, funcionários ou mesmo o que está por detrás da divisão de armários que temos a bloquear caminho.
Depois disso, e uns poucos, kilometros de carro, passei também pela sala dos professores onde entrei ainda na barriga da minha mãe… Naquele espaço mágico, onde apenas a sala-anexa-de-chuto (leia-se sala dos fumadores – hoje finalmente extinta) me era negado, passei de feto, a mascote, a aluna, a ex-aluna, a futura colega, e hoje (finalmente!) colega. Ainda hoje todas as salas dos professores me parecem estranhas quando por oposição a esta ficam no cimo de escadas, não tem bar permanente, não têm sofás de onde não apetece levantar nunca, dezenas de jornais e revistas espalhados…
Foi aqui que fui sonhando e dizendo a professores - que hoje me abraçaram de felicidade – e a outros que por ali passaram, o que queria ser quando fosse grande. Queria ser assim como escreveste, como alguns que por ali passaram. Talvez por isso tenha deixado de juntar o Inglês e/ou Historia sempre que dizia que queria ser Professora, pelo meu 7º ano a Educação Fisica tinha já a exclusividade.
Vantagens de ser de educação física:
- Normalmente os piores alunos nas outras são os melhores a ed física.
- Não há testes, não há cabulas: Só mesmo gente bem disposta lol
- Volta e meia (regra minha 2 vezes mês) bota lá dar uma aula toda bem disposta com algo que faça rir, mexer e chorar por mais.
- Achava que não tinha de perder horas intermináveis a corrigir o que quer que fosse (na minha altura ainda não tinham inventado os relatórios para quem não faz aula) :(
- Poder praticar desporto todos os dias, bastava-me jogar com eles .
- Ter sempre algo com que alimentar o ego e vocação. Basta dizer “hoje também jogo”, para haver logo os mais rasgados elogios, carinhos e promessas no sentido de vencer a guerra e ganhar o privilegio de poder ser da equipa da professora (e quase sempre ganhar – nem que se mudem as regras hehehehe).
Enfim, é tudo isto e tanto mais. O ser PROFESSOR(a).
Quando temos o bichinho cá dentro, no inicio gostamos de ser professores de tudo de todos, basta respirar e mexer. Mas aqueles miúdos bem-dispostos, de olhos vivos, com personalidade brilho próprio… Sabe tão bem ir para aquelas aulas! E como o mundo é pequeno, e Portugal uma aldeia… Também para mim a Anaisa faz parte desses “miúdos”, conheci-a já “grande”, uma linda menina/mulher…
Entrou para universidade com a simplicidade, humildade, inocência e bem-querer de menina, e, com a cabecinha, sonhos e maturidade de mulher, no ano em que comecei a dar aulas. Vi nela quem um dia fui. E, o prazer que foi poder ir ensinando algumas coisas de matérias, da vida, do curso… a alguém que tem tanto potencial, a alguém que tem o mundo ansiosamente à espera, do que ela tem para dar, para ser um pouco melhor.
E porque há dias em que nos sabem tão bem ser professores, ontem apesar da tristeza de deixar amigos para trás, despedi-me dessa “menina/mulher” com um sorriso que há algum tempo me tinha deixado a face. Ligaram-me a dizer que hoje era dia de entrar numa sala dos professores nova… Tenho, de novo, alunos =)
Shadow, que feliz coincidência, teres sido professora da Anaísa! Somos professoras de sorte, acredita. Não sei se não haverá professores a passar toda uma vida sem encontrar uma aluna tão especial como ela. Aliás, seres humanos assim, são raros. Boa sorte, na selva que é, hoje, o ensino básico e secundário da escola pública, onde os adultos são bem piores que os piores dos adolescentes...
Beijinhos
Nao fui professora... fui um hibrido :)
Era, pela diferença do 5º para o 1º ano do curso, (como ela insistentemente me tratou durante meses juntamente com o horrivel "voce") Grã-Mestre. O facto de um ser bastante amiga de alguns professores dela, de ter alunos da mesma idade.. acabou por me levar uns tempos a essa posição de hibrido.
Hoje fica apenas a admiração mutua. Por tanto treino de convivencia cmg e com amigos amigos professores e professoras que fui apresentando e trazendo, ela já começa a perceber(como todos os alunos que o deixam de ser)que está raça (professor), no fundo é feita por pessoas normais, igual a mim, a ti.. e Com uma "pancada" ao ponto de dizer "ehhhh, mas Vá, Agora acabou, e porque nas aulas ainda À coisas serias Tudo a prestar atenção a mim que sou alta, linda e boa" :D
(Mas é tão bom, ver que ser professor continua a ter aquele brilho misterioso em que se fazemos uma maluqueira qualquer na pior das hipoteses somos uns fixes excentricos!! :)
A gente reclama, reclama, reclama, mas afinal... É quando lá estamos que estamos bem! Tu com os alunos, eu com os doentes. Tinha tantas saudades disto tudo... Já me tinha esquecido como é bom! =)
Boa sorte para a época (e aperta com eles que eu ando seriamente preocupada com a quantidade de oligofrénias que tenho encontrado, por falta de uso da massa encefálica...)! =)
Beijinho *
P.S. Eu tb tenho doentes preferidos! =P
Cheguei, li e gostei.
Da forma como desabafas para este pequeno ecran coisas mais ou menos banais de uma vida.
Gostei e vou voltar.
Não sou professora, mas em tempos pensei ser, tal como o Shadow, de educação física. Mudei de ideias e segui, não pelo corpo mas pela mente - área das Psicologias.
Tudo porque gosto de pessoas, de as conhecer por fora e por dentro, de as aliviar, de lhes poder dar um pouco de mim.
Assim como tu, gosto de poder lidar com elas, de lhes fazer bem, e do bem que elas me fazem.
Rosa Xhoque, bem vinda, e muitos regressos...
Sol... que dizer? Haja médicos, enfermeiros e auxiliares com a tua sensibilidade!!!
Beijinhos
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