O meu cão é a coisa mais próxima que tive a um filho, até hoje. A Guida, sendo um gato, é muito independente desde pequena, já nasceu ensinada e sábia, elegante e equilibrada, já nasceu adulta. A mim, então, nunca deu trabalhinho nenhum, já que a minha mãe assumiu, desde o princípio, a responsabilidade de lhe dar as refeições e limpar o caixote.
O Chico é completamente diferente. É um emprego a tempo inteiro e só sossega tudo cá em casa quando ele adormece, exausto, não sem antes combater o sono com birras de cachorro interminaveis que vão desde dentadas, patadas e latidos até um cabecear acompanhado de rosnadelas. Exige vigilância constante, para não acabar com a nossa mobília, os nossos sapatos favoritos e, sobretudo, a nossa paciência de santas. Ainda não fez uma única cagadela na rua, porque se envergonha, mas não se envergonha de roer os jornais onde é suposto aliviar-se cá em casa, e deixar os presentes sempre, mas sempre, no chão da casa de banho. Depois vem-nos chamar, com um grande sorriso, para irmos limpar a cagadela e o jornal triturado em milhões de pedacinhos.
Ir à rua com o Chico é certeza de falar com muita gente desconhecida. Gente com e sem cães. Gente muito simpática que deambula por esta cidade que eu antes julgava ser tão impessoal. Gente que mete conversa, que pede para lhe pegar ao colo, que diz piadas, que se despede, muitas vezes, com a palavra "Felicidades!". Também temos conversado com muitos donos de cães, e alguns experts em treino e raças: no outro dia, um senhor alemão, quando viu que ele tinha pedigree, disse-me, com aquele sotaque caraterístico "tinhas que arranjar um cão alemão, nein?" e eu, pois, é pena é não trazer o gene da disciplina germânica, ja?
O Chico é muito, mas mesmo muito, parvo. Eu ando a convencer a minha mãe de que o gajo é débil mental, mas a avó está em negação e diz que ele é, apenas, "muito cachorrinho, ainda". Só que eu acho que Deus nunca concentra grande beleza e grande inteligência num único ser, e tenho que reconhecer que o meu cão é lindo de morrer. É um íman de pessoas de todas as idades. Desde crianças, a velhinhos, passando por tias, motards, universitários barulhentos, polícias super sérios e donos de lojas, tudo pára e sorri para se meter com ele, que salta, se deita de costas, e distribui trincas e lambidelas onde quer que acerte. É muito sociável, gosta muito de pessoas, tolera bem outros cães, embora lhes acabe com a pachorra em três segundos, e continua muito ofendido, sem perceber porque é que a Guida o odeia. É o problema das pessoas bonitas e cheias de autoconfiança: sente-se ultrajado, por não agradar a gregos e troianos, e ainda não tem maturidade suficiente para perceber que algumas gajas, sobretudo as mais independentes e interessantes, como a Guida, gostam deles... cultos e inteligentes.
1 comentário:
my dearest nephew,
aunty here, loves you just the way you are! And so does your mom, please ignore here, 'cause she knows not what she speaks!
LOOOOOOOOOOOL
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