Não sei se é só na Cidade de Deus mas está um frio que não se aguenta. Eu já sou friorenta por natureza, o meu termostato avariou sem remédio juntamente com outros orgãos há anos atrás. Estou acostumada a andar tapada até às orelhas enquanto o resto do Mundo anda descapotável, se não ai, jesus, que se me pára a circulação, fico de dedos brancos e roxos, dores execráveis nas mãos e nos pés, na ponta do nariz e, às vezes, até na língua viperina, o que dá um certo jeito, que assim digo menos asneiras.
Bato os dentes de uma forma tão peculiar que houve até determinado senhor que me passou a chamar "cegonhazita", sem a metáfora maternal da dita, graças a Deus, numa associação livre que ainda hoje me faz rir, quando as oiço, às cegonhas, a tentar imitar D.Jade a bater o dente.
Não há modo de aquecer. Nem com cachecóis, nem com mantinhas, nem com chás, nem com mézinhas. O calor humano também não abunda, mas eis senão quando, de repente e sem aviso, dois raios de sol quentinho...
O primeiro, na voz sonante de um colega meu, a dizer uma frase que em mim acende logo a lareira do bem-estar: "temos que combinar uma patuscada, uma festa, para breve, quais são as tuas disponibilidades?", e eu, totais, ora essa, festa é o meu nome do meio! O segundo, com notícias de alguém que mora no meu antigamente, que reside no meu lugar assim dentro, de alguém que há muito faz parte de uma lista singular de gente presente embora perdida em espaços paralelos àqueles onde me movimento. Alguém que me acompanha em silêncio e que, quando bota enfim discurso, me surpreende pelo modo como parou num tempo partilhado a dois, cristalizou na altura em que gostou de mim, e assim se deixou ficar, cheio desse bom sentimento, enquanto o tempo seguiu em frente e a vida de ambos também.
É bom saber que não sou a única a gostar das pessoas com a mesma intensidade, estejam elas a meu lado ou seguindo trilhos diversos. É bom saber que alguns amores cristalizam, que algumas verdades não mudam, que há alguém coerente na sua forma de gostar. Que para alguém não passamos de bestiais a bestas quando o sol se põe, só porque sim. Ou quando o sol não brilha, e faz um frio de rachar, como hoje.
Há duas ou três pessoas, talvez uma dúzia, que vão estar sempre comigo de pedra e cal, por muitas mágoas que haja a empatar caminho. Há pessoas que vou amar sempre, por mais que pintem a manta. O que é, para mim, surpreendente, é que elas me dêem exactamente o mesmo grau de tolerância em troca. A isso não estou habituada. O quase incondicional, que tanto calor nos dá em dias frios, é o supremo milagre.