quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Apaziguamento

Hoje foi dia de Doc.
Depois do dia de ontem, em que, como aqui escrevi, andei fora de mim, tinha imensas coisas para lhe dizer hoje. Embora a minha má-disposição fosse fruto da anatomia feminina, a minha cólera latente tem, como é óbvio, motivos mais intrínsecos, por isso, quando ele me perguntou pelo trabalho, disse "tudo tranquilo" e avancei para assuntos mais prementes.
Ele deixou-me avançar na conversa e depois perguntou-me como era possível que no trabalho estivesse tudo em ordem, e eu disse-lhe que estou a tentar, e a conseguir, manter-me zen desde as férias do Natal, que foram uma benção para o meu cansaço acumulado. E que, citando uma amiga minha lá da escola "não me ia matar" por causa das ansiedades, paranóias e stresses de terceiros, nem ia envenenar-me mais com coisas que tinha para fazer para ontem e só apareceriam feitas para a semana, sem que mal nenhum ao mundo daí viesse. Ia retomar a abordagem dos meus outros stresses quando ele me disse que essa paz que eu de momento sentia, em relação à escola, era fruto de um conhecimento adquirido de que as coisas se fazem, e de que eu sou capaz de as controlar. A partir daí, não há quem venha de fora desinquietar-me o espírito ou contagiar-me com falsas urgências, mesmo que inconscientes. E que é essa confiança, de que sou capaz de lidar com as coisas que surgem a seu tempo, que me faz falta para resolver todos os outros problemas, mesmo que emocionais ou existenciais.
Foi uma conversa muito produtiva. Ontem dizia, ao jantar, aos meus amigos, que está instalado o drama nas escolas, e que o que as pessoas têm de fazer é desdramatizar e não entrar na paranóia coletiva, em que pais se envolvem em questiúnculas entre os filhos e se brigam por parvoíces adolescentes, metendo polícia e tribunais à mistura, e professores perdem o sono por causa de avaliações burocráticas e subjetivas, perdendo o objetivo fundamental do seu trabalho de ensinar, e colocando a produção de papeis à frente das suas aulas e dos seus alunos. Ponham-se, com calma, os pontos nos iis, trabalhe-se o que tem que ser sem medos, e reconheça-se que quem dá o que pode a mais não é obrigado.
Assim tenho que aprender a ser na intimidade. Não chego para todos. Gostaria de dar mais atenção a muita gente, mas não posso. Gostaria de ajudar mais a minha mãe, mas não tenho como. Gostaria de ajudar mais a Mzinha cá em casa, mas sei que ela não me deixará abusar e passar das marcas, por isso, por enquanto, vai sendo suficiente. Todos os dias arranjo novas culpas sem solução prática: ora o que não tem remédio, remediado está. Logo, a culpa é contraproducente. Há que agir o mais que se pode e seguir em frente aliviada de pesos. Se lá conseguir chegar, muito do caminho para o bem-estar estará percorrido. Muito disso passa por não deixar que terceiros me desconfortem com cobranças que não consigo pagar, ou manipulem sem que eu consiga resistir. Os terceiros continuarão sempre a tentar fazê-lo. Está em mim, e na minha confiança, não deixar que isso aconteça.

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