domingo, 21 de setembro de 2008

Memória

A memória é uma ficção, uma história baseada em factos reais que filtramos com a nossa subjectividade emocional. A nossa biografia não deixa de ser ficcional, o que realmente vivemos perdeu-se num espaço longínquo, que o nosso tempo tenta organizar, reconstruir, muitas vezes até reviver, mas que não é real. Já li sobre isto, e hoje apercebi-me disso na pele quando, num acesso de solidão e desespero, me lembrei de momentos passados felizes e me perturbou a força desses sentimentos, como se o que vivi anteriormente fosse tão mais precioso que a minha presente existência. Enquanto chorava, contudo, assomaram-me ao espírito vários outros instantes, com a mesma pessoa, a mesma relação, em que fui profundamente infeliz. E fixando-me nesses períodos de tempo em que estava acompanhada e, ainda assim, chorava as mesmas lágrimas de hoje, pensei que, de facto, até o nosso passado é exactamente aquilo que queremos que seja: grandioso, para lhe sentirmos a falta, ou tristemente avassalador, para podermos seguir em frente, à espera, ou à procura, de diferente. Para melhor.
Todas as memórias são ficção. Há que usá-las em nosso proveito, e encaminhá-las para um final feliz.

7 comentários:

José Maria Paínha disse...

Ao começar mais uma segunda feira de trabalho (esta muito penosa, em parte pela dureza do fim de semana...) nada melhor que passar pelo teu blog, logo com um tema que me é muito caro a memória. A História que eu estudo e ensino muitas vezes não é mais do que isso, uma permanente e etrna urdidura de memórias indivividuais e colectivas, sempre ao sabor da subjectividade do Historiador. Pois é cada um de nós é um "historiador" de si próprio, mas quando vamos desenterrando o passado, a opção de ver o copo meio cheio, ou meio vazio é sempre nossa, independentemente daquilo que tenha sido a nossa vida.

Uma boa semana de trabalho

Shadow disse...

Concordo, pena a preguiça de domingo que morde no calcanhar a vontade de deixar as memórias para lá.

Acho que a solução está em vencer a preguiça da semana... e tomar o domingo como nosso.

Jade disse...

Pois é, Painha, essa questão é a questão fulcral da História... o que é, de facto a História? Será realmente uma "Ciência" humana? Na literatura a questão surge na Biografia e na autoria: será um texto pretensamente ficcional independente do seu autor? Poderá ser abordado só como texto, será pertinente ignorar toda asubjectividade que se esconde por trás dele e tem sempre uma intenção? Estou a braços com isso, com o meu Auster...
Ai, Shadow, hoje que é Segunda, só queria que fosse Domingo... LOL!
Beijos

Anónimo disse...

Jade,

Porque lhe chamas a Cidade de Deus?

Tretices curiosas para ti

Shadow disse...

eu só queria que fosse 5ª... apesar dos km e horas a conduzir sp ia à cidade dos sonhos almoçar com amigos e jantar com outros. (e da forma cm o dia correu hoje.. a sensação de já só faltar 1turma de indios era qualquer coisa muito bem vindo)

Jade disse...

Tretoso... Cidade de Deus, na verdade, para não lhe chamar coisas piores. Um desabafo. Mas, se pegarmos no filme, esta cidadezinha acaba por funcionar um pouco como favela caótica de emoções humanas, em que toda a gente mora em cima de ti, acha que te conhece e se permite a violências, às vezes descabidas, outras surreais, continuando a dormir em paz com a sua consciência. É um microcosmo sui generis e um pouco agressivo, em que o segredo é descobrires outros como tu, para incluires no teu gangue. Um beijo grande,
Jade

Jade disse...

Shadow... coragem. As turmas de índios, muitas vezes, acabam por ser docemente inesquecíveis. E muitos índios têm guardados futuros que agora julgas inacreditáveis!
Beijo
Jade