Against all odds, e todos os que dizem que tenho muito mau feitio, e a minha própria opinião acerca de mim mesma, o acaso tem ditado a partilha de casa com colegas de há dez anos para cá, e a verdade é que nunca tive stresses com nenhum. Também é verdade que nunca partilhei casa com ninguém por mais de ano e meio.
Excepto contigo.
Foram quatro anos de convivência, e nos últimos três, ela foi praticamente diária. E dado que toda a gente diz que sou insuportável, devo-te com certeza a ti, o facto de jamais nos termos chateado, nem ao de leve.
Por isso, eu que escrevo tão bem, nem sei que te hei-de dizer.
Digo-te que fiz um esforço sobrehumano para tentar não pensar no dia de hoje, em que te ia abraçar sem a certeza de que voltes em Setembro a habitar estas paredes que te respiram e não fazem muito sentido sem ti aqui. Digo-te que me recusei a aprender as tuas receitas deliciosas, entre jantares, sobremesas e caipirinhas, com medo que desse azar, e saber fazê-las significasse que não ias ser tu a continuar a cozinhar. Digo-te que me faz uma confusão enorme esta sala só ter coisas minhas. Digo-te que, a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa, foi fechar a porta do teu quarto e recusar-me a acreditar que não és tu quem a vai abrir. Digo-te que tentei com muita força não chorar e não consegui. Digo-te que não sei como vou sobreviver à nova escola, se vier para cá morar alguém que não conheço de lado nenhum, e eu não puder dizer os meus palavrões mais cabeludos. Digo-te que ainda agora vais em viagem e já sinto a falta do teu riso, ris tanto e tantas vezes que acabas por viciar as pessoas. Digo-te que sei que jamais te vou perder, e te vou ver muitas vezes, e ainda assim estou de rastos, cheia de medo pelo teu próprio futuro, sobre o que vão ditar estes cabrões destes concursos. Tenho medo que vás parar a uma escola em que não te conheçam nem reconheçam a pessoa rara, única, que tu és. Tenho medo que abusem da tua boa-vontade infinita, sem que eu esteja lá para te defender, já que jamais abres a boca para agredir seja quem for. Mas também tenho medo por mim. Tenho medo de não conseguir conviver com outra pessoa nesta casa, que é tua. Tenho medo da minha vida sem os nossos hábitos, sem ti ao meu lado no carro para ir comprar tabaco às bombas, ou uma garrafa de Monte Velho ao Modelo, seja que horas forem. Tenho medo da minha vida sem ti a preencher-me o IRS cheia de pachorra, com aquela merda a crashar de cinco em cinco minutos. Tenho medo da minha vida sem ti a aguentar até à meia-noite, para ver o que a Maya diz do dia seguinte, só para a poder desancar, “que estúpida, já viste isto? Deve estar com os copos”. Tenho medo da minha vida sem o habitual “Vamos comer à praça?”, “E se encomendássemos uma pizza?”, “’Bora convidar o pessoal para jantar cá em casa?”. Tenho medo da minha vida sem o “acho que vou fazer uma sestinha”, sem ti de volta dos puzzles ou das mini-fichas, a resmungar contra os irresponsáveis dos nossos alunos de nono ano. Tenho medo da minha vida sem as perguntas do costume, a sair de casa, “Tens a chave? Vamos no meu carro ou no teu?”
Bolas, pá, tenho medo da minha vida sem ti.
Mas desejo-te o melhor, o que mais te fizer feliz. Se isso for um sítio mais perto de casa e da família impecável que tens e amas, seja. Se isso significar ver-te apenas de quinze em quinze dias ou nem isso, seja. Se isso significar contas astronómicas de telefone, paciência. Longe ou perto, estarás para sempre no meu ventrículo esquerdo. E és espaçosa, que pouca gente se pode gabar de dizer que a Jade, tão crítica, tão má, tão insatisfeita, não lhe consegue encontrar um defeito que seja. Tu, minha amiga, és um ser de tal maneira único, que os teus defeitos são, apenas, as tuas melhores qualidades. Porque fazem de ti um ser de quem é muito fácil abusar.
Cuida-te. Estou sempre aqui de prevenção. Para tudo o que precisares. Tudo.
Excepto contigo.
Foram quatro anos de convivência, e nos últimos três, ela foi praticamente diária. E dado que toda a gente diz que sou insuportável, devo-te com certeza a ti, o facto de jamais nos termos chateado, nem ao de leve.
Por isso, eu que escrevo tão bem, nem sei que te hei-de dizer.
Digo-te que fiz um esforço sobrehumano para tentar não pensar no dia de hoje, em que te ia abraçar sem a certeza de que voltes em Setembro a habitar estas paredes que te respiram e não fazem muito sentido sem ti aqui. Digo-te que me recusei a aprender as tuas receitas deliciosas, entre jantares, sobremesas e caipirinhas, com medo que desse azar, e saber fazê-las significasse que não ias ser tu a continuar a cozinhar. Digo-te que me faz uma confusão enorme esta sala só ter coisas minhas. Digo-te que, a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa, foi fechar a porta do teu quarto e recusar-me a acreditar que não és tu quem a vai abrir. Digo-te que tentei com muita força não chorar e não consegui. Digo-te que não sei como vou sobreviver à nova escola, se vier para cá morar alguém que não conheço de lado nenhum, e eu não puder dizer os meus palavrões mais cabeludos. Digo-te que ainda agora vais em viagem e já sinto a falta do teu riso, ris tanto e tantas vezes que acabas por viciar as pessoas. Digo-te que sei que jamais te vou perder, e te vou ver muitas vezes, e ainda assim estou de rastos, cheia de medo pelo teu próprio futuro, sobre o que vão ditar estes cabrões destes concursos. Tenho medo que vás parar a uma escola em que não te conheçam nem reconheçam a pessoa rara, única, que tu és. Tenho medo que abusem da tua boa-vontade infinita, sem que eu esteja lá para te defender, já que jamais abres a boca para agredir seja quem for. Mas também tenho medo por mim. Tenho medo de não conseguir conviver com outra pessoa nesta casa, que é tua. Tenho medo da minha vida sem os nossos hábitos, sem ti ao meu lado no carro para ir comprar tabaco às bombas, ou uma garrafa de Monte Velho ao Modelo, seja que horas forem. Tenho medo da minha vida sem ti a preencher-me o IRS cheia de pachorra, com aquela merda a crashar de cinco em cinco minutos. Tenho medo da minha vida sem ti a aguentar até à meia-noite, para ver o que a Maya diz do dia seguinte, só para a poder desancar, “que estúpida, já viste isto? Deve estar com os copos”. Tenho medo da minha vida sem o habitual “Vamos comer à praça?”, “E se encomendássemos uma pizza?”, “’Bora convidar o pessoal para jantar cá em casa?”. Tenho medo da minha vida sem o “acho que vou fazer uma sestinha”, sem ti de volta dos puzzles ou das mini-fichas, a resmungar contra os irresponsáveis dos nossos alunos de nono ano. Tenho medo da minha vida sem as perguntas do costume, a sair de casa, “Tens a chave? Vamos no meu carro ou no teu?”
Bolas, pá, tenho medo da minha vida sem ti.
Mas desejo-te o melhor, o que mais te fizer feliz. Se isso for um sítio mais perto de casa e da família impecável que tens e amas, seja. Se isso significar ver-te apenas de quinze em quinze dias ou nem isso, seja. Se isso significar contas astronómicas de telefone, paciência. Longe ou perto, estarás para sempre no meu ventrículo esquerdo. E és espaçosa, que pouca gente se pode gabar de dizer que a Jade, tão crítica, tão má, tão insatisfeita, não lhe consegue encontrar um defeito que seja. Tu, minha amiga, és um ser de tal maneira único, que os teus defeitos são, apenas, as tuas melhores qualidades. Porque fazem de ti um ser de quem é muito fácil abusar.
Cuida-te. Estou sempre aqui de prevenção. Para tudo o que precisares. Tudo.
És a verdadeira chefe. E se há coisa que me ensinaste nesta vida é que há MESMO gente SEMPRE ALERTA. Assim estarei também, ainda que só para ti.
12 comentários:
(sinto-me a entrar em espaço alheio. Mas não evitei comentar)
Eu nunca escrevi esta carta. Fui sempre eu a vir embora. Mas independentemente de quem fica ou parte, tenho a certeza que muita coisa te ficou por dizer. Porque há muita coisa que não se diz, tampouco se escreve. E tu, que te atreveste a escrever aquilo que é possível escrever, conseguiste. É um texto lindíssimo, porque é esse mesmo adjectivo que passa sobre a pessoa de quem escreves, sobre a amizade que criaram e educaram.
"More bad news on the radio
Planet Earth she's about to explode, yeah
The stars have lost their shine today
They have all been blown away
Together, only hope can be away
Let me hear you say
One day, we'll be together
We'll never be apart
One heart, one mind yeah
One day we'll be together
Remeber this old world is yours and mine yeah, oh"
http://www.youtube.com/watch?v=gXWvVLQMiZM
É isso, Shadow. Há pessoas neste mundo mais bonitas do que nos arriscamos, sequer, a idealizar que elas sejam. E há muito tempo que não me sentia tão sozinha. Parte de mim foi embora hoje, e só espero que, se for também o melhor para ela, volte depressa, que faz cá muita falta.
Um dos textos mais bonitos que li nos últimos largos tempos... penetrante ao ponto de, com facilidade, conseguir visualizar o que descreves e de compreender o complexo de sentimentos que te atingem.
Sempre odiei despedidas, sempre fui um às em tentar evitá-las... porque sinto uma total impotência dominar-me, sem que consiga controlar o que sinto. Tento pensar que é um 'até já' e custa-me por demais pensar que para algumas pessoas que tanto me marcaram pode ser um 'até sempre'... porque a vida é assim, porque os rumos seguem e muito muda.
Nesta vida de casa às costas, já apanhei muito de bom e de mau, mas penso em salas de aulas que frequentei diariamente, funcionárias que cumprimentei, colegas com quem partilhei bons e menos bons momentos... e o que realmente fica, o que realmente importa de todos esses poisos por onde já passei, são os amigos, os poucos mas valiosos, que mesmo longe (ou muito longe) têm sempre a orelha pronta para partilhar longos telefonemas a matar saudades e a trocar novidades ou um almoço de fugida de ano a ano.
Um grande beijinho para ti e para ela, que vai agora de casa às costas, à espera do próximo 'totoloto concursal'.
Pois é, Cris... e tendo tu sido uma das felizardas que com ela cruzou o caminho, entendes certamente muito bem, a falta que me faz. Beijinhos, e boa sorte tembém para ti, no totoloto concursal, como tu lhe chamas.
1º Já não custou o dia, bem a semana
2º o postal
3º a viagem
4º estou a comentar, e não consegui ler o post
Até já
Beijinhos
Aquário
18 de Julho de 2009
SAÚDE: O seu estômago está frágil; faça uma alimentação suave. (foi verdade, excepto a comida leve)
AMOR: Dia de tensões mas acabará por ter maior noção do peso dos sentimentos. (verdade)
talvez a Maya hoje não estivesse com os copos.
Já agora apanhei coragem para ler o post, claro que nem sei o que dizer, só me apetece dizer, apaga lá o texto ou altera algumas coisas , poís ... eu não consigo escrever um texto para descrever a tua belíssima pessoa que tu és.
beijinhos e obrigadão
JSJ
Existem momentos em que o mais certo é dizer-mos o que sentimos, para que os sentimentos sejam percebidos e durem uma vida.
Não tenho a minima duvida que fizeste isso hoje.
Quando gostas... gostas.
Beijos NIPT
Parabéns pelo post.
InsideMe, grande verdade. Grande verdade MESMO. Embora a maior parte das pessoas me vejam como alguém a dar para o insensível, o frio e o nariz-no-ar-superior-com-a-mania, e sendo isso tudo muito certo, também é certo que posso gostar de muito pouca gente. Mas quando gosto, gosto mesmo. Gosto ao ponto de o publicar no jornal, de o defender com unhas e dentes. Gosto ao ponto de gostar para sempre.
Cantinho, obrigada.
Beijinhos aos dois
E agora nós, Mzinha: não apago nada, não corrijo uma vírgula. Quem diz a verdade não merece castigo. (Esta é a frase do House sobre eu ser o 54, e aplica-se aqui como uma luva)
Aliás, como diz a Shadow, muito ficou por dizer. Mesmo muito.
Saudades.
Grata por tudo.
Sempre às ordens pelo que quer que tenhas agradecido, que não tens nada que me agradecer.
Também sou professora, e ao fim de tanto tempo (6 anos) no mesmo sitio, por força do destino, mudei de escola, por opção, para outro distrito. Para trás ficaram anos bons e amigas que entraram no meu coração...apesar de ser uma escolha, sei que vou perder muita coisa boa e nada mais será o mesmo.Inicia-se um novo ciclo...por isso me emocionei ao ler a tua carta...
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