Já consegui ir à farmácia buscar os comprimidos. Não foi fácil: ainda andei um bom bocado à procura do carro, antes de me lembrar que hoje vim de boleia. Entretanto, lá enfiei uma pastilha. À espera do efeito, estou aqui na sala de professores, muito sossegadinha, a rezar para passar despercebida e não me incluirem nas conversas parvas que por aqui vão acontecendo. Só por causa das tosses, já enfiei os fones nos ouvidos, com a Pink a lamentar-se "I don't believe you", que sempre está mais de acordo com o meu tom de pele.
Há dias em que custa um bocadinho mais do que o costume, acordar na mesma vidinha de sempre, enfiados na mesma cara, no mesmo corpo e nos mesmos raciocínios. Hoje estou desconfortável: meti a pata na poça e, embora esteja habituada a fazê-lo, ou exatamente por isso, fiquei especialmente "fragilizada", como diz uma amiga minha. Começam a enervar-me determinadas caraterísticas da minha personalidade que, por mais que tente, não consigo corrigir. Quando dou conta, já está: ou falei demais, ou perdi as estribeiras e gritei com a pessoa errada, ou cometi uma gaffe, ou fui desagradável sem intenção, ou abri a boca para falar Português claramente e as pessoas ouviram o meu discurso em Chinês.
Hoje a conversa ao almoço andou à volta de casamentos e relações, com o Russo a repetir a-praga-da-cigana de que este ano é a minha vez de aparecer na escola grávida, and so on, and so on. E, depois, pergunta-me: por que é que és tão contra isso? não queres ter filhos? Epá, não. A maternidade não é uma das minhas vocações, nem uma das minhas prioridades. Muitas amigas minhas tinham esse objetivo de vida, e se não tivessem arranjado um companheiro partiriam para uma produção independente. Not I. Para mim, muito mais importante que o filho que vou ter é o pai que lhe vou escolher. Sem um pai à altura, não há filho meu que nasça.
Fez-se silêncio à mesa do restaurante. Já me estava a sentir idiota o suficiente antes disso, depois então... completamente alien. Acho que devo ter sido criada por lobos, (raised by wolves, like Meredith) mas hoje sinto-me deficiente em feminilidade. Para além de falar como um carroceiro e de ter a sensibilidade de um calhau, não tenho instinto maternal. Queimem-me na fogueira, thank you very much.
Para evitar mais merdas, fones nos ouvidos, não me vá alguém perguntar se tenho namorado e por que não.