Não me tem apetecido escrever. Por inúmeras razões que até viriam ao caso se as soubesse enumerar, mas não sei. Sei, contudo, que há sempre motivos subjacentes a tudo, especialmente à falta de vontade para fazer as coisas de que habitualmente gostamos.
É a decadência, diria eu à minha amiga Carolina, com o meu ar indiferente ou melodramático.
E foi exactamente isso que lhe disse hoje, ao almoço, sobre determinada atitude minha. E esse comentário en passant deu um post brilhante, dos dela. Aliás, deu dois, que inspirada no dela, aqui vai o meu.
Acho decadente... tudo aquilo que escrevi no comentário que lhe fiz ao post e que espero que ela aceite; se não o aceitar, é a decadência absoluta. Ide lá ver, não me vou repetir. E também acho decadente...
- trabalhar quando está meio-mundo de férias, e estar de férias quando a maior parte dos teus amigos está a trabalhar;
- ouvir música pimba à pressão porque o teu vizinho de baixo adora, e ainda por cima deve ser surdo;
- ver horóscopos todos os dias apenas para poderes dizer mal da astróloga ou da tua vida;
- comeres o que te dão quatro canais porque não te apetece levantar do sofá para pôr um DVD;
- apetecer-te um bruto bife e comeres uma taça de cereais porque não foste às compras;
e também acho decadente, e aí não tenho culpas no cartório, pronto, são coisas que existem e não posso fazer nada contra elas, a não ser pegar na bazuca imaginária e disparar uns quantos balázios,
- trash-media;
- eleições à portuguesa (adoro a democracia e detesto não ter em quem votar por achar cretina 100% da nossa classe política);
- música pimba;
- o salário mínimo;
- pessoas como eu a perder quatro horas diárias em transportes para alimentar os filhos, e ainda terem que ouvir chefes déspotas que guiam BMs descapotáveis a dizer parvoíces e a achar que são o máximo;
- malta toda contente nos santos populares, sem se poder mexer e a trincar uma sardinha ao preço do quilo delas;
- discussões intermináveis sobre futebol;
- pedidos de amizade no hi5 feitos por gente que nunca vi mais gorda;
- manter as aparências, sejam elas quais forem;
- gente que se gaba de conduzir lindamente porque infringe todos os limites de velocidade e acha que isso é heróico;
- comentários racistas, xenófobos, machistas e que tais;
- gente que cheira a cerveja ou a vinho (quando não sou eu, claro, que jamais cheiraria a cerveja, já a vinho... tem noites);
- preencher o IRS;
- ser funcionária do estado e ainda pagar IRS por cima, depois de preencher a declaração e saber o que se descontou;
- não ver nada feito de jeito neste país, depois dos dois pontos anteriores;
- ouvir gente a atender telemóveis no meio de uma sessão de cinema;
- discussões aos gritos em público, vulgo, peixeiradas;
Pronto, acho decadente.
Mas como dizia à Carolina, decadence is my middle-name, nowadays. Embora isso não seja, de todo, verdade, e mentir seja, de facto, o cúmulo da decadência.


